17 de novembro de 2014

Alternativas

17 novembro Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
Alternar é trocar de faixa ou ciclo, não se apegar a tendências, não se acomodar. Uma alternativa é uma opção que deve condizer com o objetivo almejado. Objetivos também alternam. Toda alternância deve gerar crescimento. O crescimento responsável é aquele que não diminui as chances de crescimento do outro.

Com essas ideias em mente, podemos traçar nosso próprio caminho alternativo dentro de um sistema de rotas definidas.

Vivemos numa sociedade que pensa que crescimento é acréscimo de lucro, e que sucesso é acúmulo de bens. Primeiro precisamos entender que lucro e bens não são necessariamente ruins, nem tampouco é o acréscimo ou acúmulo deles. As pessoas acham que sempre precisam se posicionar em extremos: ou você é a favor, ou é contra. Se é a favor, espera-se que tome certas posições e tenha uma certa conduta; se é contra espera-se que tome posições totalmente contrárias e tenha uma conduta completamente oposta. Isto não é alternar, isso é divergir. Divergir também não é ruim, mas não é a única alternativa.

Lucro
Quando o lucro é bom? Quando ele promove um bem consciente. Uma criança lava os pratos e sua mãe lhe dá o dinheiro do cinema, dá também um abraço bem apertado e um beijo na testa para lhe agradecer por ter feito aquilo por ela. O abraço e o beijo foram o salário do serviço prestado, o dinheiro para o cinema foi o lucro. O problema é quando a criança confunde salário com lucro e estipula que a mãe lhe pague uma certa quantia todas as vezes que lavar os pratos, ou só querer lavá-los se ela prometer dar-lhe o dinheiro, mesmo quando ela própria já não vai ao cinema há meses. E a situação fica ainda mais grave quando esta criança começa a cobrar cada vez mais caro por seu serviço: um jogo de Xbox, um iPhone novo... Aprendendo desde cedo a arte da extorsão.

Vivemos numa sociedade que não compreende o valor das coisas e por isso, dinheiro é associado a serviço para que as pessoas deem valor ao serviço que recebem. Muitos empresários sabem disso e tiram proveito da situação, taxando seus produtos e serviços com valores cada vez mais abusivos para fomentar o consumo e aumentar seu lucro.

Quais são as alternativas dessa mãe? Continuar permitindo que seu filho lhe explore; começar a explorar seu filho (Agora ela o forçará a lavar os pratos e ele nem terá direito ao beijo, abraço, nem dinheiro para o cinema, afinal, é seu filho e tem que fazer o que ela manda); abandonar o consumo do serviço e lavar ela mesma os próprios pratos (Mas aí, muito possivelmente teria que lavar não somente os seus); ou conversar com ele para que ele e ela desenvolvam juntos uma consciência participativa. O problema do lucro está na exploração. E a exploração pode partir tanto de quem oferece quanto de quem consome o produto.

Valor
Trabalhei como voluntário durante anos dando aula de inglês de graça. Durante todos esses anos, poucos alunos tornaram-se fluentes. Por não darem valor ao esforço voluntário, poucos davam continuidade ao curso. Eles achavam que por ser gratuita, a aula não deveria ser tão boa quanto uma aula numa “escola convencional”. As pessoas têm dificuldade de julgamento de valores. Os poucos alunos que permaneceram se tornaram professores ou plenamente fluentes em menos tempo que em escolas regulares.

Depois trabalhei em redes de ensino, que cobravam o assim chamado “valor de mercado” pelo serviço de ensino de idiomas. Os alunos têm a “segurança” de estar comprando um bom serviço porque o nome consolidado dessas empresas no mercado lhes dá essa garantia. No entanto, a realidade era que poucos tinham dinheiro ou tempo para completar o curso e de cada 100 que começavam, ao fim de seis anos, apenas 3 ou 4 concluíam. E nem todos saíam plenamente fluentes, já que por ser um curso pré-moldado, nem todos se adaptavam plenamente.

