10 de julho de 2015

A Trama

10 julho Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
O livro é confuso e pretensioso, diziam.

Se dizem que é confuso, deve ser somente complexo. E nada há de mais complexo que a própria simplicidade. Concluí então que o livro deve ser simples.

E se é pretensioso, pensei, é porque tem aspirações. Portanto, embora seja simples, quer chegar a algum lugar, foi então produzido com algum nível de exigência.

Estávamos eu e ele no corredor central da livraria.

Curioso, tomei-o nas mãos e abri-me para ele sem receios. O livro logo tratou de me absorver em sua trama de tal modo que já não conseguia mais desviar os olhos do papel.

Quando dei por mim, estava sentado no meio do corredor como uma criança entretida com o brinquedo novo. E esse brevíssimo momento de lucidez foi logo tragado pela trama e esqueci-me de mim outra vez.

Fui finalmente resgatado quando alguém aproximou-se dizendo que a loja estava para fechar. Levei o livro ao caixa. A moça foi gentil, mas explicou-me que não estavam mais atendendo. Não pude levá-lo.

Naquela noite, não consegui dormir.

Na manhã seguinte, fui a primeira pessoa a entrar na livraria. Corri para a prateleira, onde ele me esperava ansioso. A moça do caixa sorriu quando o entregou em minhas mãos.

Abri-o no ponto onde havia sido interrompido e recomecei a leitura. Voltou todo o sofrimento, fui novamente envolvido pela trama de tal modo que respirar só era possível naquele mundo. Nem lembro como cheguei em casa.

Em dois dias, devorei o livro; e ele, minha alma.

Senti um luto sufocante quando a trama chegou ao fim. Jamais experimentara tanta vida. Abri-lo novamente não ressuscitaria a excitação causada pelo novo. Temia sufocar sua vida com a mesmice da minha.

A abstinência me matava um pouco a cada dia. Voltei à livraria.

Vi alguém devolver um outro livro à prateleira. Fui até ele com avidez. Tomei-o nas mãos como um tesouro. Li um trecho, achei confuso e pretensioso. Devolvi-o desconsolado.

Tudo viu-se encerrado nas páginas do livro fechado.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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2 comentários:

  1. "Em dois dias, devorei o livro; e ele, minha alma."

    Me lembrei do conto de Edgar Allan Poe, "Berenice". Foi o primeiro texto dele que eu li, e me apaixonei!
    Realmente há textos que lhe devoram a alma.,.,

    Ótimo conto!!!

    BjoxXD!!!

    KthY?

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  2. Gostei da narração das ânsias do leitor e da utilização do livro como protagonista das diversas sensações. descobertas e análises do foco narrativo.
    Parabéns, nem sempre trabalhar o foco narrativo na primeira pessoa produz o estranhamento necessário para que o conto deixe uma mensagem universal.

    Abraços

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