2 de abril de 2013

Instituições Sociais versus Instituições Religiosas

02 abril Escrito por Eliude Santos , 3 comentários
"Ainda me surpreende saber que num mundo com tantas mudanças, o posicionamento da Igreja e das Religiões continua fechado. Isso me faz pensar que a Igreja é velha, não no sentido da sabedoria que esse nome carrega, mas no sentido de antiquado. Está atrasada, não dialoga com seu tempo.

Fico admirada com a necessidade de aceitação que parte da nossa sociedade contemporânea ainda busca dessa instituição." (Carolina Angrisani, atriz e diretora teatral em São Paulo)

Eu trocaria a palavra "religião" por "instituições religiosas". Sei que muitos religiosos preferem usar a palavra "homossexualismo" ao invés de "homossexualidade" e não veem diferença alguma em assim fazê-lo. Mas homossexuais veem e se ofendem com o primeiro termo. Assim, como prezo muito o valor e significados das palavras, queria que ficasse claro que há uma distinção entre esses conceitos, mesmo que nem os próprios religiosos tenham-se apercebido disso ainda: Religião é todo o conjunto de "conceitos doutrinários" que define uma visão da "verdade". Quando observamos de perto, percebemos que na sua essência, esses conceitos são universais. 

Cristãos acham que Deus é uma entidade que preenche todo o universo, mórmons acham que Deus é um homem com um corpo físico imortal que mora em outro planeta, budistas acham que os deuses (devas) são seres mortais que vivem num planeta mais elevado que o nosso, ateus acham que Deus é uma invenção humana para justificar o acaso. Mas no fundo, todos eles se permitem reger pelos mesmos conceitos atemporais de ética e respeito pelo próximo e pelo ambiente (prestem ou não honras à fonte criadora de tal ambiente ou princípios, seja ela divina ou não), porque a essência desses conceitos brota de uma verdade que é atemporal (e não coloco em pauta neste momento o absolutismo ou relativismo dessa verdade).

Uma "instituição religiosa", por sua vez, é criada com o intuito de se apropriar desses conceitos a fim de promover a união daqueles que aceitam viver sob um conjunto de leis e regras cujo propósito primordial é incentivar a prática desses conceitos, criando códigos de conduta e linhas de pensamento que, embora apresentem divergências de outras instituições, buscam conduzir o homem natural a uma condição mais elevada (e incluo aqui os ateus, que pregam em sua "religião científica" que o homem alcançará uma consciência mais elevada se conseguir libertar-se das amarras da religiosidade e aceitar que Deus não existe e que a morte é o fim da existência do homem, no fundo uma crença como qualquer outra).

Não haveria problema algum na convivência de todos esses pontos de vista diferentes da mesma verdade (a existência), se as instituições fossem puramente conceituais e respeitassem o espaço e igual validade umas das outras. Mas, além da característica proselitista (estratégias de marketing para adquirir novos adeptos), existe a característica monetário-ocupacionista (estas instituições podem ser muito lucrativas e espalham-se com propriedade exercendo uma influência muitas vezes ditatorial quando lhes é dado o poder para tal).

Feita esta distinção, percebemos que, com um pouco de conhecimento, há espaço para mudanças. A própria Bíblia fala sobre essa necessidade de adaptação e mudança de leis (ver Hebreus 7:12). Mas o que pode mudar? Para ateus, a verdade de que "Deus não existe" é imutável; para cristãos, a verdade de que "Jesus é filho de Deus" é imutável; para muçulmanos, a verdade de que "o Islão é a mais completa revelação divina" é igualmente imutável e não parece haver qualquer intersecção entre tais verdades. Não podemos querer interferir no conjunto de crenças de uma religião somente porque não concordamos com elas, por mais antiquadas ou inverossímeis que elas nos pareçam. Mas podemos criar uma consciência religiosa própria e mais ampla que os domínios da instituição religiosa, e isso, por si só, proporcionará as mudanças. 

Mas a mudança não acontecerá somente dentro da instituição. Todas as mudanças partiram de divergência que, por sua vez, gerou dissenção. Considerando a linha judaico-cristã, hebreus se separam em várias casas, entre elas a de Israel; esta se separou em várias tribos, entre elas a dos judeus; Cristo era um judeu que discordou de muitas práticas do judaísmo e criou sua própria facção; o choque dessa religião cristã primitiva com a religião politeísta greco-romana criou as igrejas católicas (romana e ortodoxa) e seus vários santos (deuses) intercessores; o acesso à Bíblia por meio da invenção da tipografia permitiu o surgimento das igrejas protestantes, evangélicas e carismáticas. Estas dissensões todas produziram "instituições" adequadas para o povo de cada época. Mas a corrupção dentro das instituições e a ênfase às características proselitistas e monetário-ocupacionistas acabaram criando um clima de animosidade muito danoso entre e dentro delas.

