5 de abril de 2015

A Descoberta dos Livros

05 abril Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Havia, em Nova Floresta, no antigo prédio da Prefeitura Municipal, uma pequena biblioteca, com cerca de dois mil livros.

Odete, minha primeira professora percebeu meu interesse pela leitura e apresentou-me a sua irmã, Detinha, que era responsável pelo espaço.

Não lembro qual foi o primeiro livro que li, mas sei que pouco antes de completar 15 anos, já não havia títulos naquela biblioteca que não houvessem sido lidos por mim. E alguns deles li mais de uma vez.

Me escondia na salinha de trás para ler títulos mais picantes como Nexus e Plexus, Perdidos na Noite ou Kama Sutra. Perdia noites de sono com os livros de Stephen King, e me encantava com as fábulas de Esopo, os livros de Monteiro Lobato, ou as aventuras de João Carlos Marinho. Me apaixonei pela habilidade literária de Machado de Assis e Clarice Lispector, e as poesias de Carlos Drumond de Andrade e Manuel Bandeira. Pegava os livros de arte e fazia cópias de grandes pinturas e desenhos. Adorava os traços de Gustave Doré e Albrecht Dürer. Aprendi a falar inglês, espanhol, francês e esperanto. Li sobre política, religião, história e filosofia. Me apaixonei por Platão e o Mito da Caverna. Virei ateu e libertino. Era-me prazeroso estar todas as tardes na companhia agradável de Detinha e seus livros. Em minhas viagens pela leitura alimentei minha fantasia, fiz grandes descobertas, percebi e desenvolvi muitos de meus talentos, e cresci.

Tamanha era minha amizade com o livros, que passei a acompanhar a bibliotecária de sua casa ao seu trabalho, só para ser o primeiro a entrar naquele que se tornou o santuário de minha infância.

Ela e sua família, entusiasmados com minha precoce tendência para as leitura e as artes, incentivaram-me a fazer os meus primeiros esboços, semelhantes aos mais corriqueiros entre as crianças de minha idade. Entretanto, motivado por seu entusiasmo, comecei a dar forma aos meus tracejos, na tentativa de atender às suas expectativas.

Me viciei nas charges engraçadíssimas dos periódicos da época, nas palavras cruzadas que Dona Nazaré e Dona Nita sempre vinham nos ajudar a completar.

Dona Nita era a avó do meu melhor amigo de infância, Erick. Quando eu não estava na biblioteca, estava em sua casa brincando. Mas quando os pais de Erick mudaram de cidade, passamos a nos ver só nas férias. Ele também gostava muito de desenhar e tinha uma pegada sarcástica que eu admirava muito. Mas eu acabei me inspirando nos clássicos e no exercício da correção, fui-me aperfeiçoando até aproximar-me do nível desejado. Aos poucos fui desenvolvendo o respeito pela forma e aprendendo a reconhecer as imperfeições, corrigindo os detalhes menos perceptíveis.

Na biblioteca, fiz vários amigos e, muitos deles eram engajados em alguma atividade artística. Dona Nazaré me falou que sua filha estava participando de um grupo de teatro que estava começando na cidade e acabei indo fazer um teste e fui aceito no grupo.

Da literatura ao desenho, do desenho à pintura, da pintura ao teatro: percebi desde cedo que a boa arte estimula os sentidos e enobrece o espírito. Envolvido num mundo de fantasia, encontrava na arte a beleza e harmonia que não enxergava, ou não me esforçava por enxergar, no mundo ao meu redor.

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