6 de fevereiro de 2015

Prefácio

06 fevereiro Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Algum tempo antes de habitar este corpo mortal neste mundo decaído, estive entre os espíritos nobres e grandes do Mundo Pré-Mortal que foram reservados e preparados para virem a esta Terra numa das épocas mais desafiadoras dentre todas as eras da história humana: a Dispensação da Plenitude dos Tempos.

Gerado espiritualmente por um Pai e uma Mãe nos Céus, fui criado e educado para tornar-me capaz de receber luz e conhecimento até que se desse por completa a medida de minha criação. Uns foram criados para serem reis, outros para serem súditos; uns para serem sacerdotes, outros para serem mestres; uns para serem criadores, outros para cuidarem e administrarem as obras da Criação.

Rodeado de hostes amorosas interessadas no meu bem-estar e progresso eterno, vivi como espírito em um lar celestial, onde fui preparado para ser tão independente quanto qualquer outro ser que habitava naquela esfera, na presença do Grande Arquiteto deste universo. Dele recebi chamados e talentos especiais que me tornaram diferente dos demais, assim como eles receberam benefícios individuais que os tornaram únicos, cada um segundo seu merecimento e necessidade.

Entre nós, havia muitos que progrediam em conhecimento e no uso do arbítrio que lhes era inerente. E aos que ali se destacavam por sua nobreza e valentia, mais luz e conhecimento lhes era dado.

Criado com um corpo etéreo à imagem e semelhança do corpo físico e tangível de meu Criador, a quem chamava de Pai, eu não conseguia vivenciar as maravilhas do mundo físico que Ele conseguia experimentar. Tais maravilhas eram-me apresentadas até então somente em conceito, mas eu queria viver tudo aquilo: não queria aprender sobre o amor e sobre o sexo, eu queria sentir a dor e o prazer de amar e transbordar sensações ao permitir que minha carne fosse exposta ao contato de outra de modo que os dois se tornassem um; eu não queria somente entender o mecanismo do sofrimento e da alegria, eu queria chorar e sorrir e sentir as lágrimas percorrendo os veios de minha face cansada; eu não queria que me explicassem a textura arenosa que se dissolve num sabor doce e tenro de uma pêra madura ao tocar a língua de um ser físico, eu queria saboreá-la e senti-la dissolver-se em minha boca até que deixasse de ser pêra e se tornasse parte de mim.

Fiquei animado quando soube que estavam começando os preparativos para o Grande Conselho. Eu sabia que Eles apresentariam os termos para a evolução de nosso estado etéreo para uma dimensão física da matéria. E eu finalmente poderia experimentar aquilo que tanto me causava espanto e interesse.

Nessa ocasião, Nosso Pai permitiu que houvesse dissidência nos Céus para ver quais de Seus filhos poderiam avançar para o próximo estado de existência. Depois de ter declarado Sua vontade, permitiu que nos manifestássemos a respeito.

Um de nossos irmãos fez-se notar. Ele era alguém por quem nutríamos grande admiração e respeito, sim um dos arcanjos mais influentes naquela esfera. Ele apresentou-nos suas ideias para avançarmos ao novo estágio de nosso progresso eterno e estava convencido de que o seu era um plano muito melhor que o do Pai.

Ele disse: "Eis-me aqui, envia-me, serei teu filho na carne e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida o farei; portanto, dá-me tua honra". Seu plano consistia em fazer-nos nascer em uma Terra onde receberíamos um corpo físico, mas nos seria tirada a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Desse modo, faríamos todas as coisas de acordo com as exigências das inteligências inferiores que haviam fornecido a matéria que nosso Criador usara para gerar nossos corpos espirituais e a que ele compraria para criar o mecanismo de evolução natural que daria origem aos tabernáculos físicos de nossa nova habitação, e pagaríamos com uma obediência cega o preço de nossa existência.

Seu plano era ambicioso e garantia que, ao final de nossa experiência física, todos alcançassem o mais alto nível de exaltação. Todos se tornariam como o Pai, mas ele queria ser maior do que nós, já que engendrara o tal Plano, e para tanto, exigia que Nosso Pai, depois de gerá-lo como Unigênito na carne, o adotasse como Irmão e Co-Participante de seu Trono naquela esfera de glória.

Ouvindo isso, um outro arcanjo, o mais amado do Criador, levantou sua voz dizendo: "Pai, faça-se em mim a Tua vontade e seja Tua a glória para sempre". Ao invés de propor um novo e arriscado plano e com o desejo sincero de ajudar seus irmãos sem a intenção de tirar os méritos e glória de Seu Pai, declarou: "Tua vontade seja feita; levarei avante Teus planos e Teus desígnios e, como o homem cairá, oferecer-me-ei como uma expiação de acordo com Tua vontade, ó Deus. Não desejo a honra para mim, mas seja Tua a glória".

Nosso Pai agradou-se do segundo e apresentou-o a nós como nosso Salvador. "Este é Eu Sou, e ele vos será por Mestre e Senhor. Recebei suas instruções como se de Minha boca as ouvísseis".  Mas, muitos de nossos irmãos rebelaram-se contra a Sua decisão, pois haviam-se encantado com os belos e bem arquitetados argumentos daquele que era chamado de Luz da Manhã.

