3 de dezembro de 2016

Capítulo 19: O Fluxo de Sangue

03 dezembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Lilith corria nua e descalça pela floresta. Diferente do Jardim, as árvores por ali haviam crescido sem cuidado, galhos secos rasgavam sua pele, cardos e espinhos perfuravam-lhe os pés. O cansaço, o suor e o ardor dos ferimentos eram sensações novas, mas nada lhe assustava mais do que aquela seiva viscosa e escura escorrendo-lhe por entre as pernas. 

Ela segurava a genitália ensanguentada enquanto gritava pelo dragão.

Desde que deixaram o Jardim, seu esconderijo e abrigo havia sido uma caverna às margens de um dos braços do Pison. A comida tornara-se escassa após os primeiros invernos, o que fazia com que a mulher e o dragão tivessem que se deslocar cada vez mais floresta adentro em busca de comida.

Seu corpo estava mudando rapidamente desde que comera do fruto proibido. Seus seios haviam entumecido e ganhado uma sensibilidade que antes não tinham, por vezes até lhe doíam os mamilos, como se a pele fosse rasgar a qualquer momento; seus quadris também tinham ganhado mais volume, de modo que ela ficava cada vez mais diferente do irmão que abandonara no Éden. Agora, pelos cresciam nos lugares mais inesperados e, por vezes, fluidos escorriam-lhe da genitália.

No entanto, no décimo segundo solstício desde que comera do fruto proibido, aquele fluido desceu escuro e mais volumoso. E, sem saber o que era tudo aquilo, sentiu que estava para morrer e correu em desespero.

Todas essas mudanças haviam afetado o humor da mulher, de modo que nos momentos em que sua alma ficava mais amarga, culpava a serpente alada pelo estado miserável em que se encontrava.

“Tu me mataste. Tua língua afiada me enganou e eu pequei contra a vontade do Criador. Se eu tivesse ficado no Jardim, não estaria sofrendo todas estas dores. 

Meu útero está apodrecendo e com ele, todo o meu corpo definhará até que eu volte ao pó, de onde fui criada.” Disse ela, apontando as mãos cheias de sangue para a serpente alada que encolhia-se de fome no canto da caverna.

Kundalini ergueu a cabeça e, vendo a mulher ensanguentada e suja, deitou-se novamente. Estava faminta e cansada demais para responder qualquer coisa.

“Não farás nada? Não vês que estou morrendo?” Insistiu a mulher como se exigisse do gigantesco réptil uma reparação por ter-lhe infligido tão irremediável mal.

“Acalma-te. Se o fluxo que ora escorre-te por entre as pernas é o que suspeito ser, decerto que teu ventre não está apodrecendo. Ele apenas deve ter gerado uma semente que não foi germinada e agora está sendo expelida para que, renovando-se, possa gerar uma nova esperança de vida.”

A sabedoria de Kundalini já não tranquilizava mais a mulher.

“Leva-me de volta ao Jardim. Preciso dizer ao homem para jamais comer daquele fruto.” Implorou Lilith.

“O homem fará o que sua consciência lhe disser para fazer. Agora limpa estas lágrimas e aquieta-te. Certamente morrerás, mas não hoje.”

Lilith saiu correndo pela margem do rio. Estava de tal forma irritada com o descaso da serpente que por um instante esqueceu do fluxo de sangue que até então julgava ser uma punição do Criador por seu ato de rebeldia. 

No caminho, encontrou dois homens vestidos de sol, parados no ar, como se fossem pássaros sem asas.

Ela caiu por terra e clamou.

“Perdoa-me Senhor, pois duvidei das palavras de Tua boca e comi do fruto que me havias proibido de comer.” 

“Comeste do fruto do conhecimento e, como recompensa pelo teu pecado, colheste a morte e a dor de viver neste mundo escuro e triste. 

No entanto, este sangue que te enche as veias e que transborda de teus lugares sagrados permite que sejas fértil como os deuses, gerando vida que haverá de se espalhar para além dos limites de teu antigo lar, enchendo a Terra, conforme te ordenou o teu Senhor.”

“Como haverei de gerar vidas se o homem não comeu do fruto e permanece infértil no Jardim?”

“O tempo responde todas as perguntas. Não convém que te antecipes acerca do que não depende de ti para ser resolvido. 

Diz-nos. Quando comeste do fruto do conhecimento, sentiste algum pesar na alma?”

“Não, meu Senhor. Passado o amargor da primeira mordida, senti um prazer indescritível, como se estivesse desabrochando ou despertando de um profundo sono.”

“Então por que te desculpas, mulher?”

“Por ter blasfemado contra Ti, meu Senhor. 

Eu estava confusa, porquanto havias dito que eu certamente morreria quando comesse daquele fruto. Mas ao invés disso, senti uma expansão da mente quando a seiva quente correu sob a minha pele como um rio de águas violentas. Naquele instante, meu corpo era o próprio rio. Era como se eu não estivesse em mim.”

