4 de abril de 2013

Cada Coisa em Seu Lugar

04 abril Escrito por Eliude Santos 2 comentários
Tenho tocado muito neste assunto recentemente pois é algo que me preocupa profundamente. Acho que existe um conflito sendo criado por formadores de opinião (tanto por parte dos dirigentes do movimento LGBT quanto dos pastores fundamentalistas) que pode resultar num grande estrago para nossa sociedade e que, se não for amenizado, abalará as estruturas do Estado brasileiro. Ambos estão apenas defendendo o seu espaço, de acordo com o ponto de vista de cada um (líderes do movimento LGBT querendo que seus direitos sejam protegidos por lei, mas demonstrando pouco respeito em seus discursos e protestos contra aqueles que lhes mostram oposição; e pastores dizendo que querem proteger a família, quando na verdade, seu maior interesse está em se opor aos líderes das religiões afro-brasileiras no congresso, pois os consideram representantes do diabo). E todo este embate está particularmente centrado na disputa pela legalização do casamento igualitário.

Nos Estados Unidos, um conflito semelhante acontece desde os anos 70 e ganhou força a partir dos anos 90, fazendo com que o estado de Massachusetts reconhecesse em 2004 a primeira união de um casal do mesmo sexo, mas as bases desse conflito lá são bem diferentes das que são enfrentadas aqui. Para que tomemos parte de um modo consciente, precisamos entender melhor seu cenário e a influência que tais manifestações tem tido em nosso país.

Enquanto no Brasil temos um casamento civil que deve ser realizado por um oficial de justiça e um casamento religioso que pode ser realizado por um ministro religioso sem a supervisão do Estado, nos Estados Unidos, o ministro religioso tem poder civil, portanto, quando ele realiza uma cerimônia de casamento, ela tem validade civil. Obviamente, existe a opção da união civil, coabitação ou parceria doméstica para aqueles que não professam nenhuma crença (e em alguns estados, para casais do mesmo sexo), mas tais uniões não reconhecem todos os direitos legais pertinentes ao casamento.

É compreensível aceitar que lá, religiosos se oponham ao casamento igualitário, pois se a lei for aceita conforme propõe a Comissão de Direitos Humanos, os ministros religiosos podem correr o risco de, no futuro, ter que realizar uma união com a qual sua fé não concorda, sendo passiveis de penalização legal caso se recusem. Desta maneira, o Estado estaria cerceando o direito do cidadão religioso de professar e administrar sua crença.

Por esta razão, nos Estados Unidos, a grande maioria dos que se opõem ao casamento igualitário são os cristãos conservadores que acreditam que a homossexualidade é um pecado. (Há algum tempo, escrevi um artigo sobre a relação da homossexualidade com o conceito cristão do pecado. Clique aqui para ler este artigo e entender um pouco mais sobre este assunto.) Além destes, também os judeus ortodoxos, mórmons e islâmicos tomam parte contra o casamento igualitário. Já os hindus e budistas parecem indiferentes à causa.

Num país em que o casamento civil e o casamento religioso são tratados separadamente, como no Brasil, tal alvoroço por parte do clero é descabido (pois a aplicação de tal lei não interfere em sua prática religiosa), e desrespeitoso (pois vetar tais leis fere o direito do cidadão homossexual de ter acesso a benefícios legais e aceitação social que são concedidos a casais heterossexuais em decorrência de sua condição legal.)

Então, por que eles se levantam contra esta causa? Segue a opinião de um pastor durante um culto religioso.


Embora eu não concorde com o conteúdo e os argumentos de seu discurso, entendo e respeito o fato de que um evangélico, como qualquer outro cidadão, tem todo o direito de assumir cargos públicos em defesa de seus valores. No entanto, quando ouço esse tipo de discurso fundamentalista, temo pelo efeito nocivo que o poder legislativo outorga nas mãos de tal recipiente.

Pois, sendo eleito, ele, apegado de tal modo às suas crenças, deixa de ser um representante da população e passa a ser um representante da própria causa; deixa de agir em nome do povo e passa a agir "em nome de Deus", não do Deus comum a todos os que representa, mas do "seu Deus". A Constituição deixa de ser seguida, pois a Bíblia é mais importante. O decoro parlamentar (que é a conduta ética esperada de um representante público) é ferido, pois ele passa a tratar a oposição não apenas como um partido com um ponto de vista diferente, mas como marionetes do diabo que devem ser combatidas com a palavra de Deus.

Não demora até que o palanque vire um púlpito e eles voltem a posição de pregadores, sendo pagos pelo poder público (isto é, pelo dinheiro de nossos impostos, pagos com o suor de nosso trabalho). Então, aqueles que não são de suas igrejas para contribuírem com o dízimo, que sustenta sua cede de poder, são obrigados a pagar seu salário de parlamentar para usarem o precioso tempo do plenário para fazerem esse tipo de atuação:


Sabemos o salário de um parlamentar no Brasil. Quando ele se levanta e ocupa este lugar no parlamento, sua voz deve ser imparcial, não deve defender os interesses de seu partido ou de sua religião ou das pessoas que votaram nele. Depois de eleito, ele não se torna um deputado ou senador de alguns, pois suas leis não afetarão somente alguns, ele se torna um representante de todos, pois suas leis afetam a todos.

