29 de abril de 2015

Queimando por Dentro

29 abril Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Como eu queria voltar no tempo e conversar comigo mesmo. Explicar algumas coisas que os adultos da época nunca souberam me explicar ou sequer perceberam que precisavam ter feito. Eu poderia evitar tanta coisa! Mas será que meu eu-imaturo daria ouvidos aos conselhos desse estranho visitante do futuro? E será que se eu tivesse evitado tais experiências, teria a consciência que tenho hoje?

Eu estava no quarto da minha avó com um amigo. Devia ter entre sete e oito anos de idade. Ele devia ter uns dez. Estava falando sobre coisas que vira seu pai e sua mãe fazerem, usando palavras que pareciam excitantes pelo contexto, mas que eu não fazia a menor ideia do que significavam de fato. Ele sugeriu que tirássemos as roupas e tiramos. Tocamo-nos. Eram cócegas diferentes, rimos. No fundo, sabíamos que se os adultos nos encontrassem ali, levaríamos uma surra. O risco deixava tudo mais emocionante. Vasculhamos as gavetas e encontramos uma anágoa. Ele me pediu que vestisse. A sensação de usar aquela seda semitransparente era como se déssemos mãos ao vento e em troca ele nos acariciasse.

Meu irmão, um outro amigo e eu estávamos brincando no mato e paramos para fazer xixi, eu projetei o esguicho contra o jato do meu amigo e começamos a fingir uma luta de espadas. A ideia era repugnante ao meu irmão e ele se retirou. Eu e meu amigo continuamos brincando, emitindo onomatopéias dos disparos de armas intergaláticas e saltando para não ser atingidos pelos raios mortais.

Meus primos e eu estávamos tomando banho juntos. Um deles começou a fazer xixi e apontou o jato contra mim. Eu revidei. Ele continou me mirando, ora acertando, ora errando. Era gostoso sentir o líquido quente se confundindo com o jato frio do chuveiro.

Algumas mulheres estavam fazendo as unhas com esmaltes vermelhos. Elas davam gargalhadas sobre assuntos que eu não entendia. Me puxaram para o centro e pintaram minhas unhas. A sensação era muito estranha, como se algo pesado apertasse a ponta dos meus dedos. Fiquei olhando a cor, admirado. Uma delas estava de saia e sem calcinha. Enfiou meus dedos recém pintados entre suas pernas e perguntou se eu estava gostando. Fiquei sem saber o que dizer.

Minha vizinha fez uma cabana em sua garagem. Brincamos por várias horas fingindo expedições cheias de perigos ao centro da terra. Ela cansou e sugeriu uma nova brincadeira. Dessa vez minha mão não ficou somente entre as pernas dela. Quando tirei os dedos úmidos, ela me fez lamber e perguntou se tinha um gosto bom. Dessa vez eu disse que sim. E repeti outras vezes.

Um vizinho me levou pra baixo da cama de seus pais e me mandou enfiar a mão em sua braguilha semi aberta. Ele era negro (e o que dizem sobre negros, nele revelou-se verdade). Ele deveria ter o dobro da minha idade e o dobro de outras coisas também. Me disse para virar e abaixar as minhas calças. Eu virei. Ele passou a mão molhada na minha bunda e se aproximou já excitado. Ouvimos sua mãe abrindo a porta da sala. "Merda!", ele resmungou enquanto tentava abotoar a calça. Quando ela abriu a porta do quarto, ele já estava deitado sobre a cama. Ela perguntou por que a porta estava fechada, ele respondeu qualquer coisa e saiu com ela para a cozinha. Eu fiquei embaixo da cama morrendo de medo de que ela me visse. 

Ele não desistiu e me encontrou de novo na oficina de tapeçaria do meu pai. Dessa vez, ele chegou a enfiar a "cabecinha" e eu senti uma dor absurda rasgando minhas carnes, como se ele estivesse cravando facas dentro de mim. Quis chorar e ele segurou minha boca com força. Minha tia entrou na oficina e perguntou que safadeza era aquela. Eu saí correndo. Queria sumir. Os vizinhos mudaram na semana seguinte.

Tinha uns doze anos quando comecei a ajudar um outro vizinho a preparar-se para um teste importante. Enquanto eu lhe ajudava com teoremas e equações, o caderno em seu colo começou a pulsar. Eu olhei pra ele. Ele segurou minha mão e colocou-a embaixo de seu caderno.

Tinha uns treze anos quando um amigo de meu irmão começou a ficar até tarde lá em casa vendo filmes comigo. Quando percebia que todos estavam dormindo, ele abria o zíper da calça e me convidava com os olhos para aproximar-me e eu me aproximava.

Eu sabia que ninguém entenderia, então mantinha essas experiências e outras tantas em segredo. Também não conversava com aqueles que participavam delas comigo. A maioria tinha namorada e não gostava de falar sobre o que estávamos fazendo. Por fim, era isso que eu esperava de mim, que no futuro acabasse encontrando uma menina que se apaixonasse por mim e me fizesse desejá-la como eu desejava aqueles meninos.

E me apaixonei por muitas. Eram paixões intensas, que me tiravam o sono. Eu não me imaginava transando com elas, mas queria beijá-las, queria abraçá-las, andar de mãos dadas, queria ficar ao lado delas pra sempre. Mas por amá-las tanto, eu não achava que elas mereciam alguém como eu. E sufocava meu amor para não magoá-las.