“E não é isso uma pequena morte? Afinal, a morte do corpo acontece quando o espírito que o vivifica dele se desprende; ao passo que, a morte do espírito ocorre quando ele se desprende da fonte de sua própria existência. De modo que, morreste espiritualmente quando aqui nasceste, porquanto toda morte é um renascimento e todo nascimento é uma morte.”

“Mas se tal desprendimento era necessário, por que me advertiste a não comer do fruto? O que há de errado em experimentarmos tamanho gozo? E se não estou morrendo, o que é este fluxo que me escorre por entre as pernas?”

“Vejo que estás ávida por entendimento, mas não me cabe responder perguntas cujas respostas já germinam dentro de ti. 

Quanto ao fluxo, sentes alguma dor?”

“Não, meu Senhor. Senti algumas dores antes, mas agora, apenas um desconforto.”

“Esta é a maldição que o Senhor teu Deus te deu por desobedeceres à palavra de Seu mandamento. Este fluxo há de descer cada vez que teu ventre produzir semente e ela não for fecundada, porquanto a primeira ordem que te deu o Criador foi a de que te multiplicasses, e quando não o fazes, pecas contra a Sua vontade.

Fecundando tal semente, no entanto, carregarás com dores o rebento até que ele rasgue seu caminho para o mundo, causando-te ainda mais dor e desconforto.

Porque há três maneiras de se ganhar conhecimento neste mundo: pelo prazer, pelo suor ou pelo desconforto. Sendo o último, de todos o melhor mestre.

E passadas todas as dores e todas as oportunidades de aprenderes com elas, retornarás teu corpo à Terra que te gerou e experimentarás a morte de fato.”

“Tal punição parece-me injusta, meu Senhor, visto que sem comer de tal fruto, a obra da Criação jamais seria concluída. De modo que, o que eu fiz pode ter sido contra Teus mandamentos, mas certamente era de acordo com Teus planos e vontade. E, se fiz Tua vontade, por que haveria de merecer alguma punição?”

“O fruto de fato te abriu os olhos, Lilith. És agora uma de Nós.”

Um dos personagens de luz tomou nas mãos um dente-de-leão e soprou-lhe na face. As plumas acariciaram seu rosto de um modo tão familiar que por um instante, uma onda de calor lhe tomou todo o corpo, que tremeu e estremeceu diante daqueles anjos de beleza descomunal.

Num abrir e fechar de olhos, a mulher experimentou um “eco” de sua eternidade soando tão vividamente em seu coração quanto o sabor amargo do fruto que ainda sentia em sua boca todas as manhãs ao acordar.

Por um instante, ela se viu com um corpo de luz como o daqueles seres parados no ar diante dela. Seu coração palpitou acelerado e ela caiu por terra.

“Levanta-te, mulher.” Ordenou o anjo.

“O que foi isto que vi?” Disse ela assustada.

“Talvez algo em tua essência relute contra este estado decaído em que te encontras.” Explicou a entidade.

“Quem és tu?” Perguntou a mulher confusa.

“Sou teu irmão.” Respondeu Lúcifer, descendo e tocando o chão primeiro com a ponta de seus pés e depois assentando firmemente os calcanhares.

A luz ao seu redor diminuiu e a mulher viu que estavam vestidos.

“O que é isto que usais sobre vosso corpo?” Perguntou ela curiosa.

“Um manto e um avental: símbolos do sacerdócio que possuímos.” Respondeu Samael, que também desceu logo em seguida.

“E tu, quem és?” Perguntou a mulher, maravilhada com aquela visão.

“Sou o teu mais querido irmão.”

“O que é este sacerdócio que possuís?” 

“Sacerdócio é o poder dos deuses, a inteligência máxima que permite que anjos como nós construam mundos como este; o segredo dos cálculos perfeitos que transmuta a matéria e preenche universos sem fim.” Explicou Lúcifer.

“Estás com fome?” Perguntou Samael.

“Sim, meu senhor.” Respondeu Lilith.

Abaixando-se, Samael pegou duas pedras e convencendo certos elementos naquelas rochas a dissociarem-se dos demais de modo que o caos fosse criado entre eles, deu nova ordem àqueles elementos que selecionara para organizarem-se de novo modo e, batendo o pó do que restara das duas pedras, mostrou-lhe dois pães ainda quentes.

“Se nos ouvires, nunca terás fome novamente.” Disse Samael, oferecendo os pães para a mulher.

Lilith nunca havia provado pães como aqueles antes. Lembrou-se do dragão e guardou um deles consigo.

Lúcifer aproximou-se e cobriu os olhos da mulher com suas mãos. 

Lilith gritou.

“O que houve?” Perguntou Samael. “Onde estás?”

“Estou à beira de um abismo profundo, e as rochas se desprendem aos meus pés.” Gritou Lilith com as mãos estendidas e sem firmeza nos pés.

“Não temas. Pula e nós te ampararemos.”

Lilith ouvia a voz de Samael como se ele estivesse diante dela, mas ela não o via. Estava aflita, porquanto se permanecesse ali, cairia naquele abismo escuro que se abria aos seus pés. 

