5 de junho de 2015

O Pensamento Mórmon

05 junho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Quando começamos a namorar, ele se tão sentia seguro ao meu lado que, por um tempo, seus ataques da síndrome do pânico desapareceram. Aos fins de semana, nos encontrávamos na pracinha do Embu das Artes, andávamos até sua casa, descíamos para um quartinho dos fundos e ficávamos nos beijando e conversando no escuro. Ele não se sentia à vontade em trocar carícias na frente dos outros, e eu concordava com isso.

Seus pais gostavam de mim e sempre fui recebido muito bem em sua casa. Eles eram pessoas de mente aberta e um coração enorme. Seu pai era músico e tinha participado em um grupo de roque progressivo nos anos setenta e ela tinha trabalhado numa agência de publicidade por muitos anos. Agora ela era consultora da Natura e ele fazia bicos com alguns amigos.

Eles sempre se cumprimentavam e se despediam com longos e calorosos abraços. Eu achava lindo, mas me sentia um pouco deslocado, afinal, raramente em minha vida havia abraçado meu pai ou mesmo minha mãe daquele modo. Todos em minha família sempre mantiveram uma certa distância uns dos outros.

Eu dava aula na Wizard até as nove da noite, pegava um ônibus até o Taboão da Serra e um outro até o Engenho Velho. Encontrava com meu namorado no ponto e descíamos para a sua casa. Assistíamos algum filme juntos até bem tarde, e eu dormia com ele em sua cama apertada.

Conheci seus amigos, começamos a sair juntos. Tudo era sempre muito divertido.

Mas eu havia sido um missionário, havia passado dez anos de minha vida cultivando uma ideologia que nem sempre se enquadrava no tipo de vida que eu estava vivendo agora. Tudo aquilo era muito confuso ainda em minha mente e eu sentia falta da Igreja. Sentia falta do teatro, do coral, das aulas dominicais. Eu poderia voltar para a Igreja, mas se o fizesse, eles tentariam me dissuadir do estilo de vida que eu tinha abraçado e isso acabaria matando meu amor pela Igreja. Então eu preferia manter distância.

Eu levei os manuscritos do meu livro pra ler com ele. Achei que ele ficaria tão empolgado com a leitura quanto eu havia ficado em escrever. Ele achou um tédio! Disse que não gostava de certos excessos que eu cometia ao escrever, do jeito como eu usava adjetivos e minha tendência aos clichês. Aquela crítica, vinda da pessoa que eu amava, matou meu espírito criativo. Demorei muitos anos até voltar a escrever novamente. Na verdade, eu gostei de sua sinceridade, e continuei me guiando por suas críticas sempre sinceras. O fato é que aquele era meu estilo e dependendo do quanto se poda um pássaro, chega um ponto em que ele já não consegue mais alçar voo.

Às vezes, eu arriscava em cantar alguma música perto dele e ele dizia que eu não tinha talento para o canto. Dizia que eu não tinha uma voz desafinada, mas o jeito como eu cantava talvez funcionasse em coral, mas não para cantar solos. Sempre falava que eu já tinha muitos talentos, mas deveria me concentrar nos meus talentos reais. Ele adorava meus desenhos. Mas durante todo o tempo em que namoramos e por alguns anos depois que terminamos, eu simplesmente não consegui mais desenhar.

Ele gostava de heavy metal e rock alternativo. Eu gostava de brit pop e new age. Como eu passava quase todo o meu tempo livre do lado dele, acabava nem ouvindo mais as bandas ou cantoras que eu gostava de ouvir antes de começarmos a namorar.

Mas relacionamentos são feitos de concessões. E eu entendia isso. De fato, aprendi a gostar das coisas que ele gostava e adorava compartilhar todos aqueles momentos com ele. Ele tinha muito bom gosto, especialmente para cinema. E eu adorava todas as coisas que ele me apresentava. 

Foi então que comecei a participar de uma comunidade no orkut chamada Mormon Thought.

Ele que me apresentou a comunidade, depois de ler algumas coisas ofensivas sobre homossexualidade que alguns mórmons estavam compartilhando ali. Havia um fórum muito comentado sobre casamento igualitário e muitos faziam comparações absurdas e defendiam seus pontos de vista preconceituosos com argumentos hostis e falsos.

Eu fiquei extremamente chocado e comecei a responder alguns dos comentários. Fui recebido no grupo com muitas retaliações, mas meu discurso sensato e coerente logo não pôde mais ser contestado. E aqueles que atiraram pedras no começo se tornaram meus amigos e passaram a enxergar de um ponto de vista mais empático toda a situação.

Fui convidado para moderar a comunidade e me tornei um participante ativo em todas as discussões. Fiz muitos amigos na Mormon Thought, mas muitas pessoas, especialmente ex-mórmons gays, não conseguiam entender como eu podia defender uma ideologia que por tantos anos reprimira minha sexualidade, e que mesmo agora, por mais diplomático que fosse seu discurso, continuava a pregar a mesma repressão.

Eu entendia seus argumentos, mas meu coração não tinha espaço para raiva. Só tinha espaço para amor. Eu amava meu namorado, eu amava a Igreja e eu amava sobretudo a mim mesmo, e a pessoa que eu tinha me tornado por causa de todas as podas que havia sofrido daqueles a quem amava.

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