14 de fevereiro de 2015

50 Tons de Cinza - Nenhuma Cor de Fato

14 fevereiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui

A paixão é feita de cores, música, atrito, sabores e aromas. "50 Tons de Cinza" (2015), um filme sobre paixão e limites, é apenas uma imagem fraca e pálida de tudo isso. Tão pálida que não conseguimos sequer identificar esses elementos no filme. Foi por acaso que eu o assisti, mas depois, eu não conseguia parar de pensar em como um enredo tão fraco pode fascinar tantas pessoas.

Os problemas do filme vão muito além da ideia ou tópico que deram origem à história. O diálogo insípido, as personagens fracas e um texto mal escrito jogam com as expectativas de um público equivocado. Meu problema com o filme é justamente esse equívoco que ele claramente gera na mente do público.

E não estou falando sobre os interesses sexuais das personagens. Não é meu objetivo menosprezar qualquer tipo de comportamento sexual consensual aqui. O sexo é diferente para todos e nenhum comportamento sexual pode ser taxado de certo ou errado. Pode ser que alguns comportamentos sejam necessários ou desnecessários para algumas pessoas em algum momento de sua vida íntima. A moralidade pode confundir as coisas e nos tornar juizes cegos daquilo que nem conhecemos, então vamos deixá-la de lado um pouco para que consigamos ver as coisas de um ponto de vista mais empático. Para alguns, o sexo precisa ser mais extremo para que sintam prazer, e desde que esse comportamento não viole a liberdade de outra pessoa, nem os prejudique de qualquer modo, eles podem fazer o que lhes agrada. No entanto, manipular a situação, a fim de conseguir o que você quer de uma pessoa cuja mente não se decidiu ainda sobre o assunto é crime. A linha que separa um estupro de uma experiência sexual intensa pode ser muito tênue e está mais ligada com sua percepção do ato do que necessáriamente com o ato em si. Então, meu problema com o filme não está relacionado à abordagem que ele dá aos interesses ou curiosidades sexuais das personagens, o que me incomoda é essa paixão cega que faz as pessoas perderem a noção de quem são e de se deixarem manipular pelos outros com uma falsa noção de felicidade que sentem por estar próximos do objeto de sua paixão.

Muitas Anastasias anseiam por romance enquanto subjugam-se a um personagem que não respeita seus limites, é massivamente manipulador e emocionalmente abusivo. Se essas Anastasias fossem nossas amigas, nós ficaríamos realmente chateados e sentiríamos uma repulsa em relação a seu relacionamento e, pelo menos, tentaríamos avisá-las do que estão fazendo com suas vidas. Mas quando a Anastasia ficcional tem seu corpo abusado e sua mente distorcida cada vez mais por um charmoso Sr. Grey, o público (a maioria mulheres e homossexuais) morde os lábios e suspira a cada olhar cheio de desejo que ele lhe dá.

E se esse homem fosse vinte anos mais velho, careca, gordo, peludo, pobre e mais baixo? Será que esse mesmo público aceitaria seu comportamento e riria de suas ações?

O que dá a um homem bonito, forte ou rico o poder de ser aceito como um sociopata abusivo? Nada do que Christian faz nesse filme é essencialmente romântico, no entanto, o público parece estar hipnotizado por sua aparência e aprova todos os seus atos.

Em um filme sobre bondage, personagens sem a menor ligação, exceto o desejo erótico de ter o que o outro não lhes pode oferecer conecta-se a um público que deseja ser amado, mas se deixa repetidamente enganar por um belo par de olhos, um corpo bacana, ou uma conta bancária gorda que mexe com os seus conceitos de amor, paixão e relacionamento.

A maioria das pessoas que eu conheço quer um relacionamento estável, outras tantas querem aproveitar sua liberdade e não querem criar vínculos (e não há nada de errado em nenhuma dessas posições). Mas em geral, os opostos se atraem e muitos dos primeiros acabam se envolvendo com os segundos e sofrendo por isso. Elas choram porque seus amantes as tratam com descaso, violência, obsessão e/ou de modo possessivo. Elas não percebem que a diferença de interesses geram expectativas que não podem ser satisfeitas. E algumas pessoas lidam muito mal com o fato de não terem suas expectativas satisfeitas. E por medo de perderem o que elas de fato não têm, se submetem a essa tortura emocional (muito pior que a tortura física de algumas palmadas ou chicotadas que em alguns contextos podem até ser bem-vindas!).

E por baixa auto-estima e falta de bom-senso, elas alimentam uma situação doentia com a esperança de que um dia mudarão o outro com a força de um amor que nem existe. Pois o que existe na verdade é uma grande carência de ambas as partes. E dois mendigos não conseguem saciar a fome um do outro. 

A vida é uma experiência de prazer e dor. Mas é o modo como lidamos com esse prazer e dor que dão cor, música, atrito, sabor e aroma a essa vida. Filmes como O Último Tango em Paris (1972), Perfume: A História de um Assassino (2006), American Psycho (2000), ou mesmo Dogville (2003) fizeram uso de todos esses elementos para criar obras de arte que distorcem nossas mentes de um maneira poderosa. 50 Tons de Cinza é uma tentativa falha de reproduzir o efeito que esses e tantos outros filmes já haviam alcançado antes.

Mesmo assim, a maioria das pessoas na sala estava realmente mordendo a isca, o que me fez pensar que muitas delas pode nunca ter tido qualquer experiência real com um amor sincero ou um sexo bem feito.

O amor não é feito de chocolate e flores. O amor é feito de intimidade, o que não é adquirido com a visão de um corpo nu que se deita de conchinha com você na cama, mas com a compreensão de uma alma que se desnuda para você durante a vida. O triste é que a paixão geralmente desaparece enquanto o amor toma seu lugar. E muitas pessoas têm medo de fazer amor ou fazer sexo com aquele "cara ou aquela menina linda" que acabou se transformando em um "amigo" ou um "membro da família" depois de um tempo. Parece-lhes errado e inadequado. Então eles precisam recuperar aquela centelha que fez suas almas pegarem fogo no começo do relacionamento. Eles precisam se sentir estranhos novamente, descobrir um ao outro mais uma vez. E por causa dessa busca incessante pela renovação, eles esquecem de desfrutar da companhia um do outro, de apreciar pequenos gestos, e de reagir positivamente ao toque um do outro. Muitas pessoas pensam que podem apimentar as coisas um pouco usando adereços, e eles esquecem que o adereço mais forte de todos é o seu próprio cérebro.

A paixão nos cega. O amor tira a nossa venda. A paixão nos faz possessivos. O amor nos faz abrir a gaiola, porque sabemos que se for recíproco, o pássaro não vai voar para longe pois ele apreciará nossa presença. E se ele voar, aplaudiremos a beleza de sua liberdade.

A paixão faz-nos mais necessitados. O amor nos faz completos. E porque somos inteiros, tudo o que vem é motivo para a gratidão. Nós não esperamos que o outro faça certas coisas, mas ficamos realmente felizes quando as faz.

E porque a maioria das pessoas ainda não experimentou tais sentimentos em qualquer grau, eles se conectam mais facilmente com histórias de desconexão. Bondage sem cordas. Eles precisam de um filme sem sal e sem açucar como 50 Tons de Cinza para lembrá-los de tudo isso.

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