22 de janeiro de 2017

Capítulo 26: As Noites de Pandora

22 janeiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
As sete serpentes que se enroscavam entre os cabelos e pelo corpo de Medusa punham-se em posição de ataque e sibilavam ariscamente na presença do dragão, que respirava com dificuldade no fundo da caverna dos símios.

Com sua calda, Kundalini chicoteou a mulher, que caiu por terra. Os símios se agitaram e pularam sobre a fera.

Na queda, os cordões de prata desprenderam-se, fazendo com que Samael e a legião de espíritos que se apossava do corpo de Medusa fossem atirados para longe; as serpentes espalharam-se pela caverna, e a escuridão da cegueira cobriu novamente os olhos da mulher.

Erguendo-se, ela estendeu os braços e suas serpentes voltaram uma a uma a enroscarem-se pelo seu corpo. 

O barulho dos golpes era assustador. Guinchados e rugidos, corpos sendo lançados contra a rocha e rolando pelo chão, ou sendo esmagados e dilacerados na escuridão de sua percepção, de modo que não dava para saber quem triunfava sobre quem.

“Parem!” Gritou a mulher.

Mas sua voz não foi ouvida.

Um dos símios agarrou sua mão e tentou arrastá-la para longe, mas ela recusou-se a ir com ele.

O efeito das ervas de cheiro havia passado e Samael não conseguia ser ouvido pela mulher, nem podia voltar a comandar seu corpo, nem tampouco fazê-la voltar a enxergar.

Finalmente a caverna fez silêncio. Ela ouviu passos correndo em sua direção e passando apressadamente por si. Sentiu o pelo grosso e ensanguentado dos símios raspando em seus braços enquanto corriam para longe.

Ouviu um movimento sinuoso aproximando-se, como se um grande corpo se arrastasse no chão frio.

Seu rosto aqueceu com o bafo pútrido do dragão que parecia preparar-se para um último golpe mortal enquanto rugia diante dela. 

As serpentes que lhe rodeavam puxavam-na para trás, como que se armando em solavanco para porem-se em posição de ataque.

“Kundalini, por que me abandonaste?”

Um rugido ainda mais forte foi ouvido. As serpentes sibilaram de volta.

A mulher ergueu a mão para tocar o rosto do dragão. Ele sacudiu a cabeça como que rejeitando o seu toque. Ela insistiu. 

Aproximando-se, acariciou-lhe o peito e o dorso. Sentiu as protuberâncias do que restara de suas asas e puxou a mão num ímpeto de surpresa e horror.

“Quem fez isto contigo?”

Kundalini continuava em silêncio.

Medusa não sabia que aquelas mutilações haviam sido infligidas por Lúcifer e seus anjos quando o dragão tentou impedir que Adão se ajuramentasse com eles. Nem Kundalini poderia acusar seus algozes. De fato, tão machucada estava sua alma, que só lhe restava fugir ou atacar quem cruzasse seu caminho de fuga. 

A mulher entendeu que, assim como acontecera com os outros animais, o dragão havia perdido a voz e a sensatez. Ou talvez as bestas nunca tivessem de fato falado e tudo o que ela ouvira antes fora fruto de sua imaginação. 

O fato é que agora o dragão deixava-se guiar pelo único instinto selvagem que aquele mundo escuro e triste parecia impor sobre todas as criaturas: o medo. 

“Que Ser sádico é esse que cria um mundo onde tudo nos causa dor e sofrimento? Que Ser sádico é esse que se diz nosso Pai e nos abandona neste inferno onde vivemos com medos e incertezas que se apossam de nossas almas sufocando-nos em tamanha violência e horror?

Que Ser covarde é esse que se esconde na luz para não ser visto e que cega aqueles que se atrevem a falar-Lhe face a face? Se Ele é luz e tudo o que Lhe faz oposição é trevas, já não sou mais dia, pois o vazio que me sufocava escapou para fora de mim e agora tudo é escuridão. E onde há escuridão, tudo se prova na ponta dos dedos.”

E com a suavidade de suas mãos, acalmou o coração da besta selvagem, que a conduziu sobre o seu dorso para fora da caverna. Os símios alvoroçaram-se novamente.

“Não vos perturbeis.”

O dragão arrastou-se por entre eles.

Voltaram ao lugar onde a mulher deixara as embarcações com as estátuas que ela havia esculpido sob a influência das Górgonas e da legião de espíritos que de seu corpo haviam-se apossado.

E pela terra e através das águas dos grandes rios, levaram aquelas imagens de escultura para todos os recantos da Terra.

Fazendo uso das ferramentas ofertadas sob juramento pelos construtores, Medusa construiu templos para aquelas imagens esculpidas à semelhança do que há em cima nos céus e embaixo na Terra, e plantaram ervas aromáticas para purificarem seus altares.

A mulher aspergiu o sangue de sua fertilidade diante daqueles deuses de pedra como oferta suave, enquanto, sobre o altar, Kundalini deitava-se com as sete serpentes que Medusa carregava consigo a fim de que concebessem e deitassem ovos. 

