23 de abril de 2017

Capítulo 32: A Noite Escura

23 abril Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
O homem azul erguia seu remo de sicômoro e fincava-o com força no leito do mesmo rio onde antes fora lançado para encontrar-se com a morte.

Na face do Filho das Águas, como era chamado pelos irmãos que deixara no arraial, uma nova lágrima descia a cada remada.

Embora ele não houvesse concordado com a decisão daquele que até então chamara de pai, sabia ser inútil medir forças com o Ancião de Dias e agora seguia a luz da manhã rumo ao exílio — tal qual fizeram as estrelas cadentes quando, por semelhante decreto, foram expulsas da presença do Criador.

O exilado atracou o barco às margens de um dos braços do Pison e, deixando ali suas mulheres, desceu com o mancebo em busca de provisões, porquanto os poucos mantimentos que Luluwa e Aklia haviam conseguido ajuntar na pressa de deixarem o arraial já tinham acabado, e as poucas sementes e espigas que haviam restado, eles estavam reservando para plantarem nalgum lugar fértil que julgassem ser seguro para a sua habitação.

Lúcifer e Samael, que vinham acompanhado de longe o desenrolar dos acontecimentos no Vale de Adão, aproximaram-se do homem azul enquanto este colhia carambolas e romãs num pomar que encontrara um pouco adiante.

“Não te espantas que nasçam árvores frutíferas em tão longínquo descampado?” Disse Lúcifer ao colher uma das carambolas, enquanto aproximava-se do rapaz.

“Senhores, se estas árvores vos pertencem, aceitai minhas desculpas por tamanha ofensa. Mas antes de julgardes que mereço qualquer punição pelo meu delito, considerai que o fiz porque tenho fome; e trago em minha comitiva duas esposas igualmente famintas e um mancebo a quem muito estimo que saiu em busca de pastos verdejantes para uns poucos novilhos e aríetes que trouxemos conosco em nossa embarcação.”

“Servi-te à vontade e alimenta tua comitiva.” Adiantou-se Samael. “Afinal, estes frutos são mais vossos do que nossos. Todas as árvores que crescem à tua volta foram plantadas neste pomar pelas mãos daquela que te trouxe à luz deste mundo.”

“Senhor, conheces a minha mãe?”

“A ninguém conhecemos melhor. Uma velha amiga que há muito deixou nossa companhia para seguir seu próprio rumo.” Respondeu Samael.

Ao que Lúcifer acrescentou, “Em sua peregrinação conheceu os deuses de pedra, cujos templos se erguem aos pés dos montes, nas fendas das rochas, e nos bosques altaneiros. Nas paredes de tais templos gravou os rituais que abriam sua mente para uma nova dimensão de existência, um estado de espírito do mais alto grau de elevação.  No entanto, a despeito da grande dádiva que recebeu, fugiu da presença dos deuses de pedra e entregou-se nos braços dos filhos da terra, uma raça de salteadores bárbaros que, em bandos, espalham-se como um vento negro de setas e machados, deixando um rastro de sangue e nuvens de açores e abutres por onde passam.” Disse Samael.

“Não compreendo. De onde venho, aprendi que o Altíssimo criou plantas e animais de toda espécie para encher a Terra, e colocou o homem aqui para cuidar da obra de sua Criação. Uma única família que se espalharia por este vasto mundo para torná-lo semelhante àquele lugar de onde vieram os nossos espíritos. Cresci acreditando que eu e minha irmã havíamos sido enviados pelo Altíssimo para ajudar nossos pais a cumprirem os três grandes mandamentos que Dele haviam recebido. Agora, encontro-me com estrangeiros que me dizem que tenho uma mãe e que ela habita com outros homens que já se espalham pela Terra. De onde vieram esses filhos da terra? Que outras verdades nos foram ocultadas no Vale? O que ganha nosso pai por esconder tudo isso de nós? Por que me fez acreditar todo esse tempo que eu era filho das águas, ocultando de mim o paradeiro daquela que me gerou?”

“Se esse que chamas de pai surgiu do barro como ele alega ter surgido, por que não poderias ter de fato surgido das águas? Não me espanta que tenhas acreditado nestas falácias por tanto tempo. Meias verdades têm força de verdades inteiras para aqueles que se satisfazem com pouco.” Disse Samael num tom consolador.

“Mas tu não te contentas com pouco. Saíste em tudo à tua mãe.” Observou o Filho da Manhã. “Sabias que ela também cobriu sua pele com uma nova cor, como se a antiga já não lhe servisse mais?”

