2 de maio de 2009

Sexo, Religião e Homossexualidade

02 maio Escrito por Eliude Santos , , 16 comentários

Sexo como assunto ou tópico de debates ainda é um tabu para muitas pessoas, especialmente no meio religioso.

Entre os mórmons, por exemplo, o sexo é considerado sagrado, mas não significa que deva ser menos prazeroso por causa disso. O sexo não é visto apenas como meio de procriação. Todo e qualquer contato íntimo consensual aproxima o casal e torna seu relacionamento mais completo e feliz. No entanto, não se considera o sexo a base do relacionamento.

Como o conhecimento não chega a todos de igual modo, pois recebe mais conhecimento quem mais procura, há entre os mórmons alguns casais reprimidos sexualmente, e a maioria deles têm problemas de relacionamento que resultam em constantes visitas ao bispado (liderança responsável por orientá-los em momentos de dificuldade). Mas problema de relacionamento não é uma particularidade dos mórmons. Sempre que, num relacionamento, o nível de entendimento e respeito está desequilibrado, haverá problemas.

Do mesmo modo, há também pessoas que não se sentem plenamente realizadas e não têm coragem de falar com o cônjuge a respeito.

Cientes de todas essas situações, os mórmons contam com várias ferramentas de ajuda, como serões, cursos e programas específicos para casais, onde possam discutir abertamente (mas não explicitamente) sobre o assunto. O problema de se falar sobre o assunto é que as pessoas parecem não ter noção de até onde podem ir (e o que preocupa é que essa noção é o sinal mais básico de maturidade!)

Pessoas que se conhecem bem, que não têm bloqueios emocionais e que são bem resolvidas quanto à sua condição e interesses, pessoas que conhecem o próprio corpo e o corpo do outro e entendem a importância do prazer compartilhado quando o outro passa a ser uma extensão de seu próprio corpo, essas pessoas sabem que não há necessidade da intervenção de uma instituição para que o entendimento seja alcançado, mas sim de diálogo entre as partes interessadas. Um diálogo que nem sempre precisa de palavras.

No final das contas, grande parte dos problemas pode ser resolvida com um pouco mais de carinho e compreensão, e pitadas de respeito. E é claro, conhecimento sobre o assunto é sempre bem-vindo.

Lembro-me que, quando era adolescente, muitos dos meus amigos acreditavam que a coisa mais importante para eles naquele momento não eram as aulas de física, química ou matemática, o que eles queriam mesmo era aprender a beijar bem; pois temiam que se seu beijo fosse ruim, nenhuma menina fosse querer qualquer outra coisa com eles.

Eu não era do tipo que me preocupava com essas coisas, mas fiquei curioso e comecei a perguntar para as minhas amigas o que elas achavam ser um beijo bom. E, o mais espantoso: cada uma tinha uma resposta diferente!

Percebi que os meninos estavam no caminho errado. O mais importante não era a técnica, mas a interação. Enquanto eles estavam preocupados com a performance, esqueciam que o segredo estava na essência do ato. Fosse um selinho comportado ou um "francês elaborado", a essência estava na interação da troca: troca de sentimentos e sensações onde pudesse haver um equilíbrio harmônico e consensual.

Foi nesse ambiente que cresci, preparando-me para uma vida monogâmica de fidelidade eterna ao lado de uma moça que tivesse os mesmos princípios. Mas, tendo consciência de minhas inclinações homossexuais, sabia que esse ideal mórmon não seria facilmente alcançado.

Acho extremamente saudável a defesa de certos "tabus" e os vejo apenas como limites, não necessariamente como limitações. Traçamos limites para que nossa própria liberdade seja respeitada e criamos convenções para que saibamos até onde podemos agir livremente sem intervir nos limites alheios.

Tenho amigos que acham um absurdo que eu não fale palavrão. No entanto, para mim, não dizer palavrão não pode ser chamado de uma limitação. Se eu quiser, eu conheço vários que poderia falar. Então, não sou limitado (no sentido de não conseguir), apenas por ser escritor e por ter um profundo respeito pelas palavras, estabeleci limites que mantenham meu uso da linguagem num patamar mais elevado.

Do mesmo modo se dá com o sexo. Tenho tabus sim, no sentido de limites estabelecidos quanto ao que considero saudável ou não para ser feito e do que considero apropriado ou não de ser dito.

