10 de abril de 2015

A Gênese da Consciência

10 abril Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Foi por volta dos oito anos de idade que, enquanto brincava nas escadarias da igreja católica no centro da cidade, vi um anúncio para inscrição no catecismo. Um ano antes, eu havia frequentado as reuniões de um culto sabatista por influência de uma vizinha muito simpática que nos oferecia bombons se fôssemos com ela aos cultos de sua igreja.

Embora me sentisse à vontade entre as outras crianças e admirasse o conhecimento dos mestres religiosos em suas enérgicas pregações, assustava-me o desrespeito que tinham por outras crenças ou mesmo pelas pessoas que seguiam outros ramos da fé cristã ou pagã.

Nesta mesma época, tinha duas amigas na escola, Iranaí e Eridã, uma protestante congregacional e a outra evangélica puritana, que viviam em constante debate a respeito de suas divergências religiosas, nunca concordando qual era o Testamento mais relevante da Biblia, ou que práticas eram consideradas pecado ou não.

Interessado em saber por mim mesmo quem de fato defendia a verdade, comecei a ler a Bíblia, que era o único livro que tinha na casa de minha avó. E inscrevi-me para as aulas de catecismo.

Encantou-me a voz mansa e gentil de minha professora, Socorro. Ela falava-nos com verdadeira devoção sobre as coisas que o livro de catecismo ensinava. Embora eu amasse suas aulas, aos poucos comecei a perceber a fragilidade das crenças que ela defendia.

Pouco depois de completar dois meses de catecismo, parei de ir às aulas. Todos os meus primos fizeram a primeira comunhão juntos; eu, com minhas dúvidas e certezas, fiquei observando o ritual de longe.

Pulando algumas partes "chatas" de cronologia, terminei de ler a Biblia naquele mesmo ano. Com mais dúvidas do que quando começara a ler.

Comecei a criar minhas próprias respostas para as dúvidas que me consumiam. E aos poucos fui me tornando ateu. Eu não deixei de acreditar na existência de um ser supremo ou na imortalidade da alma do indivíduo, mas parei de acreditar em religiões. Percebi que todas eram muito contraditórias ou intransigentes. E preferi me manter à margem disso tudo.

Mas eu também era contraditório. Embora me declarasse ateu, estava ainda muito distante de desenvolver um conceito harmônico a respeito do assunto: a descoberta do pecado, a proximidade da virada do milênio, as frequentes notícias de guerras e doenças contagiosas se espalhando pelo mundo, associada à leitura de textos bíblicos assutadores a respeito dos últimos dias fizeram-me desenvolver um medo aterrador do "fim".

Perdi muitas noites de sono imaginando asteróides caindo do céu e destruindo tudo ao redor, ou guerras devastadoras assolando a terra. Mas nada me assustava mais que aquela doença que matava gays que estava começando a ser divulgada na televisão.

A confusão e medo gerados por aqueles conceitos que perturbavam minha mente foi-me de certo modo útil, pois só aumentou minha sede por conhecimento e, nos livros que devorei para aplacar esta sede, acabei conhecendo Platão, Nietzsche, Descartes, Sartre, Freud, Marx, Piaget, mentes que ajudaram a minha a se formar.

Aos treze anos, descobri as obras kardecistas e fiquei entusiasmado com tamanha lógica e precisão na maioria de seus ensinamentos. A teoria era-me muito atraente, mas a prática e alguns conceitos geravam uma repulsa que eu não conseguia de fato explicar porque sentia.

A dúvida foi uma alavanca importante para o desenvolvimento de minha consciência.

Não somente em aspectos religiosos, mas minha própria visão do mundo começava a definir-se. Eu já não me via como um habitante de uma cidadezinha ignorada pelo mundo, mas como um participante ativo e pensante desse mesmo mundo. Vi a queda do muro de Berlim; a luta no país pelo fim do regime militar; a ascensão do terrorismo; a guerra do Golfo; o Challenger explodindo no céu... E tudo isso causou grande impacto na minha visão da fragilidade da vida e da liberdade do homem.


http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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4 comentários:

  1. Esse post me fez lembrar da minha época de catecismo. Creio que todos temos os mesmos questionamentos quando criança, e minha professora de catecismo não era nada agradável (nem de se ver, nem de se lidar... rs).

    Mas enfim, também encontrei meu caminho nessa vida, depois de vivenciar tantas coisas.

    Ótimo blog, cara!

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  2. ótimo post! Se mais pessoas seguissem tua vontade de conhecer as crenças e conceitos de terceiros, debaté-las de uma forma respeitosa, não havia tanta intolerância e preconeitos religiosos por esse mundo afora...

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  3. Fui alfabetizado em uma escola católica e desde criança já duvidava das verdades absolutas que nos eram dadas como verdade.

    Mesmo tendo notas suficientes pra passar de ano em quase todas as matérias, perdi e fui expulso da escola por causa do "ensino religioso" que mesmo infiltrado nas outras disciplinas tinha um tempo próprio.

    Enfim, a igreja católica acredita que temos que acreditar só no que eles dizem e infelizmente essa prática não é só deles, outras religiões partilham da "verdade absoluta".

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  4. Felizmente, desenvolvi um sentimento de empatia e respeito por todas as religiões. Não concordo com muita coisa, mas imagino que haja motivos para a existência de todas elas.
    Em futuras postagens volto a falar sobre minha busca pela verdade.

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