9 de abril de 2015

Pequenos Vampiros

09 abril Escrito por Eliude Santos , 3 comentários
Na infância, eu tinha núcleos de amigos distintos: os primos, com quem geralmente brincava aos fins de semana, fazíamos ruas no barro pra andar com os carrinhos de brinquedo, brincávamos de garrafão e amarelinha, de gude e pega-pega, de esconde-esconde no pomar da casa da minha madrinha, ou na casa abandonada do vizinho, ou de passar o anel, caí no poço ou de contar histórias noturnas no prédio da antiga prefeitura; os filhos dos vizinhos da minha avó, que nessa época morava nas "casas populares", com quem eu brincava de queimada, carrinho de rolimã ou carrinho de folha de agave, corríamos no mato, tomávamos banho no açude, ou aproveitávamos a liberdade de estar longe dos olhos dos adultos pra fazer o que eles diziam que crianças não podiam fazer; os meus irmãos meio que adotivos, porque nessa época fui meio que adotado pelo prefeito da cidade, com eles, eu brincava na piscina, fazia parques temáticos na garagem dos fundos, gravávamos histórias de terror em fitas cassete ou jogávamos no Atari 2600 que eles ganharam de dia das crianças, andávamos de bicicleta, jogávamos tênis ou pulávamos pogobol, ou simplesmente ficávamos jogados na frente da tv vendo os programas da Mara, Xuxa, Angélica, TV Colosso, ou Chaves e Chapolim...

Um outro núcleo de amigos era a turma do Érick, meu primeiro grande amigo, que era filho da minha professora da segunda série e neto de Dona Nita, que estava sempre na biblioteca fazendo suas palavras cruzadas e conversando com Detinha. Erick sempre foi muito inteligente e criativo e eu o admirava muito por isso.

Quando a biblioteca saiu do prédio da antiga prefeitura e foi para uma sede própria, ao lado da casa de sua avó, passávamos quase que o dia inteiro juntos. Gostávamos de desenhar e passávamos horas criando personagens, arquitetando cidades de cartolina ou montando naves espaciais.

Vivíamos numa cidade tranqüila. À noite, ficávamos na rua até bem tarde. Brincávamos de tudo o que conhecíamos e quando já não tínhamos mais do que brincar, inventávamos alguma outra coisa para gastar nossa abundante energia.

Existia na cidade um grupo de crianças (umas oito ou dez), lideradas por um moreninho de cabelo louro e encaracolado que, durante um tempo, foram nossos maiores rivais. Eles estavam sempre nos ameaçando e atrapalhando nossas brincadeiras, pois consideravam-se os "donos da rua".

Percebendo a fragilidade de nossa condição e o perigo de ficarmos sem um lugar para brincar, decidimos que era hora de tomar uma atitude.

Estava no ar a novela Vamp, e filmes de vampiro como A Hora do Arrepio eram muito populares. Compramos algumas dentaduras falsas de vampiro e preparamos uma solução vermelha que assemelhava-se a sangue. Recortamos as dentaduras de modo que pudéssemos levá-las confortavelmente sob a língua para colocar as presas quando nos fosse conveniente. Também levávamos sempre conosco um frasco com a tal solução vermelha.

Então, espalhamos o boato de que éramos vampiros. E nossa atuação parece ter convencido os "donos da rua".

Depois de nossas primeiras demonstrações, eles que antes nos perseguiam, agora corriam de nós.

De longe, eles erguiam pedaços de cabo de vassoura formando cruzes, enquanto disferiam insultos e ameaças aos pequenos vampiros.

Nós nos divertíamos muito com o medo deles e logo passamos de caça a caçadores.

Usando um pouco de cinzas e muita criatividade, transformamos em pó uma cruz diante de seus olhos, mostrando pra eles que aqueles amuletos ultrapassados que eles usavam não nos afetavam nem nos causavam dano algum.

Um dia, entretanto, cansados de serem perseguidos e amedrontados, eles decidiram acabar com aquela praga de vampiros que invadira a cidade. E decidiram começar o extermínio por mim!

Numa noite, quando dobrava a esquina indo para casa, fui abordado pelos "donos da rua".

Eles tinham pedaços de cabo de vassoura extremamente afiados nas mãos e martelos que alguns haviam surrupiado das caixas de ferramentas de seus pais e outros das gavetas da cozinha de suas casas.

Ao caminhar um pouco para trás, vi que surgiram outros que me cercaram.

Eu não sabia o que fazer. E, numa tentativa desesperada de mostrar minha superioridade, coloquei meu disfarce e ameacei-os com minha voz de vampiro, presas e sangue falso.

No entanto, isso só deu-lhes mais motivação!

Então, virei e corri. Não lembro de qualquer outra ocasião que tenha corrido tão rapidamente em minha vida.

E eles corriam atrás de mim como loucos, com seus martelos e estacas improvisados!

Quando percebi que estava chegando perto do cemitério, onde não havia senão a lua e as estrelas para iluminarem o caminho, sumi na escuridão daquele lugar.

Em meio àquela escuridão, eles diminuiram o passo, entreolharam-se e correram dali amedrontados.

Depois de alguns minutos, tive coragem de sair de lá e fui contar aos outros.

Esconder-me no cemitério deu-nos mais credibilidade e os "donos da rua" nunca mais se atreveram a mexer conosco.

http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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3 comentários:

  1. hauhuahauhhauhah meeeeeoooo
    q legal, depois qro detalhes pessoalmente, mas me conte uma coisa
    ...
    como fizeram a cruz virar cinza!?!?
    hehee como ficar/entrar em um cemitério
    a noite?

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  2. heheheheh... eu segurei a cruz numa mão e as cinzas na outras. E bati as mãos, uma contra a outra, deixando escapar o crucifixo... mas a nuvem de fumaça impediu que eles visse aonde o tal foi parar... heheheeh

    o cemitério estava fechado... havia um caminho de terra até o portão com campos de sisal nas laterais... me escondi nos campos de sisal... quando eles me alcançaram, não me viram mais... ficaram com medo e fugiram... heheheheheh

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  3. To com medo de vocêee! hahahahahah


    by:Amanda Marjorie

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