Confiando na voz daquele espírito familiar, ela pulou. Lúcifer tirou as mãos de seu rosto e ela caiu nos braços de Samael. E sorriu.

“Como posso adquirir tal conhecimento?” Perguntou Lilith abismada com as maravilhas que vira.

“Sempre tiveste este conhecimento, minha irmã. Ele foi roubado de ti. Precisas somente lembrar-te dele, e ele será teu novamente. 

Há uma árvore no centro do Jardim que pode sanar todos os danos que tua vinda para este mundo causou ao teu espírito. Se comeres do fruto daquela árvore, gozarás de toda a felicidade que procuras.” Explicou Lúcifer.

“Não sei como voltar sozinha ao Jardim. A serpente que me trouxe a estas terras sobre suas asas se recusa a levar-me de volta.”

“Lava-te nestas águas e volta ao teu abrigo. Mantém este nosso encontro em segredo e em breve viremos a ti novamente.”

Lilith banhou-se nas águas do Rio e voltou ao encontro do dragão. Trouxe consigo o pão de mel que lhe fora ofertado por Samael.

“Aceita minhas desculpas e sacia tua fome.” Disse a mulher, ofertando o pão ao dragão.

“O que é isto?” Disse Kundalini, rebatendo com suas asas o torrão de barro que a mulher trazia consigo em suas mãos.

“Eu não entendo”. Disse a mulher perturbada. 

“Eu que não te entendo.” Irritou-se o dragão.

Ele levantou-se com algum esforço, foi até a entrada da caverna. Abriu suas enormes asas furta-cor e num salto, voou para longe.


Este é o décimo nono capítulo do livro No Princípio Era o Verbo, de Eliude A. Santos
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 No Princípio

*Este livro foi escrito por Eliude A. Santos e só pode ser reproduzido com autorização do autor.

21 de novembro de 2016

Capítulo 18: O Despertar de Lilith

21 novembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
As paredes do tempo são sólidas para o homem e se erguem às margens duma estrada reta e apertada que numa descida íngreme só lhe permitem correr rumo ao abismo do futuro, levando na mente as lembranças dos momentos mais marcantes em que ele se deixou inundar pelo presente, e viveu.

E assim será até que ganhe o entendimento de que o tempo como ele o percebe não existe. O que existem são atos e palavras, eternizados em ondas que fazem vibrar a luz e o som de cada instante pela imensidão do universo nas mais variadas frequências.

O tempo é um eco.

Passado, presente e futuro se unem numa dança frenética de modo que tudo o que fazemos, tudo o que falamos e até mesmo tudo o que sentimos deixa de ser momento e passa a ser lembrança ou projeção num piscar de olhos.

Na esfera espiritual, as paredes do tempo são permeáveis, de modo que, se encontramos aquela frequência exata que buscamos, nossos olhos se abrem nela.

E foi assim que os arcanjos encontraram o paradeiro de Lilith.

Sanvi, Sansanvi e Semangelai, que no meridiano dos tempos desceriam à Terra com os nomes de Pedro, Tiago e João, foram os arcanjos escolhidos para vasculharem as páginas do tempo a fim de encontrarem o paradeiro da foragida.

E este é o relato que ouvimos de sua boca quando voltaram a ter conosco no Jardim.

***

No dia em que os deuses, arcanjos e querubins deixaram o Éden, Heylel e Samael atravessaram apressadamente as águas do Eufrates e vieram ao encontro dos pequenos infantes.

Mas antes que pudessem tocá-los, Kundalini saltou no meio deles e envolveu os pequenos sob suas asas.

“Quem sois vós?” Disse o dragão com sua voz rouca e estrondosa.

“Eu sou o príncipe deste mundo e este é o senhor destas terras.” Respondeu Lúcifer, apontando para Samael.

“Os Senhores desta terra acabaram de deixar o Jardim e não conheço outros príncipes deste mundo que não sejam os infantes sob a proteção de minhas asas.” Retorquiu Kundalini.

“E tu, quem és?” Perguntou Samael.

“Sou Kundalini, o guardião da Árvore da Vida e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.” Disse o dragão, orgulhoso de sua posição de destaque entre as outras bestas do Jardim.

“Estamos honrados em conhecer tão nobre e sagaz criatura. Vê-se que tua inteligência em muito excede a das outras bestas do campo.” Disse Lúcifer, fazendo-lhe reverência.

“Sou apenas um servo, meu senhor.” Disse a serpente alada, retribuindo a reverência.

“Com tão majestosa aparência, certamente foste criado para ser muito mais do que somente um servo.” Insistiu Lúcifer em seus elogios. “Diz-nos, nobre dragão, por que motivo tais árvores necessitam de proteção?”

“Estas árvores não são deste Mundo, meu senhor. Foram trazidas ao Jardim muito antes de mim.