Chegando o tempo da desova, Medusa desceu com elas a uma fenda profunda nos confins da Terra, conforme havia sido instruída pelas entidades etéreas, e ali depositou as primícias de suas crias. 

As chuvas cessaram e Medusa arrastou a rocha que cobria a fenda estreita que dava para o covil e, do alto, lançou leitões selvagens que foram prontamente atacados e devorados pelas serpentes.

No outono, ela desceu ao covil levando javalinas como oferta às suas serpentes para, do covil, trazer os restos dos que haviam sido lançados do alto. 

Com um pilão, feito em pedra, macetou aqueles ossos até que se tornassem um pó miúdo. Sobre ele, aspergiu o sangue dos seus ciclos e lançou aquela mistura sobre as sementes que plantara para que houvesse fartura em suas colheitas.

E tudo isso fez na escuridão de sua cegueira.

Mas, passados alguns invernos, naquela rotina exaustiva que se obrigara a levar, ela percebeu que fugira de um senhor para tornar-se serva de outro. E, descendo ao covil, despiu das serpentes que sempre carregava consigo, e disse, “Se de dor e escuridão são feitos os meus dias, com dor e escuridão dispo-me desta pele antiga para vestir-me de breu e de sangue. E a noite que há em mim engolirá a infância de meus devaneios e não mais deixarei me levar pelo vento de qualquer doutrina, pois a cegueira me fez ver com uma clareza que nunca antes tive.”

Usando espinhos finos de cacto atados a um graveto, furou cada poro de sua pele lavando o sangue carmesim com uma resina de pinho negra, índigo e carvão.

Deitou-se repetidas vezes sobre uma cama de espinhos resinados para gravar de negro a sua pele onde suas mãos não alcançavam.

De cócoras, tremendo de dor, esperava que os símios catassem todos os espinhos antes de repetir o ritual, até que a dor lhe fizesse perceber cada recanto do seu corpo.

Com fogo, queimou os cabelos brancos de sua cabeça até que não lhe restasse mais fio algum. E besuntou com resina o escalpo chamuscado.

Coberta de resina, carvão e sangue, chorou por seis longas noites, pois para ela os dias já não existiam.

No início da sétima longa noite, a anciã desceu às águas do Pison e banhou-se, emergindo com uma pele nova e bela, negra como a turmalina.

Em meio à escuridão, disse para si mesma, “Lilith viveu quinhentos e poucos anos à sombra de um homem e um dragão, sonhando com a liberdade e enchendo-se de desejos que jamais seriam saciados; e na infusão das ervas aromáticas, fez-se Medusa para viver outros quinhentos e tantos anos à sombra de delírios e serpentes, quebrando pedras e erguendo altares e enchendo-se de dores e dissabores; hoje, das águas do Pison, surjo Pandora, para ser a sombra que, sem luz, cobre os homens e as bestas em seu sono. E quantas outras longas noites haverei de viver como Pandora, pouco me importa, pois o que é a vida senão um devaneio de primatas prepotentes?”

Naquela noite, Pandora não fez o unguento de ervas de cheiro nem os incensos que as Górgonas lhe haviam instruído a fazer. Nem na noite seguinte. 

Na terceira noite, Samael veio ter com ela.

“Por que foges de nós?”

“Não fujo de ninguém. Como se pode fugir do que não há? Não passas de um devaneio de minha mente e estou farta de devaneios.”

“Se eu não existisse, como poderia estar falando contigo?”

“Estou falando comigo mesma, como sempre estive desde que vim para este mundo escuro e triste. E por muito tempo rejeitei minha solidão, embriagando-me em fantasias e me deixando enredar pelos devaneios desta embriaguez; mas a cegueira me fez sóbria e eu finalmente pude me enxergar com clareza.”

“Estás louca. E tudo isto que fizemos juntos? Erguemos templos e embarcações, cruzamos as águas e arrastamos estátuas colossais por vales e montanhas e fizemos férteis estas terras secas. Ajudamos os símios a erguerem-se sobre a terra como homens e demos-lhes armas, e fizemos deles caçadores e senhores de outras bestas do campo. E nada disso teríamos feito se não fosse pelo poder do conhecimento que sob juramento compartilhamos contigo.”

“Se estou de fato louca ou se finalmente recobrei a sanidade, nunca saberei. O que sei é que ergui templos e embarcações com a força de meu braço e a engenhosidade de minha mente. Em minha insegurança atribuí tal engenhosidade a entidades etéreas que em minha própria mente criei. E fantasiei juramentos para me acorrentar a esta ilusão que alimentei em minha mente a fim de justificar minha existência e consciência.

Devido a essa engenhosidade, ergui embarcações e cruzei as águas dos Rios e arrastei estátuas colossais por vales e montanhas com a ajuda de grandes bestas do campo e do ar que, por minhas habilidades, capturei e domei a fim de que me servissem em tais empreendimentos. 

Destas terras secas, fiz um oásis com hortos e pomares a fim de saciar minha fome e não depender da caça ou de que árvores frutíferas brotassem naturalmente na floresta e descessem seus galhos à altura de minhas mãos para que eu, de seus frutos, me alimentasse. 