“Meu pai nunca me falou sobre ela. Nem ao menos sei o seu nome. Se viesse a encontrá-la, não seria para mim mais que uma estranha.

A propósito, sabeis quem sou e de onde venho, mas não me dissestes os vossos nomes ainda.”

“Não te ocupes com nomes, pois nomes são títulos efêmeros. Serve-te mais que saibas das origens e paradeiros daqueles a quem buscas.” Sugeriu Samael.

“Que direção então devo tomar se quiser encontrar aquela que me trouxe à luz deste mundo?”

“Tudo se revela no oriente, meu jovem. Se continuares a rota que tomaste ao deixares o Vale de Adão, logo descobrirás os mistérios que te vêm consumindo a alma desde os teus primeiros dias.” Respondeu Samael.

“Não disseste ainda o que fazes tão distante do arraial.” Observou o estrangeiro num tom interrogativo, como se ainda não soubesse da resposta.

“Meu pai expulsou-me para além dos limites de seus domínios.”

“Por que um pai que se diz tão amoroso expulsaria um filho de sua própria casa?” Destilou Lúcifer o seu veneno.

“Irou-se por eu ter deflorado minhas irmãs.” Disse o moço cabisbaixo.

“E não foi para que te deitasses com elas que ele te acolheu e nutriu em seu regaço? Não foi isto que ele declarou ser a vontade do Altíssimo quando fostes, tu e tua irmã, resgatados das águas do rio?” Provocou Lúcifer.

“Também eu pensava como tu. E minhas irmãs como nós. Afinal, não me forcei sobre nenhuma delas. Apenas fiz o que clamava a nossa natureza.”

“Sei bem o que sentes. A mesma natureza te empurrou por estas matas em busca de alimento. Se não desses ouvidos ao seu ronco voraz, padeceríeis todos de fome.

Leva estas frutas para tuas esposas e para o mancebo a quem tanto estimas e segui vosso caminho. Haveremos de nos encontrar mais adiante.”

Os dois estrangeiros desapareceram mata adentro e Hapi voltou às margens do rio, levando consigo os frutos que colhera daquele pomar.

Enquanto todos saciavam a fome, ele pensou em falar-lhes daquele inesperado encontro, mas foi interrompido por Inu, que insistia que Hapi o seguisse até o topo da colina.

Quando se aproximavam do lugar que Inu havia mencionado, Hapi viu as grandes estátuas e prostrou-se diante dos deuses de pedra.

“O que estás fazendo?” Indagou Inu.

“Não percebes o aroma que emana deste lugar? De certo que estamos em lugar santo. Desata as correias de tuas alparcas.”

“São apenas imagens de escultura.” Retrucou Inu. “Trouxe-te aqui, pois, se há esculturas, deve ter havido homens que as esculpiram. Talvez não sejamos de fato a única família na Terra.”

Hapi aproximou-se das imagens e viu as inscrições gravadas com esmero nas paredes do templo. Correu os dedos pelas descrições dos rituais e lembrou-se do que os estrangeiros lhe haviam dito.

Ele sabia que sua mãe estivera naquele solo e, mesmo que as imagens fossem de fato somente esculturas de pedra, aquele solo já era sagrado para ele.

Disse a Inu que corresse até a margem do rio e trouxesse consigo suas esposas, mantimentos e rebanhos, pois haveriam de se demorar por aquelas terras um pouco mais do que o esperado.

Inu fez conforme seu mestre lhe ordenara.

No Vale de Adão, a comitiva enviada em busca de Luluwa e Aklia voltou de mãos vazias.

Nod já não ia mais à Palestra para receber instrução. Preferia passar aquele tempo junto às margens do Rio chorando o exílio de seu irmão. 

Os filhos mais moços de Adão zombavam dela, dizendo que estava devolvendo ao rio as águas que Ahman usara para criá-la e que, se não parasse de chorar, logo definharia e sumiria, salgando as águas ribeirinhas com tanta tristeza.

Nod balançava a cabeça diante do escárnio de seus irmãos e, ainda que não tivesse sido expulsa com Hapi, exilava-se de todos ali mesmo.

“Trouxe-te algo para comer.” Disse Caim aproximando-se de Nod com um guisado que ele mesmo havia preparado. “Não é bom que te afastes tanto do arraial. Estas terras não são seguras. Se não o fazes por ti, faz por mim, que nunca virei o rosto para ti como alguns de meus irmãos, e sempre te ofereci minha proteção e cuidado.”

