24 de setembro de 2015

Arlequim e Pierrot

24 setembro Escrito por Eliude Santos , 4 comentários
Primeiro os olhos se abriram num desconforto. Um grunhido preso na garganta foi libertado na tentativa de amainar as dores. Não adiantou. À medida que a consciência da agonia se pronunciava, a de si mesmo esvaia-se como num suspiro.

Tentou mover-se, mas a casca parecia alheia à polpa.

Sua respiração entrecortada por espasmos tímidos foi-lhe ficando menos audível.

Se pudesse pensar naquele momento, se suas idéias fizessem qualquer sentido, teria dito pra si mesmo, “Estarei morrendo? É isso que se sente quando se morre?” A vontade de chorar indo e vindo como num porre, o oxigênio queimando tudo por dentro e avivando as brasas da dor. Alívio e tormento a cada tragada de ar com cheiro e gosto de ferrugem. Mas não podia pensar; só conseguia sentir, sofrer e morrer.

Os olhos fecharam. Tudo era breu.

A consciência da dor veio antes de tentar abrir os olhos novamente. “Não devo ter morrido”, presumiu. Lera em algum lugar que quando se morre pode-se ver através das pálpebras e a constatação do breu fez-lhe acreditar que ainda vivia.

Com os olhos ainda cerrados, experimentou respirar. O ar, tentando alcançar o pulmão, espremia-se nariz adentro nas pedras de sangue empretecido. Ouvia o silvar incômodo e enchia o peito de medo. 

Sim, estava vivo!

Finalmente abriu os olhos. O sal das lágrimas involuntárias também se havia cristalizado entre os cílios. A vista turva tentou acomodar-se à luz. Olhou em derredor: havia sangue, pedras e pó. Finalmente começava a pensar, mas antes que formulasse qualquer sentença que lhe lembrasse de como viera parar ali, todos os seus pensamentos voltaram-se para as insuportáveis pontadas no peito, como se algum sádico ser invisível estivesse enfiando longos alfinetes através do seu esterno. Nenhuma conjectura aliviaria aquela agonia.

Ouviu passos se aproximando. Sapatos de couro preto vieram correndo na sua direção. A voz era de homem, mas sua mente estava demasiadamente preocupada com a dor pra conseguir entender qualquer coisa que ele dizia.

Depois do solavanco, apagou outra vez.

***

Mal conseguia abrir os olhos. Sua cama parecia um grande ímã e seu corpo, pesado qual ferro fundido. O terno risca de giz o observava do cabide. 

Do criado-mudo, o relógio gritava aos seus ouvidos que era hora de levantar-se, que todos estavam esperando por ele. Mas ele preferia acreditar que tinha mais alguns minutos. Fechou os olhos outra vez.

***

Desta vez, quando abriu os olhos estava num quarto de madeira crua com um estranho ao pé da cama. Seria o dono dos sapatos? O que fazia de sapatos na praia? Agora só doía quando mexia, e já conseguia pensar, mas a voz ainda embargava pra sair.

“Minha cabeça...”

“Não se mexa, acho melhor você descansar. Não estava em bom estado quando o encontrei. Desculpe não tê-lo levado ao médico, mas meu carro quebrou e não há nada parecido com um hospital nas redondezas.”

Como num sonho ruim em que nos sentimos sufocados e a voz parece correr pra dentro enquanto nos esforçamos pra colocá-la pra fora, soltou alguns grunhidos na tentativa de falar algo que fizesse algum sentido, mas nada em seu corpo parecia obedecer ao seu comando.

O estranho percebeu seu desconforto.

“Descanse. Acho que não é muito adequado falar agora. Não entendo muito dessas coisas. Nunca tinha prestado primeiros socorros antes. O melhor a fazer agora é acalmar-se e esperar que o corpo faça o resto. Tudo vai ficar bem.”

Ele mal conseguia mexer-se. Não tinha outra escolha senão obedecer e procurar acalmar-se. 

