16 de outubro de 2013

Meus Filmes Preferidos: DÚVIDA (2008)

16 outubro Escrito por Eliude Santos , , 1 comentário
Fazia algum tempo que eu não comentava sobre cinema aqui no blog. Mas hoje, depois de conversar com um de meus alunos sobre o filme Dúvida (“Doubt”, 2008), de John Patrick Shanley, senti que deveria escrever algo a respeito. Tendo no elenco talentos como Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis, Dúvida é um filme que trata de nossas certezas e incertezas e do modo como lidamos com elas, fala de fé e da perda dela, do pecado e de como ele se confunde com a virtude, dos perigos da inocência e da malícia, da visão limitada que temos do bem e do mal e de como nos enganamos quando tentamos nos posicionar a esse respeito.

Acabei de rever o filme e fiquei novamente surpreso com a delicadeza como a trama é conduzida, a forma quase poética com que os fatos se desenrolam e nos envolvem. A jornada pela verdade que nos faz esbarrar no erro e como isso nos afeta de forma tão dramática.

O filme começa com um sermão do Padre Flynn, na capela da Escola de St. Nicholas no Bronx, um ano após a morte do presidente Kennedy.

A época em que a história se passa é importante para acentuar a complexidade do filme por dois motivos: primeiro porque a igreja católica passava por “um momento de reflexão global sobre si mesma e sobre as suas relações com o mundo” (João Paulo II), as missas que antes eram realizadas em latim passavam a ser realizadas na língua dos fiéis e os ministros religiosos que antes dirigiam seu discurso ao altar, agora falavam diretamente com a congregação. O uso da batina também deixou de ser obrigatório. Isso certamente gerou um período de conflito e desconfiança dos católicos mais tradicionalistas em relação àqueles que seguiam as novas determinações da igreja. Além dos conflitos de ordem religiosa, haviam aqueles de ordem político-social. A recente morte do presidente Kennedy, também considerado modernista por suas políticas de inclusão e justiça social, gerou um clima de insegurança que abalou a sociedade americana nos anos 60. Após um período de lutas em favor dos direitos civis e contra o regime de segregação racial que impedia "brancos" e "coloridos" (negros) de frequentarem as mesmas escolas, serem atendidos nos mesmos hospitais, usarem os mesmos banheiros públicos ou até mesmo de matarem a sede no mesmo bebedouro, o mundo começava a questionar certos valores e práticas considerados normais até então.


Nesse clima de insegurança e incertezas que assolava a sociedade americana da época, o padre carismático começa seu sermão falando sobre a dúvida como um laço que une as pessoas ainda mais que a fé, pois são o desespero e a dor causados pela incerteza e experimentados de maneira tão particular que fazem com que necessitemos do apoio do outro que também sofre ao seu modo do mesmo mal.

Desde que chegou recentemente à paróquia, o Padre Flynn, interpretado brilhantemente por Philip Seymour Hoffman, tem tentado driblar o rigor da disciplina e costumes que são guardados a ferro e fogo pela temida diretora da instituição, Irmã Aloysius Beauvier, que ganha vida através da interpretação impecável de Meryl Streep. Novos ventos andam varrendo a comunidade, e de fato, a escola acabou de aceitar seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster). Mas quando a Irmã James, Amy Adams, inocentemente compartilha com a Irmã Aloysius a dolorosa suspeita de que o Padre Flynn esteja dando uma atenção exagerada e imprópria a Donald, a Irmã Aloysius inicia uma cruzada pessoal para desenterrar a verdade e expugnar Flynn de sua escola e paróquia. Sem prova alguma além de sua certeza moral, a Irmã Aloysius trava uma batalha de artimanhas e argumentos com o Padre Flynn que resulta em irrevogáveis consequencias para ambos.

Como de costume, peço que os leitores que não gostam de spoilers vejam o filme antes de continuarem a leitura.

O filme é muito sutil e não revela nenhuma prova de que o Padre Flynn estivesse de fato abusando do jovem Donald, mas nada abala a certeza da Irmã Aloysius de que ele tenha de fato se aproveitado da inocência e fragilidade da criança. Utilizando-se de uma mentira, a freira expõe a fraqueza do padre, que assustado com os rumos que a história pode tomar, pede resignação do cargo. Vamos dizer que isso seja prova suficiente de sua culpa e que o padre estivesse de fato seduzindo o garoto. Como “punição” pela pedofilia, ele foi transferido para uma outra paróquia onde ganhou um cargo de liderança na igreja.

A irmã Aloysius que, por experiência, já havia há muito perdido a fé na humanidade, agora perde também a fé na própria instituição religiosa da qual faz parte e, pior, começa a desacreditar a própria justiça divina que permite que tais irregularidades aconteçam sem nenhum tipo de punição. Suas últimas palavras para a Irmã James na trama revelam seu desespero diante da perda da própria fé.