“Sou-te muito grata. Sempre fui. Sabes disso.”

“Sim, eu sei. E também sei do teu amor por Hapi e do quanto estás sofrendo desde que ele foi exilado. Mas um dia tu serás minha esposa e já não terás que te submeter às leis que regem os domínios de nosso pai. E tudo o que fizermos, faremos em comum acordo. E peregrinaremos pela terra até encontrarmos o Filho das Águas e, ao seu lado, ergueremos uma grande nação.”

“Deixarias tudo o que aqui conquistaste a fim de seguir comigo para além dos limites do Vale?”

“Sim. Irei contigo aonde quer que teu coração te peça para ir. Tu serás o meu farol e eu serei o teu leme.”

Caim voltou à Palestra decidido a falar com seu pai. Adão, no entanto, havia subido ao altar.

Ao descer do monte, o Patriarca reuniu todos os seus filhos em um grande Conselho.

“Meus filhos, antes de virmos a esta Terra, tua mãe e eu fomos instruídos em todo o conhecimento de nosso Pai que está nos Céus a fim de que nos tornássemos pais como Ele. No entanto, no translado daquele mundo perfeito a este mundo decaído, todo aquele conhecimento e instrução se perdeu num véu de esquecimento posto entre nós e a habitação de nosso Criador. De modo que, sem memória real do que nos sucedeu antes de virmos a este mundo, contamos apenas com a intuição, que é uma sombra embotada de lembrança que nos ilumina a mente diante de decisões difíceis; e a revelação, que é a comunicação divina, que só chega a nós quando os Deuses percebem que não há outro meio de descobrirmos aquilo por nossa própria competência e esforço.

E, por isso, peço-vos perdão se por vezes não pareço ou não consigo ser o pai que esperáveis que eu fosse. Sou um aprendiz da paternidade tanto quanto vós sereis quando tiverdes vossos próprios filhos.

No entanto, a despeito de minhas fraquezas, que são muitas, o Altíssimo me escolheu para esta tarefa maravilhosa e assustadora de orientar os primeiros passos da humanidade nesta Terra, tal qual já fez com outros Adãos como eu em outras Terras como esta, e assim continuará fazendo até que seja, por qualquer transgressão que por ventura cometer, deposto de Seu trono e engolido pelo abismo do Caos de uma vida sem leis.

Por esta mesma razão, Sua casa é uma casa de ordem, de modo que todos se alegram no cumprimento das leis que por algum motivo precisam ali obedecer. E se qualquer de seus filhos perde o gosto pela obediência, deixaria de ser feliz ali, maculando a própria essência daquele lugar.

Nosso lar é uma pequena amostra do que tivemos antes e do que nos espera mais adiante. Por isso, não penseis que há qualquer vilania ou crueldade de minha parte quando estabeleço limites entre o que é aceitável neste arraial, e o que deve ser feito com aqueles que desrespeitam estes limites.

Eu mesmo fui expulso da presença do Criador quando provei do fruto proibido. Cometi uma transgressão e arquei com as consequências de minha ação. E, por um tempo, não consegui enxergar o amor do meu Pai ao enviar-me para este mundo escuro e triste, longe de Sua presença, sujeito às intempéries do tempo. 

Aqui, calos rasgaram as minhas mãos, sangue escorreu de minhas feridas pustulentas, meus cabelos caíram, minha pele enrugou, minhas costas ficaram cansadas. Mas a cada calo, minhas mãos ganharam mais força; a cada gota de sangue derramada, meu corpo ganhou mais vigor; a cada cabelo caído, eu ganhei mais sabedoria para entender os mistérios ao meu redor; a cada nova ruga, mais experiência para tomar decisões acertadas; e a cada dor, a lembrança de todos os momentos felizes que tenho ao vosso lado.

Eu precisei transgredir para que houvesse uma mudança. Então, entendo a necessidade da transgressão. Meu pai precisou aplicar a lei para que a mudança que eu buscava de fato acontecesse. Então entendo a necessidade da lei. Se Ele não tivesse me olhado com o amor de um Pai, e me expulsado de Sua presença, eu jamais teria tido filhos e jamais conheceria a felicidade verdadeira.

Quando expulsei o teu irmão do arraial, Nod, eu o fiz porque o amo, e porque amo a todos os meus filhos. Se a lei não fosse aplicada, outros viriam a transgredir no futuro e não aceitariam que qualquer pena lhes fosse infligida, de modo que a segurança de nosso lar estaria em risco. 

Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para que Hapi encontrasse felicidade em nosso meio, mas ele não se alegrava em viver as leis que regiam esta casa. Agora está livre de qualquer obrigação que antes tinha para comigo e pode viver conforme os ditames de sua própria consciência. Não é esta a maior expressão de amor e desprendimento de um pai: a de aceitar que seus filhos nem sempre escolherão trilhar pelo mesmo caminho que ele julga ser o melhor para todos?

Em meu egoísmo, eu poderia encher-me de altivez ou furor e persuadi-lo ou forçá-lo a agir conforme a minha vontade — e possivelmente assim teria feito se ele fosse mais jovem, pois quando não somos maduros o suficiente, precisamos de um Jardim em que não nos esforçamos por nada e, portanto, não podemos exigir nada em troca.

Mas ele era maduro e consciente de suas ações. Eu precisei entender sua mensagem, seu pedido desesperado. E eu concedi conforme sua vontade.

Quanto a ti, Nod, sei de teu sofrimento e fico muito triste com meus outros filhos que ainda não amadureceram ao ponto de respeitar a tua dor. Mas peço-te que deixes de lado o egoísmo, assim como eu tive que deixar de lado o meu, e entendas que, a despeito das dores que teu irmão enfrentará por ter deixado o Jardim de sua infância e a proteção de seus pais, ele encontrará a felicidade que busca, e nisto todos nós devemos nos alegrar.

E tu deves fazer o mesmo.

É chegada a hora de prepararmos as tuas núpcias. 

A longa noite escura que se abateu sobre este arraial tem hoje o seu fim e, amanhã, um sol radiante há de se levantar sobre o céu deste Vale.”

29 de março de 2017

Capítulo 31: Caim e Abel

29 março Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Após tantos encontros com estrangeiros que, com a astúcia de discursos tendenciosos, procuraram confundir suas convicções — e temendo que, fazendo uso dos mesmos artifícios, eles viessem a desencaminhar quaisquer de seus filhos — Adão decidiu seguir o conselho dos mensageiros do Altíssimo, e deu início à construção de uma espaçosa Palestra que ia desde o centro do assentamento até o bosque de freixos e salgueiros às margens do Pison. 

Aos poucos, as muralhas, o pátio dos jogos, os átrios de instrução, o alojamento dos construtores, as estufas, celeiros e estrebarias começaram a ganhar forma em torno do Salão dos Tesouros, que, no centro da Palestra, fora erguido para guardar os registros da história daquele povo e de todo o conhecimento que fosse considerado útil para sua instrução, bem como para servir de relicário para os implementos sagrados trazidos do Jardim e que até então vinham sendo guardados na caverna onde Adão e sua esposa encontraram refúgio após serem expulsos do Paraíso.

Eva não perdera a esperança de que seu filho Abu retornaria ao assentamento. E para satisfazer sua esposa, Adão comandou novas buscas, sem sinal algum do paradeiro do pastor. 

Abel esteve à frente de grande parte de tais buscas. 

Em seu coração, ele queria verdadeiramente encontrar o irmão; mas se não o encontrassem, ao menos poderia cobrar de seu pai que apontasse um novo sacerdote para ocupar-se do pastoreio. 

Afinal, ele possuía um espantoso talento para cuidar de animais e, movido pelos relatos dos supostos atos prodigiosos de seu irmão Abu, conforme este mesmo lhes contava ao redor da fogueira sempre que retornava ao arraial com alguma nova cicatriz ou ranhura; sim, por admirar sua valentia e por querer ser como ele, Abel cresceu na esperança de que um dia seria colocado à frente dos rebanhos e poderia aventurar-se como seu irmão nas terras desoladas daquele mundo escuro e triste em eles que habitavam.

Adão sabia que Abel queria provar-se digno do pastoreio e ficou feliz quando o jovem rapaz se ofereceu para ajudá-lo nas buscas, mas sua casa era uma casa de ordem e, mesmo que Abel se mostrasse capaz de exercer tal tarefa, aquele encargo havia sido reservado ao primogênito de seus filhos. E, na ausência de Abu, o direito à primogenitura era agora de Caim. 

Este, no entanto, não demonstrava qualquer interesse em envolver-se com os rebanhos; antes, preferia arar a terra e cuidar das hortas e pomares, e dos bosques de árvores frutíferas no entorno do Vale. 

Devido ao caráter de urgência daquela situação, Adão aceitou que Abel lhe acompanhasse. 

Ao encontrarem os rebanhos, Abel ofereceu-se para cuidar dos cordeiros enquanto Adão seguia os rastros deixados pelo campo na esperança de encontrar seu filho pelo caminho. 

