4 de abril de 2015

E Meus Olhos Se Abriram Para a Luz Desta Terra

04 abril Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
No dia 06 de Agosto de 1978, meus olhos se abriram para a luz desta Terra. Pais terrenos inexperientes mas cheios de esperança me receberam em seu lar com grande alarde.

Ele era um boêmio recém casado, apaixonado pela esposa, mas dividido entre as responsabilidades do lar e as farras com os amigos. Ela, uma adolescente inexperiente que fôra criada por pais muito rígidos e enxergara no casamento uma oportunidade de fuga da casa paterna: uma liberdade que não seria alcançada naquela aliança e que traria sérias consequências para todos os envolvidos.

A ausência de atividade sexual do casal nos últimos meses que precederam meu nascimento, as alterações biológicas no corpo de minha mãe, suas alterações de humor cada vez mais frequentes: Graça já não era mais a menina formosa por quem Nadim havia se atraído nos bailes Suarês da cidade. Assim como ele estava longe de ser o cara charmoso e "bem de vida" por quem ela havia se apaixonado: agora ele chegava em casa com bafo de cachaça das tardes e noites nos bares da cidade e de cidades vizinhas tirando no palito quem pagaria a próxima rodada de cerveja, as roupas fedendo a mijo de cavalo e as botas deixando um rastro de barro e estrume na casa que ela tinha acabado de limpar, uma casa que não era dela, pois a mãe dele já vinha enfrentando problemas no casamento e ele não tinha coragem de deixá-la sozinha com seu pai.

Graça era constantemente afrontada por uma sogra exigente e uma cunhada ciumenta, que desmereciam todos os seus esforços para ser bem aceita no novo lar. Não que ela fizesse muitos esforços, pois muitas vezes, preferia devolver na mesma moeda o tratamento que recebia. E o clima era de constante desconforto.

Mas quando se aproximavam do berço, tudo isso desaparecia. Nos meus primeiros anos de vida, fui amado e rodeado de atenção, carinho e cuidado. A dedicação dos que desde cedo cuidaram de mim ensinou-me mais do que qualquer outra lição que eu poderia aprender durante minha vida.

Já meu irmão não teve a mesma sorte. Ao contrário da minha gravidez, a dele não havia sido planejada ou sequer desejada. Quando Nadim soube que eu havia nascido, bebeu como nunca antes para comemorar o nascimento de seu primogênito. Também estava comemorando o fim de um jejum que já durava meses.

Com força e bafo de Velho Barreiro, o resguardo de Graça foi quebrado. Mal dera à luz ao primeiro filho, já estava grávida do segundo. Meu irmão nasceu nove meses depois do meu nascimento.

Rejeitado desde o berço, Hércules chorava constantemente e tornou o clima de desconforto que já existia na casa cada vez mais pesado.

Impotentes, eu e ele assistimos a dolorosa separação de nossos pais, pouco antes de um ano depois.

A vaidade, os ciúmes e a falta de perspectiva de vida do jovem casal, aliados a um ambiente cultural avesso à empatia e ao diálogo contribuíram para a destrutiva decisão.

Não muito tempo depois, também meus avós paternos se separaram. Bígamo e pressionado pelas duas esposas por uma decisão, meu avô acabou optando pela outra. Embora tenha continuado por muitos dos anos subsequentes a fazer visitas sexuais a minha avó que nunca perdeu a esperança de reconquistá-lo algum dia.

Desde então, e durante muito tempo, tanto meu pai quanto minha mãe afogaram-se em desventuras que lhes sugaram a essência e azedaram a alma. Meu pai entregou-se ao vício para fugir da realidade que o consumia e lhe era tão difícil de enfrentar. Minha mãe procurou esquecê-lo noutros relacionamentos que não deram certo.

Minha vó foi-se vendo derrotada em todas as suas batalhas e acabou se aprisionando primeiro dentro de sua própria casa e depois dentro de seu próprio corpo, rendida diante de uma vida que não lhe permitia manter perto de si as pessoas que amava.

Entretanto, as grandes vitórias do inimigo de nossas almas são revertidas segundo a sabedoria Daquele que tudo conhece para levar a efeito Seu grande Plano de Felicidade. E isto se provará mais adiante, revelando a infinita bondade e eterna misericórdia desse amoroso Pai que sempre está à nossa frente, preparando-nos o caminho e endireitando nossas veredas.

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4 comentários:

  1. Nossa meu amigo, emquanto lia seu artigo,parecia estar vendo tudo.Muito bom parabéns!

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