23 de julho de 2017

Capítulo 36: Ouro, Incenso e Mirra

23 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
O cortejo seguiu em direção à Caverna dos Tesouros. Adão ia à frente levando o corpo de seu filho envolto em uma fazenda de linho branco. Eva e sua prole seguiam com vasos de incenso e mirra, cestas de sal grosso e ramalhetes de ervas aromáticas.

Um silêncio solene acompanhava a marcha fúnebre.

Ninguém se deu conta da ausência de Nod, que se desviou do cortejo um pouco depois de deixarem o arraial.

Ao chegarem ao local do sepulcro, Adão depositou o corpo sobre um leito de pedras negras à altura dos olhos de seus outros filhos e descobriu os panos que o envolviam.

“Perdoa-me, meu Pai, por ter falhado em minha vigília.” Disse o patriarca de joelhos. “Construí um belo salão para guardar os tesouros que me ofertaste no Jardim, mas os pecúlios que eram de fato preciosos corriam soltos pelo campo, e deles me descuidei. Olho para minhas mãos calejadas e os vejo escapando pelos meus dedos como areia fina do deserto.”

“Não abraces sozinho o fardo desta culpa, meu querido.” Disse Eva, aproximando-se dele. “Se erraste, também eu tomei parte neste erro. Tua dor é minha dor. Por nossa transgressão trouxemos a morte ao mundo e, em nossa inocência, pensamos que o desconforto de arrancar de nosso corpo a essência que o mantém vivo seria a dor maior que nos adviria. No entanto, hoje percebemos que um pesar ainda maior recai sobre aqueles que se despedem dos que partem para o outro lado desse misterioso véu que, por nossa culpa, a todos aguarda.”

Juntos, pai e mãe, deram início à preparação do corpo para o sepulcro. Sete lâmpadas de azeite foram acesas à cabeceira, cada vela simbolizava um dos arcanjos portadores das chaves do poder do Altíssimo, sendo o próprio Adão o primeiro deles, a lâmpada central, cujo ardor alimentado no azeite de suas desventuras iluminaria a muitos dos que viriam depois dele.

Ao seu redor, hastes de incenso queimavam como que em lembrança da natureza volátil da chama que antes ardera naquele corpo e que ora se desprendia em uma essência suave e impregnante, como as boas lembranças devem ser. Daquele corpo, como das hastes queimadas, só restariam cinzas.

Primeiro lavaram as feridas com água e sal grosso e, em seguida, besuntaram a pele descorada e fria com azeite, mirra e essência de eucalipto.

Um corte reto feito na altura do umbigo permitiu que as entranhas fossem cuidadosamente removidas e todo o interior agora vazio fosse preenchido com sal e especiarias. Outros cortes foram feitos em caráter ritualístico sobre os mamilos e em um dos joelhos.

O corpo nu e dilacerado foi então vestido com um manto de linho branco. 

Sobre os olhos e a boca, e sobre os cortes nos mamilos, umbigo e joelho foram colocados emblemas sagrados gravados em pequenas placas de ouro que selavam aquele vaso sem vida como propriedade perene da semente divina que nele fizera habitação. 

E tudo isso fizeram afim de que, naquele dia ainda tão distante, este vaso frio e silente que haveria de se quebrar em minúsculos cacos — que de tão minúsculos se haveriam de confundir com o pó da terra donde surgira — pudesse ouvir a voz de um novo Selador que o chamaria pelo nome, dando ordem aos ventos que ajuntassem os odores que dele exalassem; às águas, para que devolvessem o barro pútrido de suas entranhas decompostas; e à terra, o que restasse dos ossos e da carne que em sal grosso seria conservada. De modo que, unindo-se pó ao pó e lodo ao lodo, aqueles minúsculos cacos retornariam à sua antiga forma, dando novamente substância física àquela entidade etérea que, de entre os mortos, reclamaria sua porção de vida, sabendo então com certeza plena quem de fato foi, é e será para sempre, pois naquele dia a morte já não haveria de ter poder algum sobre si.

Com um beijo sobre o selo labial, todos despediram-se daquele vaso sem vida. 

Findas as oblações, orações e cânticos, Adão rolou a pedra à entrada da Caverna dos Tesouros e todos subiram ao topo do monte que se erguia sobre aquela gruta.

Com o martelo e o cinzel, Adão cortou um longo bloco de mármore na forma de uma gigantesca agulha e, com a ajuda de seus filhos, ergueu-o sobre o sepulcro. Na base da imponente coluna de pedra, entalharam suas memórias e orações a fim de que todos os que viessem após eles soubessem o quão justo havia sido aquele valente pastor, e o quanto todos lamentavam por não terem sido bons guardadores de seu irmão.

Diferente das outras colunas e pilares que serviam de apoio às construções de Adão, esta era mais longa, e terminava em forma de pirâmide, cujo cume, banhado em ouro, parecia perfurar o Céu. 

E tal obelisco foi por eles erguido para que, num certo momento das conjunções astrais, apontasse para a posição exata daquela Estrela de onde vieram as suas essências imortais, o gigantesco astro que iluminava o trono do Altíssimo, cuja localização na Expansão fora revelada pelo próprio Criador ao velho patriarca. 

Por seis dias Adão trabalhou para erguer aquele monumento e, no sétimo, descansou.

E tão ocupada estava sua mente na obra de suas mãos que, de algum modo, o peso em seu coração foi-se dissipando. E aos poucos, o sorriso dos filhos menores começou a encontrar reflexo no seu. A vida parecia retomar seu curso como um rio que transborda uma barragem em dias de cheia.

