4 de abril de 2015

Esaú e Jacó

04 abril Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Porque tínhamos a mesma idade durante três meses do ano e porque sempre andávamos vestidos com roupas semelhantes e porque estávamos sempre juntos, muitas pessoas achavam que eu e meu irmão éramos gêmeos, apesar das claras diferenças físicas entre nós: meu irmão era mais alto apesar de ser mais novo, tinha cabelos encaracolados e dourados, olhos verdes e o corpo levemente peludo; eu tinha cabelos escorridos e um pouco mais escuros, a pele mais clara e livre de pelos. Ele tinha o nariz pequeno e empinado com um maxilar mais largo e covinhas charmosas no queixo e nas bochechas; já o meu maxilar era retraído com nariz adunco. Eu me sentia um patinho feio perto dele. E acho que eu tentava compensar de algum modo com uma maturidade que eu me forçava a ter, já que a figura paterna estava sempre ausente ou de algum modo distorcida.

Nos primeiros anos de nossa infância e até entrarmos na escola, meu irmão era meu grande companheiro de brincadeiras e travessuras inocentes. Depois disso vieram as brigas constantes. Não concordávamos mais em nada, minha avó sempre nos lembrava de quão unidos eram nosso pai e nosso tio quando tinham nossa idade. Mas, tais comparações em nada ajudavam. Na verdade, nunca acreditamos muito nos exemplos que ela citava.

Eu e meu irmão éramos muito diferentes. Havia uma certa inveja de minha parte da facilidade com que ele fazia amigos, de como a música parecia exalar dos seus poros. Mas eu sabia que ele também odiava o fato de todos nos compararem, do modo como todos elogiavam minha inteligência ou meu bom comportamento, de como todos sempre queriam que ele agisse como eu. No fundo, brigávamos porque era a única maneira que achávamos de ter alguma espécie de contato, já que em nada mais nossos interesses coincidiam.

Quando eu tinha entre sete e oito anos, por influência de uma vizinha, comecei a ler a Bíblia. Ela me convenceu a ir para a sua igreja oferecendo-me algumas balinhas e eu acabei me interessando pelas Escrituras, embora tenha considerado muito equivocado o discurso de ódio do ministro religioso.

Descobri na Bíblia a história de muitos irmãos gêmeos, ou quase gêmeos como nós, e suas histórias de rivalidade.

Sempre achei fascinantes as selhanças entre nossa história e a de Esaú e Jacó, principalmente porque, na época, nosso pai começou a criar ovelhas e meu irmão, como Esaú, gostava de auxiliá-lo no pastoreio. Ele gostava do campo e acompanhava meu pai e meu tio em tudo o que faziam. Meu tio era músico, e meu irmão começou a acompanhá-lo aos ensaios da filarmônica da cidade e ainda bem jovem aprendeu a tocar vários instrumentos.

Meu tio tocava clarineta e sax e era maestro da filarmônica. Ele amava dar gargalhadas com a clarineta pra nos fazer rir. Ele era muito brincalhão e nós o adorávamos. Mas era meu irmão que sempre estava com ele e com meu pai. Era meu irmão que gostava de acompanhá-los nas xarangas de carnaval, que se juntava nas rodas de amigos enquanto eles bebiam e falavam essas coisas que os homens gostam de falar quando se juntam para beber.

Eu era o Jacó da história. Não suportava o cheiro da bebida, não gostava de cuidar das ovelhas e dos bodes, e gostava ainda menos quando as via sendo levadas ao abatedouro. Agradava-me ficar em casa com minha avó e minha tia. E, com elas e por ficar em casa, aprendi a cozinhar e desenvolvi o hábito da leitura.

Apesar de meus esforços para manter a proximidade com meu irmão e, mesmo sabendo que ele sempre teve grande apreço por mim, nossos interesses acabaram traçando caminhos tão distintos que não demorou a também nos separarmos completamente, seguindo o curso natural de nossa família.

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