26 de maio de 2015

Areia Movediça e Fogo

26 maio Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
É comum que missionários mórmons retornados se sintam perdidos nos primeiros meses. Afinal, durante dois anos de sua vida eles têm uma nova identidade, vivem uma rotina regrada e centrada numa ideologia que lhes sustenta.

Acordam às seis, fazem suas orações, lêem as escrituras por meia hora, estudam com o companheiro por mais meia hora, tomam banho, fazem a barba, preparam o café da manhã, comem, lavam a louça, revisam os compromissos do dia, organizam suas mesas de estudo, fazem uma oração com o companheiro e saem de casa às nove da manhã para o primeiro compromisso. Andam até a casa de alguém que encontraram há poucos dias na rua, no supermercado, no ônibus, ou batendo portas; tocam a campainha, ele não aparece, batem palmas, não vem ninguém. Alguém dá uma olhadinha pela fresta da cortina e some. Sabem que tem alguém em casa, mas não quer atender. As pessoas marcam compromissos para não serem rudes, os missionários tentam ajustar toda a sua agenda para encaixá-las naquele horário, e elas simplesmente nem se dão ao trabalho de abrir a porta e ouvir o que eles têm a dizer. Os missionários se entreolham e decidem aproveitar aquela hora livre para falar com pessoas na vizinhança e tentar marcar alguma outra palestra. Conseguem marcar um ou dois compromissos com vizinhos simpáticos, são insultados por religiosos e ateus que consideram sua mensagem uma ameaça ao equilíbrio de suas certezas. Partem para o próximo compromisso não muito distante dali. A família seguinte abre a porta. Eles estão preparando o almoço e pedem para que os missionários voltem outra hora. Os missionários vão almoçar na casa de um dos membros da igreja. São recebidos com alegria. Uma das crianças da casa pula no colo deles para mostrar um desenho que fez na escola. Conversam com os pais e se oferecem para ajudar a organizar a mesa. Todos sentam. Fazem uma oração para abençoar o alimento. Comem. O almoço é farto e a família insiste que eles comam um pouco mais. Quando acham que já não cabe mais nada, são surpreendidos com uma mousse de maracujá ou pudim de leite para a sobremesa. É sempre uma festa receber os missionários em casa! Lavam a louça em forma de agradecimento. Ela diz que não precisa, mas fica feliz pela gentileza. Conversam um pouco mais,  lêem com eles algum trecho das escrituras, cantam, fazem uma última oração e saem. Alguém brinca com seu sotaque. Dão uma risada, e vão para o compromisso seguinte. Caminham mais de meia hora a passos largos sob um sol escaldante até um casebre no final de uma viela. O marido teve que ir trabalhar na folga. A esposa está sozinha em casa. Perguntam se ela conhece alguém ali perto para receber a mesma mensagem. Ela diz que não costuma conversar com os vizinhos. Saem de lá meio desanimados. Encontram um casal na rua levando o bebê para passear. Conversam com eles. É uma família muito simpática, mas deixam claro que são espíritas e que não estão interessados em mudar de religião. Mesmo assim, aceitam marcar um compromisso para ouvir sua mensagem. Os missionários seguem para o próximo compromisso. Mais algumas horas de caminhada escaldante. Passam na casa de um outro membro da igreja com quem haviam previamente combinado de visitar uma família que estão ensinando. Será a quarta visita a essa família. Já são cinco horas da tarde. Tocam a campainha e ela aparece à porta e lhes pede para entrar. Entram, sentam todos em círculo, um deles faz uma primeira oração, pergunta se leram as passagens de escritura que haviam marcado no Livro de Mormon na última visita. Ela diz que sim, ele diz que não teve tempo. O outro missionário pergunta se eles conversaram com Deus a respeito das coisas que estavam aprendendo e eles dizem que sim. Pergunta se eles haviam reconhecido algum tipo de resposta. Eles dizem que não. Pergunta como eles se sentem em relação às coisas que estão aprendendo e eles dizem que sentem algo muito bom e acham tudo aquilo que estão aprendendo muito interessante. Pergunta o que eles acharam de sua primeira visita à igreja no último domingo, e eles dizem que foi bem diferente do que esperavam. Acharam que todo mundo era muito simpático e prestativo e adoraram as aulas e os discursos. Um dos missionários explica o que estudarão juntos naquele dia e abre o Livro de Mórmon e a Bíblia para ler com eles algumas passagens já reservadas previamente para aquele encontro. O clima é muito bom e ao final da mensagem, marcam uma data para eles se prepararem para serem batizados. Eles estão felizes com sua decisão. Os missionários agradecem a participação do membro da igreja que lhes fez companhia naquela visita, ele segue pra casa e eles vão para a última visita da noite. Ela é recem convertida e enfrenta problemas no casamento. Um dos missionários conversa com o marido. Ele está irredutível. O outro conversa com ela. Colocam os dois de frente um para o outro e pedem para eles lembrarem do que fez com que um se atraísse pelo outro quando se conheceram. Eles relutam, mas finalmente são convencidos. Acanhados, eles começam a falar de coisas que admiram um no outro. E coisas que ambos precisam melhorar. Todos riem ao final e eles se beijam. Os missionários voltam satisfeitos para casa. Chegam às nove da noite, fazem uma oração para agradecer pelo dia. Comem alguma coisa. Lêem as escrituras mais um pouco. Tomam um banho. Caem exaustos na cama. Apagam as luzes e fazem uma oração para que a noite seja tranquila. Nem sempre é.