Eva, no entanto, parecia regurgitar o sumo daquele fruto amargo que há tanto comera no Jardim. O mundo parecia ter perdido as cores, os cheiros, o viço. 

Ela já não queria deitar-se com seu esposo nem cuidar dos filhos pequenos.

Ainda na Caverna dos Tesouros Eva notou a ausência de Nod. E, por um momento, a aflição de não saber o seu paradeiro tirou-lhe da mente a imagem do filho dilacerado. 

No entanto, tão logo todos regressaram ao Vale e perceberam que os rebanhos haviam sido roubados, deduziram que Nod fora cúmplice de Caim naquele furto e, quiçá, no próprio assassinato de Abel. 

Diante de tais evidências, o coração de Eva voltou a esvaziar-se de sentidos de modo que seus olhos sequer conseguiam verter qualquer sinal de tristeza, como se estivessem já cansados de tanto pranto. De fato, só lhe restara um cansaço profundo e devastador.

Caim e Nod já estavam longe quando o cortejo voltou ao Vale. 

Caim fizera conforme fora instruído por seu mentor. Quando seus pais se distanciaram do Vale, ele foi ao redil e arrebanhou todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves que conseguiu, e trouxe-os às margens do Pison. E ali esperou por mais instruções.

Nod estava inquieta, pois temia que os filhos de Adão descobrissem o seu furto e viessem atrás deles. 

Naquela noite, um vento quente e seco vindo do leste espalhou as águas do rio, como que abrindo um caminho para a outra margem. O vento era forte e as gotas d’água pareciam rasgar a pele como grãos de areia numa tempestade no deserto.

No entanto, eles cobriram-se com peles de lã felpuda e forçaram os rebanhos a caminharem contra o vento, até que todos cruzassem para a outra margem em segurança.

Tendo atravessado o leito do Pison, seguiram o caminho do sol nascente até que encontraram uma caverna, onde ficaram por um tempo. Aquela mesma caverna onde Lilith habitara quando deixara o Jardim. 

Acostumada aos confortos da vida no Vale, Nod não gostou de suas novas acomodações. Tão logo conseguiram ajuntar provisões para se aventurarem numa nova jornada, ainda mais longa e atribulada que aquela que tinham acabado de fazer, seguiram caminho.

Caim, que sempre fora um homem da terra e se recusara a cuidar dos rebanhos de sua casa, agora levava um cajado à mão direita e pastoreava por terras inóspitas e estrangeiras.

A cada cordeiro que sacrificava pelo caminho para saciar a fome ou ofertar a seus novos deuses, lembrava-se da lâmina afiada com a qual tirara a vida daquele a quem tanto amava. Caim já não reconhecia a si mesmo e a cada dia via-se como um reflexo obscuro das imagens que mais odiava ver em seu pai.

Talvez por um sentimento de autopreservação, culpava a Abel por todas as intempéries que ora enfrentava. E, enchendo-se de ódio, rasgava ainda com mais força a garganta dos cordeiros, como se quisesse repetir neles o mal que fizera a seu irmão.

O berro entrecortado das oferendas, o cheiro forte do sangue derramado subindo-lhe pelas narinas, o jorro fétido das entranhas quentes esparramadas sobre a terra fria, tudo aquilo causava-lhe uma profunda repulsa.

Por vezes, quisera ter sido ele mesmo o cordeiro daquele sacrifício. 

Mas tão logo acendia o fogo, e depositava as carnes dilaceradas sobre as pedras aquecidas pelas brasas; o cheiro, antes nauseante, agora tornava-se suave e os despojos do sacrifício pareciam-lhe agradáveis ao paladar.

Saciada a sua fome, já nem lembrava do que fizera e seguia tranquilo o seu caminho.

Mas, Abel lembrava, com uma lembrança que lhe parecia ainda mais viva do que as lembranças que tivera enquanto habitara o mundo dos que esperavam a chegada da morte.

Quando a lâmina afiada de Caim rasgou suas carnes, Abel sentiu um tranco por dentro, seguido de uma sensação sufocante que cresceu rapidamente como se algo tenebroso inchasse dentro dele. Os ouvidos ficaram abafados para o mundo exterior e pareceram voltar sua atenção para dentro de si, naqueles poucos instantes em que ainda havia o que se pudesse chamar de dentro ou fora de si; sua vista falhou e seu corpo foi parando de responder aos poucos, à medida que engasgava-se com seu próprio sangue.

Num solavanco, sentiu algo despencar por dentro e, de repente, tudo ficou leve.

A dor e o desconforto passaram, mas também passaram todos os sentidos físicos que antes conhecera, de modo que a consciência de si mesmo lhe parecia distante, como acontece com um corpo cansado pouco antes de cair num sono profundo.

Uma névoa acinzentada cobriu-lhe os olhos, já não sentia o chão sob os pés, já nem sentia os próprios pés.

Vagou por um tempo como cego que estava naquele mar de leite que parecia ter inundado tudo à sua volta até que seus novos olhos se acostumassem ao brilho daquele novo mundo, ainda sem uma consciência plena de sua nova condição.

E caminhou por uma rua belamente pavimentada sendo observado com curiosidade pelos inúmeros habitantes daquele lugar. 

No que parecia ser uma praça, um Conselho de Anciãos o esperava.

“Aproxima-te, Meu filho.”

Abel não reconhecia quaisquer daqueles rostos, por mais familiares que lhe parecessem. Ele permaneceu de pé, diante do Conselho.

“Senhores, podeis dizer-me que lugar é este? 