Segundo o que ouvi, a árvore branca é a árvore de leite e mel que cresce em abundância nos jardins da Mansão Celestial. Seu fruto suculento e dulcíssimo é ainda mais alvo que as folhas de seus formosos galhos e inebria a alma de quem dele comer reparando quaisquer danos que lhe tenham enfraquecido o espírito. Seus ramos de sabor amargo podem curar quaisquer enfermidades que façam definhar o corpo físico.

A árvore de folhas vermelhas é a árvore do sangue do Cordeiro, o sangue incorruptível Daquele que, mesmo sendo mortal, venceu a Morte e garantiu a continuação das vidas para além da Esfera onde habitara.

Diz-se que o Criador, quando esteve na mortalidade, numa Terra como esta, apresentou-se diante daqueles que possuíam as chaves da Justiça daquele Mundo e verteu Seu precioso sangue diante de seus pés, o sangue da condescendência divina.

Seu sangue, expelido em grandes gotas que Lhe escorriam pela pele enquanto era torturado com a dor da compreensão de todas as coisas, foi colhido e levado por aqueles que exigiam justiça ao abismo onde eles fariam habitação.

Ali, o sangue do Cordeiro foi aspergido sobre uma semente venenosa que no Caos daquele buraco negro germinou em galhos e folhas carmesim que desabrocharam em frutos encarnados que, se ingeridos, podem contaminar a seiva medular que vivifica o corpo dos seres imortais levando-os a uma iminente e irremediável morte.” Explicou Kundalini.

“Se estavam tão revoltadas contra o Criador, por que tais criaturas não se utilizaram de tão poderoso veneno para livrarem-se de seu Opressor quando Ele esteve em sua presença?” Perguntou Samael.

“Porquanto um contrato havia sido firmado entre eles, antes da fundação daquele Mundo e o Criador cumprira Sua parte no acordo. Se fosse encontrada qualquer falha em Seus procedimentos, Ele certamente teria sido forçado a comer do fruto e pereceria, deixando de ser Deus.” O dragão já começava a se incomodar com as perguntas daqueles estrangeiros.

“Quais eram os termos desse contrato?” Indagou Lúcifer.

O dragão ficou calado por um tempo. Ele sabia a resposta para aquela pergunta, mas não gostava do rumo que aquela conversa estava tomando. No entanto, por força do hábito, deixou escapar. “Foi decretado que o Criador jamais poderia oferecer os frutos daquela árvore a Seus filhos.”

“E por que razão um Pai ofereceria veneno para Seus filhos? Que espécie de Pai é este?” Espantou-se Samael.

“Contaminando-se a seiva medular com tal veneno, ela escurece e produz sangue. Com o sangue, vem a morte; mas também a fertilidade, que transformaria filhos em pais, e, portanto, coparticipantes na Criação.

Por isso o primeiro grande mandamento do Criador para Seus filhos foi o de crescerem, multiplicarem-se e encherem a Terra, porquanto, se assim não fizerem, toda a ninhada de filhos espirituais do Criador jamais ganharia um corpo. E todo o esforço da Criação teria sido em vão.” Lamentou o dragão.

“Então, os espectros dos filhos do Criador ficarão vagando pelo Mundo até que estes dois infantes decidam comer do fruto de uma árvore que seu Pai está proibido de lhes oferecer? Não me parece que esse plano tenha qualquer chance de triunfo.” Disse Lúcifer com ironia.

“Se entendi bem, o fruto da árvore branca poderia curar as enfermidades espirituais daqueles que serão trazidos para esta Terra para aguardar seu nascimento. Por que não saímos anunciando as boas novas e convidando todos eles a virem comer do fruto? Sua vida seria certamente bem menos miserável lembrando-se de quem são e do que vieram fazer aqui.” Sugeriu Samael.

“Sendo esta árvore de natureza física, seres puramente espirituais não seriam afetados por ela. Teriam que ter recebido um corpo físico imaculado como o desses pequeninos, comido primeiramente da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal para que seu corpo se enchesse de sangue e o veneno da mortalidade começasse a correr em suas veias. Somente então poderiam provar do fruto da Árvore da Vida e serem restituídos à sua forma perfeita.” Rebateu Kundalini.

“Então, se estes infantes não comerem do fruto, permanecerão nesse estado de inocência para sempre? Como cumprirão a lei de seu Senhor de multiplicarem-se e encherem a Terra? Pode seu Criador revogar a primeira lei ou a segunda?” Perguntou Samael.

“Um Deus sabe de todas as coisas desde o princípio. E se Ele se sujeitou às demandas da Justiça ao decretar esta palavra de sabedoria é porque sabe que precisa daqueles espíritos inferiores para manter o equilíbrio e crescimento de Seus domínios.

Eventualmente os infantes perceberão a escolha à sua frente e optarão por comer do fruto.” Kundalini desceu sua cabeça à altura dos olhos de Adão e Lilith, que estavam entretidos com o brilho furta-cor das asas do imponente dragão, e puxou-os para mais perto de si.

“Não me parece que estes infantes perceberão sozinhos o que fazer.” Disse Lúcifer.