Essa havia sido minha rotina nos últimos vinte e dois meses, sem folgas ou feriados, acrescendo a isso todos os pepinos que tinha que resolver no escritório da missão quando trabalhei como secretário financeiro, as reuniões de liderança, treinamento, atividades culturais, projetos de serviço e reuniões dominicais e batismais. É normal que você fique sem chão quando volta pra casa. Sua cabeça está em outro mundo!

Mas, e quando você não volta para a sua casa? Minha casa era em Campina Grande com a familia de Gemires e Dora e meus irmãos de coração: Roberta, Renata, Leonardo e Junior. Eu tinha duas faculdades para terminar, tinha emprego esperando por mim, tinha minha avó, minha tia, meu pai, meu irmão e minha irmã biológicos. Tinha os amigos, o coral, tudo que deixara há dois anos para viver aquela experiência que ao mesmo tempo era enriquecedora e alienante.

E era assim que eu me sentia em São Paulo, um alien. Intruso e deslocado, os primeiros meses foram difíceis. Eu tinha o problema no olho me preocupando, o problema na alma me torturando e não tinha um amigo com quem eu pudesse me abrir e desabafar.

Minha mãe mentira pra mim. Em suas cartas, ela havia dito que morava do lado do Templo de São Paulo, que tinha um bom emprego, estava casada, que queria ir para a igreja comigo. Depois de dois anos ensinando sobre a importância da família e de como um lar estruturado poderia transformar o mundo num lugar melhor, eu senti que poderia começar de novo ao lado dela.

Ledo engano! Ela morava num bairro de periferia (Jardim Rosana), numa casa que tinha um quarto e uma cozinha e era menor que o quarto onde eu dormia na Paraíba, na casa de Gemires. Trabalhava como acompanhante de idosos no bairro do Itaim Bibi e passava o dia fora, mas não ganhava muito bem. Seu dinheiro mal era suficiente para se sustentar. Vivia discutindo com o marido bêbado, que não demorou a deixá-la. E novamente, ela foi procurar alento nos terreiros e igrejas evangélicas que prometiam soluções milagrosas em troca de suas contribuições mensais de um salário que já mal dava para se sustentar.

Eu vi minha vida retroceder dez anos no tempo. 

Eu não conhecia a cidade, não tinha dinheiro para me locomover em busca de trabalho, não tinha dinheiro para ir para a Paraíba e fugir daquela armadilha que me sufocava, não tinha dinheiro nem pra comprar roupas normais para usar no dia a dia. Como eu vim direto da missão, trouxe comigo somente as roupas que usava na missão, calças socias já gastas, sapatos sociais igualmente gastos, camisas brancas puídas e amareladas pelo tempo de uso, uma bermuda, duas camisetas e muitas gravatas.

Eu não sabia o que fazer e sabia que a ajuda não viria da minha mãe, pois ela já estava sufocada nos próprios problemas que cavava para si mesma. Nem tampouco poderia contar com a ajuda da igreja local, pois os líderes mal me conheciam e a situação estranha que tinha ocasionado minha saída da missão fez com que eles tivessem certas reservas a meu respeito. Eu precisava ser objetivo e traçar um plano para não me afundar ainda mais naquela areia movediça que me puxava para baixo, mas minha mente ainda não estava ali. E eu me deixei afundar.

Quando vi, eu havia de fato retrocedido. Passava o dia em casa, enquanto minha mãe ia trabalhar. Fiz amigos na vizinhança que iam sempre me visitar, e passávamos horas conversando. Comecei a escrever o Diário de Augusto, que logo virou o Livro de Malco. Minha ideia era fazer um manuscrito escrito em bico de pena com letras do tipo Old English para apresentá-lo posteriormente para publicação. Escrevi o primeiro capítulo assim. Comecei a fazer desenhos para ilustrar o livro. E a estudar linguas antigas para criar a língua falada no livro, da qual ele teria sido supostamente traduzido. Passei a frequentar bibliotecas da região e fazer pesquisas na internet sobre o assunto nos poucos minutos a que tínhamos acesso à ferramenta nessas mesmas bibliotecas.

