25 de maio de 2015

"E as Redes Ficaram na Praia."

25 maio Escrito por Eliude Santos , 7 comentários
Com escrituras divididas em livros, capítulos e versículos, com guias de estudo divididos em tópicos, começamos a enxergar o evangelho em retalhos. Mas a passagem pelo templo mórmon é uma experiência inteira. Todos os retalhos se juntam numa teia interligada e tudo passa a fazer sentido de modo completo.

Eu nunca me senti à altura daquela experiência, mas comparando-me aos demais em suas lutas particulares por aceitação divina, eu entendi que minha fraqueza era o que me tornava forte. Minha atração homoafetiva me tornara um homem mais sensível, que não tinha vergonha de chorar, de abraçar, de se doar, de admirar a beleza e produzi-la em pequenos frascos de ações singelas. Passar pelo templo me desprendeu do preconceito que eu tinha comigo mesmo.

Alguns religiosos comprometidos geralmente vestem peças cerimoniais ou de uso corriqueiro como símbolo de suas crenças: quipás, véus, burcas, batinas, guias, terços, amuletos... Mórmons que já passaram pelo templo usam os "garments do templo". Essas vestimentas representam as vestes que Jeová fez para Adão e Eva para substituir aquelas que Lúcifer lhes tinha dado. As vestes de Lúcifer tinham o objetivo de esconder a nudez recém descoberta, dando um caráter negativo ao desejo e gerando culpa. As vestes de Deus eram para servir de proteção quando eles tivessem que deixar o paraíso e se aventurarem no mundo recém criado, longe de Sua proteção.

Assim, longe de meu paraíso particular, que era o templo, eu precisava de proteção. Os símbolos nessas roupas são uma lembrança constante das promessas e compromissos feitos com Deus. Mas como qualquer escudo, essas vestes podem evitar figurativamente que algo externo nos machuque, mas o que já está dentro continuará fazendo estragos. E assim, minha luta por equilíbrio interno continuava.

Antes de passar pelo templo, eu evitava assuntos de namoro com moças da igreja porque eu não me achava digno delas. O meu desejo por homens, ainda que reprimido ou contido, fazia-me sentir sujo. E não é que eu não sentisse desejo por elas, sentia. Me apaixonei por muitas moças durante toda a minha adolescência. Era uma paixão pura, um desejo de estar perto, de abraçar, de beijar, de trocar carícias. Por poucos homens me senti assim na adolescência. Por eles, o desejo era carnal, sensual, erótico. Mas, porque eu não era inteiro em nenhum dos desejos, me abstinha de todos e me limitava aos laços de amizade com ambos.

Após passar pelo templo, comecei a me permitir certas experiências, todas regadas a muita dor na consciência.

Ainda assim, estava numa posição muito melhor que antes, pois agora tinha algo que poucos tinham, que era essa compreensão mais ampla da existência. Essa aceitação de mim mesmo com defeitos e qualidades que me tornavam único. E eu queria poder contribuir de algum modo para que outras pessoas experimentassem tal sensação. E como Pedro, quando chamado a ser um "pescador de homens", eu ouvi a voz que me chamava e "deixei as redes na praia", mesmo sem saber se estava pronto para fazê-lo. Claro que a voz precisou se pronunciar algumas vezes até que eu ouvisse de fato.

Meus alunos fizeram objeção. Quando eu comecei a dar aula em Nova Floresta, dois anos antes, precisava urrar por atenção. Havia uma cultura de desrespeito ao professor e de desprezo pela educação. Mas muitos deles foram de algum modo tocados. Quando sua percepção mudou, mudou também sua conduta. Alguns choraram para que eu ficasse com eles.

Meus pais acharam que eu havia enlouquecido. Eu estava cursando duas faculdades, dava aula em duas escolas, morava em duas cidades. Minha vó, meu pai, minha madrasta, minha tia, meus pais adotivos, meus irmãos de sangue ou de coração, todos tentaram me dissuadir. Mas eu havia decidido. E, em maio de 2001, depois de uma despedida regada a muitas lágrimas, parti para o Centro de Treinamento Missionário, em São Paulo, para depois seguir para Campinas, onde serviria por dois anos como missionário de proselitismo em tempo integral.

Houve atraso no voo. Acabei chegando ao CTM de madrugada. Na recepção, deram-me uma plaqueta com uma nova identidade, "Elder Alves", pela qual eu seria conhecido nos anos que se seguiriam. Entregaram-me um papel com as regras e programação dos quinze dias de treinamento e eu segui para o meu quarto.

Os missionários mórmons andam em duplas, ou trios. Mas, como nada na minha vida seguiu um padrão comum, depois das primeiras aulas, meu companheiro sentiu-se mal e fomos para o ambulatório. O médico encaminhou-nos para um laboratório, onde ele foi submetido a vários exames.