O Sistema
O problema maior estava na estrutura da empresa. Do valor pago pelos alunos, uma porcentagem vira imposto, outra parcela considerável engorda os bolsos do franqueador, outra parcela fica com o dono da escola, outra parcela vai para a manutenção estrutural do negócio e somente uma parcela mínima sobra para aqueles que de fato prestam o serviço. Mesmo quando o empregador é muito generoso, ele está preso pelo sistema e nenhum dos prestadores de serviço tem chance de crescimento real ou recebem uma recompensa condizente com o trabalho que oferecem.

Quais eram minhas alternativas? Permanecer engordando o bolso de terceiros. Abrir minha própria escola e começar a explorar outros professores. Parar de trabalhar como professor de idiomas e encontrar outras alternativas sustentáveis. Ou conversar com outras pessoas igualmente talentosas e cansadas do sistema e desenvolver juntos um novo modelo de empresa. Foi o que fiz com a Fluency at Hand.

O objetivo da empresa não é o lucro. Trabalhamos com preços abaixo do “valor de mercado” para o serviço que prestamos. Adotamos uma abordagem totalmente personalizada, o que permite que os alunos aprendam mais rapidamente. Mas, o mais importante, não há patrões ou empregados, há pessoas que colaboram e são justamente recompensadas por isso. Ninguém precisa trabalhar muitas horas para ter um salário razoável, o que nos permite ter tempo para realizar outras atividades. E como todos gostamos de dar aula, até o trabalho se torna um momento de lazer. Como um dos professores comentou: “Na verdade, não é o quanto eu recebo, se uma outra escola me paga um pouco mais, eu sei o quanto eles tiram do aluno para me pagar aquilo; em porcentagem, acabo recebendo muito menos pelo serviço que o aluno está pagando, então sei que estou sendo explorado e o aluno também.”

Salário
O que é um bom salário? Tem pessoas que conseguem se desprender totalmente da sociedade de consumo e viver bem sem salário algum: os bens que elas já acumularam (caibam eles numa casa, quarto, ou mala) lhe são suficientes; e os serviços de que necessitam, elas mesmas aprendem a executar. Já tem pessoas que são tão apegadas às amarras do consumo que por mais alto que seja seu lucro ou salário, ele sempre lhes parecerá menos do que poderia ser: os bens que já acumularam sempre parecerão ultrapassados ou insuficientes, e sempre necessitarão do serviço de terceiros, tornando-se portanto dependentes e com forte tendência à avareza, crítica e soberba.

Um bom salário é aquele que é suficiente. Mas ele nunca será suficiente para alguém que não seja autossuficiente. Quanto menos necessidades temos, de menos dinheiro precisamos. Então, se eu necessito de moradia, água, luz, gás, internet, alimentos que eu não consigo ainda produzir sozinho, roupas que eu não consigo fazer, combustível ou transporte público que me permita chegar aonde eu quero ir, e se consigo cuidar da minha higiene e alimentação para que dependa cada vez menos de intervenção externa na manutenção da minha saúde, se eu tiver dinheiro suficiente para suprir todas essas necessidades, querer mais seria pura ganância.

Bens
O problema não é o que você quer ter, o problema é por que você quer ter aquilo. Eu não tenho um carro, acho que não preciso de um. Recentemente percebi que preciso de uma licença para dirigir, pois havendo necessidade, tenho que ser suficiente e não depender de alguém para isso. Mas moro em São Paulo, uma cidade sufocada pelo trânsito. Qualquer deslocamento vai roubar de quarenta minutos a uma hora de meu dia. E não importa muito se eu esteja em veículo próprio ou transporte público. Então, prefiro dar preferência aos veículos que podem levar mais gente ao seu destino. Se eu tivesse um carro, provavelmente combinaria com outros amigos que precisassem sair na mesma hora que eu para irmos juntos, pois acho um absurdo o tanto de espaço que um carro ocupa numa via pública para transportar somente uma pessoa. E não me importaria muito com quem pagaria a gasolina, pois afinal, eu gastaria a mesma quantidade de combustível para ir sozinho.

Moro numa casa alugada. Gostaria de ter uma casa própria quitada para não ter que me preocupar em pagar aluguel, mas com a exploração imobiliária em São Paulo, quando se paga quase meio milhão de reais por um apartamento pequeno de dois cômodos num bairro afastado, assumindo uma dívida eterna de condomínio que seria mais alta que o valor do aluguel que pago atualmente, percebo que é uma bobagem contribuir com isso. Então espero. Afinal, o que eu necessito é de moradia, e isso eu tenho. Propriedade é uma vontade, não uma necessidade.

