15 de abril de 2015

Minha Saída da Caverna

15 abril Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Eu tinha quatorze anos quando minha mãe apareceu novamente. Na época, eu estava fazendo minhas primeiras tentativas como escritor, usando uma máquina de escrever vermelha que ela tinha me dado de presente em sua segunda visita alguns anos antes.

Eu já falava inglês fluentemente (tinha aprendido sozinho vendo filmes em VHS legendados, e lendo livros na biblioteca).

Desde a sexta série, eu tinha parado de levar cadernos e livros para a escola. Percebi que prestar atenção ao que o professor explicava me fazia aprender mais facilmente que escrevendo. Em parte também porque, mesmo sentando na primeira fileira, já não enxergava claramente o que os professores escreviam, devido a um astigmatismo que se agravava em ambos os olhos.

Estudei em escola pública, mas tive professores excelentes. Lembro ainda com detalhes as aulas de Darlene, Geilza, Massilon, Ivete, Thelma, Jacilda, Gorete e Cida.

Meu pai havia casado novamente. Sua terceira esposa, Marinete, era uma mulher séria, diretora de escola, gostava de ter o controle da situação, e foi uma excelente influência para tirar meu pai da vida desregrada que levava. Ele parou de beber e começou a se dedicar mais ao trabalho.

No entanto, quanto mais meu pai entrava nos eixos, mais o meu irmão saia deles. Como eles trabalhavam juntos, meu irmão começou a ficar com o dinheiro que arrecadava dos clientes de meu pai. Passou a usar drogas mais pesadas e precisava do dinheiro para comprar essas drogas, e se tornou muito violento. Quando voltava bêbado de suas farras, todos ficavam com medo dele. Uma dessas vezes, ele chegou a atirar uma faca em mim que por pouco errou meu pescoço e espetou a porta. No dia seguinte, como um cordeiro, ele acordava sem lembrar de nada que tinha acontecido.

A situação foi ficando cada vez mais grave e ele mesmo teve a iniciativa de contatar nossa mãe e pedir para ir morar com ela sem mal conhecê-la. Mas eu o conhecia bem, e sabia que ele acabaria desistindo. Quando ela apareceu com a passagem de volta já comprada, ele sumiu de casa para não acompanhá-la.

Surpreendi-me quando vi-me embarcar com minha mãe para a sua casa na Bahia em lugar de meu irmão. (Fiz isso porque não achei justo que ela perdesse o dinheiro da passagem). Eu sempre fôra uma pessoa extremamente sensata e comedida. Apesar da pouca idade, era suficientemente maduro para pensar cuidadosamente antes de tomar qualquer decisão. Às vezes, pensava tanto que perdia muitas oportunidades. Eu não tinha motivos para partir com ela, mas também não tinha motivos para ficar. Meu pai implorou para que eu ficasse, sua esposa também, minha avó chorou muito quando arrumei as malas, e minha tia se escondeu pra não se despedir, mas eu disse que iria, e cumpri o que decidira fazer.

Agora estava numa casa estranha, numa cidade distante, morando com pessoas completamente desconhecidas para mim. A casa tinha um cheiro bom. Minha mãe tinha mania de limpeza. Mas Milton, seu esposo, trabalhava num posto de gasolina e quando chegava com as roupas cheias de gracha, eu percebia que isso a incomodava visivelmente.

Não demorei a entender o motivo de minha impulsividade: havia sido puxado por mãos invisíveis para fora da jaula dos pastores bravos; e pelas mesmas mãos invisíveis, empurrado para fora de minha Caverna de Platão.

Minha mãe, sempre vaidosa, ia com frequência a um salão de beleza perto de sua casa, o salão da Gil, uma moça que voltara recentemente de uma missão de proselitismo por sua igreja, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mais conhecida como igreja mórmon).

Gil amava sua religião e sempre tentava falar no assunto quando surgia uma oportunidade, mas eu raramente dava muita atenção. Especialmente porque eu achava que religiões eram todas tentativas humanas falhas de entender a natureza divina (se é que existisse alguma divindade real neste mundo ou fora dele).

Ela me convidou várias vezes para ir com ela às reuniões de sua igreja, mas eu sempre declinava o convite. Até que um dia, ela me pediu para fazer um cartaz para uma reunião de integração que aconteceria no salão cultural da capela da Kalilândia.

Eu fiz o cartaz e no dia da reunião, ela me chamou para ir junto. Eu, como sempre, disse que não iria e ela retrucou: "Como você pode fazer um cartaz convidando todo mundo para ir para uma reunião que você nunca foi?" Eu não tinha um contra-argumento para isso e acabei indo com ela.