Os resultados chegaram, mas não acusaram nada irregular; no entanto, ele se sentia extremamente cansado, suava e salivava sem parar e logo não conseguia mais sequer levantar-se da cama. O médico suspeitou de "mononucleose", uma doença que não é comum no Brasil. Fizemos os exames e o resultado veio positivo. 

Não era possível nem seguro para os outros missionários mantê-lo no CTM nem tampouco em contato direto comigo. Afinal, a doença é contagiosa e leva cerca de 2 meses para amenizar os sintomas, e não dispúnhamos desse tempo. O presidente do CTM decidiu enviar meu companheiro de volta pra casa para receber tratamento mais adequado, mas não conseguiu entrar em contato com seus líderes locais. E a situação se estendeu até o fim de nossa estadia no centro.

Recebi instruções sobre como cuidar de meu companheiro. E fiquei sozinho nas poucas aulas do CTM que consegui assistir. Também ficamos isolados em um dos andares do alojamento. Nos horários de refeição, eu geralmente descia pelo elevador para pegar sua bandeja de comida, deixava-a no quarto e descia para comer com os outros missionários. Todos estranhavam o fato de eu estar sempre só, ou de usar o elevador. (Como os missionários ficam confinados no centro, fazê-los usar as escadas é uma maneira de treiná-los para as longas horas de caminhada que lhes aguardam no campo missionário).

Além disso, fiz amizade com os médicos do CTM, o Elder e a Sister Neville, dois americanos super simpáticos que não falavam português muito bem. Passei a almoçar com eles no refeitório e soube que seu neto fazia missão em Campinas. Mesmo depois que saí do CTM continuamos mantendo contato por alguns anos.

Todos os dias, meu companheiro e eu íamos ao ambulatório para fazermos exames e nada apontava para uma melhora rápida. Então, faltando dois dias para sermos enviados ao campo missionário, juntei-me a outros missionários, colocamos nossas mãos sobre sua cabeça e demos-lhe uma bênção de saúde.

A nossa oração foi atendida. Se por meios divinos ou porque o repouso e a rotina apontada pelos médicos contribuíram para isso, no dia seguinte, voltamos ao laboratório e ele havia alcançado uma considerável melhora. Em uma noite, seu semblante mudou completamente e ele seguiu cheio de ânimo para a sua missão.

Claro que o fato de ter ficado na cama durante todo aquele tempo e sua pouca preparação dificultaram sua vida no campo missionário e ele acabou tendo que voltar para sua casa já nos primeiros meses de sua missão.

Por outro lado, o fato de eu ter tido uma experiência bem distinta no CTM me ajudou a desenvolver uma identidade própria e mais humana como missionário. Passei pelo Templo de São Paulo antes de seguir para Campinas, onde o terceiro templo a ser construído no país estava em andamento.

Na época, os missionários eram incentivados a terem um discurso padronizado ao ensinarem as palestras missionárias. Exatamente como retalhos, as mensagens eram divididas em lições com temas genéricos que ajudavam as pessoas a terem uma noção geral dos pilares que faziam do mormonismo uma religião tão distinta das demais e preparavam as pessoas interessadas a se unirem à igreja.

O meu primeiro presidente da missão, o Pres. Jackson, seguia à risca cada instrução e seus missionários eram como soldados. E foi assim que eu senti os primeiros meses, como se eu fosse um poeta num exército de robôs.

Meu primeiro companheiro, Elder Colsen, me ajudou a me adaptar. Ele tinha um talento incrível com as palavras, falava português muito bem, e tinha uma voz muito bonita. Fizemos amizade com um dono de escola de inglês e algumas vezes íamos num estúdio na cidade para gravar áudios para os CDs daquela escola. Ainda assim eu sentia um grande desconforto em relação ao modo como todo o processo era conduzido: competições entre missionários para saber quem batizava mais, quem memorizava primeiro todas as palavras das palestras, ou mesmo as instruções de como falar cada frase, que entonação ou apelo sentimentalóide que deveria ser feito. Eu estava farto de tudo aquilo e meus dois anos de missão mal haviam começado.

Então mudou o presidente. No dia de nossa entrevista com o novo presidente da missão, Pres. McCarrey, eu entrei meio afoito na sala onde ele estava. Ele pediu que me apresentasse e falasse um pouco e eu falei de tudo que me incomodava. Para minha surpresa, compartilhávamos do mesmo pensamento. E acho que ele não ouviu isso de muitos outros missionários naquele dia, porque, desde essa entrevista, ele passou a me dar uma atenção especial. Passamos a conversar muito sobre muitas coisas, e na transferência seguinte, ele mandou um de seus assistentes para ser meu companheiro.