“Não há nada que possamos fazer, senão lamentar pelos filhos do Criador que jamais experimentarão os sentidos da carne nem haverão de se lembrar de sua origem divina ou motivo de sua existência.” Samael completou.

Ambos se despediram e seguiram caminho. Kundalini pôs-se a pensar.

Os infantes cresceram e, como os estrangeiros haviam predito, não pareciam entender o que deveriam fazer.

Eles lembravam claramente das palavras de Eloim e mantinham distância das árvores de fruto proibido.

Adão deu nome a todos os animais do Jardim e agradava-lhe brincar com eles sobre a relva, correr pelas campinas, nadar nos rios e riachos e voar por sobre as copas das árvores nos dorsos das grandes aves. As bestas do campo conheciam a sua voz amiga e confiavam nele.

Lilith também se agradava em acompanhá-lo em suas aventuras pelo Éden, mas o que lhe encantava de fato era ver as pequenas transformações que se davam no Jardim: o desabrochar de uma flor, uma borboleta saindo de um casulo, o nascimento de um novo filhote, estes eram alguns dos eventos que lhe arrancavam da rotina e sobre os quais gostava de conversar quando ia ao encontro de Kundalini.

No entanto, a despeito de sua curiosidade ou instinto desbravador, mais de quinhentos invernos haviam caído sobre o Éden sem que Lilith ou Adão sequer se aproximassem das árvores sagradas no centro do Jardim.

Adão sabia que para multiplicar-se e encher a Terra, conforme o seu Criador lhe ordenara, ele precisava deitar-se sobre Lilith, assim como faziam os animais. No entanto, a despeito de suas tentativas, Lilith não concebia.

“O que fizemos de errado?” Perguntou Adão preocupado.

“Não somos como os animais do campo. Não deves subir sobre mim como eles fazem uns com os outros.” Queixou-se a mulher. “Deixa-me subir sobre ti para que eu possa te conduzir para dentro de mim sem desconforto. Assim, seremos uma só carne e meu útero se inchará como os bulbos das flores e dará fruto.”

“Quem colocou estes pensamentos em tua cabeça, mulher?”

“Ninguém os colocou aqui. Não posso eu mesma formular meus próprios pensamentos?”

“Por que não podes ser como os animais do campo que alegram-se em ouvir a minha voz e vêm correndo ao meu encontro quando lhes chamo pelo nome?”

“Novamente me comparando a eles, Adão?”

“Por que te ofendes? Eles já estavam neste Jardim muito antes de nós. O Criador quer que aprendamos com eles. E entre as muitas coisas que os vi fazer, esta talvez seja a mais importante para nós neste momento, pois não cumpriremos o primeiro grande mandamento sem que façamos como eles. Permite, pois, que eu deite sobre ti.”

“Eu entendo que somente nos unindo em uma só carne podemos cumprir o mandamento de nos multiplicarmos e enchermos a Terra. O que quero que entendas é que viemos para cá juntos, fomos feitos do mesmo pó para juntos encontrarmos nossa felicidade.

Mas, se o que te faz feliz me reprime ou coloca-me numa posição de desconforto, não é sábio que reconsideres? Afinal, que felicidade há em sentir-se diminuída e violada? Pois é assim que me sinto quando sobes sobre mim?”

Adão não sabia o que responder, pegou um galho de uma árvore que estava caído no chão e começou a arrancar seus gravetos.

“Que estás fazendo?” Perguntou Lilith preocupada.

Adão manteve-se em silêncio e cravou o galho entre duas pedras. Usando-o como alavanca, moveu a pedra de cima.

“Que estás fazendo?” Insistiu a mulher.

“Um altar.”

“O que é isso?”

“Kundalini disse que viu o Altíssimo descer de entre as nuvens do céu para nos formar do pó desta Terra. No entanto, já voamos no dorso dos fênices e dos zizes por sobre as copas das árvores e por cima dos montes e não vimos sinal algum do Criador. Ele se foi.

Eu avistei, no entanto, muitas edificações à leste do Éden, além das margens do rio. Talvez o Criador tenha ido visitar outros como nós e se deteve por lá.

Talvez tu e eu não sejamos suficientemente industriosos nem verdadeiramente fiéis.”

“O Criador disse que Kundalini nos diria tudo o que precisássemos saber. Por que não vais até ele?”

Adão continuava rolando as pedras e amontoando-as à semelhança das edificações que avistara nas terras além dos limites do Éden.

Lilith saiu correndo na direção das árvores sagradas.

Com lágrimas nos olhos ela caiu sobre o solo diante da grande serpente e chorou.

“Por que choras?” Aproximou-se Kundalini.

“Não sei o que fazer.” Lamentou a mulher. “Adão quer deitar-se comigo.”

“E isto é ruim?”

“Não sei. Achas que nossos Pais não voltaram mais ao Jardim por minha causa?”

“Por que pensas isto, minha pequena?”

“Adão está construindo um altar de pedras. Ele viu grandes edificações além dos limites do Éden e acha que o Criador talvez se tenha detido naquelas terras encantado com a industriosidade de seus outros filhos. Por isso nos abandonou aqui.”