Estava no campo com meu irmão e ele se levantou contra mim num ímpeto de fúria e me feriu. Estou tentando encontrar o caminho de casa para dar conta aos meus pais do que houve, mas me perdi no nevoeiro e vim parar nestas terras estrangeiras.”

“Não te preocupes com teus pais, nem com teus irmãos. Estás do outro lado agora. Senta-te conosco e come dos manjares de nossa mesa.”

“Do outro lado?”

“Estás seguro, e é isto que te importa saber.

Diz-nos com sinceridade de coração, filho de Adão, és um homem de bem? Tudo o que desejaste, fizeste; e tudo o que não te agradava, evitaste, de modo que sabes diferenciar o que é bom e mal aos teus olhos?”

“Sim. Sou um homem de bem e sei o que me faz bem e o que me faz mal, mas ainda há muito o que desejo fazer.”

“Bem está, servo bom e fiel. Se tu, que conheces a ti mesmo, dizes que és um bom homem; quem somos nós para duvidar de ti? És, portanto, bem-vindo em nosso meio. Permite-nos cuidar destes ferimentos e dar-te algo limpo para vestir.”

Os curandeiros aproximaram-se dele e conduziram-no a um dos nosocômios para fecharem as feridas e imperfeições que a mortalidade lhe causara ao espírito. Foi despido das vestes manchadas de sangue que trazia sobre si e colocado sobre um leito branco e confortável. 

Seu espírito foi entorpecido e os curandeiros que rodearam seu leito iniciaram os procedimentos. 

Quando despertou, O que estava à cabeça do Conselho veio ter com ele.

“Como estás, Meu filho?”

“Nunca antes me senti tão bem. Agradeço pelo cuidado e pelas vestes novas que me ofertastes, mas preciso seguir caminho. Meus pais devem estar aflitos. Sabes que direção me seria melhor tomar para chegar ao Vale de Adão? Hoje é o dia de minhas bodas.”

“Hoje também é um dia de festividades entre nós, e não é justo que tu partas assim tão apressadamente em um dia tão solene. 

A propósito, há alguém que quero que conheças.” Disse o Ancião. “Chamem o historiador.” 

Os que estavam à porta do nosocômio, ao ouvirem as palavras de seu Senhor, vieram apressadamente ao meu encontro.

Quando eles se aproximaram, eu, Udiel, estava recolhendo os relatos dos espíritos que acompanhavam a família de Adão e daqueles que seguiam os passos dos cabeças dos dissidentes, bem como dos ajuntamentos de bestas-feras e das hostes de hominídeos que surgiam nas cavidades das rochas do Novo Mundo.

Ora, esta era a tarefa de uma terça parte daquela sétima de filhos do Altíssimo que haviam sido trazidos a esta Terra na primeira das dispensações do tempo enquanto aguardavam o dia glorioso de seu encarne: guardar um registro preciso de todas as ações dos filhos dos homens e dos filhos da terra — sendo, os primeiros, aqueles que descenderam e descenderiam dos lombos de Adão e seus filhos; e os segundos, os híbridos manipulados pelos espíritos dos dissidentes que associaram-se e haveriam de se associar aos filhos dos homens, causando mutações que dividiriam aquela raça em opressores e oprimidos no desenrolar de sua experiência na carne.

Embora sua memória de uma existência anterior àquele estado houvesse sido embotada pelo Véu do Esquecimento, em tal tarefa estes espíritos encontravam algum propósito para sua existência nesta nova esfera para onde haviam sido enviados.

E todos os que demonstraram interesse nesta obra foram chamados ao trabalho e transitavam pelas paredes do tempo entre o mundo etéreo e o mundo físico a fim de coletarem não somente um registro das ações dos homens, mas também de suas palavras e intenções.

E todos os relatos que colhiam eram compilados em um grande volume, conhecido como o Livro da Vida, do qual, este livro que ora escrevo é apenas um breve sumário.

Havia ainda o Livro do Grande Segredo, que era um relato do uso do poder divino e de todo o conhecimento compartilhado pelos arcanjos criadores na manipulação da matéria física para a criação deste mundo, e o Livro do Cordeiro, que era o registro de todas as interferências do Filho do Homem na criação e orientação de vasos escolhidos a fim de que o desenrolar da história humana se desse conforme os planos do Criador. Neste volume seriam gravados os feitos e ensinamentos do Cordeiro quando habitasse entre os homens na carne e, posteriormente, quando, vencendo a Morte, realizasse os primeiros ritos de ressurreição, primeiro dos justos e depois dos injustos, até que todos os dois terços dos filhos do Altíssimo que apoiaram seu plano recebessem como acréscimo de glória um corpo físico, infinito e eterno como o daquele Ser que os criou.

Havia ainda o Livro dos Espíritos, que registrava as ações de todos os espíritos trazidos de Kolob para esta Terra e que aguardavam a chegada de sua encarnação, assim como um relato das hostes dos dissidentes que se haviam espalhado pela Terra e planejavam malograr os planos do Altíssimo.

Mas agora, um novo livro estava para ser escrito, o Livro dos Mortos, a fim de registrar os feitos e impressões de todos os desencarnados que adentravam aquela dimensão etérea de existência. E Abel, que outrora habitara conosco naquela esfera distante e que nos deixara para viver sua experiência num corpo físico como filho mortal de Adão e Eva, era o primeiro homem a voltar do mundo dos seres-viventes.

Fui, então, ao seu encontro.

1 de junho de 2017

Capítulo 35: Um Ponto de Onde Não Há Retorno

01 junho Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
“Onde vais?” Perguntou Lúcifer, tentando acompanhar os passos de Caim.