Ainda que parecer calmo fosse fácil, livrar-se daquele sentimento incômodo era praticamente impossível. Apenas sinalizou que estava com sede e o rapaz dos sapatos de couro trouxe-lhe um pouco d’água. 

Enquanto sua cabeça era apoiada sobre o travesseiro e ele era ajudado, entre engasgos, a beber da água que trouxera, viu o estranho passar a mão no bolso da camisa branca, manchada de sangue. 

De repente, o estranho pareceu impaciente. Certificou-se que o moribundo havia bebido toda a água e afastou-se. Vasculhou melhor o bolso da camisa e os da calça risca de giz. Procurou também nos bolsos do paletó que repousava junto à gravata no encosto de uma cadeira. Estava visivelmente preocupado.

“Tenho que sair agora, mas não devo demorar.”

O que poderia fazer senão esperar? Ouviu os sapatos de couro afastarem-se soando pesado no chão de madeira. A porta abriu com um ranger incômodo e a luz cegou-lhe os olhos, lembrando-lhe da dor. Quando a porta fechou, sua cabeça revirou em turbilhão.

E tendo finalmente conseguido abstrair-se do martírio, percebeu o silêncio da semi-luz que entrava pelas frestas. Olhou ao redor e viu que a casa não tinha muitos móveis. Havia teias de aranha nos cantos, a mesa estava entulhada com embrulhos amassados, restos de comida, uma jarra de leite quase no fim e uma xícara que ainda exalava o odor do café recém tomado.

Aprumou-se na cama e esperou.

Os olhos pesaram. Talvez fosse por causa da meia-luz e do silêncio: quase uma canção de ninar! Quando deu por si, a saliva já escorria no canto da boca. 

Mesmo não havendo qualquer testemunha, sentiu um embaraçoso incômodo. Fechou os olhos, como que querendo esconder-se no escuro de si mesmo, como se as suas pálpebras fossem cobertores pesados que se fechando, cobrissem todo o seu corpo. E, de repente, tornara-se invisível. 

***

Bateu na porta e entrou fumando um cigarro. A luz que vinha de fora deitara-se sobre a cama vazia e empoeirada anunciando que não havia ninguém ali há bastante tempo. A casa tinha um único e espaçoso cômodo com um banheiro aos fundos.

“Tem alguém aí?” Bateu na porta do banheiro, que se entreabriu ao seu toque. Não havia ninguém lá. 

Saiu e olhou nos arredores da casa. Não havia ninguém na praia. Não havia nada ali, senão coqueiros ao longe e a vastidão do mar à sua frente. 

Empurrou o carro até os fundos da casa.

Voltou. Jogou o filtro do cigarro no chão. Sentou-se na areia fina e branca e fitou o mar absorto.

Deveria ter percebido que seu carro não iria muito longe quando desceu correndo a escadaria da igreja e entrou afoito no veículo e ele mais uma vez falhou na partida, dando tempo de seus amigos chegarem e quase tirarem-no à força lá de dentro. Já havia algumas semanas que a ignição estava com problemas, mas por causa da correria do casamento, não teve tempo de levá-lo ao mecânico para verificar a bateria.

Lembrou da expressão desolada dos pais nos degraus da igreja e da noiva tentando sair do carro sem amassar o vestido pra saber o que estava acontecendo e sorriu.

Ficou feliz por ter ido parar ali. Aquele lugar que encontrara era o que precisava para sentir-se verdadeiramente livre.

Os sapatos estavam cheios de areia e as meias já não conseguiam conter o incômodo. Tirou-os e lançou-os longe. Arrancou as meias dos pés e alisou as áreas avermelhadas devido ao atrito. Levantou, deu dois ou três passos e saiu correndo na direção do mar, enquanto desabotoava violentamente a camisa branca e arrancava a calça risca de giz.

Atirou-se com vontade contra as ondas.