A reunião foi super divertida, cantamos, brincamos, comemos. Nada daquelas pregações veementes que eu fôra acostumado a ouvir. Depois das atividades culturais, tivemos uma aula. Na aula, falaram de um livro escrito em placas de ouro na América Antiga e eu fiquei curioso a respeito do tal registro. Ela disse que possuia um exemplar, e quando chegamos na sua casa, ela mo entregou.

Li-o durante toda a noite, e no outro dia, e durante os dias que se seguiram. A leitura enchia-me a alma e respondia perguntas antigas que não calavam em meu peito. Perguntas que sempre tinha feito e para as quais nunca tinha achado respostas satisfatórias. Eu sabia que se aquele livro não viera de Deus, era sem dúvida a tentativa humana mais acertada de entender a mente divina.

Conhecer "O Livro de Mórmon" foi como deixar de olhar as sombras na caverna já citada e voltar-me para a luz do sol que projetava a sombra de objetos reais que eu podia tocar e sentir.

Entre outras coisas, o livro falava de uma Igreja que Cristo fundara na América antiga quando visitou aquele povo, pouco depois de sua ressurreição em Israel. Ele disse naquele continente que tinha outras ovelhas para visitar que não eram daquele aprisco e o povo do livro de mórmon eram algumas dessas ovelhas. Repetidas vezes, o livro falava sobre o batismo como requisito para ser aceito em tal Igreja e a porta de entrada para trilhar o caminho que nos levaria de volta à presença daquele Pai que nos havia criado, mesmo antes de nascermos nesta Terra.

Nunca estive tão certo de uma coisa quanto estava de que deveria batizar-me na tal Igreja.

Fui contar para Gil de minha decisão, mas ela não estava no seu salão de beleza. Encontrei, no entanto, os missionários da Igreja que estavam indo para sua casa. Eu os acompanhei. Gil também não estava em casa. Os missionários decidiram deixar uma mensagem com a mãe de Gil e eu os acompanhei na mensagem. Eles falaram sobre a "palavra de sabedoria" (uma lei de saude mórmon que sugere que os membros não façam uso de álcool, café, chá preto, cigarro e drogas ilícitas). Como eu sempre odiei álcool, cigarro e drogas, por causa das experiências que tive com meu pai e irmão, falei pra D. Vivi sobre como eu me sentia sobre aquela lei de saúde. Coincidentemente, eu tinha acabado de fazer um trabalho na escola sobre os malefícios do café e do cigarro, e compartilhei alguns dados que havia pesquisado. Eu disse por fim que tinha lido o livro e sabia que ele era um livro de origem divina e que estava disposto a me batizar na Igreja e ficaria muito feliz se ela fizesse o mesmo comigo.

Os missionários se entreolharam assustados. Dona Vivi disse que faria um esforço sim, mas claro que ela não estava dizendo a verdade. Ao sairmos da casa de Gil, eles me perguntaram se eu estava falando sério e eu disse que sim. Eles disseram que era preciso que eu ouvisse uma série de seis palestras, fosse entrevistado por um representante autorizado da igreja e, como eu era menor de idade, precisaria da autorização dos meus pais.

Eu disse que não havia lido nada disso no Livro de Mórmon, até citei uma situação no livro em que um missionário batiza mais de cinco mil pessoas num rio após fazer um discurso que moveu seus corações. Eles não sabiam o que fazer e me pediram que os acompanhasse à Igreja. Quando chegamos lá, eles falaram com um de seus líderes, ele chamou duas missionárias que fizeram em uma hora um resumo das seis palestras usando um flipchart.

Depois disso eu fui entrevistado por um dos missionários e ele disse que no dia seguinte eu trouxesse uma toalha e a autorização de meus pais.

Eu fui pra casa. Contei pra minha mãe e ela ficou louca. Falou que eu não faria isso de jeito nenhum. Disse que ela não autorizaria. Eu disse que não estava pedindo autorização, que estava apenas comunicando.

No dia seguinte, levei a toalha. Gil não estava na capela durante a reunião. Eu queria muito que ela assistisse o meu batismo. Fiquei triste que ela não estava, mas achei bom, pois eu sabia que aquela era uma decisão que eu havia tomado por mim mesmo e seria bom fazê-lo sozinho. Os missionários não me pediram a autorização de meus pais e eu também não falei nada a respeito. Fomos para a sala batismal. A reunião começou. Quando finalmente chegou a hora de me levantar para seguir para a piscina, Gil entrou na sala e caiu no choro.

Entre a noite em que recebi o livro das mãos de minha amiga e a tarde em que entrei nas águas do batismo, haviam-se decorrido somente quatro dias.

E assim deu-se o início de minha iluminação.

http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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2 comentários:

  1. Nossa em meio a N's blog parei aqui.
    Meu post atual tem tudo a ver com seus ultimos post.
    Mito da caverna.
    Confira o meu blog. Veja q coincidência.
    Abraços \o/

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