23 de julho de 2015

A Separação

23 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui

Quando eles me chamaram, eu me agarrei à porta como se ela fosse um gigantesco escudo e espiei a meio rosto. Vi o semblante sisudo de meu pai observando-a com aquele tipo de desprezo que só o amor consegue produzir. Ela, fechando a mala me pediu um abraço.

Deixei a trincheira e corri sem armadura em sua direção. Atirei-me em seus braços aos prantos.

“Querido, quero que entenda que você é a pessoa mais importante do mundo pra mim. Se quiser ir comigo eu darei um jeito. Mas seu pai está certo. Aqui você vai ter uma vida muito mais confortável. Meu bebê, meu pequeno, deixa a mãe dar uma olhada em você. Não chore, senão eu começo a chorar também.”

Limpando meu rosto com a beira da saia, me colocou no colo.

Como ela queria que eu escolhesse? Pra mim não existia um ou outro; pra mim existiam os dois. Eu não queria ir com ela, nem ficar com ele; eu queria que ela não fosse. Mas o que eu queria pouco importava quando eles já haviam decidido tudo.

Fiquei.

***

Eu não lembro, porque nessa época a gente só existe na lembrança dos outros. Mas minha avó me disse que eu já nasci afoito. Ria com qualquer bobagem e chorava o resto do tempo.

Ela disse que a primeira palavra que eu falei foi “onde”.  E todo mundo riu com aquela bobagem. Mas quando esta palavra veio da boca de meu pai, ninguém se atreveu a rir ou a arriscar qualquer piada.

“Sua mãe era uma puta, meu filho. Seu pai era um idiota que demorou a vida pra perceber isso. Quando ele se engraçou daquela infeliz eu bem que avisei, mas sabe como é, homem enrabichado não dá ouvidos a ninguém. Ele colocou aquela safada aqui dentro de casa e ela comeu da minha comida, usou os meus perfumes, colocou minhas tiaras na cabeça e um par de chifres na dele. Mulher é bicho do Cão.”

***

Eu adorava quando minha tia fazia barulho de pum soprando a minha barriga. Eu ria tanto que ficava sem ar. E antes que eu recuperasse totalmente o fôlego, lá vinha ela de novo, e de novo, e de novo. Os puns de barriga apagavam as lembranças tristes e eu já nem lembrava mais que tinha mãe.

***

Meu pai entrou quebrando tudo em casa. Trancou-se no banheiro e começou a chorar.

A comida de repente perdeu o gosto. Quando eu deixava a mesa, ele arrancou a porta com um chute.

“Pra onde você pensa que vai? Volta já pra essa mesa e termina de comer.”

“Eu ‘tô sem fome.”

“Por um acaso, eu perguntei se você ‘tá com fome?”

Ele me segurou pelo braço com firmeza, me sentou na cadeira, pegou a panela de feijão e despejou no prato. O feijão se espalhou sobre a mesa.

“Você só sai daqui quando esse prato estiver lambido e limpo. E eu vou ficar aqui olhando.”

O feijão inchava na boca, como se tivesse fermento.

***

O bolo inchava no forno e o pessoal já se acomodava na sala. Minha avó reclamava que eles haviam chegado muito cedo. Minha tia ria de alguma coisa que estava passando na TV.

“Deixa já esse vício e vem aqui me ajudar a montar a mesa.”

Elas estenderam uma toalha xadrez vermelha sobre a mesa da sala de jantar, dispuseram as bebidas, copos, talheres, as bandejas de docinhos e salgados, e os saquinhos com docinhos que as crianças levariam como lembrança da festa. Trouxeram o bolo ainda fumegando, jogaram calda de chocolate por cima, colocaram uma vela com o número 8 e chamaram todo mundo pra cantar “Parabéns”. Meu pai deveria estar no bar. Será que ele se lembrava que era meu aniversário?

A campainha tocou. Uma mulher elegante entrou bem na hora que alguém desligou a vitrola.

“Minha amiga, quanto tempo! Como está bonita! Vem aqui, menino, abraçar a sua mãe.”

Antes que a vizinha terminasse seu discurso de boas vindas, eu já havia me escondido sob a mesa, esperando que aquela toalha xadrez me ocultasse do mundo. 

Quando a mulher elegante levantou a toalha, gritei: “Puta!” E corri para o quintal. Foi a última vez que vi minha mãe.

