4 de abril de 2015

Em Outras Mãos Reconheci Outras Mães

04 abril Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Entre ser mulher e ser mãe, Graça optou por ser mulher. Ela não queria ficar em casa cuidando dos filhos, ela queria sair e ganhar o próprio dinheiro para não depender do marido, afinal, se quisesse ter a "vida boa" que ela sempre sonhou, com certeza, ela mesma teria que ir atrás.

Ela percebeu que se dependesse dele, eles nunca sairiam da casa da sogra e ela precisava fazer alguma coisa para sentir-se viva, afinal, não tinha saído da prisão da casa de seus pais para entrar em outra. Quando chegaram em Várzea Nova, ela fez amizade com algumas pessoas que trabalhavam em feiras livres na região e juntou-se a eles.

Estamos falando de uma época e uma região em que as mulheres eram preparadas para ficarem em casa cuidando dos maridos e dos filhos, e certamente aquela iniciativa de minha mãe não cairia em bons olhos.

Logo, todos na cidade começaram a falar. Um dos tios de minha mãe passou num restaurante de beira de estrada e a viu numa das mesas com um caminhoneiro, conversando e bebendo. O caminhoneiro fazia o transporte dos expositores da feira, mas o tio dela já pensou que ela deveria estar de caso com ele. E veio com uma arma e deu a meu pai para que ele fosse lá no tal restaurante lavar a honra dele e da família.

Meu pai não aceitou a arma, mas esperou minha mãe voltar. Quando ela chegou, cansada, mas ainda meio bêbada, ele perguntou por onde ela tinha andado. Ele também havia bebido o dia inteiro. Ela explicou que estava trabalhando e ele disse que sabia de tudo.

Ela já imaginou que tivessem ido dizer-lhe que ela saíra com o pessoal da feira depois do trabalho e perguntou se ele não confiava nela. Ele disse que tinha confiado até aquele momento, mas agora já não sabia de mais nada. Ela disse que não permaneceria casada com alguém que não confiasse nela e saiu de casa.

Ela foi até a casa do caminhoneiro e pediu para passar a noite, mas ele sabia a confusão em que se meteria se lhe desse abrigo e disse que ela não poderia ficar. (Dizem que ele só lhe disse isso depois que virou-se na cama para acender um cigarro.)

Ela voltou, pegou a mim e ao meu irmão e foi para a casa de seus pais. Eles eram pastores de uma igreja evangélica e não queriam se tornar motivo de chacota em sua igreja. Disseram que ela não poderia ficar lá. Ela voltou conosco e nos deixou na casa de nossa avó paterna e seguiu seu rumo.

Ela estava grávida. (Dizem que não sabia se era de meu pai ou do tal caminhoneiro, mas uma mulher sempre sabe! -- como não sou mulher, reservo seu direito a ter suas dúvidas e certezas naquele momento de crise). Estava na rua e achou que a melhor solução seria abortar. Mas se arrependeu depois que tomou o chá de ervas que provocaria o aborto. Ela tentou reverter de todas as maneiras que dava. O bebê acabou morrendo dentro de seu útero e o corpo não o expeliu. Ela começou a definhar e foi acolhida por um médico que acabou fazendo uma cirurgia que lhe salvou a vida.

Na mesa da cirurgia ele perguntou se ela acreditava em Deus, porque se acreditasse, ela deveria pedir ajuda de alguma forma, porque ele mesmo não acreditava que ela sobreviveria aos procedimentos. Ela lembrou-se de seus pais que a amaldiçoaram quando ela foi expulsa de casa, se lembrou da vida que tinha ao lado de um marido que a amava muito, mas que não conseguia ser o homem que ela sempre sonhou ter. O que tinha saído errado? Por que ela não podia ser como as outras mulheres, conformada em sua vidinha simples? Era aquele um pecado tão grave que teria que pagar com a própria vida?

Ela não morreu. O feto em decomposição foi tirado de seu ventre. Ela sumiu da cidade e passaram-se muitos anos até que eu a visse novamente.

Eu e meu irmão ficamos sob os cuidados de nossa avó paterna e sua filha mais velha. Essa minha tia, que nunca teve marido ou filhos, cuidava de nós como se fôssemos seus. Seu grande amor e carinho são preciosas lembranças de minha infância.

Lembro-me da voz suave ao lado da cama prometendo que a dor logo passaria; da voz enérgica que encerrava alguma traquinagem; da voz preocupada e desalentada diante dos desafios enfrentados pela família; da voz orgulhosa que reconhecia meus sucessos...

Sempre gostei de ouvi-las narrar orgulhosamente como eu sempre demonstrara uma inteligência incomum desde os primeiros meses de vida.

Com o tempo, comecei a chamar minha avó de mãe e a considerar minha tia como uma irmã mais velha, e o mesmo sentimento se estendeu ao meu pai. Ele era o irmão desajustado que perdera a esposa e depois se entregara ao álcool como se aquilo fosse de alguma maneira restaurar-lhe a paz. Ele bebia todos os dias e às vezes eu ia até os bares para implorar que ele parasse, ou para conduzi-lo enquanto ele cambaleava no caminho de casa.

Tendo pais separados, avós separados e estando eu mesmo separado intelectualmente de todos eles, meu conceito de família começou a sofrer alterações.

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