Vi que os símios se assemelhavam a mim e os domestiquei e fiz com que se erguerem sobre a terra como homens e dei-lhes armas para caçarem suas próprias presas a fim de que eu não me tornasse sua serva, tendo que lhes prover alimento; e se haverão de se tornar senhores de outras bestas do campo, só o tempo poderá dizer.

O fato é que não sei como vim parar aqui, não sei por que sou diferente dos outros animais, nem sei quanto tempo ainda terei nesta Terra. E durante muito tempo isso me incomodou ao ponto de entregar-me a esses delírios em busca de algum entendimento.”

“Eu sou teu senhor. Não podes quebrar tua aliança comigo.”

“Havia no Jardim onde vivi os dias de minha infância, se é que tal lugar não foi outro fruto de minha imaginação, um homem que dizia ser meu senhor e isso me incomodava profundamente. Fugi de lá para não ter senhores. Sou senhora de mim.”

“Não terias fugido se não tivéssemos tentado o dragão a te convencer de que deverias comer do fruto proibido para conheceres o bem e o mal.”

“Serpentes não falam, como poderia aquele animal convencer-me de qualquer coisa. Comi do fruto porque eu quis.

Estava tão angustiada e sozinha que precisava encontrar algo para fazer naquele lugar. Como qualquer criança inocente, fantasiei.

Disse para mim mesma que tinha um Pai; mas, o fato é que nunca O vi porque talvez Ele só existisse em meus delírios. 

De todas as árvores eu comia livremente, mas ao aproximar-me daquela de folhas vermelhas, a serpente que descansava em seus galhos sentiu-se ameaçada e sibilou, e em minha mente infantil eu coloquei palavras em sua boca. Palavras que, a princípio me proibiam expressamente de aproximar-me do fruto e posteriormente questionavam minha própria proibição.”

“E o sangue? Acaso possuías sangue antes de comer do fruto?”

“Nunca derramei sangue no Éden, pois nunca me cortei ou feri. Não haviam espinhos no Jardim. 

Quanto ao sangue da fertilidade, algum animal do campo já nasce fértil? Tive que esperar o primeiro sangue para que o fluxo começasse a descer em seus ciclos, como qualquer outro animal do campo.”

“Tu me amas. Não podes negar este sentimento.”

“Sim, eu te amo. Afinal, és minha criação mais perfeita. Em oposição ao Pai ausente e ao homem dominador, és o amante inatingível. Não posso te tocar, não posso deitar-me contigo, no entanto, estás sempre por perto para me fortalecer nos momentos de fraqueza.

Mas eu cresci e amadureci e não há mais espaço em meus dias para essas fantasias de criança.”

Samael não insistiu. Não havia nada a dizer. Ele retirou-se.

Pandora sentiu-se livre como nunca antes havia se sentido.

Ela ajuntou provisões e partiu a ermo, na esperança de encontrar o assentamento de Adão, em algum vale ou caverna a caminho do Éden.

Sua cegueira em nada lhe impedia. Tinha, na verdade, um senso ainda maior de direção e cuidado agora.

Ouviu a voz de um homem. Sabia que estava próxima do assentamento de Adão.

Um jovem pastoreava ovelhas ali perto e parecia estar sozinho.

Ela esperou o tempo esfriar e as ovelhas aquietarem-se para aproximar-se. Sabia que era noite e ouvia o ressonar do moço que dormia junto a um regato aonde levara as ovelhas para beber e pastorear.

Aproximando-se, passou levemente as mãos pelo corpo do homem. Ele tinha ombros largos e parecia ser mais alto que ela. As carnes do peito eram firmes e um caminho de pelos descia-lhe até o umbigo e de lá até uma espécie de avental que usava para cobrir a nudez.

Ela levantou-lhe o avental e subiu sobre o rapaz, que acordou assustado.

Ela escondeu-se rapidamente.

Ele levantou-se intrigado e olhou em derredor. Não encontrando nada, voltou a dormir.

Ela esperou um pouco e aproximou-se novamente.

Desta vez, ele parecia estar à sua espera e agarrou-lhe pelo braço.

“Quem és?”

“Sou Pandora.”

“És um demônio?”

“Se fosse um demônio, poderias deter-me, segurando-me pelo braço?”

“Por que és escura como a noite?”

“Não gostas?”

“Nunca vi tamanha beleza.”

“Gostaria de dizer o mesmo.”

“Não gostas de minha aparência?”

“Não é isso. Sou cega. Meus olhos não veem.”

“O que fazes por aqui? De onde vens?”

“Já te deitaste com uma mulher?”

“As únicas mulheres que conheço são minha mãe e minhas irmãs.”

“Queres deitar-te comigo?”

“Não me leves a mal. Temos leis muito severas em minha casa.”

“Esta é tua casa?”

“Moro num vale, a leste daqui.”

“Então não estás em casa. As leis deste lugar são diferentes das leis de tua casa. Aqui, as proibições que os teus senhores te impõem não tem valia alguma.”

“Como sabes?”

“Porque eu estava aqui antes de chegares. Conheço as leis deste lugar.”

O jovem estava confuso. E seu desejo tornou-se aparente. 

