16 de julho de 2011

Experiências Sagradas versus Experiências Religiosas

16 julho Escrito por Eliude Santos Comente aqui

Experiências sagradas nos colocam em contato com dimensões que transcendem os mecanismos biológicos e físicos da vida. Elas acontecem em lugares ou situações específicas e, por vezes, através de objetos ou gestos especiais, ritualísticos ou não, ganhando corpo na meditação ou assimilação de textos místicos ou mesmo em meio a contextos corriqueiros. Tais experiências não precisam de contornos religiosos definidos.

Há, no entanto, situações que remetem a contornos adorativos mesmo não se aplicando necessariamente a cultos religiosos propriamente ditos: uma torcida organizada numa arquibancada de estádio pode proporcionar a um fiel torcedor do time em campo uma experiência essencialmente religiosa (ele se ligando a cada jogador em campo e ao corpo da torcida que em uma só voz grita palavras de ordem) — uma experiência que em muito assemelha-se com a de um fiel em um culto pentecostal ou missa carismática, ou de um médium num terreiro de umbanda. Os arrepios, enlevos e arrebatamentos na hora do gol, ou quando a taça de campeão é erguida possuem características muito semelhantes a sensações experimentadas por quem participa dos serviços de religação já citados.

Do mesmo modo que essa euforia se assemelha a certas manifestações eclesiásticas, a mansidão de um entardecer à beira-mar, o carinho de uma mãe cuidadosa, ou o aconchego sob cobertores com alguém de quem se gosta num dia frio e chuvoso são exemplos claros de experiências sagradas sem nenhum cunho religioso. Experiências sagradas nos colocam em contato com a essência espiritual que há em cada um de nós, enchendo-nos de um sentimento pleno que transborda para a vida.

Quando o Samaritano ajudou o homem que agonizava à beira do caminho, ele experimentou o amor divino numa dimensão que estava longe de ser religiosa.

Compartilhar experiências sagradas reafirma nossa crença e nos coloca em comunhão com o Cosmos.

Há, portanto, diferenças entre experiências religiosas e experiências sagradas ou divinas.

As experiências religiosas, por mais arrebatadoras, por mais deslumbrantes, por mais apavorantes que sejam, não conseguem transbordar para a vida. Restritas a uma hora e a um lugar, no máximo, provocam sentimentos de paz momentânea ou alegria passageira. Elas geram simultaneamente medo e fascínio, mas ficam nisso.

Por outro lado, as experiências sagradas ou divinas suscitam integração, mudança de consciência, compromisso com a verdade: uma ação transformadora que promove um sentimento de religação cósmica, que embora seja algo essencialmente religioso, não necessariamente se faz inerente à religiosidade.

Tais encontros com o divino independem de ritos, compromissos com o rigor dogmático ou de obediência institucional, mas simplesmente de amor.

As instituições religiosas se especializaram em reproduzir experiências que vendem como sagradas, mas que são, em sua essência, estereotipadas, massificadas e desejadas como um fim em si mesmas.

Sempre ávidas em defender seu direito de existência, essas instituições tentam confundir as duas experiências. Afirmam, sem titubear, que seus rituais, cultos e militância são o único meio de se promover tal comunhão sagrada com a divindade.

As experiências sagradas, no entanto, são sempre únicas e irrepartíveis; elas fogem do controle sacerdotal e não podem ser ideologicamente manipuladas. O Espírito sopra onde quer e como quiser.

Por isso é tão difícil explicar essas experiências sagradas a alguém que nunca as experimentou.

Até no show do Radiohead podemos ter uma experiência de cunho espiritual, pois quando o espírito deles se comunica com o nosso através da música, sentimos essa comunicação etérea se dando por meio dos mesmos sentimentos.

Um médium da umbanda se sentirá em comunhão plena quando estiver sob a ação de um espírito. Religião significa "religação" e é esse tipo de sensação espiritual que temos quando tal comunicação acontece.

A comunicação entre espíritos ou entre nosso espírito com o Espírito Santo se dá seguindo as mesmas leis. No entanto, experiências de cunho espiritual não são necessariamente sagradas ou religiosas. Julgar se a experiência de alguém foi realmente sagrada não cabe a qualquer indivíduo senão à própria pessoa que teve tal experiência.

Se possessões colocam médiuns em contato com algo que em sua concepção julgam ser divino, tais experiências serão sagradas para eles, e por isso o respeito a tais experiências é essencial, mesmo quando a aceitação do que eles consideram sagrado parecer ao observador externo difícil de digerir.

Experiências religiosas podem ter efeito indutor. A pessoa sente-se compelida a agir de determinado modo por causa do tipo de interpretação que dá para as sensações que experimenta. Esta indução precisa ser alimentada para que permaneça, por isso as religiões utilizam-se de rotinas a fim de reproduzir nos fiéis esse mesmo tipo de sensação da qual acabam se tornando dependentes.

A diferença entre uma experiência religiosa e uma experiência sagrada é a mesma entre fazer sexo com ou sem amor. Fazer sexo sem amor é um ritual, envolve sedução, precisa ter a "pegada" certa, e tudo gira em torno do prazer e do desempenho. Já fazer sexo com amor envolve encantamento, desperta todos os sentidos, gira em torno da emoção e da interação. Quando se faz sexo sem amor e é bom, você não quer repetir o ato por causa do outro, você quer repetir o ato por causa do que o outro lhe permitiu sentir, de modo que o outro se torna irrelevante; quando se faz sexo com amor, o outro é muito mais importante do que tudo o que se sente, há uma conexão real e significativa.

A experiência sagrada promove este tipo de ligação, de conexão cósmica, que só quem ama consegue entender.


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