22 de abril de 2015

O Chiclete Escolheu por Mim

22 abril Escrito por Eliude Santos , 6 comentários
Passei um ano e seis meses em Feira de Santana. Minha mãe estava pela primeira vez depois de anos com um de seus filhos em casa e isso perturbou o equilíbrio da vida que levava com seu esposo até então.

Ela começou a fazer dívidas que não conseguia pagar, perdeu o interesse sexual no marido, e passou a fazer viagens cada vez mais longas quando saia com mercadorias para vender nas cidadezinhas das redondezas. Ele não aguentou o abandono e acabou traindo minha mãe com a moça que ajudava na limpeza da casa.

Minha mãe, que até então tinha pertencido ao candomblé, entrara em uma igreja evangélica e tentava mudar seus hábitos, seu círculo de amigos. O pastor da igreja que ela começou a frequentar sempre reclamava do fato de ela não ser legitimamente casada com Milton. Ela aproveitou a traição do marido para se separar dele.

Ele disse que não sairia da casa enquanto eles nao a vendessem. Ele queria a metade a que tinha direito. Minha mãe estava com medo que ele agisse de maneira violenta. O pastor se aproveitou da situação e ofereceu uma quantia absurdamente irrisória pela casa. Minha mãe aceitou a oferta e vendeu sua casa e entregou a metade nas mãos de Milton para que ele a deixasse em paz.

Mudamo-nos para a casa de sua irmã que ficava ao lado da que vendera. A casa ainda estava em construção. Ela encontrou um novo namorado. Ele veio morar conosco. Mas, ao contrário de Milton, ele acabou aumentando as despesas da casa.

Eu tinha concluído o ensino médio e estava na hora de pensar no vestibular. Eu não queria fazer faculdade na Bahia porque o ensino baiano se revelou imensamente inferior ao da Paraíba. Minha mãe já não estava mais querendo ficar na Bahia e tinha falado com sua irmã para ir para sua casa em São Paulo. Seu novo relacionamento já estava por um fio. Eu não queria acompanhá-la e disse que preferia voltar para a Paraíba.

Foi muito difícil deixar os amigos que fizera em Feira de Santana. Gil era como uma irmã. Ela me recebeu em sua família de uma maneira tão pura. Eu adorava passar horas conversando com ela no seu salão de beleza. Participei de todos os seus dramas com Jailson, que era apaixonado por ela e lhe propôs casamento num baile de gala da igreja e foi rejeitado na frente de todos os amigos, para ser posteriormente substituido por um romântico gaúcho que ela conheceu numa caravana ao templo de São Paulo.

Patrícia era uma moça incrível, que chegara do Rio de Janeiro na mesma época em que eu chegara da Paraíba. Estudávamos na mesma escola e frequentávamos o mesmo grupo de estudos (ala) da igreja. Lembro-me que estávamos vendo um jogo de futebol na quadra da igreja e eu fiquei do lado dela. Quando ela saiu, eu a acompanhei. Percebi que ela estava incomodada com minha presença, mas não me retirei. Ela se virou e disse para eu sair do pé dela. Eu ignorei. Ela perguntou se eu não me tocava. Eu disse que era persistente. Ela riu. Não nos separamos mais. Ela gostava do meu humor ácido, e eu adorava o jeito forte e imperativo com que ela nos tratava. Eu era apaixonado por ela, mas nunca lhe disse que queria ser seu namorado, pois com a mesma intensidade com que eu gostava dela, eu também gostava de Luciano, um lutador de Jiu Jitsu, que tinha uma sensibilidade e pureza que me atraíam além de qualquer outra ligação que tinha com qualquer outra pessoa em Feira. Eu contava os minutos para encontrá-lo. Quando terminavam as reuniões da igreja, ficávamos no ponto de ônibus até que passasse o último ônibus. Era uma paixão proibida que me tirava o sono. Eu sabia que o máximo de contato que teria com ele seriam os abraços demorados que dávamos ao nos despedir no ponto de ônibus.

O último abraço foi o mais demorado de todos, e cheio de lágrimas. Entrei no ônibus, e voltei para Nova Floresta. Mas não para ficar. Logo em seguida, fui para Campina Grande com os filhos de Gemires. Agora, já adolescentes, morávamos numa bela e ampla casa que seu pai havia construído na época em que era prefeito para que pudéssemos continuar nossos estudos numa cidade maior e que nos desse mais oportunidades de crescimento.

Morávamos na casa, Renata, Roberta, Léo, Junior e eu. As idades variavam entre 10 e 17 anos, eu tinha 16. E ajudava os meninos com seus estudos. Adriana e Iraneide ajudavam na limpeza e Deda era o segurança. Ele passava o dia de olho nas moças da rua e a noite, dormia na rede da varanda. A casa foi invadida duas ou três vezes e Deda foi substituído por uma cerca elétrica. Adriana e Iraneide começaram a namorar e se mudaram. Ficamos só nós. Por fim, Dora, a mãe dos meninos, mudou-se definitivamente para a casa. Gemires vinha somente nos fins de semana.

Eu estava muito envolvido com as coisas da igreja e não conseguia me concentrar em qualquer outra coisa. Não sabia exatamente que carreira eu deveria seguir quando chegou a hora de preencher a inscrição para o vestibular. E, como o prazo para a entrega dos papéis estava chegando ao fim, e ainda completamente indeciso, decidi deixar que um chiclete escolhesse por mim.

Colei vários post-its com nomes de cursos que me interessavam na porta de meu armário, masquei um chiclete, virei de costas e atirei-o naquela direção.

Fiz o vestibular e passei com mérito para o curso de "Comunicação Social" com habilitação para "Jornalismo", escolha que o chiclete fez por mim.

Minha turma era maravilhosa e logo apaixonei-me por todos eles. Havia uma astróloga sensualíssima, um ex-seminarista confuso quanto à sua sexualidade, duas protestantes fervorosas, uma lésbica ativista, uma poetisa massagista, um advogado aposentado e ex padre, um dançarino profissional, um bancário hippie, entre outras figuras...

No entanto, por mais que eu amasse estar na companhia de todos eles, o meu encanto pelo curso foi morrendo aos poucos e deixar que um chiclete escolhesse meu futuro profissional não se provou ser uma idéia tão acertada.


http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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6 comentários:

  1. poutzzz...santo chicretinho uhauhha
    mas as lesbicas deviam ser mto bouas huahuaua

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  2. Hahahahaha


    Comigo foi quase a mesma coisa, e também me foi escolhido Jornalismo.

    Só que é o curso que eu mais queria e mais torcia para a borracha escolher!


    =P

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  3. Na verdade, eu gosto da profissão. Não gostava da faculdade. Adoro escrever e por isso virei escritor. Percebi que prefiro criar realidades que comentar a respeito delas.

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  4. E por acaso não tinhamos uma solteirona virgem de 38 anos?

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  5. Solteirona Virgem de 38 anos...
    Hahahaha...Essa foi boa...


    Otimos textos...
    Abraço

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