Pandora desceu sua mão até o avental do moço e desatou-lhe o nó. O avental caiu por terra e ela caiu sobre ele com mãos e língua e dentes e unhas.

Como uma aranha negra, ela o segurou pelo pescoço até que ele sufocasse em gozo.

Ela levantou-se, espalhou as ovelhas e seguiu seu caminho.

O jovem ficou estendido no chão frio.

19 de janeiro de 2017

Capítulo 25: Da Caverna Escura ao Monte da Redenção

19 janeiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Com o martelo e o cinzel, Adão abriu fendas nas rochas; com o cabo, transportou as pedras lascadas ao lugar de sua construção; com o esquadro e a régua, mediu ângulos e encaixou as pedras com precisão; com o compasso, equiparou distâncias entre as colunas e vigas que se erguiam em torno do altar; com o prumo, certificou-se que havia equilíbrio em sua construção para que aquela edificação pudesse suportar as intempéries do tempo.

O novo altar ganhava forma e ficava ainda mais belo e maior do que o que construíra antes no Éden. E desta vez nem precisou recorrer às pedras de luz que pendiam sobre o seu peito presas a um colar. A experiência lhe ensinara a fazer bom uso das ferramentas que os dissidentes haviam deixado no Jardim quando foram expulsos por Kundalini na ocasião em que Adão estava prestes a ajuramentar-se com eles em troca de instruções que fizessem dele um homem industrioso.

Agora, parado diante da obra de suas mãos já quase concluída, ao lado de sua esposa, admirava cada detalhe com orgulho.

“Das primícias de nossos rebanhos, escolheremos o cordeiro mais formoso e o ofereceremos em sacrifício ao Altíssimo, e Ele ouvirá nossas preces.”

“Adão, não me entendas mal. Conheço cada cordeiro de nossos rebanhos pelo nome, um nome que tu lhes deste quando andavas e conversavas com eles no Jardim. Quando estavas só, eles te fizeram companhia. Eles ouvem a nossa voz e correm ao nosso encontro porque confiam em nós. Não compreendo por que o Altíssimo se agradaria no derramamento do sangue dessas criaturas inocentes que alegram e dão sentido aos nossos dias.”

“Não sei se Ele se agrada ou apenas percebe ser necessário. Sei, no entanto, que o Filho do Altíssimo assim nos instruiu a fazer. E eu farei conforme a Sua vontade.”

“Está certo, Adão. Faze conforme as instruções que recebeste. Só não me peças para te acompanhar.

Eu ainda ouço os berros dos cordeiros que imolamos no Éden. Não poderia tomar parte em tais rituais novamente.”

“Sem o sacrifício daqueles cordeiros, estaríamos nus entre os cardos e espinhos deste mundo decaído.”

“Entendo que precisamos destas vestes que nos servem de proteção, mas confesso que me alegro muito mais com o chegar da noite, quando nos despimos delas e vestimo-nos dos braços um do outro. 

Eu ficarei na caverna enquanto sobes ao monte para fazeres teus sacrifícios; e de meu leito te acompanharei clamando ao Pai por instrução.”

“Que assim seja.”

Eva já estava para dar à luz quando o altar — ou matadouro, como ela costumava chamar — ficou finalmente pronto.

Adão não gostava quando ela se referia àquele lugar sagrado de forma tão leviana, mas não fazia daquilo um motivo para contendas, afinal, nada lhe era mais valioso que o sorriso de sua amada.

Eles, no entanto, não tinham tido tantos motivos para sorrir desde que saíram do Jardim. De fato, estavam se esforçando para encontrar alegria em sua nova rotina. Mas quando se é privado de certos confortos, nada mais comum que ceder à lamentação e queixas.

Eva ajudava Adão a arar a Terra e pastorear os animais. Com o fruto que crescia em seu ventre, o trabalho, que já era duro, ficava ainda mais difícil. Doíam-lhe as costas, seus pés inchavam; suas mãos, antes finas e macias, agora estavam grossas e cheias de calos; o odor acre e desagradável do suor era intensificado pelo cheiro forte do estrume que usavam como fertilizante, da lama podre onde os porcos se espojavam, do esterco das aves do campo, e da urina entranhada nos pelos dos rebanhos que ordenhava e pastoreava naquele vale árido e pedregoso a leste do Éden. Era um odor que nem as oblações nem os óleos de cheiro conseguiam disfarçar.

Adão, além de ajudar Eva em tudo isso, também quebrava e transportava as pedras para a construção do altar, cortava lenha para fazer o fogo, e, desde o nascimento de seus primeiros rebentos, passara a oficiar na imolação dos sacrifícios. De modo que o cheiro de morte acompanhava seus passos.

No começo, dormiam sob as árvores, junto às margens do Rio. Aprenderam a afastar os insetos e criaturas rastejantes com fogo, que também lhes aquecia nas noites frias. 

Mas chegando as chuvas, eles já não podiam mais dormir ao relento. 

Havia uma rocha fendida ao pé do monte cuja abertura dava para uma caverna que possuía marcas e gravuras em toda a extensão de suas paredes. 