“Como ousas cruzar meu caminho depois do que me induziste a fazer?” Caim empurrou Lúcifer com o cotovelo. “Quão tolo eu fui em dar ouvidos às tuas palavras.”

Lúcifer caiu por terra, e Caim, em sua fúria, pôs-se a chutá-lo e amaldiçoá-lo com as palavras mais grosseiras que conhecia.

“Por que estás chutando estas pedras e fazendo o pó subir sobre nós?” Disse Lúcifer que agora estava de pé atrás de Caim, tocando-lhe o ombro numa curiosidade sínica.

Caim virou-se assustado e, vendo o tentador diante dele, caiu por terra.

“O que queres de mim? Por que me fizeste cometer tão grande mal àquele a quem tanto amava?”

“O que fizeste foi por escolha tua. Nada fiz senão apresentar-te escolhas, tal qual teu pai havia feito antes de mim. Não foi isso que te disse o Criador? Não deves culpar-me se o banquete de minhas palavras pareceu-te mais saboroso que aquele que o velho patriarca te servira.”

“Antes tivesse eu atentado para as palavras de meu pai.” Disse Caim amargurado.

“Mas não atentaste. E agora ele não perdoará tua ofensa. Se te apresentares em tua casa assim manchado de sangue, todos se levantarão contra ti para ferir-te em vingança ao teu ato vil.”

“O Altíssimo intercederá por mim.” Disse Caim.

Lúcifer riu.

“Do que ris?” Perguntou Caim enfurecido.

“És apenas um joguete nas mãos desse Navegante cruel. Não percebes que Lhe apraz que te tirem a vida? Desta forma, a morte do mancebo preferido é vingada e, com tua queda, ainda extermina o único oponente que de fato haveria de colocar em risco a concretização de Seu plano nefasto.”

“Tuas palavras são torpes. E vil é o intuito de teu coração.”

“Tudo que quero é justiça. Se preferes arriscar tua vida indo apresentar-te aos teus pais conforme te instruiu o Altíssimo, não interferirei.” Disse Lúcifer estendendo-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.

“Minha vida? Já não há mais nada em minha vida que me faça odiar a morte; ou evitá-la. Eu cometi um crime imperdoável. Entenderia se meus pais se levantassem contra mim para vingar a morte de meu irmão.”

“Não há dom maior que este dom que ora desprezas.”

“E mesmo sabendo disto, induziste-me a roubar tão precioso dom daquele que era mais merecedor dele do que eu jamais serei. Roubei-lhe a vida e o que lucrei com o que fiz? Perdi o gosto pela minha própria.”

“Esse Altíssimo tem mesmo o dom da palavra. Alguns minutos de tua atenção e distorceu toda a verdade, enfiando-te neste poço de miséria a fim de fazer-te presa fácil para quaisquer das armadilhas que reservou para ti.”

“Eu matei meu irmão.” Gritou Caim em desespero.

“E agora Nod já não terá que se deitar com ele. Não era isto que querias?” Completou Lúcifer. “Ademais, se te apressares, ainda hoje, ela estará em teus braços e tuas serão as bodas, o fruto de tua diligência. 

E isto será somente o começo dos teus lucros. 

O que fizeste foi para salvar a tua honra, e nisto estás plenamente justificado.”

“Não me importa a justiça se ela não consegue aplacar este sentimento que me corrói por dentro e rouba minha paz.”

“Mísero torrão de barro! Chego a me apiedar de ti. É isto que desejas que os outros sintam a teu respeito? És um príncipe, e príncipes não devem suscitar pena; devem insuflar temor. Levanta a cabeça, pois isso que fizeste perturbará a muitos e fará com que eles todos tremam em tua presença.”

“De nada me importa o que os outros sentem por mim. Importa-me mais esta angústia que cresce cada vez mais em meu peito, fermentando o fel da amargura que sela minhas entranhas.”

“Uma amargura que foi plantada em teu peito por ti mesmo, porque não foste corajoso o suficiente para enxergares os degraus que subiste nesta hierarquia. Ou achas que tua vida se resumirá a este pedaço de terra árida, comendo pó e derramando teu suor como um condenado?

Se fosse eu o teu Criador, jamais permitiria que visses a ti mesmo com estes olhos de comiseração. Tu és um herói.”

“Não há nada de heroico no que fiz.”

“Então vai e diz ao teu pai o que fizeste. Um herói que não sabe de que lado está lutando pode ser mais danoso que um vilão que o sabe. Farás com que teu Opositor fique mais forte e esta batalha estará fadada ao fracasso.”

“Tu és o meu opositor. Não há outro.”

“Não. Como podes ser tão cego? Sou teu amigo. Quero ver-te triunfar, pois teu triunfo é o meu triunfo.”

“Se esta luta é tão importante para ti, luta-a sozinho.”

“Não se vence luta alguma sozinho. Eu preciso de ti; e tu, de mim. E juntos diremos ao Todo-Poderoso que não aceitaremos este mal que Ele fez.

Não percebes que nasceste diferente de teu irmão Abel? Não percebes que Hapi era diferente de vós? E tais diferenças fizeram-vos agir de modos tão distintos, ainda que vivendo exatamente as mesmas circunstâncias.