“Tolice. O Criador voltará quando estiverdes prontos.”

“Mas até lá, não sei o que fazer.”

“No dia em que vosso Pai deixou o Jardim, estrangeiros vieram dessas cidades longínquas para vos visitar. Durante sua breve visita, plantaram uma semente que tenho amadurecido em minha mente desde então.”

“Que semente é essa?”

“E se o Criador vos disse para não comerdes do fruto destas árvores somente para vos pôr à prova? E se o único meio de cumprirdes as ordens mais importantes que Ele vos deu seja pela dor do amadurecimento, uma dor que vos consumirá por terdes comido deste fruto que fui posto como guardião?”

“Achas que devemos desobedecer os mandamentos de nosso Pai?”

“Acho que tu, Lilith, deves buscar em teu coração o que deves fazer para aplacar tua tristeza. E prometo que não me porei em teu caminho qualquer que seja a tua decisão.”

“Nosso Pai nos disse que se comêssemos deste fruto certamente morreríamos.”

“Sabes o que é a morte?”

“Não conheço a morte. E também desconheço o que nos acontece depois de provarmos dela.”

“E por que temes algo que não conheces?”

“Não é por temor da morte que evito comer do fruto, mas porque nosso Pai nos disse para não comermos dele.”

“Ele também vos disse que me buscásseis quando necessitásseis de instrução. Talvez o meu papel neste Jardim não seja de fato impedir que proveis dos frutos destas árvores, mas guardá-las para que tenhais frutos em abundância quando decidirdes deles provar.”

“Não achas que há outro meio?”

Kundalini arrancou um dos frutos da árvore de folhagem vermelha e estendeu-o na direção da mulher.

“Só há um modo de descobrir.”

A mulher pegou o fruto em suas mãos e o mordeu. O suco vermelho escorreu-lhe no canto dos lábios e ela passou a língua para se limpar. O fruto tinha um sabor agradável, ainda que amargo.

Sua cabeça pareceu leve por alguns instantes e de repente todas as angústias que guardava em seu coração lhe pareceram tão pequenas que sorriu.

“Por que estás sorrindo, Lilith? Estás bem?” Perguntou Kundalini à mulher, visivelmente alterada.

Lilith acariciou seu próprio pescoço, desceu suas mãos aos seus seios, sua barriga, sua genitália, passou-as por entre as coxas, acariciou os lábios. Sua respiração estava mais intensa. Sua testa suava e seu rosto aos poucos foi ficando mais corado.

“Não te preocupes, estou bem.” Disse a mulher para tranquilizar o dragão.

“O que houve?”

“O homem não é nada sem a mulher, e porque ele tentou fazer-me menor do que ele, não me merece por perto.”

“Se deixares o Jardim, o que será dos filhos espirituais que o Criador trouxer para esta Terra? Eles nunca terão um corpo físico como o teu. Precisas do homem para cumprir o primeiro grande mandamento.”

“Descumpri uma das palavras de sabedoria do Criador esperando que algo terrível acontecesse; no entanto, encontrei grande prazer e regozijo neste feito.

Ele disse que assim que provasse deste fruto eu certamente morreria e aqui estou, mais viva do que nunca. Talvez deva sair pela Terra em busca deste tal Criador. E quando encontrá-lo, perguntar-lhe por que nos enganou todo esse tempo.”

Kundalini esticou suas asas.

“Não vais a lugar algum. Estás alterada. Acalma-te que irei buscar o homem para que possais conversar.”

“Não há nada para conversar.”

Ela rapidamente agarrou alguns cipós e prendeu a cabeça do dragão, montando sobre o seu dorso.

Ele tentou revidar, mas ela manteve-se firme.

“Não há mais o que fazermos neste Jardim. Assim como eu desobedeci às leis deste lugar sagrado no exercício de minha curiosidade, tu também o fizeste por me convenceres a comer deste fruto. O que achas que acontecerá contigo se ficares aqui? Vem comigo e eu serei tua protetora e tu o meu guardião.”

“Para onde iremos?”

“Para longe deste lugar.” Disse a mulher apontando na direção do sol nascente.

Tendo ouvido os urros do dragão, Adão veio correndo para o centro do Jardim, mas quando chegou, Kundalini já havia alçado voo levando a mulher em seu dorso para além das margens do Rio, na direção das grandes edificações.

Havia uma ponte estreita e uma barra de ferro sobre a ponte que seguia desde a nascente do rio até sua outra margem.

O dragão sempre lhes instruíra a não cruzarem aquela ponte.

Adão estava confuso e não sabia o que fazer.

Ele viu os restos do fruto proibido no chão e quis cruzar o Rio para socorrer a mulher; mas quem lhe socorreria caso se perdesse pelos caminhos tortuosos daquele Mundo escuro e triste e não conseguisse mais achar o caminho de volta?

Ele ficou.

Este é o décimo oitavo capítulo do livro No Princípio Era o Verbo, de Eliude A. Santos
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 No Princípio

*Este livro foi escrito por Eliude A. Santos e só pode ser reproduzido com autorização do autor.