Mas antes que a história chegue a esse desfecho, muitos outros temas delicados são abordados e tentarei mencioná-los a seguir.

PEDOFILIA x VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: Quando o Padre Flynn chega à nova paróquia, ele tenta uma aproximação inadequada com o jovem William London (Mike Roukis), que aparentemente refutou suas investidas. A Irmã Aloysius percebe o modo brusco com que o garoto “branco” trata o padre e fica atenta. Pede para a Irmã James avisá-la de qualquer irregularidade em sua sala de aula e não demora para que a inocente freira perceba o padre colocando peças íntimas no armário de Donald Miller, um garoto “negro” que recentemente tornou-se coroinha e auxilia Flynn na sacristia e no altar. Mas foi depois de uma das visitas de Donald à sacristia que a Irmã James percebeu uma alteração no comportamento do garoto e sentiu cheiro de álcool em seu hálito, presumindo que o padre tenha embriagado o menino para se aproveitar sexualmente dele.

A reação dos dois garotos no final do filme quando o padre anuncia sua transferência mostra como eles lidaram com as investidas do ministro. William sente um certo prazer ao ver que o padre será finalmente expulso da escola por ter tentado molestá-lo. Donald sofre, pois não terá mais o seu “protetor” por perto.

Numa conversa emocionada com a Irmã Aloysius, a Sra. Miller, vivida por Viola Davis, afirma ser consciente das tendências homossexuais de seu filho e julga como oportuna a aproximação do padre. O menino é vítima de violência doméstica, pois seu pai não compreende nem aceita sua natureza (orientação sexual), e ela vê no padre um apoio para o filho até que o pequeno possa ganhar uma bolsa para continuar seus estudos numa escola fora do alcance de seu pai no próximo semestre.

Entre dois crimes, qual o que causa menos danos? Qual dos males é o menor? Se ela deixa a freira prosseguir com seu plano de desmascarar o padre pedófilo, expõe o filho, que será ainda mais maltratado pelo pai (ela teme até mesmo que o pai possa vir a matar o próprio filho). Ela chora na missa com a saída do padre porque entende o quanto aquilo custará ao seu filho. A pedofilia era ainda o caminho menos doloroso naquela situação, pois o padre parecia de fato se importar e cuidar de Donald.

O filme nos mostra que colocar-se na posição de juiz é muito complicado, pois a justiça sem a misericórdia não compreende a complexidade da ação para dar-lhe um julgamento compensado.

O filme não declara que tenha havido qualquer investida sexual do padre em relação ao garoto, apenas um interesse genuíno movido por um “amor proibido” e refreado pela própria fé do ministro. Ele afirma numa declaração emocionada que não houve consumação nenhuma de suas inclinações.

“Não posso dizer tudo, entende? Tem coisas que não posso dizer mesmo que você possa imaginar a explicação, Irmã. Lembre-se que há coisas além do seu conhecimento. Mesmo que você sinta segurança, é uma emoção e não um fato. (...) Eu me preocupo com aquele garoto.”

Assumindo que esse interesse genuíno fosse real, como julgar a mãe, o padre ou a própria criança? Todos parecem ser vítimas de uma visão distorcida do “amor” que lhes dá algum tipo de segurança. E na impossibilidade de julgamento, resta-nos o benefício da dúvida.

INOCÊNCIA x MALÍCIA: A Irmã James é o exemplo perfeito da benevolência. Com uma voz mansa conduz sua turma com amor e mansidão, mas não enxerga os desafios que seus pupilos enfrentam além dos limites de um mundo visto através do véu da inocência. A Irmã Aloysius, por outro lado, é uma figura um tanto mais complexa. Após a morte do marido entrou para o convento e tornou-se por seu mérito a diretora de uma renomada e tradicional escola. Sua experiência de vida fez com que ela percebesse que a voz mansa de um pastor pode resultar na indisciplina de seu rebanho, e que o véu da inocência só embassa a visão. Para aprender a ler as pessoas ela sacrificou a própria virtude. Percebeu que somente com malícia se reconhece o mal. Numa conversa com a noviça, a diretora confessa: “Na busca do erro alheio, nos afastamos de Deus, e é claro que há um preço.” O preço de comer do fruto do conhecimento do bem e do mal é perceber que Deus não vinha sendo totalmente sincero. O inocente aceita as verdades como elas se apresentam. Deus disse a Adão que se comesse do fruto ele morreria e com medo de morrer, ele não comeu. Mas quando sua esposa comeu do fruto e ele teve medo de perdê-la, decidiu que se ela morreria, ele morreria junto, e comeu do fruto em seguida. Mas depois disso viveu ainda quase mil anos para provar as consequências amargas causadas por aquele fruto tão doce.

Entre os dois estados de evolução espiritual, qual o que causa menos danos? A cegueira da inocência ou a visão distorcida da malícia? A freira experiente tenta convencer a noviça a comer do fruto e provar do sabor amargo da dúvida. A Irmã James começa a levantar a voz e a perceber coisas que não percebia antes na sala de aula. Mas a felicidade da inocência foi de repente substituida pelos espinhos da desconfiança.

