10 de julho de 2015

A Andorinha e o Moço ou O Conto da Gravata Rubra

10 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Sua cabeça ágil acompanhava os passos do moço que acabara de sair da padaria. Talvez tenha sido o aroma quentinho dos pães recém tirados do forno que primeiramente fez a andorinha percebê-lo entre tantos. Não! Outros moços saíam com pacotes de pães da padaria e não chamavam sua atenção. Deve ter sido o adorno cor de sangue que o moço carregava pendurado ao pescoço. Não por ter o tal adorno alguma característica específica, mas por ser sempre o mesmo, e por estar sempre amarrado com o mesmo cuidado simétrico no nó poligonal. 

Um barulho vindo do alto chamou sua atenção e o movimento brusco para descobrir a fonte do som abafado e contínuo deixou à mostra seu papo de penas brilhantes que se assemelhava na cor de sangue àquele adorno que o moço levava pendurado ao pescoço. 

Distraída, a andorinha deteve seu bico esticado na direção de uma ave estranha que cruzava o céu em grande alarde sem uma única vez as asas bater. Deteve-se em deslumbre. Ela já vira outras daquela de perto num ninho não tão distante dali. São gigantescas e quando pousam costumam engolir ou regurgitar moços com adornos no pescoço como o daquele cujos passos ela acompanhava já nem sabia mais desde quando. 

O moço! Em seus devaneios, quase que se esquecera dele, dos pães fresquinhos e do simétrico nó poligonal, e voou em sua direção. 

Alcançou-o quando já fechava o portão de ferro de sua bela gaiola de concreto, semelhante à maioria das gaiolas que guardam esses moços que vão à padaria de manhã para comprar pão fresquinho. E a gaiola do moço era amarela tal qual o sorriso que dera ao padeiro que lhe deixou escapar alguma nota nesse estranho canto dos humanos que aquela andorinha não conseguia ainda de todo compreender.

Voou rapidamente, circundando em rasantes a gaiola do moço, até que conseguiu encontrá-lo afinal. Estava no cocho, fazendo sua refeição matinal. E, como tantas vezes antes, ela se punha a cultuar aquele tão singular e solitário ritual ― singular para ela que era uma andorinha; pois, para moços como ele, o modo como dispunha os talheres, o deslizar sobre a manteiga da faca ainda quente de cortar o pão fresquinho, os giros da colherzinha na xícara de porcelana e o sopro para esfriar o líquido fumegante eram-lhe mais do que corriqueiros. Mas se lhe perguntassem se tal ritual era solitário, certamente assertaria com a cabeça. E a andorinha sabia, embora não entendesse o cantar estranho do moço, que tudo o que ele precisava naquele momento era de companhia. Mas não ousaria aproximar-se. Moços são tão habituados a gaiolas que temia que ele a colocasse numa.

Então, de longe, começou a cantar e a fazer piruetas no ar em diferentes rotinas das que era acostumada a fazer. E ela o fazia na tola esperança de que ele deixasse sua gaiola e viesse voar com ela. Ela sabia que moços não voam: eles são muito apegados ao chão. Mas ela gostava de acreditar que algum dia ele perderia o medo e deixaria suas gaiolas e prisões de lado.

E seu canto despertou a atenção do moço, que desejou ter asas como as dela para não chegar atrasado ao trabalho. Ah, os moços são tão pragmáticos! 

Ele olhou com certa frustração para o relógio em seu pulso e correu para longe da vista da andorinha.

Frustrada, depois de tanto esforço para gozar de não mais que dois segundos da atenção de seu belo valete, a andorinha ficou fortemente tentada a desistir e dar de ombros a suas aspirações; lembrou-se que não tinha ombros e deu novamente outro vôo rasante ao redor da gaiola amarela do moço, tentando alcançá-lo antes que entrasse naquele grande besouro barulhento e saísse em sua pressa habitual sem sequer notá-la acenar ao longe. 

E assim foi: hoje como ontem; ontem como sempre. O dia ficava cinzento quando ele partia. 

Nada era mais excitante em seu mundinho tantalizante que aqueles breves momentos solitários junto ao cocho em que tinha o moço somente para si. Às vezes, até trocavam olhares!

Numa dessas manhãs, o moço aproximou-se da janela e demorou-se apreciando a liberdade da andorinha, nesse tipo de admiração invejosa que somente os humanos são capazes de sentir. 

E tão feliz ela ficou que cantou durante todo o dia. E todos na vizinhança perceberam sua alegria. A mulher de rolos na cabeça reclamou quando, distraída naquele hino incessante da andorinha, deixou escapar um dos ingredientes da receita que acompanhava na TV. 