Um turbilhão de sentimentos e sensações me assombrava e eu tinha que lidar com tudo isso sozinho. A única fonte de instrução eram os livros e a TV, mas eles não podiam tratar das particularidades de meus desejos. A primeira vez que ouvi a palavra "masturbação", foi vendo um programa da Marta Suplicy chamado TV Mulher. Eu perguntei o que era aquilo de que ela estava falando e os adultos mudaram de canal.

Nos anos oitenta, antes que um programa de TV com conteúdo levemente sexual começasse, aparecia uma mensagem na tela avisando aos adultos que tirassem as crianças da sala. E eles tiravam! A primeira vez que vi um filme inadequado para a minha idade foi na casa do meu tio. Eu devia ter de oito pra nove anos de idade. O filme era o musical Hair. Eu insisti tanto para assistir que eles me deixaram ficar na sala. Mas sempre que um dos personagens começava a se despir, alguém me cobria os olhos.

A curiosidade sobre a nudez do outro me fez desenvolver um fascínio sobre o mundo das artes plásticas. Ficava horas observando os corpos nus das pinturas clássicas e renascentistas. Comecei a praticar o desenho e convenci amigos a posarem para mim. Claro que as sessões terminavam em algum tipo de contato mais íntimo.

Já o meu corpo estava sempre coberto. Eu não dormia sem roupa. Minha avó dizia que se eu dormisse sem roupa, meu espírito poderia sair do corpo à noite e não achar mais o caminho de volta. Além do mais, eu me achava magro demais e feio demais. E não tinha qualquer esperança de que meu corpo pudesse ser moldado para que se aproximasse num mínimo grau daquilo que eu desejava no corpo dos outros.

Cresci achando que meu corpo era algo para ser escondido, que não devia ser modificado ou explorado. E comecei a ter vergonha das experiências libertadoras que havia tido quando criança. 

Eu me masturbava sempre que ficava excitado (e estava sempre excitado com alguma coisa), mas depois ficava me sentindo culpado, como se tivesse quebrado um ovo que havia sido reservado para fazer uma omelete.

Quando me tornei mórmon, esses sentimentos de culpa foram intensificados. Minha libido queimava tudo por dentro. Meus sonhos, cada vez mais eróticos, me tiravam a paz. Eu ia para a Igreja querendo me tornar uma pessoa pura. E em todos os aspectos de minha vida conseguia alcançar esse padrão de pureza que só o amor permite ter, mas mesmo nas experiências mais sagradas, uma pitada apimentada de desejo estava sempre presente, me atormentando.

Eu consegui reprimir muito do que eu era, muito do que eu gostaria de fazer. Na Igreja, todos elogiavam minha espiritualidade, minha maturidade, meu exemplo impecável! As moças mais cobiçadas da Igreja se aproximavam de mim, mas eu me esquivava. Não que eu não as desejasse. Desejava-as, e muito! Chorava muitas noites por não me achar digno de construir uma história ao lado delas. Meu coração ardia de amor, mas outras partes de meu corpo ardiam ainda mais quando no silêncio da madrugada me deixava levar pela libido que me libertava.

Eu conseguia nas experiências mais profanas encontrar o divino e nas mais divinas compreender o profano. E de algum modo minha espiritualidade crescia.

Mas eu não via assim. O que eu via na época é que eu era um hipócrita, que me levantava diante dos outros para ensinar princípios que eu não conseguia viver. O que eu via em minha visão limitada de mim mesmo é que eu não merecia ocupar os cargos que ocupava, ou ter o conhecimento que tinha. Eu vivia entre duas verdades que me eram preciosas e que eu não conseguia equilibrar.

Ao fazer 19 anos, a pressão para que eu fosse fazer uma missão de proselitismo pela igreja cresceu. Eu evitava o assunto, porque temia não ser suficientemente forte para evitar que meus pensamentos libidinosos acabassem se tornando atos que me desqualificassem para o trabalho. Mas acabei enfrentando o medo e enviei os papéis.

Em preparação para o serviço missionário, fiz minha investidura no templo, uma cerimônia característica da fé mórmon em que se faz certos convênios sagrados e em troca se ganha uma compreensão mais ampla dos propósitos de nossa existência terrena e progresso eterno.

E foi justamente por causa de minhas experiências no templo e no campo missionário que eu percebi que precisava parar de lutar comigo mesmo. Eu precisava ser honesto em relação àquilo que eu de fato sentia. Precisava entender que minhas "fraquezas" me tornavam "forte". Precisava parar de mentir para mim mesmo, tentando me encaixar num padrão que só me causava tormento.

Deixei de ir para a igreja no dia em que conheci e me apaixonei pelo meu primeiro namorado. E o amor advindo desse relacionamento me preencheu e me mostrou uma verdade maior que a da fé. E toda a vergonha, e todo o medo, e todo o tormento, e toda a luta interna que travara por tantos anos antes se converteu em experiência e auto-conhecimento.

E se hoje eu voltasse no tempo e pudesse conversar com aquele menino ingênuo e perturbado, eu diria: "Seja fiel àquilo que te faz feliz. Seja honesto consigo mesmo. Não se importe com os outros nem queira ser como eles. Aproveite cada experiência para crescer em entendimento. Não se importe com rótulos, importe-se com a essência. Cuide do seu corpo e durma pelado: sua alma não vai se perder; ela vai se encontrar."


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