O padre Flynn tenta alertá-la, talvez para encobrir suas próprias falhas, utilizando-se da mesma lógica da serpente na alegoria do fruto. Mas essa serpente não quer que Eva coma do fruto e perca sua inocência: “Eu me preocupo com essa congregação como você se preocupa com seus alunos. Você os ama, certo? Isso é natural! De que outra forma você se relacionaria com crianças? Eu olho para o seu rosto e percebo que sua filosofia é a gentileza. Há pessoas que tentarão contra sua humanidade, irmã, e que dirão que essa luz em seu coração é uma fraqueza. Não acredite nisso!”

Uma pessoa inocente ouvirá esse discurso e perceberá um homem cheio de amor que quer apenas impedir que uma mulher igualmente cheia de amor tenha seu coração envenenado por uma outra que perdeu há muito a capacidade de amar. Uma pessoa maliciosa enxerga nessas palavras uma maneira ardilosa de manipular a ignorância daquela que estava mais próxima de perceber a verdade sobre ele. Uma pessoa onisciente perceberia que ele é de fato cheio de amor (basta observar o carinho que ele tem por Donald e a preocupação sincera que devota em seus sermões para com a paróquia a que serve) e que a Irmã Aloysius é igualmente cheia de amor (basta observar o modo como ela se preocupa genuinamente com a freira mais idosa do convento) e que simplesmente eles não conseguem compreender o tipo de amor que o outro desenvolveu. Ele a enxerga como uma megera perseguidora e ela o vê como um pervertido indigno do sacerdócio que possui.

Na impossibilidade de sermos observadores oniscientes em nossa própria vida, resta-nos o benefício da dúvida.

CERTEZA x DÚVIDA: Mas é quando vemos aquela mulher firme e cheia de convicções se derramar em lágrimas e admitir as dúvidas que tem sobre a própria crença que percebemos que o filme é uma metáfora ainda mais profunda.

Embora não tivesse provas, ela sabia que o padre Flynn havia cometido um crime contra um de seus alunos; mas ao invés de ser punido, o padre foi promovido. Para arrancar uma confissão do padre, ela teve que utilizar-se de artimanhas condenadas por sua própria crença, sem as quais jamais teria a certeza de que o padre era de fato culpado. Então, nesse contexto, até Deus parecia cúmplice daquela irregularidade. Pois Deus proibira a mentira, mas sem a mentira ela jamais teria conseguido arrancar do padre a verdade. Mas agora que sua desconfiança do padre se tornara certeza, suas certezas sobre si mesma, e sobre suas próprias crenças ruiam.

Como confiar numa instituição que além de encobrir os erros do malfeitor, o condecora a um cargo de liderança tão alto? Como acreditar que Deus estava no comando de tal instituição quando tantas mudanças (os fatos históricos citados no começo do texto) e tantas irregularidades tomavam forma diante dela? Como confiar em Deus quando, ao dar a outra face como ele nos pede, só saímos com dois olhos roxos ao invés de um?

O que são nossas certezas e até onde elas subsistem às provas de fogo pelas quais passamos?

O roteiro impecável e a atuação brilhante de alguns dos mais talentosos atores e atrizes que a indústria do cinema já produziu fazem de Dúvida um fruto doce para se saborear aos poucos enquanto se digere em conhecimento do bem e do mal e nos envenena para uma boa morte de nossas certezas.


::Ficha Técnica::
Doubt, USA, 2008
»Diretor: John Patrick Shanley
»Roteirista: John Patrick Shanley
»Gênero: Drama
»Duração: 104 minutos
»Trilha Sonora: Howard Shore
»Fotografia: Roger Deakins
»Edição: Dylan Tichenor
»Elenco: Meryl Streep (Irmã Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Padre Brendan Flynn), Amy Adams (Irmã James), Viola Davis (Sra. Miller), Alice Drummond (Irmã Veronica), Joseph Foster (Donald Miller), Mike Roukis (William London)

Um comentário:

  1. Oi Eliude!

    Nos conhecemos em fóruns no Orkut... Até compartilhou dois textos 'Crash' e 'Número 9' com o blog de cinema... Há pouco por dentro dele vi que um deles estava sendo visitado... Daí vim dar uma olhada... Se teria mais para compartilhar :)

    No acervo do http://cinemaeaminhapraia.com.br/ esse, 'Dúvida' também seria muito bem vindo!
    Assim como o texto sobre 'O Pequeno Príncipe'. Abri espaço também para livros com uma relação a filme.

    Seu blog está lindo!
    Tentarei vir mais amiúde. Mas tenho tido problemas com a OI Velox. Cai muito. E com isso eu fico mais atrasada com os dois blogs, me deixando pouco tempo para a blogosfera e as outras mídias sociais.

    Saudações Cinéfilas!

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