Abu apareceu-vos falando sobre monstros no bosque, e tu te escondeste destas bestas assustadoras no cultivo da terra para que não precisasses deixar o conforto e segurança do Vale onde cresceste. Já Abel encheu o peito de coragem e subiu às montanhas levando os cordeiros pelos caminhos onde tais monstros supostamente estariam, pois em seu coração queria enfrentá-los para, deste modo, tornar-se um semideus para os de sua casa, assim como era seu irmão para ele. Não esperava que este monstro surgisse num rosto tão familiar e falhou em defender-se daquilo para o que se preparou toda a sua vida. Nem tampouco tu esperavas tornar-te aquilo do que fugias.

Tu foste prometido a Nod; e Hapi, a Ima. Tu esperaste as bodas para deitar-te com tua prometida. Já Hapi deitou-se com todas as tuas irmãs em idade para o coito. E nada teria acontecido a ele se seus atos ocultos não tivessem vindo à tona. Era reverenciado por todos até que, descobertos seus segredos, tornou-se odiado e rejeitado pelos mesmos que antes falavam de amor.

Mas quem vos fez assim tão imperfeitos?”

“Cada um é o que é.” Respondeu Caim.

“E todos são o que são, meu amigo, porque assim foram feitos por Aquele que os criou.” Disse Lúcifer. “No entanto, esse perverso Criador tortura os que não são tão corajosos como Ele gostaria que fossem, nem tão pacientes como Ele ordena que se tornem.

Não lucraria mais já fazendo a todos perfeitos? 

No entanto, como um oleiro inexperiente, erra na criação de novos vasos. E por não saber consertá-los, esmaga-os sob Seus pés e alegra-se com o barulho dos cacos trincando.

Este é o Altíssimo a quem teus pais oferecem sacrifícios. Este é o Altíssimo que criou este mundo para colocar vários de Seus vasos malfeitos para serem humilhados por uns poucos vasos perfeitos que por fim Ele usará para decorar Suas mansões infinitas e eternas, deixando os demais todos juntos, quebrando-se uns aos outros por não aceitarem as imperfeições uns dos outros ou as imperfeições em si mesmos, até que, caco contra caco, só reste o pó desses vasos, de modo que nem mesmo o Altíssimo se lembrará dos erros que cometeu na Sua criação, fazendo pela eternidade outros vasos com as mesmas imperfeições para sofrerem das mesmas aflições. Assim, o universo é feito de vasos quebrados.”

“Estás certo.” Admitiu Caim. “Eu não estaria sofrendo assim se Ele não tivesse me feito um homem tão fraco e capaz de nutrir tão torpes pensamentos.”

“Enxuga estas lágrimas e refreia teus passos.” Disse Lúcifer. “Não é sábio que contes ao teu pai o que fizeste. Antes, vai até Nod e diz-lhe que não é seguro ficarem no Vale. Ela seguirá contigo aonde quiseres ir. 

Faze-o, no entanto, de madrugada, para que teus irmãos não te vejam.”

“Estás certo. Será melhor assim.”

“Agora, ajuramenta-te comigo de que não revelarás este segredo nem mesmo para tua esposa para que não sejas ferido na garganta como foi o teu irmão Abel.”

E Caim fez o sinal do juramento, conforme instruído por Lúcifer, passando o dedo de um lado a outro do pescoço.

“Farás, então, conforme o que eu te disser?”

“Sim. Obedecerei teus mandamentos e serei o guardião deste grande segredo.”

“Teu nome então será Mahan Usir, pois a partir deste dia tudo o que fizeres será para enfraquecer o reino Daquele que te fez fraco, a fim de que te tornes mais forte que Ele.”

“Como pode o vaso tornar-se mais poderoso que o Oleiro que o criou?”

“Revelo-te agora a chave de teus domínios. Atenta para o que te digo, pois nisto repousará o teu triunfo. Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo. 

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão. 

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

“E como erguerei este grande império se sequer tenho onde recostar minha cabeça?”

“Quem é o pastor dos rebanhos de tua casa?”

“Abel era o pastor dos rebanhos da casa de meu pai.”

“E onde está teu irmão Abel agora?”

Caim entendeu o que Lúcifer sugerira sem que o tentador entrasse em mais detalhes. 

“Como haverei de apossar-me dos rebanhos da casa de meu pai sem que ninguém me veja?”

“Teus pais e teus irmãos irão até a Caverna dos Tesouros para sepultar ali o corpo de teu irmão Abel. Quando eles se distanciarem do Vale, vai ao redil e arrebanha todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves, e traze-os até a outra margem do rio e eu vos ajudarei a cruzar as águas em segurança.

Uma vez que tenhas cruzado as águas do Pison, seguirás o caminho do sol nascente até que encontres uma outra caverna, onde habitarás por um tempo. E quando a ira de teus irmãos houver esfriado, seguirás em segurança com os teus para a terra de Nod, a terra em que teus filhos crescerão em segurança e onde tu iniciarás as obras secretas que farão de ti o mais poderoso dos homens.”

“Assim seja.”

Caim seguiu até o Vale e, conforme instruído pelo tentador, naquela noite, encontrou-se em segredo com Nod e disse-lhe que preparasse mantimentos e não seguisse com os demais à Caverna dos Tesouros, pois, levantando-se a névoa da madrugada, eles haveriam de deixar o Vale de Adão para não mais voltarem, pois aquelas terras já não eram mais seguras.

Caim falou de monstros meio-homens-meio-touros com chifres imensos que haviam rasgado de um só golpe a garganta de seu irmão. Disse que tentara protegê-lo, mas seu cutelo não se mostrara suficientemente forte para causar-lhes dano algum, de modo que ele fugiu para salvar a própria vida.

Disse ainda que os monstros estavam vindo a caminho do arraial e que logo chegariam ali.