9 de novembro de 2016

Capítulo 17: “Não é Bom que o Homem Esteja Só”

09 novembro Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Ahman encontrou o Jardim no ápice de seu esplendor. O homem fizera um bom trabalho naqueles mil anos terrestres em que a comitiva de deuses se ausentara.

Por ainda não haver provado do fruto amargo do conhecimento, Adão não tinha sangue correndo em suas veias como Lilith agora tinha, de modo que, ainda que seu corpo houvesse amadurecido com rapidez até atingir a idade perfeita, seu semblante, como o dos deuses, mantivera-se jovial e imutável; e sua alma, inocente como a de uma criança.

Os arcanjos procuraram por toda a extensão do Jardim mas não conseguiram achar sua companheira.

“Lilith não foi encontrada no Éden, meu Pai.”

“Ide e procurai nos quatro cantos da Terra. Descerei para falar com o homem e depois iremos até ela.

Desçamos, Jeová.”

“Sim, Eloim”.

Jeová e Eloim desceram num facho de luz que se abriu em uma das escotilhas da nave.

Adão estava aos pés de um altar de pedras que aparentemente ele mesmo havia construído. E clamava com as mãos estendidas para o alto.

“Ó Deus, ouve as palavras de minha boca. Ó Deus, ouve as palavras de minha boca. Ó Deus, ouve as palavras de minha boca”.

“Levanta-te Adão, tuas preces foram ouvidas.”

O Pai e o Filho estavam parados no ar a um tiro de pedra de distância do altar.  Sobre eles, descia uma coluna de luz que parecia vir de entre as nuvens, de modo que Seu semblante era resplandecente como o Sol do meio dia.

Seus pés pareciam firmes sobre alguma plataforma que não podia ser vista aos olhos do homem, de modo que para ele, flutuavam como se fossem aves sem asas.

Adão, que, a despeito da instrução dada pelo Criador, permanecera ajoelhado diante do altar, assustou-se com aquela visão e cobriu os olhos com o antebraço.

Embora não os tenha reconhecido, a voz Daquele que lhe falava do alto soara-lhe tão familiar que aos poucos abaixou o braço e atreveu-se a abrir os olhos.

Um dos Homens de túnica branca deu um passo à frente. Adão voltou a cobrir o rosto.

“Não temas, Meu filho. Onde está a mulher que te demos por companheira?”

“Ela deixou o Jardim há muito tempo. Não sei de seu paradeiro.”

“Não foste atrás dela?”

“Como eu poderia? Tenho que cuidar do Jardim. Ademais, não sei o que há além do horizonte do Éden. Poderia perder-me e jamais encontrar o caminho de volta.”

“Onde estão teus filhos?”

“Não tenho filhos, meu Senhor. A mulher que me deste por companheira não se agradava em deitar-se comigo.”

“Foi por isso que ela te deixou?”

“Não, meu Senhor. Ela foi enganada pelo dragão que guardava a árvore de frutos proibidos.”

“Onde está a serpente para que falemos com ela?”

“A serpente deixou o Jardim, levando a mulher consigo. Abriu as asas e voou na direção do sol nascente.”

“Também comeste do fruto?”

“Não, meu Senhor. Tu me proibiste.”

“E por que clamavas junto ao altar?”

“Buscava mais luz e entendimento.”

“Quando estiveres preparado, receberás o que buscas. Por agora, retoma teus labores. Muito em breve voltaremos a ti novamente.”

Enquanto voltavam à nave, Eloim indagou Seu conselheiro.

“Jeová, é bom que o homem esteja só?”

“Não é bom para o homem ficar sozinho, Eloim. Traremos Lilith de volta ao Jardim?”

“Somente ao homem compete tomar tal decisão. Não nos cabe interferir em situações que eles consigam resolver sozinhos.”

“Sendo Lilith a única mulher na Terra, e recusando-se a voltar, como daremos corpos físicos aos espíritos que trouxemos conosco?”

“Façamos com que um sono profundo caia sobre Adão e tiremos dele uma costela. Com o material que colheremos da medula desse osso, criaremos um embrião e o colocaremos de volta no apêndice do homem para que ali seja gerada uma nova mulher para ser sua companheira e ajudante.”

“E que espírito designaremos para dar vida à nova infante? Se Lilith não conseguiu convencer o homem a comer do fruto que faria com que sua medula produzisse sangue para encher-lhe as veias de modo que pudessem cumprir as leis maiores que Tu lhes destes, quem o fará?”

“Não desejava Sophia ocupar o lugar que estava destinado à sua irmã? Façamos então conforme o desejo de seu coração. Além do mais, ela sempre foi bem menos impulsiva que a primeira.”

“Assim seja.”

E assim foi.

Naquela noite, o homem foi sedado enquanto dormia e levado à nave, onde haviam instrumentos para a delicada cirurgia.

