27 de maio de 2015

De Palcos e de Dramas

27 maio Escrito por Eliude Santos , 16 comentários
Eu poderia ter desistido do teatro depois de minha experiência frustrada na adolescência com o grupo Teaxé. Mas não costumo desistir tão facilmente de minhas paixões. Fiz outras aparições nos palcos desde então, sempre ocupando posições distintas em cada uma delas: fui roteirista, cenógrafo, diretor, ator e até mesmo regente.

Quando ainda morava em Nova Floresta, escrevi "O Casamento de Afrodite", uma peça para ser apresentada por meus alunos de História do Educandário Caminho do Saber. Foi incrível ver a paixão com que eles se entregavam aos personagens nos ensaios. Era aquele brilho no olho que faz a memória ficar sempre viva gravando tudo e me dando motivos para insistir.

Em Campina Grande, fiz um jogral em comemoração ao Sesquicentenário da Igreja e uma peça sobre o início da História da Igreja no Brasil. Além das várias apresentações do Coral Gaivotas pela cidade.

Quando voltei da missão eu sentia falta dos palcos.

A mudança do Jardim Rosana para o Jardim das Palmas me apresentou a novos amigos e logo me juntei a um grupo que encenaria uma adaptação de "O Pequeno Príncipe". Quatro atores fariam o pequeno príncipe em suas jornadas pelo universo das pessoas grandes. E eu faria o príncipezinho em sua fase mais inocente, quando morava em seu planeta e era apaixonado por sua rosa. Na mesma peça, eu também interpretava o bêbado. O papel era pequeno, mas tirou grandes gargalhadas das crianças que estavam na platéia! Talvez porque minhas experiências com meu pai e meu irmão conferiram um pouco de verdade ao personagem. E novamente, olhos brilhavam e gravavam na memória aquele momento sublime.

Devido à minha atuação nesta peça, fui convidado a participar de um grande projeto que a Igreja estava desenvolvendo em São Paulo: era um musical em dois atos chamado. "O Salvador do Mundo: Seu Nascimento e Ressurreição". A apresentação de duas horas contava eventos que evolviam a vida do Salvador antes de seu nascimento e após sua ressurreição. O primeiro ato mostrava os eventos que conduziram à Natividade, incluindo as histórias de Zacarias e Izabel, Maria e José, e dos Pastores de Belém; o segundo ato começava com o sepultamento de Cristo e suas visitas como personagem ressuscitado a Cléopas e seu discípulo no caminho para Emaús, à Maria Madalena no horto, e aos apóstolos na sala fechada e no mar da galiléia. Era uma adaptação para o português da peça que foi escrita para a inauguração do "Centro de Conferências" em Utah (o maior auditório já construído sem colunas de sustentação entre a platéia e o palco no mundo).

A produção em São Paulo contava com mais de oitenta pessoas, dentre as quais, metade eram atores e cantores e a outra metade eram diretores, assistentes, cenógrafos, iluminadores, sonoplastas e um regente. Todos vindos de diferentes partes da cidade e do estado.

Como os atores e cantores tinham todos mais de um papel, uma ausência nos ensaios era extremamente prejudicial ao andamento da peça. E, como nem sempre poderíamos contar com todos, pois todos tinham suas ocupações além daquele projeto e muitos nem moravam na capital, eu fui instruído a decorar todos os papéis masculinos (incluindo as músicas) para substituir quem quer que faltasse nos ensaios ou mesmo nas apresentações.

Foi uma maratona de seis meses, entre ensaios, gravações e apresentações. Depois de tanto tempo juntos, compartilhando aqueles momentos incríveis, nos tornamos uma grande família.

Após dois meses de ensaios demorados com o coral e com os atores, gravações de áudio em estúdio, e muitas trocas de personagens, fizemos nossa estreia.

Dona Zefinha estava orgulhosa na platéia acompanhada de Robson, Paulo e Rafael. Todos aplaudindo com lágrimas nos olhos. Minha mãe não foi assistir. Rafael era um novo amigo que eu conhecera em uma das festas de dona Zefinha. Ele estava bêbado quando começamos a conversar sobre o Livro de Mórmon e dentro de pouco tempo ele se uniu à igreja. Nos tornamos grandes amigos e ele e Robson estavam sempre lá em casa.

Além das várias sessões em São Paulo, fizemos outras apresentações em Sorocaba, São Bernardo e Jundiaí. Gravamos um CD e um DVD das apresentações. Quando começamos, não tínhamos noção da grandiosidade do projeto. Em Jundiaí, reencontrei muitos dos amigos que fiz quando passara por lá como missionário. Montamos o musical no teatro municipal da cidade, que lotou nas duas apresentações que fizemos por lá. E mais uma vez, o olho brilhava e fazia aquele momento se tornar eterno em nossas memórias.

Enquanto isso, um drama bem mais real tirava o meu sono. Quando mudou-se para o Jardim das Palmas, minha mãe chamou meu irmão para vir para São Paulo. Ele estava tendo alguns problemas com meu pai em Nova Floresta e ela achou que seria prudente que ele viesse morar com ela.

Eu tentei explicar para ela que morávamos muito perto de uma favela e que meu irmão causara todos aqueles problemas na Paraíba por não controlar seu ímpetos de violência quando usava drogas. Trazê-lo para nossa casa seria potencializar o problema. Ela, como sempre, não me deu ouvidos.

No dia que meu irmão chegou, trouxe consigo sua esposa, Vânia, sem nos avisar que ela estava vindo junto. Na verdade, nem sabíamos que ele morava com ela. Morávamos numa casa pequena que tinha um quarto, uma sala e uma cozinha. Meu irmão e sua esposa ficaram dormindo no chão do quarto da minha mãe e eu dormindo no sofá da sala.