“Apressemo-nos, pois, e avisemos a nosso pai Adão”, disse Nod, “para que ajunte também ele provisões e conduza a nossos irmãos em segurança para longe deste vale maldito.”

“Não há tempo para isto. Nossos irmãos mais moços atrasariam nossa fuga.”

“E deixarás que eles sejam feridos ou devorados por estas bestas feras?”

“Preciso que confies em mim, Nod. O Altíssimo apareceu-me no bosque e disse-me que Sua mão pesa em violentas punições sobre esta casa amaldiçoada pelas injustiças e transgressões que nosso pai cometeu contra a sagrada vontade Daquele que tudo conhece. Tu e eu sofremos o aguilhão destas injustiças e bem sabemos que o Altíssimo tem seus motivos para lançar seus julgamentos contra esta casa.”

“Sim, meu irmão. Estás certo. Mas deixa-me ao menos avisar às minhas irmãs que se detenham por mais tempo na Caverna dos Tesouros a fim de que lá possam encontrar algum refúgio contra tão severos julgamentos.”

“Faz como bem te aprouver. Só não lhes diz que estive contigo, pois conhecendo bem ao meu pai, sei que ele julga ter sido eu que tirei a vida de meu irmão. Ciente de que estou por perto, haverá de querer que eu me apresente perante ele para ser julgado e, fazendo-o, estaremos todos perdidos.”

“Estás certo.”

Nod fez conforme Caim lhe instruiu. 

Quando todos seguiram em direção à Caverna do Tesouro para sepultar o corpo de Abel, ela desviou-se do cortejo e voltou ao arraial. Caim já ajuntava todos os rebanhos e, juntos, seguiram na direção das margens do Pison.

Uma forte tempestade fez cair algumas árvores sobre o leito mais estreito do rio, criando uma ponte, por onde todos passaram.

Algumas aves, cordeiros e novilhos se dispersaram, mas finda a travessia, todos os remanescentes seguiram na direção daquela caverna que Lúcifer preparara para que lhes servisse de abrigo.

28 de maio de 2017

Capítulo 34: Bodas de Pranto

28 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
“Levantai, minhas filhas, e preparai caminho para as bodas. Não temas, Nod, minha querida, porquanto estas lágrimas que ora vestem tua face como um véu de tristeza logo haverão de limpar os argueiros que te impedem de ver com clareza a grandiosidade dos passos que estás prestes a dar.

Levantai, minhas filhas, e cobri de flores o caminho de vossa irmã e preparai para os noivos um leito de lã e alfazema. Colocai romãs e uvas à cabeceira, e incensos e mirra à soleira de sua cama.

Poli com areia fina do deserto duas grandes placas de bronze bem firmes até que reflitam nelas vossa beleza e colocai-as uma à direita e outra à esquerda do leito nupcial, erguidas uma de frente para a outra, para que recebendo a unção patriarcal, possam os noivos ver refletidos a si mesmos em imagens que se repetem rumo ao infinito daqueles espelhos, pois nisto reside o propósito de sua união: incontáveis hostes de filhos etéreos do Altíssimo que esperam, além do Véu, que, através das sementes deste enlace, possam ganhar um corpo glorioso como o nosso e sentir os prazeres e dores que este mundo nos reserva.”

Eva apressava suas filhas nas preparações para as bodas.

“Levantai, minhas filhas, e banhai e ungi vossa irmã com unguento cheiroso. Colocai adornos sobre sua cabeça; e, sobre seus ombros, peles alvas e macias. Trazei-a nos braços para ser entregue ao seu esposo na presença daquele que há de selá-los numa aliança eterna que nem os laços da morte haverão de quebrar.”

Tendo dito estas palavras, foi interrompida por um mancebo que entrou sem fôlego em seus aposentos e disse-lhe algo aos ouvidos.

Eva tremeu diante das palavras do menino e saiu correndo ao encontro de Adão.

Adão estava à porta do assentamento com o filho ensanguentado nos braços. Eva lançou-se aos seus pés aos prantos, e todas as suas filhas foram ao chão consigo. Ela colocou-o no colo e acariciou sua pele dilacerada.

“Meu filho, meu filho, que besta do campo teria garras tão afiadas para, de golpe tão certeiro, roubar-te os sonhos e aspirações neste ímpeto de crueldade sem par?”

Adão estendeu a mão e mostrou-lhe o cutelo de Caim, ainda ensanguentado.

“O que é isto?” Indagou Eva, ainda sem entender.

“Viste Caim?” Adão não queria acusar o filho, mesmo sabendo que todas as evidências apontavam para o lavrador.

“O que estás dizendo?” Perguntou Eva, já entendendo o que o marido supunha ter acontecido. “Caim jamais faria tamanho mal ao seu irmão.” E abraçou o corpo frio e enrijecido de Abel.

“Talvez ele tenha usado o cutelo para proteger seu irmão contra alguma besta selvagem que lhe atacou e, fracassando, fugiu para não ser morto de igual modo.” Disse Adão, procurando tranquilizar sua esposa. “Precisamos encontrá-lo, pois se não foi o autor desta tragédia, certamente foi dela testemunha.”

“Ai, meu Deus, que sabor amargo é este? Que dor lancinante é esta que rasga-me o peito e faz-me querer que os céus e a terra se rasguem juntos?”

Diante do choro de Eva, Adão desabou de sua postura régia e caiu por terra, rasgando suas vestes e espojando-se na terra fria e molhada das chuvas da noite passada.