***

O mar estava calmo. Seus olhos pesaram. Quando deu por si, já estava de olhos fechados novamente.

Aquele grosso cobertor de pálpebras roubara-lhe muito tempo de vida. Estivera sempre se escondendo atrás dele. Sempre que alguma situação lhe ameaçava, fechava os olhos com força torcendo para sumir. E se sumisse, ou se tudo ao seu redor sumisse, que diferença faria? Ninguém sentiria sua falta. Ele não sentiria falta de nada que viesse a desaparecer. De fato, queria mesmo apagar tudo. 

Mas agora as coisas eram diferentes. Não precisava mais esconder-se atrás das pálpebras. E nem queria. Muito menos perder o que tinha encontrado ali. Abriu bem os olhos e contemplou-o boiando ao seu lado no mar, como se flutuassem.

Ele não sabia seu nome, mas não precisava. Prometeram que não falariam sobre o passado. As máscaras tinham-se encarregado de dar-lhes uma história e isso lhes era suficiente. Não se dariam novos nomes no presente. Apenas seriam quem eram naquele lugar esquecido pelo mundo, sem necessidade de rótulos ou muitas palavras.

De fato, não se falavam muito. 

O outro tinha curiosidade sobre o que acontecera para ele estar tão ferido e jogado na praia no dia em que o encontrou. 

Ele tinha curiosidade de saber por que o outro morava numa praia longe de tudo e tinha somente aquele terno por vestimenta.

Mas não falavam sobre suas curiosidades. As feridas haviam cicatrizado, por que abri-las novamente?

Abria agora os olhos, e ouvia a voz das águas nos ouvidos submersos enquanto flutuavam juntos, de mãos dadas.

O outro soltou sua mão e nadou até a praia. Ele ficou observando do mar enquanto seu amado corria desnudo na direção dos degraus cheios de areia de sua casa de madeira.

***

Colocou o pé no primeiro degrau e pensou, “O que vim fazer aqui? Não posso fazer isso com nossas vidas.” Havia bebido muito na noite anterior e sua cabeça parecia um caleidoscópio de sons. Os gritos do relógio que haviam vencido a força magnética de sua cama ainda ecoavam em seus ouvidos e confundiam-se com as badaladas de insistentes sinos numa sinfonia perturbadora. 

Era hora de entrar e esperar por ela.

Todos entraram e tomaram seus lugares nos bancos. Ele demorou-se à entrada. 

Atravessou com um rosto pálido os corredores decorados com copos de leite e lilases. Todos haviam vindo. Muitos rostos conhecidos fitavam-no como se fossem fuzis engatilhados. Ele não estava pronto para o abate. O sapato de couro queria gritar a sentença como um martelo de juiz, mas tinha o som abafado pelo tapete felpudo que seguia ao altar. 

Parou de repente. O suor no rosto de seus pais denunciava a já esperada decepção. 

Ele virou-se e correu. Não poderiam segurá-lo. As amarras foram quebradas no momento em que deu as costas para o altar. Não sabia para onde estava correndo, mas sentia uma profunda necessidade de continuar.

***

Ele correu com todas as forças. Aqueles caras no carro não estavam de brincadeira. Se o alcançassem, estaria perdido.

Entrou por um beco que dava numa rua estreita. Bateu numa das portas, mas ninguém apareceu. Desceu uma escadaria ao lado da casa e saiu correndo pela avenida, trombando em todos os que não lhe davam passagem. 

Um policial o deteve e começou a fazer perguntas. Ele não se incomodou em respondê-las. Enquanto estivesse ao lado daquele sujeito com cara de poucos amigos, estaria salvo. Seu único medo era que o policial lhe pedisse pra abrir a mochila. Mas isso não aconteceu. As perguntas terminaram e o policial deixou-lhe ir. 

Prosseguiu espreitando a rua com cuidado. Não havia mais necessidade de correr. Aparentemente os despistara. 