Ali Adão depositara as porções de incenso, ouro e mirra que trouxera consigo do Éden, bem como ciprino, estaque, e canela: tesouros de uma glória obsoleta.

Naquela Caverna dos Tesouros, encontraram refúgio para seus pés cansados. Com palha, fizeram seu leito sobre a rocha fria e com os oráculos, iluminaram o interior da gruta escura.

O fruto no ventre de Eva estava maduro e pronto para ser colhido.

Quando os fluidos desceram, Eva caiu por terra e pôs-se a gritar e chorar. A dor era tanta que ela sentia como se estivesse sendo rasgada ao meio. 

Adão não sabia o que fazer. Tomou-a pela mão e sustentou-a de cócoras, apoiada nas paredes da caverna. Ele já fizera o parto de tantos animais, mas nenhum parecia sofrer tanto quanto sua mulher. E ele sofria junto.

Como ela estava de cócoras, com as pernas abertas e as costas apoiadas contra a rocha, Adão ajoelhou-se diante dela e com a mão esquerda estendida em forma de concha, segurou a cabeça do primeiro rebento, e com a direita ergueu-o pelas pernas enquanto o bebê chorava incomodado ao respirar pela primeira vez o ar do Novo Mundo. 

Ele o colocou sobre os seios de Eva, que o abraçou com ternura, mas logo vieram novas dores e ela, de igual modo, deu à luz uma filha, que se aconchegou junto ao irmão, tateando os seios da mãe em busca de comida.

Adão e Eva beijaram-se e beijaram seus filhos, chorando de alegria.

“Preciso subir ao monte e agradecer ao Altíssimo por esta grande dádiva.”

“Subirei contigo.”

“Deves descansar e alimentar os rebentos.”

Eva ficou na caverna. Adão saiu, ainda eufórico com a novidade. Foi até o descampado onde o rebanho pastava e escolheu, dos cordeiros que haviam nascido fora do Jardim, o mais belo e robusto.

Amarrou uma corda em seu pescoço, vendou-lhe os olhos, colocou um feixe de lenha sobre suas costas e levou-o até o topo do monte.

Chegando ao altar, arriou o feixe de lenha e tirou a corda do pescoço do cordeiro, que agitava a cabeça, querendo livrar-se da venda. Mas Adão não conseguiria olhar novamente no fundo daqueles olhos espelhados clamando silenciosamente por mais vida. 

“Não te preocupes, Abu, ficará tudo bem.” Adão sussurrou ao ouvido do cordeiro e beijou-lhe o focinho. Enquanto seus lábios tocavam o pelo macio do pequeno arno, desciam-lhe copiosas lágrimas pela face. 

Lembrou-se de tudo o que Eva havia dito sobre os sacrifícios, lembrou-se do dia que ajudara Aza em seu parto, lembrou-se de quando Abu fugira para o deserto e do quanto Adão ficara feliz ao encontrá-lo.

Abu parecia saber o que estava para acontecer. Deu um salto para trás. Adão o segurou e derrubou, amarrando-lhe as patas traseiras com a corda. Usando o jugo sobre o qual apoiara a lenha, prendeu as patas de Abu e ergueu-o de ponta cabeça fixando o jugo sobre os pilares do altar.

Com o cutelo, rasgou o pescoço do cordeiro, que deu um último berro. Tremendo e se debatendo, espirrou sangue sobre as vestes de Adão, que afastou-se para pegar a lenha e colocá-la sobre o altar.

Adão não conseguia controlar o choro. 

“Por que choras?” Disse uma voz que se aproximava.

“Quem és tu?” Perguntou Adão limpando as lágrimas.

“Sou um mensageiro. E tu, o que fazes?”

“Ofereço este cordeiro em sacrifício ao Altíssimo.”

“Por que ofereces sacrifícios ao teu Senhor?”

“Eu não te posso dizer o motivo pois ainda não me foi revelado. O que sei é que antes de deixar o Éden, o filho do Altíssimo me instruiu a fazer desta forma.”

“Sabes como o Altíssimo descerá contigo ao abismo de escuridão em que caíste para trazer-te de volta à luz de onde vieste?”

“Os caminhos do Altíssimo são um mistério para mim.”

“Recebeste antes uma lei e, mesmo conhecendo as consequências de teus atos, por amor à tua esposa, transgrediste os conselhos do Criador fazendo com que a morte assolasse a Terra e todos os seus habitantes. 

Mas agora, recebeste uma nova lei e, mesmo sem compreenderes os motivos desta oferta que de ti foi requerida, por amor ao teu Criador, tu obedeces mesmo à custa de grande pesar. 

E por assim fazeres, é-te dado saber da porção que te cabe sobre a condescendência divina.

Por amor transgrediste e por amor obedeceste, és, portanto, agora como os Deuses, e sobre ti repousa a Sua misericórdia.”

O mensageiro fez sinal para que Adão prosseguisse com o sacrifício, conforme havia sido instruído pelo filho do Altíssimo.

Adão retirou a pele do animal, aspergiu o sangue sobre o altar e colocou o cordeiro sobre a lenha. E fogo desceu do alto, como um relâmpago, fazendo com que os gravetos ardessem em brasa e o cordeiro fosse consumido pelas chamas.

