10 de julho de 2015

Por Que Nascem as Flores?

10 julho Escrito por Eliude Santos , 10 comentários
O pensamento surgiu-lhe como um cardo incômodo, ameaçando a harmonia de suas tão perfeitas conjecturas que num quarto de século apaziguaram todas as armadilhas que sua mente ardilosa era capaz de engendrar. E já não lhe agradava a poesia nem as cores, pois tudo lhe lembrava das flores; e murchava diante da incapacidade de encontrar, para tão simples questão, uma resposta que lhe acalmasse o coração.

Borboletas, então, eram um martírio! Existiriam se as flores deixassem de nascer?

Decidiu percorrer o mundo. Conversou com homens do campo, mestres e doutores que lhe apontaram respostas para todas as perguntas que não tinha. Visitou bibliotecas, folheou periódicos, comprou centenas de livros e os leu. E escreveu. Encheu de certezas e incertezas os olhos curiosos dos que lhe deram atenção. E entre esses olhos, os de uma Rosa surgiu.

Outro dia, diante do espelho, sentiu uma certa paz. Não foi por causa do perfume que acabara de borrifar no pulso, nem da flor que fora usada em sua composição, ou tampouco da borboleta que a polinizara por encantar-se com sua beleza. Alegrou-se, pois seu filho estava para nascer e sua Rosa estava linda naquela bata florada.

Lembrou-se da rosa roubada que resultara no primeiro beijo, do bouquet de flores que ela levava radiante ao altar...

Demorou-se contemplando o cuidado com que ela dobrava as pétalas de carinho que bordara com as próprias mãos para receber o fruto tão esperado de sua concepção. E percebeu que se as flores não nascem para dar sentido à vida dos homens, ao menos haviam dado à sua.

Tomou-a no colo e levou-a ao carro.

Chegaram cedo ao hospital e, enquanto sua esposa era atendida, seus olhos esperançosos corriam os corredores claros da maternidade.

A cada choro, a esperança de que fosse o do seu rebento.

Não entrara na sala com a esposa. Ela preferira assim.

O médico voltou. Conduziu-o ao quarto. Sua Rosa vazia olhava o berço vazio. Abraçaram-se e choraram.

Naquela noite um pensamento surgiu-lhe em meio ao choro como um espinho cravando-se em seu peito, “Por que morrem os bebês antes de verem as flores?”

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
Para acessar o índice do lívro, clique na imagem abaixo. 

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10 comentários:

  1. Lindo, lírico. Triste. Um conto com inúmeras emoções. Parabéns. Escreves como poucos.

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  2. Lindo mesmo. Já pensou em escrever um livro ?
    Escreve muito bem. Pena que não tenho essa habilidade e nem criatividade ... mas isso deu pra perceber que vc tem de sobra ^^

    Bjs

    http://cryingforjoy.blogspot.com/

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  3. Eliude sabia mesmo o que escrevia!.. Muito belo e ao mesmo tempo, triste! Nunca havia lido um texto tão lindo, nunca mesmo.. 'Por que morrem os bebês antes de verem as flores?'
    Maravilhoso. Parabéns pelo post, adorei!
    Beijos, Thamara

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  4. Adoro contos! Acho encantador.,., Não sou muito fá de novelas, ficar lendo uma semana uma única história.,., Mas me esforço,., Adoro poesias tbm, tanto é que eu "tento" escrever alguns, nas minhas horas de insônia.,., Amei o blog, o post, já sou sua fã!!!

    BjoxXD!!!

    KthY?

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  5. Adorei esse conto, simplesmente encantador e triste
    Parabéns pelo blog, voltarei aqui!

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  6. Lindo, parabéns pelo blog espectacular (: Eu tambem escrevo. O meu blog é em inglês, mas estou a pensar em introduzir alguns dos meus contos e poemas em portugês.

    Beijos, Jackie *

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Pois bem, Eliúde... Essa visita não poderia render melhor fruto. Aqui , um conto muito belo, com a nuance literária adequada ao nosso projeto "Livre Pensar Literário". Gostei demais. Você foi brilhante... O desfecho dá um tratamento muito comum às prosas poéticas, mas o melhor é o aparato existencial, a trama da vida, o questionamento que faz da condição humana por meio da belíssima metáfora "as flores" e, melhor ainda, pela interdisciplinaridade no texto ao reunir literatura e filosofia numa mesma OBRA.

    Parabéns, com menção honrosa.

    Bruno Resende Ramos
    Projeto Nova Coletânea
    http://www.novacoletanea.blogspot.com

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  9. Ao que parece,estamos no caminho certo,sabia que o Bruno ia tecer um comentário favorável,ele é expert e você tem um talento nato para Literatura,eu sempre falei isto...Espero trilharmos o mesmo caminho,parabéns,primo!
    Geilza

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  10. Na epoca eu fiz um comentario sobre este conto, um dos primeiros, la no site da Livraria Cultura. E, diga-se de passagem, cada conto eh unico na prosa literaria do autor. Cada um traz as reflexoes inevitaveis sobre a vida humana, e a relacao interpessoal. Parabens, Eliude!

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