16 de maio de 2015

O Fruto da Árvore do Conhecimento

16 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Para um mórmon, o templo (diferentemente de outros locais mórmons de reunião e adoração) tem um papel importantíssimo no desenvolvimento de sua fé. A participação em suas cerimônias pode ampliar a compreensão de crenças e princípios fundamentais àqueles que pretendem alcançar graus de crescimento espiritual mais elevados nesta vida e além dela. Muitos, no entanto, ficam tão impressionados com a natureza incomum das cerimônias ali realizadas que acabam tendo suas certezas abaladas e passam a questionar sua própria fé.

Por ser uma experiência de caráter muito sagrado, há um grande respeito sobre o que se faz no templo e portanto, não se fala muito sobre essa experiência, mesmo com outros membros da igreja que já passaram pelas mesmas cerimônias. Então, sem uma compreensão mais ampla do que de fato acontece ali e de como se referir a isso fora do templo, muitos membros da igreja acabam passando a ideia de que as cerimônias do templo são "secretas", o que aguça a curiosidade e cria falsas expectativas em pessoas que não estão necessariamente prontas para tomar parte ou ouvir a respeito de tais cerimônias.

Na virada do Milênio, com a proximidade do início das atividades no templo de Recife e tendo atingido a idade de enviar os documentos para ser chamado como missionário de proselitismo pela igreja, comecei a fazer todos os preparativos para participar das cerimônias ali realizadas, sobre as quais ninguém ousava mencionar qualquer detalhe.

Quando um templo termina de ser construído, ele é aberto para a visitação pública, e todas as pessoas, mórmons ou não, podem entrar no edifício e conhecer a maioria de suas dependências. Um guia conduz os grupos através das salas do suntuoso palácio explicando a história e o propósito do templo, dando detalhes curiosos da construção daquele edificio em particular, e vagamente explicando o que se faz em cada sala. Depois de dedicado e aberto ao serviço, o templo só pode ser utilizado por certos membros da igreja que se preparem adequadamente para fazê-lo.

Eu estava apreensivo sobre as perguntas que me seriam feitas na entrevista que me qualificariam ou não para receber a recomendação que me permitiria entrar no templo. Mas no final, somos nós mesmos que definimos o grau de comprometimento que temos a ponto de nos considerar qualificados ou não para tal experiência. 

No dia de sua primeira investidura, você precisa de um acompanhante. Meu acompanhante foi Marcos Câmara, um amigo muito querido, que semelhante a mim, também enfrentava problemas em relação a sua sexualidade, e sofria calado para adequar-se a princípios que não se encaixavam a aspectos de sua natureza. Apesar de suas lutas particulares, ele tinha um carinho muito grande pelo templo e por tudo o que aquelas cerimônias representavam. Na noite anterior, conversamos muitas horas sobre tudo o que eu estava prestes a vivenciar e de certo modo isso me ajudou a prestar atenção a certos detalhes que eu simplesmente teria ignorado em minha primeira visita, o que teria tornado toda a experiência muito menos significativa.

Eu sentia um misto de perturbação e paz. Eu sabia que estava fazendo a coisa certa. Eu sabia que precisava passar por tudo aquilo, mas sentia que a qualquer momento um raio divino desceria dos Céus e me reduziria a cinzas, tamanha era a culpa que carregava dentro de mim por causa da minha dificuldade em reprimir meus impulsos naturais. O raio não veio.

Na verdade, o fato de não ser um mórmon moralmente bitolado me fez apreciar e compreender a ordenança iniciatória quase que de um modo pleno. Senti-me livre, aceito e completo. Cada palavra dessa ordenança remete à Criação. É como se estivéssemos sendo feitos novamente, renovados, recriados. Um novo corpo, uma nova pele e uma nova identidade. Limpos, nutridos e protegidos.

Dali vamos para uma sala de espera que representa os processos intermediários entre os estágios de progresso eterno. É na espera em que a experiência vivida é processada e melhor compreendida. Quem passa pela espera ansioso pelo que lhe aguarda a seguir perde um tempo precioso de degustar o que acabou de experimentar. Eu não perdi esse tempo.

Então, entramos na sala da investidura, uma sala que se assemelha a um teatro ou cinema, onde a cerimônia da Criação é encenada ou aprensentada. O filme do templo é uma representação alegórica dos estágios da criação divina e dos parâmetros que regem nosso progresso eterno a partir de experiências interativas que nos permitem entender cada estágio do plano de felicidade idealizado pelo Criador e onde nos encaixamos nele. Entendemos que a oposição é necessária e que o Opositor às vezes coopera para que o Plano de Felicidade seja colocado em prática.

Nessa representação alegórica, cada homem é primeiramente uma entidade universal, para depois ser identificado como uma personalidade grupal e por fim assumir uma identidade individual. Cada símbolo tem força histórica que remete ao passado, presente e futuro de nossa existência. Cada pessoa passando pela cerimônia sofre o tormento de não se sentir à altura de tudo aquilo que é exigido dela, mas se observar além daquilo que espera de si mesma, compreenderá em que esfera de progresso se encaixa e perceberá a grandiosidade de cada etapa. Aprendemos que o pecado é relativo e que o que é aceitável em certas circunstâncias pode ser inadequado em outras.

Ao fim da cerimônia, na Sala Celestial, onde um gigantesco e imponente lustre de cristal faz com que sua imagem refletida nos espelhos de imagens infinitas pareça ainda mais nítida, você consegue se ver pela eternidade além das máscaras que veste diariamente para disfarçar os medos de aceitação que enfrenta. Mais do que uma experiência para saber o que Deus espera de você (afinal, Ele não espera nada, já que Ele sabe o fim desde o começo), esta é uma experiência para você mesmo reconhecer o que de fato consegue oferecer a Ele (uma experiência de auto-conhecimento e de aceitação de limitações a qual poucos conseguem de fato se entregar por inteiro, pois não conseguem se despir da imagem que fazem de si mesmos - que nem sempre corresponde a imagem de quem são de fato ou daquilo que podem vir a ser).

Quando eu saí do templo eu de fato me sentia como Adão: tinha certeza que não deveria ter comido do fruto, mas paradoxalmente sabia que precisava ter comido dele.


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