Encontrou apenas barro e sangue e, em seu coração, temeu pela vida de Abu.

Quando retornaram com o que restara do rebanho, houve grande alvoroço no arraial. 

Abel estava triste pelo desaparecimento de seu irmão, mas confiante de que seu pai reconsideraria suas resoluções e o apontaria como pastor.

Adão deixou sua esposa em prantos e subiu ao Monte para buscar entendimento quanto ao que deveria fazer. No entanto, foi surpreendido por uma bela mulher de tez negra e viçosa que, despida diante dele, dizia ser sua primeira esposa e, em gestos insinuantes e palavras ameaçadoras, questionava suas crenças e opunha-se a suas certezas. 

Ela parecia saber do paradeiro de Abu e, por isso, o patriarca temia que fosse ela a responsável pelo desaparecimento do pastor.

Atordoado, Adão desceu do altar decidido a proteger seus filhos daquela ameaça. No entanto, Caim, seu primogênito, não estava no assentamento e ninguém sabia de seu paradeiro.

“Como não sabeis onde está vosso irmão depois do que sucedeu a Abu? Ainda não percebestes o perigo que corremos neste mundo escuro e triste que habitamos? Esta é uma terra hostil, e cada um de nós é o maior tesouro que o outro possui. Afinal, se perdermos uns aos outros, que valor terá nossa própria existência?

Em face dos últimos acontecimentos, já não teremos mais um único pastor no Vale; de modo que todos tornam-se, por decreto solene, pastores uns dos outros. Não para julgar um ao outro, mas para demonstrar interesse genuíno, que é a força maior que nos une. Afinal, somos todos guardadores de nossos irmãos, e se descuidarmos uns dos outros responderemos com mais sangue inocente sendo derramado pelo caminho. 

E guardaremos registro de toda ação, palavra e pensamento a fim de que nada seja feito às escuras entre nós.

Ouvi-me, meus filhos, pois isto vos falo para vossa proteção e proveito.”

Assim que Caim desceu do monte, Adão foi ter com ele em seus aposentos.

“Caim, de onde vens?”

“Subi ao Altar dos Sacrifícios para buscar orientação do Altíssimo.”

“Por que não vieste primeiramente a mim?”

“Não estavas no arraial, meu pai.”

Ora, Adão havia acabado de descer do monte e temeu que Caim tivesse cruzado o caminho da estrangeira.

“Não deves subir ao altar sem a minha presença. Nem deves deixar o Vale sem que teus irmãos saibam de teu paradeiro.”

“Meu pai, sempre disseste que aquele solo é sagrado e que nada impuro pisaria os degraus daquele altar. Não deveria ser seguro um lugar de tal natureza? Por que não devemos subir ao Monte dos Sacrifícios sem a tua companhia?”

“Em dias nublados, Caim, a luz do Sol sempre encontra alguma fresta para iluminar nossos caminhos; mas, chegando a noite, as trevas prevalecem e, sem a Lua ou as estrelas no céu, vagamos errantes, e nenhum caminho é seguro.

Vivemos a noite de nossos tempos. E é uma noite com muitas nuvens no céu. Portanto, cabe a quem possui a candeia de azeite garantir que todos sejam igualmente iluminados por ela.”

“Sei que tu portas o castiçal, meu pai, e com a luz que dele emana me iluminaste todos os dias de minha vida. Se pedes que eu não suba sozinho ao Monte, eu não subirei. Mas intriga-me a natureza e origem do azeite que alimenta o fogo dessa candeia. 

Por que o Altíssimo nunca se revelou a mim nem a nenhum de meus irmãos como faz a ti? Por que Ele não te alertou do perigo que Abu corria nos pastos verdejantes por onde levava os seus rebanhos?

Disseste que Ele nos deu três grandes mandamentos no princípio dos tempos. ‘Crescei, multiplicai-vos e enchei a Terra’, não foram estas as palavras que ouviste de Sua boca? Como haveremos de crescer e produzir boas obras se nossos passos e pensamentos são sempre podados por tantas leis? Como haveremos de nos multiplicar se não podemos dispor de nossos corpos entre os de nossa própria casa como fazem os animais quando movidos pelo impulso de sua natureza? E como haveremos de encher a Terra quando, ao invés de nos espalharmos, construímos muralhas entre nós e o mundo, isolando-nos neste arraial?”

“Tuas perguntas excedem o meu entendimento, meu filho, mas certamente não escapam à ciência Daquele que tudo sabe.”