Ambição só é boa quando está associada ao objetivo de “ser”, raramente quando está associada ao objetivo de “ter”. Se somos autossuficientes, não precisamos ter muito. Acumular o necessário é sábio; o desnecessário, é imprudente.

Sucesso
Então, quem você vê como uma pessoa de sucesso? A imagem que você tem do sucesso denuncia muito da relação que você tem consigo mesmo.

Para muitos o sucesso é medido pelo que conseguiram conquistar ou pelo poder que exercem sobre outros, para outros está num reconhecimento e recompensa à altura de suas contribuições. Mas há também quem não precise desse reconhecimento, pois percebem que o sucesso está dentro deles, é uma felicidade que se reflete no que fazem e no modo como levam a vida.

A simplicidade de espírito é o segredo para uma vida de sucesso. Pois quem tem sede de poder, nunca se sentirá saciado. Simplicidade de espírito não significa comodismo. O que se faz quando se chega ao topo de uma montanha, depois de alguns minutos aproveitando a vista? A gente desce e planeja outra aventura! A vida é feita de grandes aventuras com pequenos momentos de satisfação: a satisfação de acordar para mais um dia, de brincar com seus cachorros no quintal, de dar seu lugar no ônibus para a senhorinha que mal consegue se equilibrar no corredor porque todos os assentos reservados estão ocupados, de dar uma aula e perceber o crescimento de seu aluno, de comer algo bem gostoso que você mesmo preparou, de usar a energia desse alimento saboroso para ter o que gastar na academia, de escrever um artigo incrível no seu blog e perceber que outras pessoas leram, gostaram e compartilharam, de ler um bom livro, ver um bom filme, de andar de bicicleta, de deitar numa cama quentinha num dia frio, ou de tomar um banho gelado num dia quente. É como se todos esses pequenos pontinhos de satisfação criassem a imagem inteira da felicidade.

Consciência Global
Mas quando chegamos a este ponto de crescimento espiritual e consciência social, percebemos que o mundo caminha no rumo contrário. Afinal, tomamos um caminho alternativo para chegar onde chegamos. Então, começa a ficar evidente a necessidade que temos de contribuir para que o mundo perceba que precisa reconsiderar seus paradigmas patológicos.

Não é à toa que as grandes religiões do mundo eclodiram a partir de indivíduos que buscavam essa paz interior. Maomé, recluso numa caverna enquanto meditava sobre a degeneração de seu povo teve a revelação que deu origem ao Islamismo; Sidarta, meditando sob uma árvore numa busca interior pela verdade, deu origem ao Budismo; Moisés, recluso numa montanha em meditação, recebeu a revelação que é a base do Judaísmo; Jesus, depois de 40 dias no deserto tentando entender a natureza de sua missão, tornou-se o Cristo cujos ensinamentos foram tão relevantes que mudaram até mesmo o calendário de nossa era.

A medida que nos perdemos em busca de nossa essência interior, descobrimos a essência global, aquilo que faz de cada um, um todo. E percebemos que esse todo está podre desde a raiz.

Vivemos num mundo de recursos finitos mas nós fazemos uso deles como se eles fossem infinitos. A Natureza está nos avisando constantemente de um iminente colapso global, mas nós preferimos pensar que tudo isso é pura ficção até que a água comece a não descer na torneira (e isto é apenas o começo do caos).

Os níveis de desgaste natural precisam ser reduzidos a um nível sustentável per capita e distribuídos de modo equitativo e razoável para que um colapso global dos recursos não venha a acontecer. No entanto, para que tal mudança aconteça, alterações dramáticas nos sistemas de produção precisam acontecer urgentemente e todos precisamos acordar para as necessidades de autossuficiência a medida que nos desprendemos desses valores gananciosos que a sociedade de consumo nos fez crer como verdades absolutas.

Caminhos alternativos podem ser encontrados por cada um ou pelo todo, e não importa se apontarão na mesma direção, o que não dá é para continuarmos seguindo essa rota de autodestruição que favorece o individualismo, enaltece a ambição, fortalece os poderosos e tira dos fracos até o pouco que eles têm.

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