Não era de se espantar, afinal, se seguíssemos o plano do Pai, poderíamos nunca mais voltar a vê-lo, pois de acordo com as exigências dos Senhores do Caos que haviam vendido os elementos e inteligências que foram pareados a fim de gerar nossa identidade pré-mortal e que seriam usados para criar nossos tabernáculos físicos, uma série de restrições de experiências carnais foram impostas a fim de que nosso conhecimento do bem e do mal fosse limitado e nosso progresso eterno se visse ameaçado. Caso não conseguíssemos nos controlar e todos os esforços de redenção não fossem suficientes para nos resgatar, poderíamos ser enviados para esferas distantes ou voltar ao caos de onde fomos tirados e nunca mais sentirmos o abraço caloroso de nosso terno Pai. E nós o amávamos demais para aceitar esse risco e não conseguíamos entender qualquer conceito de felicidade que fosse ser vivido longe de Sua presença. Mas Ele nos conhecia mais que nós mesmos éramos capazes de admitir. Ele sabia que muitos de nós não seríamos plenamente felizes vivendo a vida que ele levava. Sua experiência na carne lhe ensinara coisas que nenhuma daquelas aulas do reino pré-mortal eram capazes de nos ensinar.

Muitos de nós achávamos que a vida mortal seria um teste, uma chance que tínhamos para surpreender nosso Pai e mostrar-Lhe do que éramos capazes. Mas Ele, em sua infinita sabedoria, sabia que aquela experiência era na verdade apenas uma evidência para nos provar que Ele tinha razão sobre nossa índole e predisposição desde o começo.

A discussão se prolongou além do que eu esperava. E pela primeira vez, vi meus irmãos discordarem de uma decisão tomada por nosso Pai. E bilhões deles o fizeram!

Nós conhecíamos as leis e sabíamos que, com aquela atitude, eles não poderiam permanecer em nosso meio. Nós os amávamos. Eram nossos irmãos! Mas, cheios de pesar, tivemos que expulsá-los dos Céus, um terço das estrelas mais brilhantes daquele Céu!

Naquela ocasião, eles prometeram que nos perseguiriam e fariam tudo que lhes fosse permitido para impedir-nos de participar do Plano Eterno de Felicidade de nosso Pai.

Em prantos, nossa amada Mãe foi consolada por muitos de nós. E, pela primeira vez, segundo a lembrança de meus olhos espirituais, vi os Céus chorarem. Eu mesmo caí em prantos.

Desde que eles foram expulsos, fomos instruídos e preparados para o que nos esperaria naquela nova esfera para onde seríamos enviados.

Nosso Pai escolheu alguns de Seus filhos que mostraram-se nobres e valentes por suas atitudes e concedeu-lhes uma porção de Seu poder, e eu estava entre eles.

Ele nos fez aceitar aquela dádiva com um convênio e juramento que seriam reafirmados durante nossa existência mortal. E advertiu-nos a não utilizarmos aquele poder para o nosso próprio engrandecimento, mas para estabelecer a ordem e preparar o caminho para o progresso eterno de seus filhos durante a mortalidade.

E eu continuei sendo instruído e preservado, assistindo o desenrolar da história humana, até que me fosse permitido tomar parte dela. Vi de perto como as estrelas decaídas se infiltraram entre os homens e os influenciaram com toda sorte de artifícios para levarem a efeito a sua promessa. Vi também como muitos homens fizeram sua influência resplandecer como faróis, e muitos dos que estavam perdidos se deixaram guiar por sua luz. 

Então, chegou o momento de deixar o conforto e segurança daquela esfera e começar os dias de minha provação terrena. Houve despedidas e muitos manifestaram sua confiança em mim e nos que estavam deixando o Lar Celestial comigo.

Antes de passarmos pelo véu do esquecimento, que apagaria nossas lembranças daquela vida pré-mortal, fomos envolvidos nos braços de amor daquele terno Pai que nos dera a vida e o direito de tomar parte em Seu Plano de Felicidade: o plano que havíamos defendido com nossos testemunhos, esperanças e firme propósito de sermos leais e fiéis a tudo o que lhe prometemos enquanto estávamos em Sua presença.

Ele sabia das dificuldades que cada um de nós enfrentaria durante a difícil jornada mortal. E quando abraçou-nos com lágrimas nos olhos, sabia até mesmo quem de nós não conseguiria voltar, mas também entendia que precisávamos partir.

Seu semblante confiante, seu abraço caloroso e suas últimas palavras de incentivo deram-nos forças para partir.

Ler outros textos do livro "No Princípio Era o Verbo"

4 comentários:

  1. Um texto inteligente que nos prende a leitura e nos faz viajar para outras dimensões, muito intrigante, ficção ou realidade? Tudo depende do ponto de vista do leitor. Parabéns ao autor Eliude, sempre me surpreendendo! Bjus

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Cátia! É exatamente isso que eu penso... Tudo depende do ponto de vista do leitor! Fico muito feliz que gostou!

      Excluir
  2. Sempre muito bem construído, lúdico e fantástico!

    ResponderExcluir

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.