A andorinha nem percebeu o transtorno que causara. Seguiu cantarolando rua acima.

Naquele dia, entre uma e outra tarefa do escritório, o moço também se perdeu em seus pensamentos. Sendo todas as vezes resgatado pelos desmandos mau-humorados de um supervisor igualmente solitário. Alguns homens não sabem lidar com a solidão e quando têm um pouco de poder, acabam maltratando os outros somente para receberem um pouco de atenção. Mas o moço era paciente. E embora reclamasse muito do supervisor quando ele não estava presente, tinha certa admiração por ele. 

O moço também reclamava tanto de seu trabalho que a andorinha tinha esperanças de que, qualquer dia desses, ele não entraria no besouro barulhento e teria todo o tempo do mundo pra ela. No entanto, já tinha por certo que os homens são mesmo muito apegados às suas gaiolas e acostumara-se a vê-lo partir todas as manhãs.

Certo dia, quando ele voltava pra casa, a andorinha decidiu esperá-lo à entrada do portão.

O moço demorou um pouco mais do que costumava. E não viera sozinho. Ele nem reparou que a andorinha estava ainda acordada tão tarde. As andorinhas têm o saudável hábito de dormir cedo. O moço também tinha. Mas, naquela noite, parece que nem dormiu.

Na manhã seguinte, ele não foi à padaria. E nem se aproximou da janela. Ela apenas o viu de relance, apressado. E nas outras manhãs como naquela. Cada vez a andorinha o via menos.

O moço já nem pensava mais em voar. Nem saía mais de manhã para comprar pães na padaria. Nem tinha mais tempo de repetir seu ritual junto ao cocho. 

A andorinha tinha perdido todo o ânimo. Não tinha mais forças nem razão para cantar. Voar era um estorvo! 

Outro dia, a mulher de rolos na cabeça levantou as persianas e inspecionou de longe cada uma das árvores da praça incomodada com o silêncio da andorinha. Também o padeiro saiu a observar o céu, e comentou com a vizinha à janela que sentia falta do cantar da andorinha. 

Mas não era a atenção deles que lhe importava, queria que o moço percebesse e sentisse sua falta. Queria que ele voltasse a olhá-la da janela. Queria ter motivos pra cantar e perturbar a vizinhança com sua felicidade. 

Passados alguns dias nesse silêncio fúnebre, o moço começou a vir para casa sozinho e a andorinha começou a fazer dezenas de planos, imaginar centenas de situações agora que o moço voltara a ser somente seu. Mas, o moço continuou não saindo de sua gaiola amarela. Já nem ia mais ao trabalho. 

Outro dia, a andorinha viu o moço junto ao cocho. Tinha um mundo de tristeza derramando dos olhos. Ela deu piruetas, vôos rasantes na janela, mas nada atraiu sua atenção. Olhava fixamente para o nada, e para o nada continuou olhando. Levantou-se e dirigiu-se ao quarto.

A andorinha alegrou-se quando ele pegou a gravata rubra. Pensou que agora as coisas voltariam ao normal. Ele colocará o adorno e irá até o besouro barulhento que o levará à outra gaiola. 

Ela estava decidida a não mais reclamar de tê-lo por tão pouco. Ela ficaria feliz com a breve troca de olhares à janela e de sonhar com ele voando ao seu lado.

Ele não tinha o habitual sorriso no rosto quando deu com o mesmo cuidado simétrico o nó poligonal, mas ao menos fizera o nó e isso já era um alívio ao coração da andorinha. 

Ele subiu na cama e equilibrando-se à beirada, deu um nó firme com a ponta da gravata na luminária do teto. Percebendo suas intenções, a andorinha começou a gritar por socorro, mas os homens não entendem a língua das andorinhas, e o padeiro saiu alegre na porta da padaria e a mulher de rolos na cabeça também saiu contente à janela. Eles bateram palmas pra andorinha, que voava desesperada ao redor da casa do moço.

Quando o moço pulou da cama, a andorinha jogou-se em direção à janela de vidro do sobrado amarelo onde o moço morava. A janela não quebrou, mas o padeiro e a mulher de rolos na cabeça de repente perderam o sorriso, absortos com uma perturbadora imagem rubra de um coração desenhado no vidro trincado.

Enquanto o moço esperneava naquela sufocante dança da morte, um avião cruzava o céu levando outros tantos moços com gravatas rubras ao aeroporto mais próximo. Poucos deles faziam conta das andorinhas que os cobiçavam de longe.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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