28 de maio de 2015

A Tigresa

28 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Rita se aproximou da barraca de pipoca como quem não quer nada e puxou assunto. Eu achei que ela tinha segundas intenções e cortei a conversa. Ela continuou insistindo. Eu pedi pra alguém tomar conta da barraquinha e fui pro outro lado do salão. Ela ficou me olhando.

Na aula de inglês, Rita estava lá novamente. Desta vez, Marcelo, meu novo vizinho, sentou do lado dela e puxou assunto. Eu ainda me sentia um pouco acuado com seu olhar sedutor, seu jeito imperativo de conduzir a situação. Mas aos poucos ela foi me ganhando com esse jeito de tigresa baiana, e nos tornamos grandes amigos.

Marcelo estava interessado nela, mas não tinha coragem de se declarar, talvez porque ele também enfrentasse suas próprias lutas interiores.

Rita nos convidou algumas vezes para jantarmos com ela. Seu talento no preparo de pratos típicos da culinária baiana era impressionate! Ela descobriu que eu amava comer peixe e começou a me convidar com mais frequencia para jantar com ela, e sempre servia meu prato preferido. 

Ela também descobriu que eu adorava ver filmes e começamos a assistir filmes juntos todas as noites até bem tarde.

Rita foi a primeira pessoa pra quem eu disse que era gay. Ela e Marcelo eram os únicos que sabiam dos problemas que eu estava enfrentando em casa com minha mãe e meu irmão.

Nessa época, eu tinha começado a frequentar um cyber perto da minha casa, em parte para fugir do ambiente hostil do meu lar, em parte para me sentir produzindo algo de verdade.

Comecei a criar um site para divulgar o meu livro. Estava decidido a me focar nisso, contatar editoras, continuar escrevendo, eu precisava de algum sinal de que todo aquele esforço valeria a pena. O sinal não veio.

Mas a internet é um mundo de possibilidades sedutoras e logo me desviei de meu objetivo inicial. Descobri as maravilhas do MSN Messenger e das conversas privadas do chat da Uol. E entre um clique e outro, explodindo de tesão com um tipo de abordagem que não estava acostumado a ouvir, descobri um menino incrível com quem comecei a conversar com muita frequencia.

Ele era diferente dos machos-ativos que já entravam no messenger dizendo que queriam arrombar seu rabo, ou que chamavam você de putinha, insistindo pra que mostrasse a bunda, como se o resto de você não importasse; ou ainda os afeminados-passivos, que já chegavam mostrando fotos mal tiradas da bunda porque tinham sido treinados pelos primeiros a se comportarem dessa maneira.

Era uma raridade encontrar alguém com um codinome que não fosse apelativo ou ofensivo. Eu sempre bloqueava quem já chegava com esse tipo de abordagem, a não ser que tivesse uma foto linda no perfil!

Mas aquele rapaz, mesmo sendo tão jovem, era uma pessoa inteira. Eu adorava entrar no messenger e ver que ele estava online, esperando por mim. Conversávamos horas! Como ambos estávamos fartos daquele ambiente promíscuo e hostil do messenger e chats da internet, dávamos grande importância um ao outro. Deletei todos os outros contatos da minha lista, pois só ele me interessava agora.

Seus pais eram muito rígidos e ele morria de medo de que eles descobrissem sobre sua sexualidade. E por isso, demoramos muito até marcarmos um encontro real. Seis meses para ser mais exato.

No dia do encontro, acordei apressado e pisei nos meus óculos que estavam no chão ao lado da cama. Arrebentei as lentes. Com dificuldade consegui enxergar o nome do ônibus que deveria pegar para chegar ao Shopping Eldorado, onde marcáramos nosso encontro.

Passei por ele duas vezes e não o reconheci. Ele achou que eu não tinha curtido ele pessoalmente e estava evitando o encontro. Saiu do shopping transtornado.

Nos dias seguintes, ele estava sempre off no messenger. Mandei milhares de mensagens e não obtive qualquer retorno. Eu estava desesperado, não sabia o que fazer.

Rita me ouviu, me aconselhou, me abraçou contente, por saber que eu a amava a tal ponto de confiar-lhe os segredos de meu coração daquele modo. 


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