10 de julho de 2015

Casulo

10 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Ela entrou na livraria apressada e claramente abalada. Pegou o primeiro livro que viu e sentou-se para uma pretensa leitura. Tirou os óculos escuros da bolsa e colocou-os no rosto pálido, escondendo as profundas olheiras. A esse ponto, seu desinteresse pelo livro era notório. Estava ali para outra coisa.

O bater constante e abafado do salto agulha contra o carpete incomodou o senhor que estava ao seu lado. Ele suspirou, coçou a cabeça e saiu com o livro que folheava na direção do caixa.

Um rapaz que passava sentou-se ao seu lado. Ela não acreditou que de tantas fragrâncias que existem no mundo, ele estivesse usando justamente aquela. Ela não mediu esforços em demonstrar seu incômodo. Mas o rapaz estava muito entretido em sua leitura para perceber.

Ela levantou.

Não teve o cuidado de devolver o livro à estante de onde o tinha tirado. Deixou-o no sofá.

Perambulou entre os corredores. Limpou as lágrimas recorrentes. Parou numa sessão pouco visitada e abriu novamente a bolsa. Tirou-as e segurou-as na palma da mão, douradas como os sonhos d’outrora, olhou pra elas durante alguns segundos. Apertou a mão com firmeza. Agachou-se já sem forças nas pernas. As lágrimas voltaram enquanto socava com os punhos cerrados o chão frio.

Parou por um instante. Respirou fundo. Levantou.

Elas ficaram no chão, junto com o veneno de tudo o que representavam.

Fingiu para si mesma que estava tudo bem agora e acreditou. Não era mais uma larva.

Tirou uma longa echarpe de seda púrpura da bolsa e deu uma volta no pescoço, deixando as abas esvoaçantes nas costas. Recolocou os óculos. E foi comprar sapatos.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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