Havia uma certa apreensão nas palavras do patriarca. 

Caim pôs-se a pensar no que a mulher de muitos nomes lhe dissera a respeito de seu pai.

“Conheço as leis de nossa casa. Sei que, com o desaparecimento de Abu, recaem sobre mim as bênçãos e encargos da primogenitura. E foi por esta razão que subi ao monte. Ajoelhado diante do altar, intentava clamar ao Altíssimo que tirasse de meus ombros este pesado fardo, afinal, Abel é muito melhor pastor do que eu, e não seria justo que eu tomasse seu lugar no pastoreio. Ademais, Abu, que era muito melhor pastor que todos nós, falhou em sua vigília e foi devorado pelas feras do campo.”

“Não sabemos o paradeiro de teu irmão.”

“Encontrastes sangue derramado pelo caminho. Que outra prova ainda buscais?”

“O que temes, meu filho?”

“Temo por vosso bem-estar. Temo que eu não seja a melhor escolha para cuidar desta tarefa que foi imposta sobre mim sem considerar minha capacidade de levá-la a efeito. Sou um homem da terra. Tubérculos, ervas, grãos e frutos são o quinhão que me cabe ofertar a vós.”

“Tua mãe e tuas irmãs já se ocupam desta tarefa.”

“Elas precisam de um braço forte para arar a terra.”

“Meu filho, diz-me o que está em teu coração e eu te ouvirei.”

“Já te disse tudo o que me aflige.”

“Se assim o fizeste, tua oferta será aceita. No entanto, não cabe a mim julgar teus anseios, porquanto homem algum sabe ao certo o que consome o coração daquele que esconde do olhar alheio suas mais secretas feridas.”

Após arrazoarem, Adão permitiu que Caim continuasse se ocupando do plantio, desde que não hesitasse em acompanhar seu irmão Abel no pastoreio, porquanto, dali em diante, todos naquele arraial deveriam andar de dois em dois pela Terra, a fim de que um pudesse servir de ajuda e proteção ao outro. 

De modo que Adão reuniu todos os seus filhos e fez-lhes saber sua vontade. E anunciou também a construção daquela espaçosa Palestra onde as novas gerações seriam instruídas em todas as palavras de sabedoria que o Altíssimo lhes havia revelado, bem como no conhecimento das coisas naturais e dos astros, das artes e dos ofícios, dos jogos e dos cálculos, e da universidade do conhecimento em que se firmariam toda a engenhosidade, vigor e talento que aquela nova raça seria capaz de produzir sobre a Terra.

E antes que chegasse a chuva e o frio, cavaram os alicerces e firmaram as pedras angulares, de modo que o novo e espaçoso edifício começava a ganhar corpo no Vale. 

Havan e Azura eram as mais engenhosas dentre todos os filhos de Adão. Juntas, elas se completavam em tudo o que faziam. Quando Azura arriscava com um graveto o projeto de uma nova estrutura, Havan sabia onde encontrar os materiais para a execução dos traçados da irmã e aventuravam-se nos bosques além das margens do Rio a fim de conseguirem madeira de qualidade, minerais para a fundição, fibra para as cordas, e tudo o que lhes fosse útil para realização de suas obras.

Enquanto cortavam eucaliptos para a construção de uma estufa, ouviram um choro de infantes que parecia vir das águas do Pison.

Elas correram na direção do choro e avistaram duas crianças presas entre gravetos e pedras no leito do rio.

Havan saltou nas águas bravias com uma corda amarrada à cintura, e nadou até os gravetos. Azura passou a outra ponta da corda pelo galho de uma árvore seca e atou-a a uma rocha mais à frente. 

Com uma cunha, deslocou a rocha de seu lugar, de modo que Havan foi arrastada pelas águas com as crianças em seus braços até a margem do rio.

As duas desataram o jugo dos curelons e, deixando a pilha de eucalipto num descampado junto às margens do rio, correram para o assentamento levando os infantes consigo.

Todos ficaram alvoroçados com o aparecimento daquelas crianças e cada um arrazoava a seu modo sobre quem seriam seus progenitores e que motivos pais tão cruéis poderiam ter para lançá-los à morte nas fortes correntezas do Pison.

Caim não acreditou nas palavras de seu pai quando o patriarca se levantou no meio do arraial e, erguendo os infantes perante os olhos de todos, disse que aquele era um sinal da providência divina.

Adão deu ao menino o nome de Hapi e à menina deu o nome de Nod, e ambos cresceram no Vale como se fossem filhos de sua casa.