Acredito na vida após a morte e acredito que o padrão de vida que temos aqui, isto é, as leis que vivemos aqui interferirão no nosso progresso eterno. Há leis telestiais, leis terrestriais e leis celestiais. Cada uma dessas leis nos prepara adequadamente para vivermos em harmonia em quaisquer dos "céus" para onde formos enviados após esta vida.

Sendo o "céu" que vive a lei celestial um lugar criado para famílias eternas se multiplicarem e encherem as imensidões dos universos sem fim, é óbvio que a prática da homossexualidade entraria em conflito com os padrões ali vividos. Se as escrituras ou os próprios relatos da história não são exatamente claros sobre isto, a lógica o é.

Mas, não devemos esquecer que os outros "céus" foram também criados pelo mesmo Deus, criados com o mesmo senso de excelência, tendo em vista o padrão de conduta e a personalidade daqueles que para ali seriam enviados.

Quando as escrituras judaicas falam de "abominação", não se referem à "exclusão" ou "preconceito". Referem-se a comportamentos contrários às práticas e rituais que o povo judeu havia abraçado em preparação para sua entrada na terra que lhes havia sido prometida. Eles passariam quarenta anos vagando no deserto, até que somente três das pessoas que deixaram o Egito fossem ainda vivas ao cruzarem os portões da terra prometida, de modo que se houvesse homossexuais entre eles (numa época em que homossexuais não eram interessados em relacionamento sério ou constituição de família – uma prática bem recente na história humana por sinal), Israel não teria um exército grande o suficiente para tomar aquela cidade.

Do mesmo modo que certos comportamentos me desqualificam a tomar parte em determinados ambientes aqui na Terra, o mesmo acontece em relação ao nosso futuro eterno. Nossa vida e nossa conduta determinam nossos padrões de felicidade. E a visão de "céu" ou "paraíso" de cada indivíduo será alcançada pelo padrão de leis que ele vive aqui na Terra, leis que determinam seu próprio padrão de felicidade.

Um homossexual que acharia "abominável" ter que viver pela eternidade com uma mulher perfeita ao seu lado por quem não sente qualquer desejo e ainda ter com ela uma multidão de filhos para encher universos de vida não teria suas expectativas de "céu" alcançadas se fosse enviado para o Reino Celestial, cuja existência baseia-se essencialmente nisto.

Por esta razão existem reinos diferentes, onde diferentes expectativas de paraíso podem ser alcançadas.

Isso não quer dizer que não haja a possibilidade de acontecer uma mudança na natureza e desejos do indivíduo que assim se esforçar para tal, até porque, nem todos podem, pelo que vivem aqui na Terra, fazer um julgamento perfeito de si mesmos, e há muita água para rolar embaixo da ponte até o dia de nosso encontro com Deus.

Entendo que muitos homossexuais evitem o contato com uma religião cristã mais tradicionalista ou mesmo que professem seu ateísmo, pois se sentiriam reprimidos por leis que não condizem com suas tendências. (Talvez pelo fato de acreditarem que não conseguem controlar essas tendências — e muitos de fato não conseguem).

Afinal, o modo como o assunto é tratado pela maioria dos religiosos é considerado muito ofensivo por parte do homossexual praticante e isso o deixa receoso de aproximar-se da religião; então, o que para uns pode ser uma abominação, para outros pode ser a única felicidade que conhecem.

Às vezes, não temos consciência de como o modo como encaramos uma situação ou falamos a respeito dela pode ferir pessoas que a estejam vivendo. E nem sempre ou quase nunca é ferindo que vamos ajudar.

Mas infelizmente sei que há muitos religiosos que têm um padrão de tolerância tão baixo com o que consideram pecado, que transmitem sem perceber (ou percebendo mesmo) parte do nojo e asco que sentem por certos comportamentos aos praticantes de tais ações. E isto é muito triste.

Afinal, somos todos pecadores. Do mais recatado dos homens ao mais mundano, todos pecamos.

Mas o que é o pecado, afinal? A desobediência a leis de ordem celestial são consideradas pecado.

O pecado mostra nosso apreço pela naturalidade em seus aspectos mais humanos. Assim, tais ações definem nossa personalidade e o tipo de padrão de felicidade com o qual nos identificamos mais. Pecar não torna a pessoa melhor ou pior, apenas a torna mais humana. Assim, diferentes padrões de felicidade acabam sendo julgados de diferentes maneiras por aqueles que os praticam.