O sinal ficou vermelho para os pedestres. Ele parou. Fechou os olhos e respirou fundo. Nem ele mesmo acreditava que conseguira escapar. O sinal abriu. Ele cruzou a faixa de pedestres aliviado. 

Na outra esquina, trombou com um garoto que andava de skate. Nem teve tempo de xingar a falta de atenção do moleque; três caras vieram por sobre ele e o arrastaram para o carro que subira na calçada e freara abruptamente ao seu lado. Apagou no segundo soco.

***

Acordou. Foi até o fogão e esquentou um pouco d’água para o café. Abriu o refrigerador e viu que ainda tinha um pouco de leite. Colocou-o para esquentar. Voltou à mesa e revirou os embrulhos, mas não havia sobrado nada para o desjejum. Resmungou. Estava há dois dias alimentando-se de migalhas. Aquela casa era longe de tudo e, sem carro, só lhe restavam duas escolhas: ou ia à pé até a vila mais próxima, ou enfrentava o mar em busca de um peixe ou marisco que lhe aplacasse a fome.

Ao menos ainda tinha cigarros. Acendeu um enquanto o café fervia.

Prometera tantas vezes pra si mesmo que pararia com aquele vício. Mas, mesmo ali, isolado de tudo e de todos, não conseguia a paz que se acostumara a encontrar em uma tragada. E encheu o pulmão de fumaça em busca dessa paz.

Tirou o café e o leite do fogo e levou-os à mesa. Colocou um pouco na xícara e tomou.

Vestiu a calça risca de giz e a camisa branca. Lembrou-se de tudo o que deixara pra trás. Sentou-se na cadeira e calçou os sapatos.

Abriu a porta e saiu na direção da vila. Os sapatos afundavam na areia branca. 

Tirou o maço. Depois de uma xícara de café, sentia necessidade de outro cigarro. Mas, antes que o acendesse, ouviu vozes e o barulho de um carro. Tentou devolver o maço ao bolso da camisa enquanto corria na direção das vozes. Talvez eles tivessem uma bateria sobrando, ou pudessem ajudá-lo de alguma maneira.

Mas o carro deles partiu antes que se aproximasse o suficiente para lhe perceberem. No entanto, viu uma pessoa ferida no chão e correu até ela.

“O que houve? Quem eram as pessoas no carro?”

Não houve resposta. O rapaz estava todo machucado, coberto em sangue e desacordado. Ele inclinou-se para ouvir se o outro ainda respirava e constatou um chiado em seu peito. Estava vivo, por certo! Mas ele não sabia o que fazer. Não poderia levá-lo até a vila sozinho, nem poderia deixá-lo ali. Tomou-o nos braços e levou-o até a sua casa.

Colocou-o na cama. Pegou a jarra de café ainda quente e derramou numa bacia com um pouco de água da torneira. Umedeceu um pano na mistura morna e limpou o sangue e a areia do rosto e do corpo do moço desacordado.

Foi até o carro, onde encontrou uma caixa de primeiros socorros com alguns medicamentos e esparadrapo e voltou correndo. O rapaz delirava em uma agonia silenciosa. Ele cortou alguns pedaços de esparadrapo e colocou-os sobre os cortes, procurando fechá-los. Utilizando-se do fundo de um copo, esmagou dois comprimidos para dor sobre um dos embrulhos jogados sobre a mesa. Colocou o embrulho sobre o travesseiro e, forçando o maxilar do rapaz pra baixo, lambeu o próprio dedo e passou-o no pó do medicamento, levando-o em seguida à língua do moço. Com o dedo ainda umedecido da saliva do outro, continuou até que o fizesse ingerir todo o pó.

Os analgésicos devem ter feito efeito, pois o outro acalmou-se depois de um tempo.

Ele estava exausto de todo aquele esforço. Sua camisa branca estava toda manchada de sangue e areia.  Ele puxou a cadeira ao pé da cama, sentou e esperou.