Elder Cram era eficiente. Fazia tudo como se esperava que os robôs treinados pelo Pres. Jackson fizessem, mas era aquele tipo de inteligência artificial que você convive e se apaixona e já não percebe depois de um tempo que ele é um robô.

Todo dia pela manhã, começávamos o dia dando um abraço bem demorado. Ele era muito brincalhão e estava sempre implicando com meu jeito certinho de fazer tudo. Todo dia de manhã, ele comia meio quilo de carne com vários ovos. Tinha um jeito de moleque, mas um comprometimento absurdo em dar o melhor de si em tudo o que fazia. E em um mês e meio juntos numa cidade que já não tinha batismos há mais de oito meses, tirando os dois meninos que eu e Colsen havíamos batizado um mês antes, marcamos uma reunião batismal com quase 16 pessoas.

Uma semana antes da data do batismo, fui transferido de emergência, porque dois missionários em Santa Bárbara d'Oeste haviam se desentendido. Acabei não ficando para o batismo e muitas das pessoas que estávamos preparando acabaram desistindo depois que saí de lá.

Meu companheiro seguinte foi Elder Johnson, o missionário que tentara matar o companheiro anterior com uma espada. A casa tinha resquicios da briga: uma porta arrebentada, uma mesa quebrada, uma cadeira torta. Minha primeira noite, eu mal conseguia fechar os olhos. Mas logo descobri que Elder Johnson era uma pessoa incrível. Não sei o que gerou a tal briga, mas não consigo imaginá-lo matando uma formiga.

Quando chegamos em Santa Bárbara, as reuniões da igreja eram numa casa alugada no centro da cidade. Os líderes se comportavam como pregadores evangélicos. Havia muitas irregularidades e eu fiquei horrorizado com aquilo. Conversamos com o Pres. McCarrey, ele conversou com a liderança local e algumas providências foram tomadas.

Um dia, estávamos ensinando uma familia muito estranha e de origem humilde. No meio da palestra, um dos membros da família se levantou de uma maneira torta e começou a falar em latim, e depois em alemão e por fim em um inglês antigo. Ele dizia que deveríamos sair da casa, porque aquela familia tinha uma dívida com ele, e ele não os deixaria em paz. A familia ficou muito assustada e sem entender o que estava acontecendo e nos pediu para sair da casa. Quando voltamos no dia seguinte, a casa estava vazia e um dos vizinhos disse que não morava ninguém ali havia muitos anos.

Johnson estava perturbado com todos os acontecimentos e acabou encontrando alento nos braços de Kate. Missionários não devem se afeiçoar por moças da região, mas ele estava realmente perturbado e aquilo de certo modo lhe fez bem. Ele precisou deixar Santa Bárbara, e o Elder Taylor tomou seu lugar.

Taylor tinha a música saindo pelos poros. Ele amava tocar violão, mas o violão era muito pesado para levar o dia inteiro nas costas, então ele descobriu o cavaquinho. Adaptou os acordes de um para o outro e sempre cantávamos em nossas mensagens. Nessa época, eu já usava minhas próprias palavras para ensinar e deixava que a inspiração (intuição) nos guiasse de acordo com as necessidades de cada familia ensinada.

Conhecemos Terezinha. Ela tinha 70 anos, morava sozinha, era viúva, e muito católica. Mas ao ouvir sobre o Livro de Mórmon, sobre o templo e plano de salvação, ela decidiu batizar-se. Terezinha nos tratava como se fôssemos seus filhos. Seu coração doce encantava a todos.

Fui então transferido para Bom Jesus dos Perdões, onde fui companheiro do Elder Pohl. A cidadezinha tinha pouca estrutura, os membros da igreja eram bem humildes, mas eu fiz grandes amigos por lá.

O templo de Campinas ficou pronto e fomos convidados para ajudar. A missão recebeu materiais importantes de instrução em inglês e o presidente da missão me pediu que traduzisse para português e que conduzisse os treinamentos.

Logo depois da dedicação do templo, fui chamado para trabalhar no escritório da missão, como secretário, onde fiquei até o fim da missão e tive como companheiros o Elder Silveira, que era o secretário financeiro antes de mim e em seguida o Elder Jolley, que era companheiro do Secretário Executivo, antes de tomar seu lugar.

Tudo parecia estar indo super bem, mas por dentro, eu estava enfrentando uma guerra. Durante o dia, eu era o exemplo de missionário que todos esperavam que eu fosse. Mas a noite, quando deitava a cabeça no travesseiro e as luzes apagavam, a minha mente não conseguia desligar. E aquele homem natural que eu reprimia durante todo o dia aparecia sedento. Em noites de luas cheias, os quartos ficavam claros. Uma silhueta branca desenhava o corpo de meus companheiros em suas camas. As camas ficavam distantes, mas algumas noites eu levantava e ia até o lado de sua cama. Passava a mão sobre o desenho pálido de seu corpo. E voltava pra cama assustado com medo que ele acordasse e me flagrasse ali.