Gerar uma consciência religiosa mais ampla pode promover o surgimento de uma “religião” (veja que não usei a expressão “instituição religiosa”) que dialogue mais com o nosso tempo.

Minorias sempre exigiram respeito às diferenças, mas nunca abandonaram o sonho de ser maioria. E quando se tornam maioria, geralmente esquecem sua história e acabam sufocando as novas minorias (que sempre surgem, afinal). E esta necessidade de aceitação, manifestada em maior ou menor grau, acaba sendo característica intrínseca da vida em sociedade.

Assim, o ser diferente submete-se à opressão do meio pois, em sua submissão inconsciente, não percebe a possibilidade de cortar os vínculos; antes prefere lutar por reinventar o meio ou fazer o meio adequar-se a ele. E nesta tentativa, acaba ele sendo reinventado ou adaptando-se de algum modo.

Numa sociedade global, esta necessidade de aceitação é ainda mais complicada de ser saciada. E cada vez mais percebemos que o mundo envelhece, mas não amadurece.

Ainda citando a atriz e diretora teatral Carolina Angrisani: "Quanto ao casamento, desde pequena desacredito nessa instituição, mesmo tendo tido um exemplo de casamento perfeito em casa, sem brigas, sem traições, com muita cumplicidade e amor. Porém pela minha percepção de menina o casamento consome a individualidade silenciosamente, dia a dia. Existe um pensamento do Osho, mestre espiritual e filósofo indiano, que diz: 'O relacionamento existe porque o amor não está presente. O amor não é um relacionamento. O amor se relaciona, mas não é um relacionamento. Relacionamento é algo acabado. Relacionamento é um substantivo; o ponto final chegou, a lua de mel acabou. Agora não há alegria, não há entusiasmo, agora tudo está acabado. Você pode continuar o relacionamento apenas para manter suas promessas. Pode levá-lo avante porque é confortável, conveniente, cômodo. Pode levá-lo avante porque não há nada mais a fazer. Pode levá-lo avante porque se o romper, isso vai-lhe trazer muitos problemas. Relacionamento significa algo completo, acabado, fechado. O amor nunca é um relacionamento: amor é relacionar-se — é sempre um rio fluindo, interminável.' E ainda: 'O estado mais elevado de amor não é, de modo algum, um relacionamento: é simplesmente um estado do seu ser. Assim como as árvores são verdes, aquele que ama é amoroso. Elas não são verdes apenas para determinadas pessoas: não é que quando você aparecer, elas se tornam verdes. A flor continua espalhando sua fragrância quer alguém apareça ou não, quer alguém aprecie ou não. A flor não começa a liberar sua fragrância quando um grande poeta está se aproximando — Bem, este homem apreciará, este homem será capaz de compreender quem eu sou. — E ela não fecha suas pétalas quando vê que uma pessoa estúpida, idiota, está passando por ali — uma pessoa insensível, obtusa, um político ou alguém parecido... Ela não se fecha — Qual o sentido? Por que jogar pérola aos porcos? — Não, a flor continua espalhando sua fragrância. Trata-se de um estado, não de um relacionamento.' E mais: '
A coisa nunca se transforma numa relação; continua sendo uma afinidade. Você convive, mas não cria um casamento. O casamento nasce do medo, a afinidade nasce do amor.' Quais são os nós, ou sonhos infantis que ainda não superamos, para que mesmo em busca da liberdade de expressão nos encontremos aprisionados em algumas questões?"

Na essência do conceito, o casamento de fato mata a individualidade, afinal, de acordo com o conceito cristão, os dois tornam-se "uma só carne", portanto, não são mais indivíduos distintos, são um. E, para isso, concessões precisam ser feitas; às vezes, ideais e sonhos, deixados de lado. 

Há no entanto, espaço para a instituição do casamento tanto quanto para a instituição do indivíduo defendida por Osho, assim como para todos os tons de cinza entre elas (fiquei com medo de usar essa expressão depois da publicação daquela aberração literária que virou best-seller — indicação de que a comunidade global de fato ainda não amadureceu).

Mas gostaria de propor nomenclaturas específicas para essas instituições sociais, a fim de que conceitos antigos sejam preservados e os novos encontrem seu espaço na sociedade moderna:

-PESSOA NATURAL

-Homem (nascido com órgãos sexuais masculinos, femininos, ou ambos) é a pessoa que desenvolve características psicossociais masculinas e se aceita socialmente como tal. 

-Mulher (nascida com órgãos sexuais masculinos, femininos, ou ambos) é a pessoa que desenvolve características psicossociais femininas e se aceita socialmente como tal. 

-Andrógino (nascido com órgãos sexuais masculinos, femininos, ou ambos) é a pessoa que desenvolve características psicossociais masculinas e femininas e se aceita socialmente como tal.