 Aquele aniversário não teve “Parabéns”.

***   ***

Quando eles me chamaram, eu me agarrei à porta como se ela fosse um gigantesco escudo e espiei a meio rosto. Vi o semblante atordoado de minha mãe observando-o com aquele tipo de mágoa que só o amor consegue produzir. Ele, fechando a mala estendeu-me o braço.

Deixei a trincheira e corri sem armadura em sua direção. Ele agarrou-me pelos ombros e me olhou nos olhos.

“Pare de chorar. Homem só chora quando o time perde. E é choro de raiva. Você tem raiva do seu pai?”

“Não”

“Então engula esse choro, que agora você é o homem da casa. Toma conta dessa aí que ela vai precisar.”

Minha mãe não conseguia mais responder. Ela já tinha perdido as forças.

Ele partiu.

***

Eu não lembro, porque nessa época a gente só existe na lembrança dos outros. Mas minha mãe me disse que eu já nasci assustado. Chorava com qualquer bobagem. E ela não sabia o que fazer pra me acalmar. Só ficava quieto nos braços da vizinha.

Ela disse que a primeira palavra que eu falei foi “quem”.  E a vizinha riu como uma boba. Mas boba tinha sido ela de não perceber que era pelo meu pai e não por minha causa que a vizinha vinha tanto à nossa casa.

“Aquela vagabunda e aquele cachorro hão de queimar no inferno. Do jeito que estava enrabichado, não vai nem perceber quando ela trocar ele por outro mais novo ou com mais dinheiro. Pior que fui eu que coloquei aquela safada aqui dentro de casa. Veio cuidar do filho e acabou cuidando foi do marido. Amiga é serpente.”

***

Eu adorava quando meu avô fazia mágica com as cartas de baralho. Ases sumiam e reapareciam por trás de minha orelha, ou de dentro do meu umbigo. Meus olhos pareciam duas jabuticabas maduras observando aqueles truques engenhosos. Não importava quão diferente fosse a carta que eu escolhesse, ele a acertava de novo, e de novo, e de novo. Os truques do meu avô apagavam as lembranças tristes e eu já nem lembrava mais que tinha pai.

***

Minha mãe entrou em casa com o novo namorado. Trancaram-se no quarto rindo, mas não demorou a começarem a trocar insultos. Ela gemia e ele a chamava de cadela, enquanto as molas do colchão rangiam desesperadas. Achei que aquele homem com cheiro de cinzeiro estava espancando a coitada e comecei a socar a porta do quarto para saber o que estava acontecendo.

Ele abriu a porta pelado, enquanto minha mãe o chamava de volta pra cama, dizendo que me ignorasse.

“O que está fazendo aqui, moleque? Volte já para o seu quarto.”

E trancou a porta na minha cara.

***

A campainha não parava de tocar e o pessoal já se acomodava na sala. Minha mãe reclamava que eles haviam chegado muito cedo. O cara com cheiro de cinzeiro assistia um jogo de futebol na TV.

“Deixa já esse vício e vem aqui me ajudar a montar a mesa.”

Ele não se mexeu. Ficou palitando os dentes com as pernas arreganhadas na poltrona que era do meu pai. 

Ela estendeu uma toalha xadrez vermelha sobre a mesa da sala de jantar, colocou as bebidas, copos, talheres, as bandejas de docinhos e salgados, e os saquinhos com docinhos que as crianças levariam como lembrança da festa. Trouxe o bolo ainda fumegando, jogou calda de chocolate por cima, colocou uma vela com o número 8 e chamou todo mundo pra cantar “Parabéns”. 

Antes que começássemos a cantar, meu avô se apressou ao centro da sala para fazer uma de suas mágicas. Suas cartas já não tinham mais o mesmo encanto.

Quando todos se ajuntaram ao redor da mesa, o cara com cheiro de cinzeiro gritou: “Goooool” Metade dos convidados correram pra sala. Minha mãe sentiu uma fisgada no coração e caiu sobre o bolo. Foi a última vez que a vi.

Aquele aniversário não teve “Parabéns”.

***   ***

Quando eles me chamaram, eu me agarrei à porta como se ela fosse um gigantesco escudo e espiei a meio rosto. Vi o semblante confuso de minha mãe e o rosto grave de meu pai. Eles disseram que me aproximasse, pois tinham algo muito importante para me dizer.

Fechei a porta.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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