29 de janeiro de 2009

Filmes Que Recomendo: PLEASANTVILLE - A VIDA EM PRETO E BRANCO (1998)

29 janeiro Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Pleasantville
Em Pleasantville, Tobey Maguire interpreta David, um nerd viciado na série de tv que leva o nome do filme, e Reese Witherspoon é Jennifer, sua irmã loira e bonita que está prestes a conquistar o posto de jovem mais popular na escola onde estudam. Com a ajuda de um misterioso técnico de TV, interpretado por Don Knotts, os dois são zapeados a um show de tv em preto e branco no melhor estilo utópico dos anos 50.
De repente, os dois tornam-se Bud e Mary Sue (também conhecida como Muffin) num mundo preto e branco onde a vida é simples, pessoas são perfeitas e tudo é agradável. Seus pais no programa são Betty e George Parker, interpretados por Joan Allen e William H. Macy.
Mas há algo sinistro nesta "Vila Agradável" (Pleasantville). Não há alegria genuina, ódio, paixão, ou pensamento livre neste mundo desprovido de cor. Não há mudanças. Todo dia é ensolarado e nunca chove. Mas a mudança bate a sua porta à medida que os dois adolescentes apresentam o povo do lugarejo a essas emoções tão humanas. E Pleasantville começa a explodir em cores. A ousadia de terem novas idéias, experimentarem raiva, desilusão, esperança, medo e sexo faz com que os cidadãos de Pleasantville comecem a ver o mundo preto e branco ao seu redor ou seu próprio interior em technicolor.
Mas nem todo mundo está feliz. Big Bob (J. T.Walsh), o cidadão mais influente de Pleasantville, torna-se o líder de um grupo de pessoas que mantiveram-se preto e brancas. Eles querem tudo como era antes, pois não conseguem lidar como o inesperado. E este é o ponto em que o filme torna-se uma parábola sobre o medo da mudança e a ignorância do fanatismo.
Em sua estréia como diretor, o roteirista Gary Ross criou uma brilhante história no estilo "Alice no País das Marvilhas" imbuída de uma ácida sátira social. Ross explora a nostalgia pela integridade de outrora bem como seu desagrado pela complexidade hiperativa de nossos dias. E ressalta o fato de que, embora nossa sociedade seja melhor em muitos aspectos hoje do que era na década de 50, há muitos valores louváveis daquela época que deixamos escapar. Em outras palavras, nada é "preto e branco" nem "oito ou oitenta".
Todos os atores envolvidos no projeto tem performances dignas de nota, mas grande parte do sucesso do filme deve-se à personagem de Joan Allen, Betty, e sua descoberta da paixão e ousadia em ser diferente. Ela desenha um retrato tocante de uma mulher que abraça a mudança e aceita seu novo eu-technicolor com bravura.
Jeff Daniels também está muito bem como o Sr. Johnson, garçon com aspiração à pintura que desperta a sexualidade de Betty. Esta não é a primeira experiência de Daniels num roteiro que lida com personagens de ficção tendo sua humanidade aflorada pela intervenção de personagens reais. Em "A Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen, ele interpreta um personagem do cinema que sai da tela para viver um romance com uma espectadora, interpretada por Mia Farrow.
Às vezes, o filme lembra um pouco "O Show de Truman", mas o roteiro segue por um nível completamente distinto.
Não há vilãos em Pleasantville, "a única coisa a temer é o próprio medo." Afinal, o filme discorre sobre preconceito, liberdade de expressão e importância da diversidade com grande propriedade.
"Eu não entendo as pessoas que sonham em preto e branco, meus sonhos sempre foram em cores vivas." (Gary Ross)
Essa frase ajuda-nos a entender um pouco da visão artística desse diretor que conseguiu transformar a imagem em technicolor em uma metáfora sobre nossos próprios medos e necessidades.
Betty and George Parker
Enquanto os filhos de uma família disfuncional dos anos 90 entram em contato com a inocência de uma sociedade utópica e apática, os personagens de Pleasantville são apresentados aos altos do amor e arte, assim como aos baixos do caos e racismo, e a todas as cores do arco-íris (literalmente), pois à medida que cada personagem ousa experimentar algo que os torne únicos, eles tornam-se "pessoas de cor". E como tal, despertam a curiosidade e a rejeição dos que se mantém descoloridos. Cenas que sugerem a implantação de um apartheid, a queima de livros para impedir o progresso do pensamento livre, ou turbas enfurecidas recaindo sobre a minoria diferente nos lembram episódios tristes de nossa própria história em que o medo, a ignorância e a incompreensão dirigiram as ações da grande massa.
Segundo o próprio diretor:
"Nem tudo que é agradável é necessariamente bom. Você pode drenar a vida, as nuances e a complexidade das coisas tornando-as homogêneas para criar uma falsa harmonia, livre de conflitos. Num mundo complexo e cheio de problemas, quem não gostaria de simplificar? Todo mundo gostaria. O difícil é manter-se verdadeiramente vivo após isso. Afinal, é isso que vale a pena, por mais difícil que seja."
A mensagem principal do filme é de que podemos crescer num ambiente aparentemente estável, aberto, promissor e seguro mas ainda assim sentir-se aprisionado pela repressão que esse ambiente nos imputa. E o desafio que o filme nos propõe é: "O que você fará a respeito?"
::Ficha Técnica::
(Pleasantville, USA, 1998)
»Diretor e Roteirista: Gary Ross
»Gêneros: Drama, Comédia
»Duração: 108 minutos
»Trilha Sonora: Randy Newman
»Direção de Fotografia: John Lindley
»Desenho de Produção: Jeannine Claudia Oppewall
»Direção de Arte: Dianne Wager
»Figurino: Judianna Makovsky
»Edição: William Goldenberg
»Efeitos Especiais: Cinesite Hollywood, Compound Eye e The Computer Film Company
»Elenco: Tobey Maguire (David / Bud Parker), Reese Whiterspoon (Jennifer / Mary Sue Parker), Jeff Daniels (Bill Johnson), Joan Allen (Betty Parker), William H. Macy (George Parker), J.T. Walsh (Big Bob), Marley Shelton (Margaret Henderson), Natalie Ramsey (Verdadeira Mary Sue Parker), Kevin Connors (Verdadeiro Bud Parker), Giuseppe Andrews (Howard), Don Knotts (Técnico de TV)...

4 comentários:

  1. divertido filme sobre o rompimento com o que é estabelecido por certo e normal e o aprisionamento que muitos sofrem dentro dos padrões.

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  2. Achei interessantíssimas as cenas em que Bud maquila Betty, a cena em que o prefeito de Pleasantville fica colorido e diversas outras.Ótimo filme! E olha que o autor nunca leu Néfi e a necessidade da oposição...

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