4 de abril de 2015

A Outra Mão e as Primeiras Letras

04 abril Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Animou-me a notícia de que iria para a escola, embora nem imaginasse o que realmente se fazia ali. Estava ansioso para conhecer todas aquelas novidades de que me falavam meus primos mais experientes (alguns deles já haviam até saído do Jardim de Infância!). E eu me preparava com entusiasmo para aquela nova experiência.

Minha tia já havia me ensinado a ler e escrever desde bem cedo. E, aos quatro ou cinco anos, eu já conhecia as letras e os números e já conseguia escrever palavras complicadas, como meu nome!

No primeiro dia de aula, nosso pai levou-nos à escola. Eu e meu irmão estávamos iniciando juntos nossa vida escolar, embora de certo não tenhamos cultivado previamente os mesmos sentimentos a respeito do assunto.

Quando percebeu estar longe de casa e não reconhecendo nenhum rosto naquela sala em que fomos apresentados à nossa primeira professora, Odete, ele começou a chorar. O choro do meu irmão era estranho. Ele chorava pra dentro, como se estivesse com asma, e ia de fato perdendo o fôlego à medida que o choro se prolongava. O pessoal da escola ficou com receio e não demorou muito até que alguém nos levasse de volta para casa.

Nos dias seguintes, muita paciência e diálogo foram necessários para que meu irmão começasse a sentir um pouco de segurança naquele novo ambiente que começava a freqüentar.

Eu, em contrapartida, fiz grandes progressos ali, de modo que, antes que terminasse o ano letivo a professora aconselhou minha avó a mudar-me de escola, e a avançar para a primeira série, porquanto considerava-me já completamente alfabetizado para continuar com as outras crianças do jardim. Eu avancei para a primeira série, mas continuei acompanhando meu irmão ao jardim, pois ele não iria sem mim. Durante dois anos, frequentei a escola nos dois turnos. E fiz muitos amigos.

Lembro-me que, enquanto as crianças riscavam com giz de cera colorido os desenhos que a professora lhes entregava, eu ficava com ela no quadro negro escrevendo palavras e frases. Ela se impressionava com as palavras que eu conseguia ler e escrever sem nunca ter entrado numa escola antes.

Como eu era canhoto, o apoio da palma da minha mão acabava apagando o que eu havia escrito no quadro negro. Ao invés da professora me ensinar a levantar a mão enquanto escrevia, ela me ensinou a escrever com a outra mão. E durante algum tempo fui ambidestro, até abandonar completamente a escrita com a mão esquerda. A força que fazia para escrever com a mão direita criou um nódulo sobre meu dedo anular. Durante muito tempo tive vergonha de minha mão com um calo gigantesco no dedo, mas sempre o usava como referência para identificar o que era esquerdo e direito quando dava ou recebia direções.

Quando eu descia da cadeira que colocava para alcançar o quadro negro e me juntava às outras crianças para pintar no chão da sala, ao contrário delas, eu percebia os traços dos desenhos mimeografados e pintava dentro dos limites dos contornos de maneira meticulosa.

A professora percebeu minha aptidão para as artes e começou a me incentivar a fazer desenhos. Em casa, eu pedia a ajuda da minha avó e da minha tia, mas não demorou para que eu ultrapassasse seu nível de escolaridade ou aptiões artísticas e o máximo que elas conseguiam fazer era me elogiar.

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