“Senhor, meu Deus, arranca-me os olhos para que não veja esta desgraça que se abate sobre minha casa, ou devolve-me logo ao barro para que minha semente não macule ainda mais este mundo que com tanto cuidado criaste para nós.”

Todos uniram-se ao redor do corpo de Abel e, juntos, choraram sua morte.

Do outro lado do rio, Caim corria por entre cardos e arbustos como se quisesse fugir de si mesmo.

A terra tremeu novamente e, tropeçando, ele caiu sobre o próprio rosto. O céu escuro se abriu e uma coluna de luz desceu diante dele.

Desta vez, o Homem de luz que lhe veio ao encontro não parecia tão sereno quanto Aquele que outrora aparecera junto ao altar. Seus olhos eram cor de sangue, suas vestes eram feitas em placas de um metal firme que reluzia como se fossem grandes escamas de ouro. De fato, toda a sua aparência era reluzente e assustadoramente ameaçadora.

Sobre sua cabeça, tinha um barrete com dois chifres que se abriam em doze pontas. E seu manto era feito de penas de aves brancas que, movendo-se atrás dele, deixavam um rastro de relâmpagos e trovões.

“Onde está Abel, teu irmão?” Disse o Homem de luz com voz estrondosa que penetrava até o âmago.

“Como poderia eu saber de seu paradeiro? Sou acaso o guardador de meu irmão?”

“Ousas mentir na presença de teu Criador?”

“Se sabes que minto, sabes então onde ele está e o que fiz com ele. Assim sendo, qual a razão da pergunta? Acaso queres me torturar ainda mais do que minha consciência já o faz?”

Ao que o Criador fincou sua espada na terra, que tremeu novamente fazendo rochas despencarem de lugares altos e vales abrirem-se em desfiladeiros.

“Maldita seja a terra que bebeu o sangue de teu irmão Abel, pois este será seu alimento até o fim dos tempos, nutrindo-se da podridão de vossos despojos para gerar novas vidas.

E tu, Caim, tremei e estremecei diante da Minha presença, pois Eu sou o Senhor Deus de teus pais e o sangue de teu irmão clama desde o pó por justiça.”

“Meu Senhor, corta-me ao meio com Tua espada e põe fim a esta minha existência miserável.”

“Se Eu atendesse o teu pedido, seria um assassino tão cruel quanto tu agora és. Antes, declaro sobre ti a Minha justiça e com esta espada, corto-te da linhagem de Adão até que tua semente ofereça por um período de quatro gerações seguidas sacrifícios justos ao Altíssimo, conforme aquelas oblações que foram reveladas a Adão, teu pai, ao deixar o paraíso; sim, ofertas justas à semelhança do sacrifício do Cordeiro de Deus que há de vir no Meridiano dos Tempos para redimir a todos da maldição que se abateu sobre esta Terra.”

“E o que sucederá a mim?”

“Tu fugirás da presença dos homens e terás pântanos e desertos, montes rochosos e cavernas escuras por abrigo. Porquanto, entre eles, não terás paz: serás perseguido e quem quer que te ache ou descubra o que fizeste se voltará contra ti e procurará tirar-te a vida. De modo que, na esperança vã de comprar tua segurança, tu te tornarás o pai das mentiras. E todo o domínio e poder que alcançares por estes meios farão de ti um alvo fácil para aqueles que têm sede de justiça. E como, por tua causa, a iniquidade amadurecerá, grande será sua crueldade para contigo. No entanto, atirando eles fogo contra ti, tua pele se regenerará; e esmagando-te os ossos, eles recobrarão sua forma; e cortando-te a garganta, a terra se recusará em beber teu sangue; de modo que morrerás muitas mortes sem que percas a consciência de quem tu és e do que fizeste a teu irmão. Sim, setenta vezes sete morrerás de pequenas mortes até que a grande morte te sobrevenha. E esta morte de que te falo não é uma morte no corpo.”

Os olhos de Caim foram abertos e ele se viu em uma gigantesca cidade com altos edifícios e adornos dos mais diversos e uma multidão de pessoas indo e vindo em seus afazeres, nenhuma delas fazendo caso de sua presença ali.

Viu então seu irmão Abel em um edifício de paredes retesadas e portas e janelas translúcidas. Um homem de avental branco costurava-lhe o pescoço e dizia que tudo ficaria bem.

Caim gritou por seu irmão.

“Ele não pode te ouvir, Caim. Abel irá descansar agora até que se cure da ferida que abriste em seu pescoço e possa então receber os encargos que haverá de executar naquela nova esfera de existência em que se encontra.”

“Se ele está de pé, então não morreu. Como podes chamar-me de assassino e punir-me com tão cruel maldição se meu irmão ainda vive?”

“Para mim, não há mortos nem vivos. Todos vivem. Morte é separação e Eu nunca me apartei de vós.  Mas para Abel, cuja essência pensante foi arrancada de seu corpo físico pela lâmina afiada de teu cutelo às vésperas de suas bodas, quando sua existência ganharia ainda maior propósito, tornando-se um pai de muitos, como Eu sou; e para teus pais, que ora lidam com a dor causada por esta abrupta separação, Abel está morto e seu corpo logo voltará ao cosmos físico donde os elementos para a sua constituição foram tirados.

Quando teus pais comeram do fruto proibido, foram corrompidos pela ferrugem que maculou a seiva que regava os tecidos de seus corpos perfeitos, de modo que esta seiva se tornou espessa e carmesim. A cada tragada de ar, esta seiva corrompida que chamais de sangue enche-se ainda mais deste veneno que vos torna maduros, fazendo-vos atingir a estatura perfeita, mas também enfraquece os ossos, enrijece as articulações e enferruja vossas entranhas, que aos poucos vão deixando de cumprir suas funções, de modo que, a cada baforada de ar, vossos tecidos vão-se desprendendo daquela essência energética que vos sustenta até que, não tendo mais no que se apegar, desvanece e volta à terra que lhe deu vida.

