5 de abril de 2015

O Cravo

05 abril Escrito por Eliude Santos , 1 comentário
Meu tio havia convencido meu pai a montar com ele uma pequena tapeçaria. Eles estavam cheios de planos, a família estava crescendo. Meu pai estava muito feliz com sua nova esposa e meu tio com a dele. Ambas as esposas ficaram grávidas na mesma época e tiveram filhas.

No dia das crianças, meu tio nos ensinou a andar em bicicleta de adulto, ganhamos uma bola "canarinho". E brincamos com ela o dia todo.

No final da tarde, meu pai e meu tio estavam trabalhando, enquanto eu e meu irmão corríamos desenfreados atrás da bola. Meu pai disse que estávamos atrapalhando e que fôssemos brincar em outro lugar, mas nem ligamos.

Enquanto corríamos no quintal empoeirado, senti uma coisa fria no meu pé, acompanhada de um solavanco que me prendeu ao chão. Ao olhar para baixo, percebi, ainda sem sentir a dor, que meu pé havia sido transpassado por um enorme prego, preso a um pedaço de madeira que estava jogado ali no quintal.

Ao dar-me conta do que acontecera, comecei a sentir uma terrível dor, que vinha da planta do meu pé e se enraizava por todo o corpo como se, a cada pulsada de sangue, milhares de pregos fossem perfurando cada parte do meu corpo.

Meu pai, vendo o que acontecera, e não sabendo como reagir em tal situação, tomou-me nos braços, tirou o cravo de meu pé, levou-me sangrando para o banheiro e lavou o ferimento. Por ter tirado o cravo, fez aumentar ainda mais o sangramento. E a água que atravessava o meu pé pelo orifício recém aberto parecia um monte de navalhas afiadas que rasgavam minhas carnes por dentro.

A dor era insuportável!

Meu pai enfachou meu pé com ataduras para tentar inutilmente estancar o sangue, enquanto eu gemia de dor. Fomos para o hospital na bicicleta que meu tio usara mais cedo para nos ensinar a pedalar. Cada solavanco no caminho era como um novo cravo penetrando meu pé e toda a extensão de meu corpo.

Já sentia-me desnorteado, tamanha a quantidade de sangue que perdera. O lençol que usaram para enfaixar meu pé estava encharcado.

Chegando no hospital, depois de uma bronca do médico, fui atendido.

Naquela semana eu não pude ir à escola. Não conseguia colocar o pé no chão. E quando finalmente voltei a andar, estava mancando.

Eu era o aluno mais novo na minha sala, o mais baixo, o mais franzino, o mais delicado e o mais queridinho dos professores e isso por si só já era motivo suficiente para eu sofrer todo tipo de zombaria e chacota dos outros alunos da escola. Agora, além de tudo isso, estava mancando. Foi um inferno! Os insultos verbais não demoraram a virar agressões físicas.

Um dia, voltando pra casa, passei numa venda pra comprar frango e ouvi algumas mulheres falando sobre um acidente numa cidade próxima. Senti uma fisgada incômoda ao ouvi-las comentando. Achei que era o pé, mas era o coração!

Quando cheguei em casa, minha avó estava em prantos na varanda. E muitas pessoas estavam ao redor da casa, falando sobre o tal acidente.

Meu tio tinha caído da carroceria de um caminhão em movimento e sofrera um traumatismo craniano. A Morte veio rápida na estrada. 

Não muito tempo depois, uma outra pessoa muito querida foi levada após enfrentar uma batalha desleal contra um câncer no sangue, Delane, a filha mais nova de meu tio-avô.

Bem diferentes entre si mas igualmente marcantes em minha infância, ambos deixaram saudades e grandes lições. Eram sonhadores e cheios de vida, mas o sopro frio da Morte levou suas vidas e sonhos para longe de nós.

Delane era uma flor delicada de gestos finos e sorriso encantador. Era o brilho nos olhos de seus pais. Tinha uma mente brilhante e um coração cheio de ternura. A doença mortal fez com que definhasse aos poucos e sumisse como um suspiro.

Ambos eram lados opostos de uma mesma moeda chamada vida. E foi a percepção do efeito que suas vidas tiveram na minha que levou-me a compreender ainda muito cedo a importância de fazer minha existência ter significado na existência de outros, pois nisso consiste a eternidade na mortalidade.

Há vida antes da mortalidade? Há um espírito que dá vida ao corpo? O que acontece a essa entidade que nos define como pessoas distintas quando esse corpo é devolvido ao pó de onde veio? Por que somos expostos a desconfortos de tantas sortes? Cada um pode apontar diferentes respostas para essas perguntas que têm feito habitação na mente dos homens por tanto tempo. Mas, a despeito do real conceito da imortalidade da alma, está o efeito da imortalidade da memória. E é esse legado que temos que desenhar com a maestria de um artista experimentado nas dores.

Mas há pessoas que não sabem lidar com a perda. Meu pai e meu irmão ficaram muito abalados com a perda de meu tio. Meu pai voltou a beber e não demorou a causar a ruína de seu segundo casamento. Meu irmão perdeu ser norte e sua vida se enveredou por caminhos ainda mais tortuosos que a de meu pai.

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