27 de janeiro de 2008

A Alegoria da Caverna

27 janeiro Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Quando aos 13 anos li "A República", de Platão, um trecho muito interessante de seu diálogo com Gláucon me chamou à atenção. É conhecido como "A Alegoria da Caverna" e fala de como a ignorância pode impedir-nos de reconhecer e essência da vida.
    Platão, República, Livro VII, 514-517a.C.
    Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, em relação à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles. – Estou vendo– disse ele.
    – Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
    – Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
    – Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
    – Como não– respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
    – E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
    – Sem dúvida.
    – Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles se julgariam nomeando objetos reais, quando designavam o que viam?
    – É claro.
    – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
    – Por Zeus, que sim!
    – De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
    – É absolutamente claro – disse ele.
    – Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
    – Muito mais – afirmou.
    – Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
    – Seria assim – disse ele.
    – E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
    – Não poderia, de fato, pelo menos de repente.
    – Precisava habituar-se, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
    – Isso mesmo!
    – Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
    – Precisamente.
    – Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
    – É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
    – E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
    – Com certeza.
    – E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
    – Suponho que seria assim – respondeu – que, por vontade própria, ele sofreria tudo a viver daquela maneira.
    – Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas ao regressar subitamente da luz do Sol?
    – Com certeza.
    – E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
    – Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
    – Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.
Desde que li este diálogo, minha compreensão a respeito da verdade e da vida foi ampliada. Não posso me permitir ser um homem passivo da caverna que interpreta como verdade somente o que me é apresentado pela sombra de outros.

4 comentários:

  1. O mito da caverna da papo pra mais de metro!!
    Também conheci esse trecho ainda adolescente.
    Amo filosofia!!

    ResponderExcluir
  2. Tbm adoro filosofia! E o mito da caverna é sem dúvida minha alegoria preferida.

    ResponderExcluir
  3. sempre tive dificuldades pra entender esse mito da caverna!!!

    ResponderExcluir
  4. Quando não sabemos alguma coisa de fato, vivemos no "pré"conceito. Um conceito criado pela "sombra" dos que vieram antes de nós mas que embora reflita um pouco de verdade, não é a própria verdade.
    À medida que subimos para a luz, isto é começamos a ver as coisas como de fato são (e não mais como "achávamos" que fossem), nos tornamos livres dos "pré"conceitos e das amarras que nos impediam viver de fato.
    Quando finalmente estamos livres, teremos prazer em compartilhar as verdades recém descobertas, mas não devemos estranhar que elas sejam mal recebidas, pois muitos não gozarão do mesmo patamar de entendimento que nós.
    Isso é o mito da caverna!

    ResponderExcluir

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.