21 de abril de 2015

De Luz e de Sombras

21 abril Escrito por Eliude Santos , 18 comentários
Comecei a estudar o poder do traço quando era ainda muito jovem. Os conceitos aprendidos na prática paciente do desenho me ensinaram princípios importantes: Aprendi que a beleza tem um padrão, mas que nem tudo o que é desenhado com perfeição parece belo aos olhos do observador descuidado.

Aprendi que a nudez é artística porque nossos corpos são o melhor desenho criado por mãos divinas. E que ter vergonha de expor ou apreciar tal beleza é ignorância e ingratidão. Mas que tal exposição deve ter o mesmo cuidado e reverência que a obra divina teve para ser concluída.

Observando a execução do meu próprio trabalho, percebi que quando começamos algo, não temos uma visão perfeita do resultado que alcançaremos. Portanto, é importante manter o ritmo dos traços e não desistir diante de uma imagem inicial aparentemente indecifrável.

Assim, de luz e de sombras, podemos fazer de nossa vida um desenho belo e espontâneo ou um rabisco disforme e sem significado.

Essa dualidade começou a me aterrorizar depois que me tornei mórmon. Eu estava completamente tomado e apaixonado pela luz, mas minha natureza me lembrava do prazer da sombra a cada instante. Havia uma frase no Livro de Mórmon que me tirava o sono: "O homem natural é inimigo de Deus" (Mos. 3:19) E eu não queria ser esse inimigo. Queria estar à altura de tudo o que estava aprendendo e ensinando.

Eu tinha quinze anos quando fui pra cama com um homem de 45. Eu o seduzi. Eu queria sentir seus braços fortes me envolvendo. Na cama, ele parecia uma criança assustada. Eu gostava do cheiro forte, dos sabores estranhos e da voz grossa num sussurro apreensivo que dizia: "Sua mãe não pode saber". Também me deitei com um rapaz afoito de 16 que achava que era um martelo de cozinha e eu uma carne de segunda que precisava ser macetada para ficar no ponto. E antes disso, com um de dezoito que segurava os gemidos com medo de que os pais acordassem no meio da noite. Fugi da moça assanhada de 14 que se insinuava enquanto se oferecia pra me ajudar a lavar os pratos. Já tinha feito sexo com meninas e meninos e sabia que era dos meninos que eu gostava mais. Nasci assim? Não. Ninguém nasce gay ou hétero. Nasce-se criança. E é o modo como se lida com as primeiras experiências e com o próprio corpo e a descoberta dele e do corpo do outro que nos ajuda a definir nossa orientação e identidade. E por mais peculiar que essa experiência seja para cada um, não se pode culpar a natureza, nem as circunstâncias, pois tudo isso é decidido de um modo muito inconsciente, provavelmente tendo muito a ver com a personalidade pré-mortal do indivíduo.

Mas agora eu era mórmon, e mórmons devem ser castos. Sexo, só depois do casamento! Sendo gay, casar estava fora de questão. E masturbação era uma prática que deveria ser evitada. Minha sexualidade havia sido colocada numa gaiola. Abria a Bíblia e lia: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". (João 8:32) Mas aquela não era a sensação.

Eu entendia o conceito: Estamos presos a paixões terrenas. Nosso corpo natural pede práticas naturais que nos dão um prazer momentâneo, mas que a longo prazo nos afastam de nossos objetivos, como alguém que quer ficar em forma mas não consegue evitar beliscar algo gostoso quando abre a geladeira. Então, se nos expomos à tentação de abrir a geladeira, mas nos controlamos, ganhamos a liberdade que nos permite ser como queremos ser. E nesse contexto a verdade nos liberta!

Assim se você quer ser um deus grego, tem que se acostumar a restrições muito severas e encontrar felicidade nisso.

Durante um tempo, eu tentei encontrar essa felicidade nas restrições e sei que é possivel viver assim e ser feliz. O prazer da alimentação assim como o prazer do sexo fazem parte de nossa natureza, mas fora de contexto, eles podem gerar uma gordura física, ou espiritual, que escondem a beleza daquele ser que você quer ser.

Mas o que é beleza afinal? Na época mais humanista da história da arte, os pintores encontraram beleza nas curvas de suas musas. Quando o rabisco de minha adolescência criava manchas escuras e deixava espaços imaculados no papel de minha personalidade, eu sofria sem entender quem eu era de fato e o que eu queria e seria feliz em ser.