Eu imaginava que, terminando o livro, logo seria descoberto por uma editora de renome que investiria em mim e eu poderia seguir minha vida fazendo aquilo que sempre gostei de fato de fazer: escrever. Outro engano! Nada é tão simples no mundo das artes.

E ninguém chega a lugar algum se sua cabeça não está totalmente naquilo que se propõe a fazer. A minha cabeça não estava no livro, estava nos problemas que eu tinha tido na missão, meus olhos finalmente voltavam a melhorar, passei a usar óculos com um grau muito alto de astigmatismo, as dores de cabeça passaram depois dos óculos, mas a insônia permaneceu. Meu relógio biológico estava totalmente desregulado e eu temia que se começasse a trabalhar em algum emprego que exigisse que eu levantasse cedo, um novo derrame voltasse a acontecer. Mas o que me perturbava mesmo era o meu desejo latente sendo sufocado e explodindo em culpa.

Na igreja, algumas moças se interessaram em mim, mas eu não sentia nada por elas. Meu desejo por homens estava ainda mais intenso agora e isso me destruia.

Os missionários eram meus vizinhos, e eu passava grande parte do tempo com eles, para ocupar a mente com coisas sagradas. A pureza e ingenuidade do Elder Brown, recém chegado dos Estados Unidos; o bom humor e humildade do Elder Robson, que via em mim um líder inspirado. Quando eu estava com eles, eu esquecia de mim, mas essa é uma fuga inútil.

Minha vizinha, Dona Zefinha adorava dar festas em sua casa, fiz amizade com seu filho, Paulo, e com Robson, um adolescente amigo de sua familia. Robson tinha um tio com tendências homossexuais e esse tio começou a sentir um certo ciúmes da minha proximidade com ele. Ele chegou a dizer a Maria, mãe de Robson, que me afastasse de seu filho. Mas acabamos descobrindo que na verdade, ele é que tinha desejos pelo sobrinho.

E novamente eu me vi envolvido numa situação que colocava em xeque os meus desejos. Minha amizade com Robson era pura, ele tinha uma alma nobre e admirava minha arte. Mas quem acreditaria em mim se descobrissem que eu era de fato gay? Além disso, seu tio era violento, perturbado. E eu corria perigo! Maria conversou comigo e decidiu enviar seu irmão de volta para o Nordeste.

Eu estava saindo com uma das moças da igreja. Estava apaixonado por ela, mas não tinha coragem de dizer isso pra ela, pois justamente por gostar tanto dela, achava que ela merecia alguém muito melhor que eu, muito menos destroçado por dentro.

Nessa época, um missionário americano que tinha os mesmos desafios com sua sexualidade veio morar do lado da minha casa. De cara, nos reconhecemos um no outro. E todas as noites, conversávamos horas sobre nossos sentimentos e lutas internas. Aos poucos, o desejo foi crescendo. E ele não poupava esforços em deixar claro o seu interesse. Mas havia tanta coisa em jogo que eu não conseguia me entregar.

Minha mãe decidiu mudar-se da casa onde morávamos e eu não o veria mais. Na minha última noite no Jardim Rosana, o Elder Blackner pulou a janela do meu quarto e me beijou. E foi um beijo de corpo inteiro. Duas pessoas com sede de toque, de carinho, de fogo, de língua, de saliva escorrendo, de suor escorrendo, de prazer escorrendo. 

Ele contou o que havia acontecido para o presidente de sua missão, que lhe transferiu daquela área. E eu novamente fui chamado ao bispado para novas entrevistas. Contei o que havia acontecido e meus líderes acharam que um processo disciplinar seria necessário, mas ninguém encontrou meus registros de membro para efetuar os trâmites.

Depois de sua missão, Tatton voltou para a Califórnia, passou por vários problemas até finalmente se abrir para seus líderes e ser excomungado da igreja.


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2 comentários:

  1. Cátia Cilene Balduino28 de maio de 2015 14:09

    Estou adorando acompanhar essa saga! Você qualquer hora vai ser descoberto com certeza pelas grandes editoras! Orgulho de tê-lo como amigo! Bjuss

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    1. Também estou adorando escrever essas memórias. E ainda mais feliz por ter amigos que estão acompanhando e me dando apoio sempre! Beijo!

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