***

Ele nunca gostou de esperar. Estava naquela fila há mais de meia hora e parecia não ter sequer saído do lugar. Não podia ficar ali fora depois do que fizera. Se os caras o encontrassem estaria perdido. Precisava entrar. Arriscou falar com os seguranças; e pra sua sorte, deixaram-no passar. Todos na fila reclamaram. Às vezes, a beleza pode ser um excelente atributo!

Deram-lhe uma máscara de Arlequim à entrada. Nada poderia ser mais apropriado. Sabia que ali seria um bom lugar para passar a noite. 

Uma enorme aranha de luz negra tecia sua trama incandescente nas paredes. As luzes dançando ao som da música, as máscaras passeando em derredor, uma névoa de volúpia com cheiro de transgressão tomava o lugar. E ele entregou-se.

Quando deu por si, estava de braços dados com outra máscara. De braços e de corpo e de língua, sentindo o gosto doce do Pierrot.

A noite passou como um relâmpago. Devia estar desacordado quando o Pierrot lhe deu um beijo de despedida e saiu com o coração partido atrás de sua Colombina.

***

Ele entrou no quarto. Ela estava na ponta dos pés para evitar que a barra do vestido tocasse o chão. Parecia uma bailarina apreensiva. “Dá azar vê-la vestida de noiva antes do casamento”, alguém gritou enquanto o empurrava para fora do quarto. Esses últimos dias haviam sido tão estressantes para os dois. Mas nada se comparava ao que ele estava passando, aos sentimentos que já não conseguia mais trancar dentro de si. Sua alma era um baú entufado.

“Os rapazes me chamaram para uma festa à fantasia”, gritou pra ela do lado de fora do quarto. Ela respondeu alguma coisa, mas ele não conseguiu entender. 

Os rapazes chegaram em sua algazarra e o levaram consigo.

***

Eles eram muito divertidos. Gostava de acompanhá-los em suas aventuras. Eram palhaços invisíveis em ruas agitadas. Tudo era sempre uma surpresa. Nunca sabia aonde iam, o que fariam. Eles chegavam sem avisar e quando ele percebia, já estava fazendo as mais inomináveis loucuras. Aqueles caras eram perigosos, mas ele gostava do perigo. Era como eles, afinal.

Quando as coisas complicavam de verdade, ele fechava os olhos e forçava um sorriso, esperando que tudo terminasse bem. Mas desta vez não terminaria.

O tempo dos pequenos furtos e arruaças havia passado. Tinham-se envolvido em algo grande. E ele achou que poderia aproveitar a chance e sumir. Tinha medo do que seriam capazes de fazer numa próxima vez. Quando, naquela esquina escura, ele entrou no carro do doutor, já estava decidido que aquela seria a última. 

O velho não parava de falar. Se podia bancar tantas viagens e se tinha tantos bens como dizia ― e a julgar pelo carro, os tinha de fato ― por que não parava de implorar por um desconto? Foi-se irritando de tal modo que se pudesse arrancaria a língua do velho a mordidas. Mas não o fez. Seguiu como um cordeiro à casa do doutor e esperou o momento perfeito para atacar como uma raposa carniceira.

Os caras esperavam na porta da frente, mas ele saiu pela dos fundos, levando as jóias consigo.

***

Quando fechou a porta, suas mãos tremiam. Correu pela praia procurando seus cigarros. Certamente deixara o maço cair em algum lugar enquanto levava o moço desacordado para sua casa.

Fez o mesmo caminho até o lugar onde o achara. Os cigarros estavam lá. Quando abaixou-se para pegá-los, viu a mochila do rapaz jogada um pouco mais adiante. Estava aberta. 

***

Arrancou as coisas de dentro da mochila do rapaz como uma ave de rapina faminta. “Onde estão os rubis?” gritou um outro, enquanto um terceiro puxava seus cabelos e arrastava-o até os pés do primeiro.