Como os outros infantes, Hapi e Nod foram iniciados nas salas de instrução, cujas paredes eram decoradas com cenas do cotidiano e regras de conduta. Ali, aprenderam a língua de seus pais, bem como todas as artes e cálculos que até então eram do conhecimento dos filhos dos homens; leram as palavras de sabedoria dos mais velhos e aprenderam a escrever suas próprias crônicas e provérbios para aqueles que viriam depois deles; foram apresentados às harpas e flautas, tambores e tamborins, e fizeram grandes festividades no arraial.

Nas festividades, os aprendizes que mais se destacavam nos jogos combatiam entre si e eram coroados com guirlandas. 

E todos dançavam em torno da fogueira enquanto bebiam do vinho que Caim lhes ensinara a produzir.

A depender das necessidades do arraial, cada um recebia instruções específicas de mestres mais experientes, a fim de servirem ao seu lado em suas tarefas diárias.

Hapi ajudava Caim no cultivo das videiras e Nod auxiliava Abel com a ordenha dos rebanhos.

Além de servir no pomar, Hapi dedicou-se à arte da transmutação dos elementos e, numa moenda construída por Havan a Azura, misturou areia branca, cobre e natrão, triturando-os para conseguir um pó miúdo que foi queimado na fornalha de Adranon até que ganhasse uma pigmentação semelhante ao azul do firmamento num dia sem nuvens.

Tingindo a pele com aquele pigmento, saltava diante de todos dizendo ter caído dos céus nas águas do Pison. 

Hapi era um belo rapaz. E não demorou para que, longe dos olhos dos anciãos, ele começasse a seduzir as filhas de Adão, que foram cedendo, uma a uma, aos seus encantos. Ele dizia-lhes que ninguém ficaria sabendo e que estavam apenas experimentando o guisado antes que ele fosse servido à mesa do banquete. Afinal, que mal havia nisso? 

Quando Adão descobriu o que acontecia sob suas barbas, mandou chamar o transgressor apressadamente à sua presença.

“O que foi isso que fizeste, Hapi? Recebi-te em minha casa como se fosses meu filho, no entanto, zombaste das leis deste arraial como um estrangeiro em nosso meio.”

“Não foste tu que me ensinaste que tua transgressão te deu uma melhor compreensão das obras do Criador?”

“Admites, então, ter transgredido?”

“O que chamas de transgressão, eu chamo de libertação. Ademais, como esperas que tuas filhas se multipliquem pela Terra conforme ordenou-vos o Deus de vossa casa? Não fiz nada além do que percebi ser necessário fazer.”

“Começo a pensar que cometi um erro ao te designar como servo de Caim em suas vinhas.”

“Caim nada tem a ver com isto, meu pai.”

 “De fato, Caim foi apenas um joguete nas mãos daquela que arquitetou esta tragédia que ora se abate sobre minha casa, aquela que te carregava em seu ventre quando veio a mim para plantar a semente da discórdia neste arraial. 

Fui um tolo em esperar que o fruto de uma oliveira brava pudesse dar bom azeite.”

“Conheces, então, o paradeiro de minha mãe?”

“Se fosse conhecedor do paradeiro de tua mãe, saberia o que sucedeu ao meu filho Abu, que há tanto desapareceu de nosso meio. Não é dela, no entanto, que estamos falando, mas sim dos atos ímpios que cometeste neste arraial, maculando a mais sagrada dádiva que o Altíssimo nos concedeu.”

“Agi conforme a minha natureza e não vejo mal algum em tê-lo feito. Afinal, de que nos vale aprender tanto sobre o arbítrio do homem — esta sim, a dádiva maior — se quando agimos conforme a nossa vontade, tais atos são tidos como impróprios, e dignos de punição?”

“Quisera que teus olhos pudessem ver, mas estás cego como tua mãe.”

“Conheço a lei e sei que serei banido de vossa presença assim como fostes banidos da presença de vosso Pai quando comestes do fruto proibido. No entanto, se levardes a efeito tal punição, a quem dareis vossas filhas em casamento, aos seus irmãos de sangue?”

“Não me cabe questionar os desígnios do Altíssimo.”

Naquela noite, Hapi foi banido do arraial.

Antes da execução de sua sentença, no entanto, ele convenceu duas das filhas de Adão a partirem consigo. 

Naquele mesmo momento Adão havia ido aos aposentos de Nod para perguntar-lhe se ela permaneceria leal à sua casa, ou se seguiria com os dissidentes. Nod escolheu ficar, mas seu coração temia pelo destino de seu irmão.