Meu último companheiro me pedia para fazer massagens nele a noite. E eu fazia. Ele dormia tranquilo e eu tinha sonhos eróticos de que a massagem se estendesse para além de onde ela chegava.

Não havia uma transgressão real, mas havia uma intenção de transgressão constante. Um desejo explodindo.

Até que ficamos em trio. E o outro companheiro, que tomava remédios para dormir, me viu fazendo massagens no Elder Jolley e achou que eu estava indo um pouco além dos limites. Eles contaram para o Pres. McCarrey o que tinha acontecido. No mesmo momento, eu tive um derrame ocular, por causa das poucas horas de sono nos últimos dois anos. Uma insônia que me consumia o espírito e o corpo, emagrecera mais de dez quilos na missão. Fui chamado para uma entrevista. Mal conseguia abrir os olhos. Todos falaram o que houve. Eu fiquei transtornado. O Pres. McCarrey queria acreditar que aquilo não estava acontecendo. Mas eu tive que ser honesto e lhe dizer que embora eu lutasse contra, que algo dentro de mim me impulsionava para aquilo. Quer eu tivesse feito ou não qualquer coisa, aquilo já estava dentro de mim.

Ele ligou para o meu líder na Paraíba. O novo presidente de lá mal me conhecia e disse qualquer coisa ofensiva que o Pres. McCarrey achou que seria melhor se eu não voltasse pra lá. Como minha mãe biológica morava em São Paulo, achamos que seria uma boa ideia se eu viesse ficar com ela. E eu vim. Usamos a desculpa do derrame ocular para justificar a minha saída da missão poucos meses antes de completar os dois anos para os quais havia sido designado.

Passei uma última vez no templo e tentei fechar aquela colcha de retalhos que tinha sido minha história até então e percebi que tudo aquilo estava me mostrando um detalhe na colcha que eu não estava querendo enxergar. Que meus olhos vermelhos de sangue, meu corpo definhando eram gritos de socorro que eu estava me recusando a ouvir.

Quando vim para São Paulo, eu sabia o que tinha que fazer.

http://eli-ude.blogspot.com.br/p/ego.html


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7 comentários:

  1. Que bom!!
    Ao espalhar luz,somos ilumindos também.
    Deus te abençoe!

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  2. Caramba!que bonito da sua parte,se vc se sente satisfeito tds aqueles que sentiram sua ausencia hj concerteza estão mais felizes em te ver rindo :) e transmitindo paz,isso ae!+)
    bjs

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  3. Ah, eu sempre quis saber quem sao essas pessoas com as plaquinhas no bolso.Alguem me disse que são mormaos (nao sei como se escreve :x) é isso mesmo?

    Bom,seja la o que for, acho legal quem tem uma meta de vida e se dedica a isso.

    Abs

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  4. Os "mórmons" são pessoas comuns com uma crença incomum (se der uma lida nos posts mais antigos entenderá um pouco mais a respeito dessas crenças)... Mas nem todos eles saem na rua de plaquetinha... Os rapazes e moças de plaquetinha são "missionários mórmons". O trabalho deles é sair visitando as famílias com a mensagem de que há um modo da família permanecer unida após a morte (note que em todas as outras religiões, os laços familiares são perdidos após a morte e isto é selado com as palavras "até que a morte os separe", isso se o divórcio não aparecer antes pra fazer esse trabalho!). Eles também presenteiam essas famílias com um livro (O Livro de Mórmon) para que leiam e descubram a verdade por si mesmas. (Os mórmons "não" vendem sua literatura. Eles presenteiam as pessoas que os recebem em suas casas).
    Então, se virem rapazes ou moças de plaquetinha andando pela rua, não se acanhem em chamá-los e falar com eles. O máximo que pode acontecer é vcs não concordarem com a mensagem deles.
    Abraços!

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  5. Eu lembro dessa 'carinha' de missionario! hehe

    (agora passo por aqui todo dia... ;P)

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  6. como eu gostava de receber vcs em minha casa....cantávamos, lembra-se? até parabéns pra vc com direito a bolo fizemos!!! hahaha
    tempo bom aquele....
    grande abraço amigo, gosto muito de vc!

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    Respostas
    1. Mesmo sem nome na postagem eu saberia de quem veio esse carinho... Também gosto muito de vc, Sonia!!! Você abriu as portas de seu lar pra nós como uma verdadeira amiga!!! Saudades!!!

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