4 de junho de 2015

O Início dos Trabalhos

04 junho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Na minha primeira semana na Ala Pirajussara, assim que voltei de missão, sentei ao lado de Melissa durante a reunião sacramental. Ela compartilhou seu hinário e conversou comigo durante a reunião. Depois da reunião, ela me apresentou a outros jovens em minha nova ala. 

Entre eles, Márcia, que percebeu o quanto eu estava me sentindo deslocado e me convidou para jantar com ela em sua casa. Sua família era muito acolhedora. Sua mãe, Dona Beth, e sua irmã, Vanessa, eram divertidíssimas. Seu pai adorava charadas. Seu irmão, Eduardo, trabalhava numa academia e tinha um amigo do trabalho, Deivid, que sempre voltava com ele e acabava dormindo por lá.

No começo, eu me confundi nos sinais e achei que eles fossem namorados. Na verdade, eles eram apenas amigos muito próximos que se tratavam como se fossem irmãos. O fato é que Deivid tinha uma família de verdade, irmãos e primos, que haviam vindo da Bahia para trabalhar em São Paulo e dividiam juntos um casebre no Jardim Rosana. 

Depois que ele pediu demissão da academia, aos poucos ele foi se distanciando da família de Dona Beth.

Quando eu me mudei do Jardim Rosana, também acabei me distanciando deles, mas mantive minha amizade com Deivid.

Ele sempre gostou de arte, era músico e adorava ler. Quando descobriu que eu estava escrevendo um livro, quis ajudar de alguma forma. 

Eu disse que ele poderia me ajudar posando pra mim, para que eu pudesse começar a desenhar as ilustrações do livro. Embora ele quisesse genuinamente ajudar, ele sabia que eu era gay e não se sentia à vontade em posar para mim, especialmente porque esse tipo de desenho requereria que ele ficasse pelo menos de cueca. E ele não conseguia se sentir à vontade nessa situação. Acho engraçado que algumas pessoas fiquem super à vontade em nadar de sunga na praia na frente de qualquer pessoa, inclusive desconhecidos, mas ficar de cueca num quarto na frente de um amigo lhes parece algo inadequado. A sociedade tem umas regras muito estranhas, de fato!

Demorei muito até conseguir convencê-lo. Mas, no tempo que terminei os primeiros desenhos, eu já tinha desistido da ideia de ilustrar o livro. E acabamos não dando continuidade aos desenhos.

Deivid fazia aula de violão num conservatório de música e me apresentou ao dono do conservatório, Pablo, que estava interessado em organizar uma turma de inglês aplicado à música. Eu disse que toparia levar o projeto adiante, e comecei a criar as apostilas e gravar o material de audio para ser usado nas aulas.

As aulas no conservatório não foram muito longe. A desorganização do conservatório e a falta de compromisso dos alunos contribuiu para que eu perdesse o interesse no projeto depois de alguns meses.

Além disso, o musical O Salvador do Mundo estava às vesperas da estreia e eu estava ocupadíssimo com os ensaios.

Melissa me ligou e perguntou se eu ainda estava procurando emprego. Eu disse que estava dando algumas aulas particulares, e falei do projeto no conservatório, mas disse que adoraria ter um emprego que me desse mais segurança. Ela disse que a dona da Wizard Campo Limpo estava entrevistando professores e falou pra eu passar lá naquele dia sem falta.

Quando cheguei na recepção da escola eu devia estar com uns quarenta graus de febre. Estava tremendo, e mal conseguia me concentrar. Tudo estava girando. Uma gripe muito forte tinha me derrubado por dois dias e eu estava ainda muito fraco. Mas não deixaria a chance passar.

Melissa apareceu e disse que Rose viria conversar comigo. Ela me entregou um teste escrito e me levou até uma sala para que eu fizesse o teste. Quando terminei, fiquei esperando que alguém aparecesse, mas como ninguem aparecia, sai perambulando pela escola, e fui parar na sala de Marcela, a diretora financeira. Ela percebeu que eu estava perdido e chamou sua irmã, Rose, a dona da escola, para me entrevistar.

Rose apareceu com uma voz super doce. Pegou o teste da minha mão, leu por cima e começou a conversar comigo em inglês. Ela viu que eu falava bem e que tinha ido bem no teste e disse que lamentava que já tinham conseguido os professores que precisavam, mas que se eu quisesse participar do treinamento, sempre tinha a chance de alguém desistir.

Eu voltei pra casa super animado. Contei pra minha mãe que havia conseguido um emprego e esperei meu irmão chegar para lhe contar a novidade.

Ele chegou bêbado e drogado. Eu estava assistindo tv e continuei. Ele foi na área de serviço e voltou com uma chave de fenda que ele tinha afiado no chão de pedras para dar-lhe uma aparência pontiaguda. E enfiou a chave no sofá onde eu estava, olhando para mim com um olhar ameaçador. Eu pulei do sofá e ele continuou perfurando o sofá, enquanto espraguejava e falava coisas sem sentido. Todos estávamos assustados. Minha mãe puxou ele pelo braço e perguntou o que ele estava fazendo. Ele agarrou ela pelo pescoço e a empurrou contra a parede dizendo que ela não se metesse na vida dele, porque ele poderia acabar com a vida dela ali mesmo. Ele levantou a chave de fenda, como se fosse enfiar nela e começou a rir. Deitou-se no sofá e dormiu.

Eu não dormi aquela noite. Nem tinha onde, afinal, desde que ele e sua esposa vieram morar conosco, eu dormia naquele sofá.

Na manhã seguinte, antes que ele acordasse, eu coloquei minhas roupas numa mochila e saí de casa.

Fui pra casa de Dona Zefinha e contei pra ela o que tinha acontecido. Ela chamou sua vizinha, Vânia, e perguntou se eu não poderia ficar em sua casa enquanto as coisas se acalmavam. Vânia abriu sua casa para mim como se eu fosse um irmão.

No dia seguinte, fui para o treinamento na Wizard e depois passei em casa para pegar o resto de minhas coisas. 

O treinamento durou dois meses e ninguem desistiu. Todos os professores receberam menos turmas do que gostariam e isso causou um certo desconforto no primeiro semestre, fazendo com que alguns professores acabassem pedindo as contas.

Eu continuei. 

Minha mãe foi para o Jardim Mimás e conversou com Edinaldo, marido de sua irmã Franci, para que ele fosse em sua casa e convencesse meu irmão a voltar para a Paraíba. Ela estava com medo de encontrá-lo novamente.

Quando Edinaldo encontrou meu irmão, ele estava sem saber o que fazer, pois eu e minha mãe havíamos sumido, sua mulher havia voltado para a Paraíba, e ele não sabia o que tinha acontecido, pois não se lembrava do que tinha feito.

Ele aceitou a ajuda de Edinaldo e voltou para a Paraíba, deixando uma dívida de três meses de aluguel para eu pagar. 

Minha mãe alugou uma casa no Jardim Mimás. O dono da casa, Seu Tião, era viúvo, e dentro de pouco tempo começaram a namorar.

Assim que ela se estabeleceu na nova residência, foi ao Jardim Rosana e me convenceu a voltar a morar com ela. Na casa do Seu Tião, tinha um quarto enorme nos fundos, e ela disse que eu poderia ficar lá. Assim não precisaria gastar meu dinheiro com aluguel.

Mas, como em todos os seus relacionamentos anteriores, não demorou até que ela e Seu Tião se separassem e eu tivesse que começar a ajudá-la com suas dívidas, que não eram poucas.

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