Não há nada mais natural que a morte física de vossos corpos imperfeitos, mas qualquer que, por descuido ou por intento, tira a própria vida ou a vida de outro, será chamado de assassino e responderá por seus feitos perante Mim.”

“Se eram tão graves as consequências da transgressão de meus pais, por que não colocaste os querubins ao redor das árvores proibidas antes que eles estendessem a mão para comer de seu fruto? Tu querias que eles morressem. Tu és um assassino maior que eu, pois eu matei a um homem e Tu mataste toda a humanidade.”

“Quisera pudesses enxergar as coisas como Eu as vejo. Se permiti que teus pais cometessem aquela transgressão é porque sabia que Eu teria o poder de restituir a vida que vos seria tirada com ainda mais vida. No dia da grande restituição, até mesmo os mais cruéis e indignos de meus filhos serão levantados de sua morte com um corpo físico perfeito e eterno, como este que possuo. Há, no entanto, uma morte sobre a qual nem mesmo a restituição de todas as coisas haverá de ter efeito algum.

A morte do corpo físico é o desprendimento da matéria física daquela essência que a sustenta de pé. Uma essência composta de ondas que vibram e ressoam como uma harmoniosa canção. Canções só morrem quando paramos de cantá-las. E nisto consiste aquela grande morte de que te falava.”

“E quando acontecerá esta grande morte e quem haverá de me acompanhar nela, pois não haverei de morrer desta grande morte sozinho?”

“Todos os que derramarem sangue inocente, e sua culpa não puder ser ressarcida pela expiação do Unigênito; e todos os que se rebelarem contra as palavras de meu julgamento morrerão desta grande morte que haverá de acontecer após a restituição de todas as coisas. 

Pois quando um homem ouve a verdade e recebe uma confirmação que reverbera nesta entidade vibratória e ressonante que lhe dá vida e ainda assim se recusa a aceitar o destino que ele mesmo comprou com seus pensamentos, palavras e ações, este homem não terá lugar nem mesmo no menor dos reinos de glória que preparei para ele. 

Não que eu não queira dar-lhe um lugar ali, mas ele não se sentirá confortável em quaisquer das Esferas que Eu criei e preparei para ele e preferirá ir para longe de Mim, pois achará que foi malogrado em seu julgamento.”

E Caim chorou ao ouvir aquelas palavras.

“Eu não teria feito tamanho mal a meu irmão se não tivesse dado ouvidos à voz do tentador.”

“Tu não terias feito tamanho mal a teu irmão se tivesses dado ouvidos à voz de teus pais. Portanto, não podes culpar nem a anjos nem a demônios pelo que tiveste coragem de fazer. Tu ouviste as opções. Tu tomaste uma decisão em teu coração. Tu fizeste o mal.”

“Se Tu tivesses instruído mais claramente ao meu pai sobre o que fazer quanto à minha primogenitura; se Tu tivesses providenciado um cordeiro para o sacrifício para que eu não fosse humilhado diante de meu irmão mais moço; se Tu não tivesses atentado para a sua oferta, mesmo sabendo as consequências que se abateriam sobre a nossa casa; se Tu não tivesses compactuado com a injustiça de meu pai, nada disso teria acontecido. Teu foi o cutelo que feriu de morte o meu irmão.”

“Caim, eu sofro por ti e sofro contigo. Quisera poder colocar palavras mais sábias na boca de meus filhos, mas se o fizesse, eu seria um ventríloquo e não um pai. Meu poder para onde o vosso começa. 

Teu pai fez o que, como pai, pensou ser justo fazer. Tu fizeste o que, sentindo-se injustiçado, pensaste ser justo fazer. Teu senso de justiça e o senso de justiça de teu pai conflitaram e ao invés de te reconciliares com ele, escolheste o caminho da rebeldia. A escolha foi tua.”

“Como poderia eu me reconciliar com alguém que é irredutível e pensa que suas decisões são a própria vontade do Altíssimo?”

“Conheces pouco a teu pai, e pouco te esforçaste por conhecê-lo melhor enquanto estiveste em sua presença. Assim como evitaste contato com ele, tu o privaste de conhecer-te melhor.”

“O que está feito, está feito. Nada posso fazer para trazer meu irmão de volta ou anular o meu crime. Se esta é a maldição que pronuncias sobre mim, que assim seja. Eu me afastarei da presença de meus irmãos e fugirei para longe.”

“Direi a Adão que qualquer que te matar terá que apresentar-se perante mim, e severa será sua punição.”

“Tuas palavras não evitaram que eu tirasse a vida de meu irmão e não evitarão que eles tirem a minha, caso me encontrem. Tu podes todas as coisas. Faze com que esta escuridão que caiu sobre mim no altar torne-se permanente para que assim eu possa me ocultar da vingança de meus irmãos.”

“Que esta seja a marca de tua proteção, e que esta marca recaia sobre teus filhos de geração em geração. E se tu e teus filhos se voltarem a Mim e aos Meus ensinamentos, e se tal comportamento perdurar por até quatro gerações, grande será vossa recompensa.

Vai agora aos teus pais e confessa-lhes o teu crime.”

Caim olhou em derredor e estava novamente sozinho. Virou-se na direção do Vale e correu para lá.