Se colocássemos na mesma mesa uma porção de torradas com caviar e um prato de feijão com arroz e farinha e sentássemos diante dessa mesa um homem simples do campo e uma socialite refinada, já sabemos que refeições cada um escolheria, pois presumimos o tipo de padrão de felicidade de cada um.

Nossa experiência mortal, e todos os erros e acertos que cometermos, mostrará quem de fato somos e que padrão de felicidade abraçaríamos se estivéssemos livres do julgamento alheio.

Muitos homossexuais cristãos vivem em desarmonia consigo mesmos por não compreenderem plenamente o conceito de pecado. Quando fazem algo que pensam desagradar a Deus, acabam desenvolvendo nojo ou culpa pelo fato de estarem praticando aquele ato que aprenderam ser abominável. Isso os deixará com um sentimento de miserabilidade que os enfraquecerá gradualmente. O propósito de nossa vida é descobrirmos quem somos e o que nos deixa felizes e entender que todos somos diferentes e não querer aplicar a todos os rigores da mesma lei.

Durante muito tempo fui intolerante com as pessoas que tomavam café, chegando até a obrigar algumas delas a não tomarem café perto de mim. Tinha nojo do cheiro, do gosto, e não me imaginava bebendo café. No entanto, amadureci e atualmente, não tenho nenhum problema de acompanhar meus amigos à Starbucks. Sei que café me faz mal (física e espiritualmente), não gosto, nem tenho vontade de tomar; mas não vou me privar de estar com meus amigos, somente porque eles gostam. Eles são meus amigos. Me respeitam. Não ficam me oferecendo, pois sabem que não tomo. Então, é claro que podemos ficar conversando num lugar agradável, enquanto eles cometem seu "pecadinho inconsciente".

É justamente por causa deste tipo de discurso que fujo de debates sobre esse tema. Especialmente porque não é minha intenção fazer apologia do pecado. Mas, não posso evitar defender a verdade, mesmo quando ela está do outro lado da moeda.

A verdade é que todos somos pecadores. Foi isso que Cristo nos ensinou, e também nos ensinou a não julgar. O único motivo da prática homossexual ser considerada inadequada entre mórmons, por exemplo, é porque tal comportamento não se encaixa no padrão de uma “família eterna”, que, em sua visão, consiste de um casal de homem e mulher que se amam e desejam ter filhos de maneira natural pela eternidade.

Muitos homossexuais podem achar abominável esse pensamento, mas não devem esquecer que assim como clamam para si a liberdade de serem felizes dentro dos parâmetros de sua consciência, devem conceder aos de opinião contrária o mesmo privilégio.

Diversidade é um princípio de inclusão.

Talvez por falta de conhecimento sobre o assunto ou por birra mesmo, alguns religiosos referem-se à tendência homossexual como “homossexualismo”. Tal termo já não existe mais e há um motivo para isto. Usar o termo apropriado permite-nos perceber que não estamos tratando de um partido, seita ou doença, mas sim de uma condição (que pode ter surgido por imposições biológicas ou mesmo por escolha). Seja uma condição biológica ou uma escolha, a sexualidade é apenas “uma” das inúmeras características da personalidade de um indivíduo. A sexualidade não determina o caráter da pessoa.

Embora muitos religiosos levantem bandeira contra a homossexualidade, a bandeira do arco-íris levantada por homossexuais mundo afora é colorida exatamente para mostrar que eles apoiam a diversidade. Eles não consideram a condição heterossexual como algo a ser extinguido, apenas como algo que não se encaixa no “seu” padrão de felicidade.

Se as religiões cristãs continuarem com essa cruzada contra homossexuais, talvez desenvolvam uma sociedade como a de Sodoma e Gomorra; pois farão com que seus irmãos homossexuais se irritem contra a verdade (pelo modo pouco claro e tendencioso com que ela lhes é apresentada) e não queiram se deixar edificar por outros princípios igualmente importantes do evangelho que não dizem respeito direto à esse aspecto de sua personalidade.

Prefiro que um homossexual aprenda a verdade do evangelho e viva os princípios que lhe agradam, do que não viva nenhum deles por falta de interesse, somente porque o emissor dessa verdade não soube respeitar os limites que aquele impôs.