Com uma incisão feita em seu lado direito, a última costela flutuante de Adão foi retirada e o material colhido da medula foi manipulado para que um embrião fosse formado.

Usando o apêndice original como um útero, o feto cresceu no corpo adormecido do primeiro homem.

Passadas sete luas cheias, uma nova intervenção foi feita e o bebê ainda desacordado foi tirado com um corte na parte inferior de sua barriga, junto com uma porção do apêndice, que foi descartada.

O espírito de Sophia foi trazido ainda desacordado e foi colocado no corpo em formação daquele bebê pré-maturo, que chorou copiosamente ao sentir o ar do novo Mundo rasgar-lhe as narinas.

As suturas foram feitas com uma precisão impecável e o homem não demorou a se recuperar. No entanto, ele foi mantido naquele sono induzido por mais duas luas crescentes.

Ainda na maca, dentro da nave, Adão começou a despertar. Tudo lhe parecia confuso e ele não lembrava como viera parar naquele lugar.

Ele ouviu um choro estranho, diferente do grunhido de qualquer animal que conhecia no Jardim. Seus olhos mal conseguiam manter-se abertos. Aguçou os ouvidos procurando descobrir de onde vinha aquele som.

“Adão, desperta e levanta.”

Disse a voz de Eloim, que se aproximou com uma criança nos braços.

“Meu filho, eis aqui uma mulher que nós formamos e que te damos nos braços para ser tua companheira e ajudante. Como a chamarás?”

Adão levantou-se e tomou o bebê em seus braços com cuidado.

“Eva”.

“Por que lhe chamarás Eva?”

“Porque ela é a mãe de todos os viventes.”

“Isto mesmo Adão. Porque ela é a mãe de todos os viventes. E tu cuidarás dela como se ela fosse tua filha e assim aprenderás a ser um pai, como Eu. Quando estiveres pronto, poderás desposá-la e juntos povoareis a Terra.”

“E quando saberei se estou pronto?”

“Cresceste no Jardim com o intuito de levantar um reino e um trono para ti. Ao fim deste primeiro milênio de teu domínio, tu te tornaste o senhor do Éden e todos seguem a tua voz de comando, conforme te ordenamos que fizeste.

Mas, enquanto um rei é soberano em seu reino; um pai é servo em sua casa.

E quando entenderes a lei do sacrifício estarás pronto para recebê-la. E ninguém sacrifica mais os seus próprios desejos, o seu próprio tempo e a sua própria existência do que um pai devotado em ver a felicidade de seus filhos.”

Conduzindo Adão até o mirante da nave, Eloim mostrou-lhe a Terra aos seus pés.

“Organizamos para ti esta Terra e plantamos este Jardim a leste do Éden. Desceremos contigo ao Jardim e ali daremos ordem para que tu e Eva multipliquem-se e encham a Terra para que tenhais alegria e regozijo em vossa posteridade, conforme fizemos quando eras um bebê recém-criado.”

Jeová aproximou-se e disse:

“Será feito conforme Tuas palavras, Eloim.”

E conduziu o homem e a mulher ao Jardim que haviam preparado para eles.

No Jardim, Eloim colocou Suas mãos sobre a cabeça de Adão e repetiu a ordenança que fizera quando aquele ancião de aparência jovial era ainda um bebê como aquela pequena infante que ele segurava com tanto cuidado em seus braços.

“Adão e Eva, Nós criamos para vós esta Terra e colocamos aqui todos os tipos de vegetação e vida animal. E ordenamos a todos estes que se multiplicassem em sua própria esfera e elemento.

A ti, Adão, demos domínio sobre todas essas coisas e te fizemos senhor de toda a Terra e de todas as coisas que estão sobre ela.

Agora Nós vos ordenamos, Adão e Eva, que vos multipliqueis e enchais a Terra para que tenhais alegria em vossa posteridade.

Também plantamos para vós este Jardim onde colocamos todos os tipos de frutas e flores e vegetação de toda espécie.

De toda árvore do Jardim podeis comer livremente, mas da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, não deveis comer; no entanto, podeis escolher por vós mesmos, pois assim vos é permitido fazer. Mas lembrai que eu o proíbo, pois no dia em que deste fruto comeres, certamente morrereis.

Adão e Eva, lembrai deste mandamento que vos dou.”

Terminada a restituição da primeira bênção, Eloim estava pronto para despedir-se novamente de Seus filhos.

“Agora vai cuidar da mulher que te dei para que ela cresça e possa te ajudar a cuidar deste Jardim. Cuidai com zelo deste lar que preparemos para vós, sede felizes e alegrai-vos nas tarefas que vos dou.

Iremos agora, mas Nós vos visitaremos novamente e vos daremos novas instruções.”

Os deuses se despediram de Adão e Eva e voltaram para a nave.

Na nave, Eles reuniram os arcanjos para saber notícias de Lilith.

Este é o décimo sétimo capítulo do livro No Princípio Era o Verbo, de Eliude A. Santos
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 No Princípio

*Este livro foi escrito por Eliude A. Santos e só pode ser reproduzido com autorização do autor.