E como se isso já não bastasse, ela começou a namorar Fernando, um mestre de obras que ela conheceu no prédio onde trabalhava, e que logo mudou-se para nossa casa.

A situação era insuportável. No começo, Vânia tentou ser agradável, mas logo perdeu a paciência e começou a pressionar meu irmão para que tomasse uma atitude e a provocar minha mãe de todas as maneiras que conseguia. Meu irmão estava trabalhando numa tapeçaria que atendia clientes de alto padrão em Santo Amaro, mas pressionado por sua esposa e já sem paciência com as loucuras de minha mãe, ele começou a faltar no trabalho e a torrar todo o dinheiro em álcool e outras drogas. Passou a chegar em casa cada vez mais tarde e cada vez mais violento.

Numa das vezes, eu estava deitado no sofá e ele começou a apunhalar o sofá onde eu estava com uma chave de fenda.

Vânia, irritada por estar presa naquela situação, fez amizade com algumas pessoas da favela e passava quase todo o tempo fora de casa. Meu irmão começou a suspeitar que estava sendo traído. Ele perdeu a razão e começou a bater em sua esposa. Minha mãe tentou intervir algumas vezes e também foi atingida.

Como sempre, ele nunca se lembrava de nada que tinha feito no dia seguinte.

A situação começou a ficar insustentável, até que eu e minha mãe saímos de casa. Ela foi para o Embu das Artes, pra casa de sua irmã. E eu voltei para o Jardim Rosana, para a casa de uma outra Vânia, a nova vizinha de Dona Zefinha, que morava na casa onde eu havia morado antes.

Ela passava a semana fora de casa, e me deixou ficar lá enquanto a minha situação se resolvia. Em troca, eu ajudava, cuidando de tudo até que ela voltasse. Minha mãe não sabia onde eu estava e ficou desesperada. Mas eu queria fugir deles todos, eu precisava fugir deles todos para manter minha sanidade. Se a violência de meu irmão era destrutiva, a falta de preparo dela para ser mãe era ainda mais.


http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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16 comentários:

  1. parabéns pela participação na peça.

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  2. Seu blog é bem legal e desejo boa sorte a você se quiser seguir carreira de ator.

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  3. Isso aconteceu há quase quatro anos. Atualmente minha aspiração está no mundo das letras e não no mundo cênico...

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  4. Caraca... Muito bom!!! sua apresentação fico 10!!!

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  5. Ahh não é que o post é pessimista. Só contei como foi péssima minha estréia nas aulas desse ano. rsrs... tô até com medo de ir lá de novo. xP

    E quanto ao seu texto, eu tive uma frustração com teatro quando tinha 12 anos e nunca mais voltei a fazer. Acho que teatro é pra quem realmente tem o dom pra atuar. Se eu tivesse, com certeza eu não teria desistido.
    Bjos*

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  6. Ah, desculpa. Não consegui ler tudo dessa vez!Mas amanha, quando minhas palpebras estiverem mais leves, volto aqui e leio tá?

    Abs

    http://calcajeansehavaianas.blogspot.com/

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  7. Voltei!Não sabia que vc era um ator/cenografo/roteirista/diretor famoso! rs
    Parabens pelo trabalho cara! Ficou bem legal mesmo.

    Abs

    http://calcajeansehavaianas.blogspot.com/

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  8. teatro gruda na gente e depois não quer sair.
    é pra sempre paixão.

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  9. Sabe que essa peca Salvador do Mundo eh apresentada aqui em Salt lake toda epoca de Natal, praticamente por todo o mes de dezembro na Temple Square. Eh realmente emocionante a grandiosidade do projeto.

    E pelo que vi nao ficou nada pra tras, tudo muito bem feito e eh de se entender que, quem tem dom pra arte em geral, e lida bem com a vida, sendo esta um palco, adaptando-se a todas as interperies do cotidiano, vai ser mesmo um bom ator, seja na realidade ou no palco.

    Bem, nao preciso falar que, quem vai atras, e nao desiste na primeira nem na decima, chega mais em frente que a grande maioria.

    Beijos

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  10. Cara, por isso é que costumo dizer que nunca devemos desistir dos nossos sonhos... Olha só, você atingiu seus objetivos na carreira de ator.

    Parabéns pelo blog e tudo de bom!

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  11. Que bom cara, que tu se deu bem.
    ;)


    Eu queria muito assistir a alguma versão de O Pequeno Príncipe.

    Eu nunca fui ao Teatro, assisti apenas a algumas peças da escola.

    Mas gosto, e planejei entrar no cursinho que ia ter aqui perto. Mas faltou grana e tal...


    Abç.

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  12. Ah, agora que eu fui ler o comentário aqui dizendo que foi há quase quatro anos.

    Mas mesmo assim, parabéns.
    :)

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  13. legal
    teatro eh mto bom

    ;)

    bejundaaaaaaaaa

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  14. poh cara eh isso ai....acho q atuar eh a melhor coisa, mas eu nao levo jeito mesmo....hehee
    e como vc mesmo disse q vc esta no mundo das letras....rsrs

    da uma bizoiada no meu

    http://sonacachaca.blogspot.com

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  15. nossa .. que saudades do meu tempo de teatro... que infelizmente ive que parar.. mas pretendo um dia voltar..
    Qto ao projeto.. mto legal.. e é justamente quando há dedicação sem pretensões maiores, que as surpresas boas aparecem!!
    Parabens!

    bjus

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  16. Olá! Que relato bacana rapaz! Mostra dedicação e força de vontade, isso é muito importante.
    Belo texto viu!
    Abs

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