Como sugerido por Augusto, do blog Sociedade dos Poetas Putos, estou adicionando um trailer do documentário For The Bible Tells Me So, que aplica-se perfeitamente ao tema tratado nesse artigo:

16 comentários:

  1. Admiro a coragem, honestidade e beleza da postagem. Para ser mais fiel, ao meu blog, é preciso ser muito PUTO para escrever isso... lol.
    Vi um filme muito bom sobre essa temática, o qual indico:

    http://www.forthebibletellsmeso.org

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  2. Augusto, obrigado pela referência ao filme. É um documentário excelente e já adicionei às informações adicionais ao corpo do artigo.

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  3. Está excelente o texto. "Homossexualismo" realmente soa como uma profissão, horrivel esse termo. O texto está muito bem explicado e com muito direcionamento. Muito bom Eliude!

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  4. Muito bom o artigo, Eliude!
    Completo no seu proposito de tratar homossexualidade e religião.
    É preciso muito respeito para aceitar a diferença entre todos, pois até mesmo entre os homossexuais há pré-conceitos quando os mesmos desviam do padrão homossexual.
    Texto que deve ser lido por todos!
    Bjão!

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  5. Não vou mintir, não li td.... Mas entendi tua opinião! As pessoas tem o preconceito encravado e nossa sociedade é um festival de rotulos... td ki foge dakele paradigma vira "noticia" e causa estranheza!
    Achei teu texto mtu bem escrito! Parabéns ;)
    Bju

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  6. O seu post está excelente! Sem dúvida é difícil encontrar um texto sério e tão bem explicado para um assunto que é, como você disse, tabu para muitos. Dou lhe os parabéns!
    Beijo.

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  7. Cristiano Robson4 de maio de 2009 02:15

    "Hamlet observa a Orácio, que há mais coisas entre o céu e a terra, doque sonhava sua vão filosofia".
    Ao refletir sobre o artigo, este verso de Shakespeare, vem me a mente para ilustrar as palavras poderosas de Eliude. Não posso esquecer nunca que minha visão é limitada e meu entendimento não é tão vasto quanto penso. Só assim poderei alcançar a tolerância e a paz pregada por Gandhi e agora por Eliude.

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  8. postagem interessante

    também já ouvi falar dakele filme que o Sociedade dos poetas putos falou

    é um assunto interessante e polêmico

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  9. Interessantissimo,e por ironia do destino,após ter ido ao playcenter e alguns homossexuais terem dado em cma de mim criei um ódio sobre eles,mas em menos de um mês depois,meu amigo começou a namorar uma amiga com amigos gays,eles são pessoas normais e para falar a verdade,muito mais divertidas,eu e minha namorada agora somos amigos deles como de qualquer outra pessoa...

    Vistem: JaNjÃo ComicS

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  10. liu, vamos trocar um ósculo francês bem elaborado?

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  11. Bom mesmo que todos pudessem ler este artigo, mas tambem que talvez os lideres do Affirmation o fizessem. Tambem ha sim a discriminacao contra heteros, e nao eh pequena... embora eles somente a declarem contra os que os respeitam, nao contra os produtores de Sodom e Gomorra :(

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  12. É uma pena mesmo que haja tanta discórdia no mundo. Tudo seria tão mais fácil se todos pudessem enxergar as coisas como de fato são. Tudo é tão mais simples e tão mais agradável do que a maioria consegue perceber. Às vezes acho que nem é pela causa, mas sim pelo conflito que certas pessoas levantam bandeiras umas contra as outras.

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  13. Fazia tempo que não lia um artigo ( em um blog ) tão bem feito como o seu, agradeço por ter compartilhado, agradeço por não se deixar tornar mais uma pessoa ignorante ( pelo menos nesse assunto ) nesse nosso mundão.

    Você está de parabéns !

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  14. Adorei o artigo...muito sensato e coerente!!! Parabéns pela clareza de opinião!!!

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  15. Parabéns! perfeita abordagem do tema.

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  16. Obrigado, Musta, Má e Anônimo... de fato, o mais importante nisso tudo é encontrarmos nosso ponto de equilíbrio... o farol do ancoradouro de nossa paz... pois naquilo que nos encontramos felizes, aí estará nosso céu.

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