Somos livres para escolher a quem damos ouvidos. Mas se eu estivesse atendendo a um serviço religioso e o ministro religioso (bispo, pastor, rabino, padre ou quem quer que fosse) começasse a angariar votos pra alguém, ou discursar sobre suas posições políticas a respeito de um assunto em particular com o intuito de manipular a mente de seus fiéis, eu levantaria e deixaria o ambiente. Aquele é um lugar sagrado, onde se deve cuidar dos assuntos pertinentes à salvação da alma (Não da alma dos outros que não professam a mesma crença, mas da alma daqueles que foram ali em busca disso). Não digo que não se possa falar de política na Igreja, o que não acho adequado é que se fale de políticos ou que se faça politicalha (usar a influência pastoral para criar picuinhas políticas em benefício próprio). Se alguém usa o púlpito de uma igreja para discursar sobre política, que seja para criar consciência. Não para combater as ideias do outro, mas para entender as necessidades do outro e chegar a consensos, para compreender a importância e poder do voto, sem influenciar o ouvinte a votar em alguém específico.

Somos livres para escolher quem nos representa publicamente. Mas vivemos em uma democracia, e muitas vezes, quem sobe ao poder público não nos representa, em parte porque pessoas influentes usaram sua influência não para criar consciência política no povo sobre quem exercem influência, mas para se aproveitar desse poder para manipular a mente de quem lhe dá ouvidos. E, quando vemos, temos um circo armado sendo pago por quem nem gosta de ver palhaços (pelo menos, não naquele lugar).

Há um lugar para cada coisa. E precisamos respeitar a posição que ocupamos. Vivemos num Estado laico (onde as leis são feitas em favor do povo e não para satisfazer os interesses de uma religião específica), e esta é uma grande conquista. O nazismo, a inquisição, as inúmeras e intermináveis guerras do oriente, tudo isso começou quando o governo de uma nação achou estar agindo em nome de Deus.

Não sou contra religiosos na política, acho que eles podem agir com decência, com respeito, com humildade, com justiça, com amor pelo povo que representam. Mas para isso, eles precisam começar a criar um pouco de consciência política primeiro. E isto também se aplica aos outros políticos, pois o que menos temos visto são pessoas dignas de fato de nos representar.

2 comentários:

  1. Tenho acompanhado a distancia esse circo, pra falar a verdade isso tem afetado minha opinião em relação aos tão auto-intitulados "representantes de Deus". Veja, eu cresci em um lar evangélico, cresci ouvindo que as coisas ruins que aconteciam em casa era culpa do diabo, ate um copo q se quebrava por acidente era culpa dele. Imagine falar de sexualidade, era um tabu em nossa casa, de qualquer forma meu pai tinha amigos homossexuais e sempre nos ensinou o respeito e a tolerância. Eu nunca me contentei em ter minha opinião baseada em ensinamentos de pessoas tão ou mais pecadoras q eu.
    Sempre odiei política e pra falar a verdade também nao era muito de gostar da igreja, agora misturar os dois pra mim era insuportável.
    Ou se e representante se Deus, ou se e representante do povo, nao se pode ser os dois. Ate porque o que Deus quer nem sempre e o que o povo quer. O povo quer ter o direito a liberdade religiosa, segundo a bíblia Deus quer ser adorado unicamente. Se seguem a bíblia tao ao pé da letra nao entendo pq comem pão com fermento, carne de Carneiro entre outros.
    A homossexualidade nao e uma doença mas tb nao acredito que seja questão escolha, pois penso que ninguém escolheria ser passar por todo esse preconceito e ignorância. Vivo na Inglaterra há 6 anos, nao que aqui tudo seja flores mas, pelo menos nunca vi preconceito a gays or lésbicas e sim a imigrantes. Sempre haverá uma minoria lutando pela liberdade. Como diz o ditado popular, o pau sempre quebra nas costas dos mais fracos, foram os negros, as mulheres agora são os gays, eles nao estao tentando desacatar ninguém, impor sua sexualidade a ninguém. Apenas querem ter o direito de ter sua união oficializada e assim serem protegidos por lei. Esse direito deve ser concedido a todo e qualquer cidadão, Independent de cor, religião ou sexualidade.
    Vou ficando por aqui, esperando o próximo capitulo dessa novela q se tornou o Parlamento brasileiro.

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    1. Denise, Obrigado por compartilhar sua opinião aqui. Acho que há pessoas honestas e respeitosas na religião e fora dela, na política e fora dela. Infelizmente, poucas delas têm influência massiva sobre a população e, consequentemente, têm pouco poder político. E o que vemos são pessoas sem preparo, mas com muita lábia, assumindo cargos importantes e fazendo um grande estrago ao mobilizar o povo uns contra os outros, enfatizando as diferenças que resultam em desavença, quando deveriam estar se concentrando em apontar as semelhanças para que haja convergência. A desavença gera conflito. A convergência gera união e a união gera paz. Se queremos uma sociedade pacífica, precisamos aprender a respeitar as diferenças e lutar "sem armas, insultos ou ameaças" para promover a consciência.

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