Enquanto todos dormiam, Luluwa e Aklia deixaram o arraial levando mantimentos, sementes e cordeiros, e atravessaram o leito do rio em pequenas embarcações.

Quando raiava o sol, um mancebo que servia ao lado de Hapi nas vinhas de Caim veio ter com eles na outra margem do rio. O mancebo comunicou-lhes que, embora seu mestre fosse o primogênito, Adão havia prometido Nod a Abel, como sinal de sua aliança, o que despertara a revolta de Caim.

Hapi não queria deixar sua irmã no Vale, mas Luluwa e Aklia convenceram-no de que seria mais sensato que partissem apressadamente, porquanto, o patriarca não tardaria a enviar os rastreadores em busca deles.

E dali rumaram todos para o oriente.

6 de março de 2017

Antígona EnTerra

06 março Escrito por Eliude Santos 2 comentários
O atualíssimo texto grego de Sófocles na boca e no corpo dos atores do Núcleo de Pesquisa M4 ganha substância performativa quando a diretora Carolina Angrisani decide, em suas próprias palavras, aceitar o “desafio de trabalhar a performatividade num texto clássico sem perder o caráter trágico da obra.”

No início da peça, a plateia é conduzida pelas escadarias da Praça Roosevelt, ocupando o espaço público, onde se dá a primeira cena: a guerra entre Polínices e Etéocles. A imprevista intervenção militar (que não estava no roteiro) querendo barrar a apresentação do espetáculo deixou o clima tenso para a plateia que não sabia se entrava no jogo ou se recuava. 

Finalmente, numa roda de danças ritualísticas no meio da praça, a plateia é convidada a misturar-se ao elenco como que num ato de resistência aos mandos e desmandos de ditadores de direita que querem calar as expressões artísticas e os direitos naturais do cidadão comum.

A plateia, que acabou de participar de um ato de resistência política, é conduzida ao saguão no subsolo da Estação Satyros, e tem a opção de deixar-se corromper pelo discurso convincente do tirano Creonte, bebendo do “vinho da cumplicidade” que ele lhes oferece, ou de recusar a oferta tentadora, mantendo a dignidade intacta e reconhecendo o vilão diante de si. 

Afinal, é de resistência que fala este brilhante texto grego, que nunca foi tão atual e tão brasileiro. 

Antígona, canta por seus direitos. Creonte cospe suas verdades articuladas em discursos vis e debochados, nas justificativas de seu abuso de poder e ações repressoras. E, num punhado de terra, o ciclo da tragédia se fecha. Um punhado de terra que representa a dignidade, esta virtude humana que muitos vendem por tão pouco, e que outros tantos calam por medo ou diante da sensação de impotência.

Mas o tempo passa e o povo começa a erguer sua voz e até os próprios oráculos, os próprios veículos de massa que outrora ajudaram a erguer o tirano, proclamam a sua queda. Na voz dos Cães de Tirésias, a célebre frase, “O povo fala. Por mais que os tiranos apreciem um povo mudo, o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semi-escuridão, mas fala.”

Aquela batalha emblemática do início da peça não se trava de fato com armas somente, mas com a voz. A objeção torna-se, portanto, a essência dos movimentos emancipatórios. A mulher que não aceita o papel de submissa, o filho que rompe o ciclo doentio de autoritarismo e injustiça de seus pais, o povo que não aceita o papel de cúmplice de seu próprio algoz, todos erguem sua voz, pois o decreto não pode violar as convicções íntimas do indivíduo quando estas são alicerçadas em valores superiores ao do regime que lhes subjuga.

Antigona EnTerra está em cartaz no teatro Estação Satyros todo domingo às 18h

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 134 - Centro, São Paulo
Capacidade da sala: 50 lugares
Entrada: R$ 30,00 

Direção: Carolina Angrisani
Elenco: Regiane Malta (Antígona) , Jefferson Campos (Creonte jovem), Waltinho Ribeiro (Creonte velho), Gerbson Ferreira (Polinices), Anderson Sales (Etéocles), Kris Mariano (Ismênia), Danilo Borges (Soldado), Clau Siqueira (Eurídice), Sarom Durães (Hémon), Verena Cervera (Tirésias), Anderson Sales e Ewerton Morais (Cães de Tirésias), Yuri Garcia (mensageiro), Rafael Pires (corifeu)

Os atores participaram da concepção musical do espetáculo e tocam ao vivo num ritmo vibrante de tambores e violão.