Chorei muitas vezes depois do orgasmo não autorizado, e ainda mais quando aquele orgasmo era fruto de um desejo igualmente não autorizado pelo amigo charmoso com quem passava horas conversando ao sair da Igreja. Eu o desejava mais que tudo, mas me recusava a admitir.

A reação daqueles que supostamente deveriam me orientar demonstrava que eles, mais que eu, precisavam de orientação. E eu sofria calado sem ninguém com quem eu pudesse conversar abertamente sobre o assunto.

Somente muito mais tarde, depois de experiências e um sofrimento contido que já fizeram muitos tentar ou tirar a própria vida, encontrei nas próprias escrituras que me reprimiam a paz que tanto procurava. A culpa e o medo foram substituídas pela aceitação e entendimento. "Adão caiu para que os homens existissem e os homens existem para que tenham alegria" (2 Né. 2:25) E essa alegria não vem da luz ou das sombras mas do modo como você reage a tudo isso. A alegria é sua e é você quem decide o que te faz de fato feliz.

Assim, o traço corre o papel, e de luz e de sombras o desenho toma forma. Não há imagem nítida nem perfeita compreensão se não houver a nuance da oposição e do contraste. E se há erros, eles podem ser revertidos em acertos pela mão cuidadosa e talentosa do desenhista. Mas nem sempre o desenho termina como foi inicialmente planejado. E precisamos estar atentos pra enxergar a beleza daquilo que criamos.

http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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18 comentários:

  1. DESENHAR É IMPRIMIR UM POUCO DE VOCE NUMA SUPERFICIE , É DESPRENDER-SE A CADA TRABALHO

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  2. O texto e a idéia são bons, mas uma coisa me chamou mais atenção: A beleza do corpo.
    Numa época de aparência, de ditadura da beleza, das normas e dos padroes, é bom achar pessoas que ainda valorizem as formas naturais dos seres humanos.
    Parabéns!!!

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  3. ótimo texto, bom pra pensar.

    http://suellenpereira.blogspot.com

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  4. E viva essa bela manifestação artística. Singular como seu texto.

    Eu, que sempre gostei de desenhar... toda manifestação artística deve ter um sentimento.

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  5. lindo!
    otimo escritor e desenhista.
    sempre kiz desenhar, mas eu acho ki naum tenho mto talento...

    amei seu blog.
    Posso link?
    vc pode fazer o mesmo por mim?
    www.teluricaalten.blogspot.com
    bjos.

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  6. o desenho nao reflete a imagem q o desenhista esta a observar...mas sim a imgem q o coração e a alma do artista captou do objeto...

    parabens...

    http://alucinado.blog.terra.com.br

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  7. Obrigado!
    ^^
    colokei seu blog numa lista de links do meu.
    vou visitar sempre ki puder, gostei muito!
    me visite kando puder tbm!
    bjos.

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  8. pelo o q eu li
    Dah pra refletir MUITO!
    Nao soh as luzes e sombras
    parabens, tah tudo bom ( o blog aqui ) =D

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  9. Bom texto...
    Ótimo para refletir...Desenhar é um dom que eu gostaria de ter...

    http://fortalezadevidro.blogspot.com/

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  10. Desenhar é como escrever. A gente se expressa, cada um de um jeito... Daí alguns entendem, e outros não [mas ninguém tanto quanto nós mesmos].

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  11. Gostei do que aqui li. Lucidez acima de tudo. Abraços do EU, SER IMPERFEITO e d´A SEIVA

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  12. Respostas
    1. Obrigado, querida!!! Logo logo tem mais!!!

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  13. "Ninguém nasce gay ou hétero. Nasce-se criança. E é o modo como se lida com as primeiras experiências e com o próprio corpo e a descoberta dele e do corpo do outro que nos ajuda a definir nossa orientação e identidade."... q texto incrível! revelador!

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    1. Desculpe a demora em responder, Loopino X. Muito obrigado pelo comentário e fico muito feliz que tenha gostado do texto. Espero que leia os outros e sinta o mesmo prazer com cada artigo. Aguardo novos comentários e fique à vontade para compartilhar com seus amigos. Abraços!

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