“Assim como, por amor ao Criador, sacrificaste este cordeiro a quem também amavas; por amor a ti e à tua posteridade, o Altíssimo sacrificará Seu filho mais perfeito, a fim de pagar a dívida de uma barganha há muito praticada entre Ele e as Demandas da Justiça.

E para que teus filhos se lembrem desse Cordeiro que há de vir no Meridiano dos Tempos — um Cordeiro branco e sem manchas, porquanto não se deixará contaminar pelas transgressões dos homens e viverá em acordo com todas as leis que dos homens e de Seu Pai receber; um Cordeiro que, perdido como este estava, ouvirá a voz do que clama por Ele no deserto e, voltando-se para o alto, fará maravilhas entre os povos; um Cordeiro que, como este, será traído com um beijo no rosto por alguém em quem depositou Sua confiança; um Cordeiro que, como este, derramará Seu sangue diante das Demandas da Justiça e reclamará para Si o que é Seu de direito; um Cordeiro que, como este, terá Suas vestes arrancadas diante dos homens e Sua nudez será revelada perante todos, com a carne coberta em sangue; um Cordeiro que, como este, será erguido em um jugo suspenso por uma corda, exposto às moscas e à maldade daqueles a quem Ele amou e serviu — sim, para que teus filhos se lembrem que este Cordeiro que há de vir fará tudo isso a fim de pagar o preço caro da liberdade que lhes permite ser quem eles de fato são, e agir conforme os ditames de sua própria consciência, conhecendo o que é divino e o que é natural e sendo portanto livres segundo a carne para escolher entre o que lhes faz bem e evitar o que lhes faz mal; sim, para que teus filhos conheçam o seu Salvador e possam reconhecê-Lo quando Ele descer de Sua morada na estrela que há de brilhar no Oriente, cujas revoluções permitem que de tempos em tempos se aproxime desta Esfera em que habitas, fazendo a noite tornar-se dia, e que, cruzando os céus deste Mundo, arraste consigo os mares, inundando cidades, e levantando um vapor de escuridão que fará o Sol esconder sua face por três dias; sim, para que teus filhos se lembrem de que o Filho do Altíssimo habitará na carne e dará por eles a Sua vida, recebes esta lei de sacrifício, sendo o sacrifício deste cordeiro à semelhança do sacrifício do Filho Unigênito do Pai, que é cheio de graça e verdade.

Pois a morte é salário do pecado, e quando um Homem sem pecados reclama sobre si a morte, Ele quebra as cadeias desta dívida e oferece a Si mesmo como Mediador de todos os mortais para que vivam.

Portanto, em nome do Filho, tu poderás reparar teus erros e endireitar teus caminhos a fim de que naquele dia, sejas levantado do pó para comeres do Fruto da Árvore da Vida e, como o Pai, viveres para sempre do modo em que aqui te preparaste para viver: tu e Eva e toda a tua posteridade. Pois, assim como, pela transgressão de um homem, a morte recaiu sobre todos; pela retidão de um Cordeiro, a vida resplandecerá em todos para sempre.

Um vento soprará do Oriente e o pó miúdo se ajuntará, fazendo com que os mortos voltem todos a andar sobre a Terra num corpo perfeito, à semelhança daquele que tinham quando eram mortais. E, cada um a seu tempo, todos encontrarão seu Criador, com uma consciência plena de tudo o que um dia pensaram ser e de tudo o que de fato conseguiram se tornar. E se ao cascalho a quem foi dito que se tornaria castelo tornar-se apenas uma choupana, saberá que foi a melhor choupana que poderia ter sido e nisto encontrará alegria. E ninguém aspirará para si mais do que lhe cabe, pois todos se conhecerão com um conhecimento perfeito, que só lhes é possível ter porque tu, Adão, transgrediste, a fim de que eles pudessem existir.”

“E quando será este Meridiano dos Tempos? Quando poderei voltar à terra de minha herança e comer do fruto da Árvore da Vida conforme disseste?” 

“Naquele Astro onde o Pai habita, todo o tempo em que passaste no Jardim, desde o dia de tua criação até o dia de tua queda, não passou de um único Dia para Ele. Então, no tempo do Criador, na aurora do segundo Dia multiplicarás e encherás a terra e ao cair da noite, descerás ao pó. Mas, ao meio dia do sexto Dia, teu corpo ganhará forma novamente e teu espírito deixará o Mundo dos Mortos para habitar outra vez na carne. O Querubim embainhará sua espada e, ao lado de tua esposa e dos filhos que forem considerados dignos de se levantarem contigo, tu entrarás triunfante no Jardim, e comerás do fruto que fará de ti um Homem de Muitos Nomes como o Pai. E, na manhã do sétimo Dia, terá início o Dia de teu Descanso.”

“E o que sucederá àqueles que não forem considerados dignos de se levantarem comigo?”

“Haverão outras manhãs e outras tardes de outros Dias de ressurreição, mas terminados os tempos da mortalidade do homem, todos haverão de voltar à vida. E ao lado do Cordeiro, tu reinarás triunfante.”