-PESSOA SOCIAL:

-Indivíduo Social, Autônomo ou Virtual: pessoa que, presa a seus ideais e sonhos, buscará realizá-los em parceria com outros (indivíduo social), por conta própria (indivíduo autônomo), ou se preservando do contato social (indivíduo virtual). Relações de troca (prazer, conhecimento, experiência, posses) são estabelecidas sem que a individualidade, liberdade e propriedade sejam maculadas. Filhos são uma opção garantida por meios naturais ou por adoção.

-Casamento Tradicional (Familia) ou Casamento Liberal (União Estável): homem e mulher, unidos por matrimônio civil ou religioso (casamento) com o intuito de constituir família para a geração ou não de filhos. O casamento pode ser tradicional, quando os parceiros se comprometem em ser fiéis um ao outro e a encontrar um equilíbrio gerado pela cumplicidade; ou liberal, quando o adultério faz parte da rotina do casal, seja de maneira explícita ou não. Relações de troca (prazer, conhecimento, experiências, posses) são estabelecidas em conjunto, respeitando os limites de individualidade, liberdade e propriedade previamente acordados por ocasião de sua união. Filhos são uma opção por meios naturais ou por adoção.

-Casamento Colorido (União Estável) ou Casamento Plural (União Poligâmica): homem e homem, mulher e mulher, homens e homens, mulheres e mulheres, homem e mulheres, mulher e homens, mulheres e homens (sejam andróginos ou não) que por decreto civil se unem para compartilhar relações de troca (prazer, conhecimento, experiências, posses). O casamento colorido acontece quando os parceiros se comprometem em ser fiéis um ao outro e a encontrar um equilíbrio gerado pela cumplicidade; já o casamento plural admite o adultério velado ou não ou a troca entre mais do que duas pessoas como parte de sua rotina, seja de maneira explícita ou não. Relações de troca (prazer, conhecimento, experiências, posses) são estabelecidas em conjunto, respeitando os limites de individualidade, liberdade e propriedade previamente acordados por ocasião de sua união. Filhos são uma opção por meios naturais ou por adoção.

Assim, filhos podem advir de um indivíduo, de uma família tradicional ou de um casamento colorido ou plural e ainda assim ter seus direitos resguardados por lei. O conceito de família é reservados ao casal hétero (quer haja ou não intervenção de terceiros, inclusive de homossexuais, no caso de uma união liberal). Quando esses terceiros participam explicitamente da vida do casal e são aceitos não mais como amantes, mas como coparticipantes do corpo familiar, um novo contrato de união plural pode ser lavrado para que também lhes sejam reservados os direitos legais.

As instituições religiosas então existentes não precisariam ser forçadas pelas instituições sociais a se adaptar aos novos conceitos, e continuariam livres para defender o conceito da família tradicional como o modo de alcançar maior aceitação divina sem ser taxados de preconceituosos, pois eles estariam apenas exercendo seu direito de declaração de crença. Mas nada impediria que novas instituições religiosas surgissem ou antigas instituições religiosas se prontificassem a abrir as portas para as novas instituições sociais (assim como hoje, casais divorciados são aceitos sem nenhuma restrição aos serviços religiosos das igrejas mais tradicionais).

As pessoas que não acreditam na instituição do casamento tradicional não precisariam arriscar sua individualidade apenas para se sentir aceitas na sociedade. Do mesmo modo que as pessoas que sentem a necessidade de unir-se a mais de um parceiro também poderiam ser aceitas sem restrições moralistas de qualquer sorte, tendo todos os seus direitos igualmente protegidos pela lei.

A bandeira da diversidade defende a aceitação. Então, por que querer encaixar toda a sociedade num patamar de liberalismo forçado e antinatural? A religião defende o livre-arbítrio do homem, então, por que querer "salvar" quem não está sentindo a necessidade desse tipo de "salvação"? Se cada um respeitar os limites do outro e o Estado garantir os direitos de todos, uma mudança real pode surgir.

É natural que haja conflitos nesse despertar, mas podemos minimizar os estragos com empatia em ambos os lados do muro. Não precisamos ter uma religião para perceber a necessidade de desenvolver uma consciência religiosa, do mesmo modo que não precisamos ser políticos para desenvolver uma consciência civil. E é com o despertar dessa consciência, em busca de uma visão mais ampla de nós mesmos e da nossa relação com o outros ao nosso redor que faremos a diferença. E as diferenças, como lápis de cores, serão usadas para, a muitas mãos, desenhar a grande figura ("the big picture" é um termo em inglês que significa uma visão completa da situação).


3 comentários:

  1. Adorei... muito bom... li em voz alta!

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  2. Obrigado, Paulo!!!! Pena que pouca gente dá atenção para esse tipo de artigo. Preferem ler os artigos com menos palavras e mais sensacionalismo!

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