Seu rosto embebido em sangue era uma máscara que certamente não quereria usar. Haviam batido tanto que já nem conseguia pensar direito. Não poderiam esperar que respondesse qualquer coisa naquele estado.

O que arrancava as coisas da mochila encontrou, entre as roupas e quinquilharias, uma máscara, segurou-a nas mãos e sorriu.

***

Estava surpreso por tê-la encontrado ali. Também reconheceu algumas das roupas e perguntou-se se aquilo seria realmente possível. Tudo parecia um sonho estranho e confuso. Ele juntou as coisas que o vento ainda não havia levado e apressou-se em colocá-las na mochila. 

Quando voltava, parou diante do mar e acendeu um cigarro. Encontrou sua paz momentânea enquanto contemplava a imensidão pelos olhos do Arlequim. De repente, tudo ganhara um sentido metafísico e ele sentiu-se pela primeira vez perfeitamente encaixado na grande engrenagem do universo.

Veio ensaiando um possível diálogo pelo caminho. 

Diante da casa que agora era sua por direito, colocou a máscara de volta na mochila e subiu os degraus cheios de areia.

Quando entrou, não havia ninguém na cama. O rapaz ferido apoiava-se nos móveis, tentando chegar ao banheiro.

***

Ele foi até o banheiro. Trancou-se em uma das cabines e tirou a máscara do rosto. Abriu a mochila e pegou os rubis. Sabia que tinha fita adesiva em algum lugar. Vasculhou os bolsos da mochila e a encontrou.

Usou a fita para colar os rubis no interior da máscara. Teria que entregar a mochila aos seguranças que ficavam à entrada da pista e não arriscaria deixá-la aos cuidados deles com aquela fortuna ali dentro.

Quando saía do banheiro, um rapaz com máscara de Pierrot entrou acompanhado de outros três que não se esforçavam em disfarçar sua euforia.

Não sabia se era a máscara ou se era a alma daquele rapaz que entrava, mas sentiu uma profunda aura de tristeza que o acompanhava.

***

Quando entrou no banheiro, um rapaz com máscara de Arlequim saiu com uma mochila nas mãos. 

Não sabia se era a máscara ou se era a alma do rapaz que saía, mas sentiu uma grande aura de mistério que o envolvia.

Não se demorou no banheiro. Aproveitou que os outros tinham entrado nas cabines e saiu de ambiente em ambiente procurando o Arlequim. É engraçado que num baile como esses, onde muitos usam a mesma máscara, alguns consigam se destacar entre tantos! 

Ele o encontrou sob uma enorme aranha de luz negra que dançava pela parede tecendo sua incandescente trama ao som da música agitada. O Arlequim dançava sozinho em seu canto seguindo com olhos lânguidos as máscaras que passavam por ele naquela névoa de volúpia com cheiro de transgressão que tomava o lugar.

O Pierrot aproximou-se lentamente e quando deu por si, estava nos braços do outro. Em seus braços, em sua língua, em seu corpo, sentindo o gosto salgado do suor do Arlequim.

Nem viu a noite passar. Nem tampouco voltou a ver os amigos que o trouxeram até ali. De repente parecia que o lugar ficara vazio. Somente eles e a fumaça que os circundava. 

Mas a noite passou e levou consigo a alegria do coração do Pierrot. A grande lágrima negra em sua máscara era um retrato de sua alma. Beijou o Arlequim que, com um sorriso à mostra sob a meia-máscara, adormecera em seus braços.

Depois de comer em baforadas o coração do Arlequim, esmagou o filtro do cigarro e seguiu seu destino indo buscar nos braços de sua cama algum alento para sua confusão e tormento.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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4 comentários:

  1. imaginei tudo aqui, gosto muito quando um conto nos faz imaginar personagens, os detalhes,me senti conectado.

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  2. Que jogo temporal, que detalhes, que narrativa! Adorei!!!

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    1. Obrigado!!! Também adorei escrever esse conto!

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