O fogo consumiu a oferenda e o mensageiro sumiu em meio à fumaça das brasas do altar.

Adão desceu do monte e abraçou sua esposa e seus filhos na Caverna dos Tesouros e repetiu para ela as palavras que ouvira. 

Tomando em seus braços sua filha, disse,  “Teu nome será Ima, pois como pó miúdo tua posteridade se espalhará pela Terra.”

E ao menino disse, “Porque este é o dia do começo de nossa redenção, teu nome será Abu.”

11 de janeiro de 2017

Capítulo 24: O Vale da Sombra e da Morte

11 janeiro Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
A visão que Adão e Eva faziam do mundo fora do Jardim em nada se parecia com aquele lugar que eles de fato encontraram ao atravessar o fosso que separava o Éden das terras de Havillah. 

Quando Adão subia no dorso dos zizes e voava por sobre as árvores do Jardim, ele avistava gigantescos edifícios, muito possivelmente cheios de pessoas que pareciam observá-los de longe. 

Às vezes, se o vento era favorável, até ouvia os risos escandalosos, tambores e explosões luminosas quebrando a escuridão e o silêncio da noite, sons do que pareciam ser grandes festividades e banquetes.

Ele invejava a engenhosidade daqueles outros filhos do Criador, com suas estátuas de ouro e de pedra, suas colunas e abóbadas, seus arranha-céus robustos e pontiagudos perdendo-se entre as nuvens. 

À tardinha, admirava, do topo das tamareiras, as luzes daquela gigantesca cidade que faziam-no pensar que as estrelas do Céu haviam tombado sobre a Terra e se espalhavam pelos vales e montanhas.

No entanto, não foi isso que eles viram ao deixarem o Jardim.

Quando os querubins que os haviam escoltado até ali deram um passo para trás e sumiram na névoa que desceu de repente sobre eles, Adão e Eva tatearam na escuridão tentando achar a barra de ferro que acompanhava a ponte até o outro lado do abismo e não a conseguiram achar. 

Nem tampouco acharam luzes, nem cidades, nem pessoas além do fosso. Ou, se havia quaisquer dessas coisas ali, eles não as podiam enxergar.

Era noite e o breu era assustador.

Tentaram voltar, mas a barra de ferro não estava mais lá, nem a ponte, nem os querubins, nem o Jardim.

Os animais que os seguiam também estavam amedrontados, de modo que berravam e mugiam ao seu redor, como se fossem dispersar da comitiva.

A noite estava mais fria que de costume, ventava muito e os dois se aninharam sobre pilhas de folhas secas que lhes serviram de leito.

Ora incomodados com as picadas dos mosquitos ribeirinhos, ora assustados com algum barulho estranho que lhes tirava o sono, aos poucos seus olhos foram-se acostumando com a escuridão e viram o quanto aquele campo espaçoso e desolado em nada se parecia com seu belo e aconchegante Jardim.

Quando amanheceu, a névoa ao seu redor era tão densa que mal conseguiam ver se todos os animais e provisões que haviam trazido consigo ainda estavam ali.

Eva ajudou Adão a arrebanhar os animais, abrindo caminho rumo ao oriente naquele descampado de arbustos espinhentos e urticáreos.

À tardinha, pararam para descansar e, olhando para trás, pela primeira vez a mulher pôde contemplar o pôr-do-sol dourado daquele outono do qual Lúcifer lhe falara no Jardim.

Ela beijou seu esposo que seguia cabisbaixo sem dizer uma única palavra desde que foram conduzidos pelos querubins àquele vale.

“Tem bom ânimo, Adão, pois este é o dia de nosso novo início. As folhas caem das árvores para nos servirem de leito; o vento esfria o calor de nosso sangue e nos mostra o quanto precisamos dos braços um do outro; o Sol deita-se sobre nosso antigo lar e sua luz dourada ilumina os galhos secos das árvores nuas que parecem clamar por uma redenção de seu estado decaído. 

Nós somos árvores secas, mas logo virão as chuvas, e nada nos faltará neste vale da sombra e da morte aonde o cajado de nosso Pastor nos guiou.

Nós somos folhas secas que caímos da presença de nosso Pai para sermos pisadas pelas bestas do campo; e para que, conhecendo a miséria, nos humilhemos e percebamos nossas fraquezas. 

Na fraqueza de nossa carne, somos o vento que sopra contra a brasa e faz surgir o fogo. Afinal, não fosse pela nossa transgressão, teríamos permanecido naquele estado de inocência e ignorância para sempre. Sem sangue, nunca teríamos semente; e sem semente, nunca teríamos filhos. Nossa alegria nunca seria plena pois não teríamos a medida da miséria para equilibrar a balança do bem e do mal que há em nós.

Caímos para que pudéssemos nos multiplicar e encher a Terra, conforme o Criador nos ordenou. 

E assim como cada árvore dá um fruto de sabor diferente, sendo uns mais doces que outros, e outros bem amargos, assim será a multidão de nossos filhos, cada um encontrando nos lábios do outro o seu sabor e fazendo-se pleno.”

Adão e Eva despiram-se de suas peles e abraçaram-se e beijaram-se enquanto o Sol se punha no horizonte. 

