10 de julho de 2015

Preta de Carvão

10 julho Escrito por Eliude Santos , 7 comentários
Preta de Carvão era mulata esperta, cheia de si. Passava horas diante do espelho de cristal da patroa, admirando a própria beleza: não era beleza que espelho mostrasse; somente um encanto peculiar que os lábios repuxados e os olhos submissos de D. Branca jamais conseguiriam imitar.

E naquela admiração solitária, Preta sorria gostoso, mostrando o branco dos dentes e ocultando o dos olhos. E saia pela casa, toda faceira, fazendo a faxina.

“Ah, essa menina!” O patrão suspirava, olhando de soslaio enquanto seguia sua pseudo-leitura do empolgante caderno de finanças do Jornal de Domingo.

E Preta descia as escadas, de espanador na mão, cantarolando a última modinha cretina que, de tanto ouvir em todo canto aonde ia, tirar da cabeça já não conseguia.

E tirava! Da cabeça queimada de chapinha para a ponta da língua desafinada. E dali para os ouvidos da entediada patroa, que, de não ter o que fazer, gastava seu refinado português em apontar ocupações para a pobre doméstica, para ver se conseguia calar a boca da infeliz.

Infeliz, só se fosse na cabeça de D. Branca, pois Preta de Carvão era mulata assanhada. E onde já se viu gente assanhada ser infeliz?

Mas, um dia, seu patrão encoxou-a no jardim. E Preta, assustada, deu-lhe uma joelhada entre as coxas e saiu correndo sem olhar para trás, com medo de virar estátua de sal.

E na fuga desenfreada, arrebentou a sandalinha de silicone que comprara de uma amiga sacoleira para pagar com a sobra do salário do mês seguinte que agora já nem sabia mais se iria receber.

Cansada de correr, deitou-se no meio fio para recuperar o fôlego e o rebolado. Mas antes que o fizesse, foi cercada por sete pivetes armados e mal-encarados.

“Passa a grana, tia!”

Aquilo certamente não era o que ela esperava ouvir naquele momento. [Assim, para satisfazer os seus quereres e para não ser acusado por leitores politicamente corretos de maus-tratos a personagens indefesas, mudo o rumo da narrativa.]

Preta empinou o nariz e o traseiro, segurou a bolsa com firmeza e encarou a pivetada.

“Qual é?”

“Calma, dona! É que a gente está rodando um filme aqui na praia e uma das figurantes faltou e a gente quer saber se você não topa fazer uma ponta nesse curta.”

Preta nascia para o estrelato nos quinze segundos em que era perseguida e morta com três tiros de festim na praia de Bom Sucesso. Quando ela soube da estréia do curta, vestiu sua melhor calça jeans e foi cheia de sonhos para o cinema.

Na entrada, comprou uma maçã caramelada e morreu engasgada.

Ouvi dizer que até hoje, o gari que encontrou a sandalinha de silicone ainda procura sua princesa encantada.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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7 comentários:

  1. Que desfecho, Eliude. Tô aqui rindo sozinho (mas acho que não deveria...) Engraçado que há umas duas semanas eu terminei de ler "O Cortiço". Me lembrei de uma certa Rita Baiana lendo seu conto... Adorei.

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  2. putzzzzzzzzzz. muito legal, não só o post ou artigo como o blog em si está numa harmonia perfeita!! é de um extremo bom gosto o layout e o post é intelectucômico!!!

    http://cayonauan.blogspot.com/

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  3. eeeeeeeeeeeeeeeeeeee eu lah tinha lidooooooooo!!!
    Morram de inveja: eu tenho um amigo gênio!!! rsrsrs
    Te amo Liu!

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  4. Pois eh, quando li esse conto achei um lance de genio a diversidade de assuntos que voce consegue captar. Eh isso ai mesmo o que faz um autor completo!

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  5. Risos.. Que lindo esse conto! amo de paixão contos, literatura. Você é bem divertido senhor Eliude. os seus textos e contos, transmiti um ar de alegria e paixão que vc tem ao escrever. Deus abençoe seu trabalho!!

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  6. Obrigado, Edyla... hehehehe Acho que esse é meu único conto que veste a couraça da comédia... não sou um bom mestre nessa área... mas fico feliz que ele consiga arrancar alguns risos dos leitores... hehehehehehehhe

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