Com a mão esquerda Adão apoiou a cabeça de sua esposa e com a direita abraçou-a pela cintura, deitando-se com ela sobre as folhas secas do fim do outono. 

Suaves como a brisa foram suas carícias e doce como o fruto da macieira foi o aroma de seus unguentos quando, numa só carne desfaleceram em êxtase. 

Quando Adão despertou, Eva estava ao seu lado segurando nas mãos as ferramentas que ele trouxera consigo do Jardim.

“Façamos um altar, à semelhança do altar que fizeste no Éden. E clamemos ao Pai por mais luz e entendimento. Pois eis que esta noite concebi e não tarda, seremos pais, como Ele e nossa Mãe que está nos Céus.”

“Como sabes que concebeste?”

“Não sei dizer como sei, apenas que sei.”

Adão pegou as ferramentas e saiu em busca de pedras.

Ao sul dali, Medusa tateava seu caminho de volta para a caverna quando ouviu a voz de um espírito familiar.

“O que Eles fizeram contigo?”

“Estou cega. Toquei o véu que cobria o disco de luz de onde vinham as vozes que falavam comigo e uma névoa de escuridão se abateu sobre mim.”

“Não te preocupes, enquanto eu estiver contigo, verás através de mim. Lembra-te do unguento de ervas e da infusão de sementes que as górgonas te ensinaram a preparar?”

“Sim, eu lembro, meu Senhor, mas estou cega, não saberia onde encontrar tais ervas nem conseguiria fazer fogo para a infusão.”

Samael soprou alguns galhos de arbustos de cheiro para que as folhas secas se desprendessem e caíssem perto da mulher.

“Macera estas folhas de cheiro até que se convertam num pó miúdo. Leva o pó às tuas narinas e inala com força.”

Medusa fez o que Samael lhe ordenou e, tão logo o cheiro acre subi-lhe as narinas, seus olhos pareceram voltar-se para o vazio dentro de si, ela caiu por terra como se seu corpo recebesse massivas cargas de energia. 

E, de fato, recebia, porquanto Samael enfiara seus cordões de prata no umbigo e na cerviz da mulher, fazendo com que ela tremesse e estremecesse diante dele.

Aqueles cordões etéreos se comunicavam com cadeias de elementos na mente e na medula da hospedeira bloqueando parcialmente o controle que os cordões etéreos de seu próprio espírito exerciam sobre tais partes, esmaecendo suas sensações e percepções, enquanto o espírito estrangeiro ganhava controle sobre o seu corpo.

Uma vez abertas tais portas, era impossível manter a ordem porquanto uma legião de outros espíritos passava a ter igual controle sobre ela, e eles aproveitavam-se a seu bel-prazer das sensações mais ocultas que o corpo da hospedeira lhes permitia experimentar.

Naquela confusão de sensações e incoerência de comandos, Medusa correu alterada por entre as árvores do bosque indo parar entre um bando de símios, onde com violência feriu de morte o mais forte deles. 

Ensanguentada, bateu os punhos cerrados contra o peito e soltou um urro numa voz que não era a sua.

Samael, falando através da boca da mulher, disse, “Este mundo é nosso. Deixareis que um intruso destrua nossas matas, encha de imundície as nossas fontes de água, tire a nossa liberdade e se aposse de algo que é nosso por direito?”

Os símios se alvoroçaram.

Durante todo o tempo que se passara desde que os animais originais haviam sido trazidos para a Terra, muitas mudanças haviam acontecido em todas as esferas da Criação divina, especialmente fora do Jardim, onde os dissidentes usavam seu conhecimento e astúcia para criar disputa entre as mais ínfimas cadeias de elementos gerando cânceres e mutações de toda sorte em toda inteligência que lhes desse ouvidos. 

Claro que tais manipulações já haviam sido previstas pelo Criador, afinal, não era a primeira vez que Ele lidava com filhos dissidentes. De fato, como Ele sempre deixou bem claro, “Há de haver uma oposição em todas as coisas, uma oposição dentro de todas as coisas, uma oposição em torno de todas as coisas.”

Ele sabia que uma vez que pusesse primatas na Terra, os dissidentes encontrariam uma maneira de manipular seus espíritos de modo que pensassem ser superiores às outras bestas do campo, e muitos aprenderiam a andar eretos, o que causaria mudanças em sua estrutura que afetariam suas gerações, cada vez mais próximas da estatura humana. 

Esses símios controlariam o fogo, forjariam armas, e entenderiam os astros. Tamanho conhecimento lhes daria grande poder e eles agiriam com violência a fim de conquistarem um domínio que não era seu.

Quando Medusa surgiu em seu meio naquela noite, eles a tomaram por uma divindade e a adoraram.

Vendo as serpentes que se enroscavam em seus cabelos, tomaram-na pela mão e levaram-na à caverna onde faziam habitação, como que querendo mostrar-lhe algo.

Eles não falavam, como a maioria dos animais fora do Jardim, mas, de algum modo, faziam-se entender.

Na escuridão da caverna, Medusa, ainda sob a influência de Samael, ouviu a respiração de uma besta que lhe era muito familiar.