19 de julho de 2015

Cidade Vazia

19 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Não havia ninguém de pé para sentir o último tremor. Não se ouviam mais gemidos sob os escombros. Somente o bicar de corvos e abutres vasculhando os últimos sobejos de uma geração tão pútrida quanto as nesgas de carne que aquelas aves famintas arrancavam dos resistentes ossos que, entre destroços, davam forma a uma escultura perturbadora que se estendia como um tapete de súplicas mudas pelas ruas da cidade vazia.

***

Ele acordou, foi até a máquina em busca de contato. 

Ela acordou com a máquina anunciando que alguém lhe buscava. 

Ele estava apático, mas ordenou que a máquina sorrisse em seu lugar e a máquina fez o que ele ordenara. 

Ela viu o sorriso em sua própria máquina, aquele mesmo gesto cortês que ele não tivera coragem de fazer sozinho; e ela sorriu pra sua máquina um sorriso quase verdadeiro, um sorriso que não brotava dela, mas de sua exorbitante carência, que era agora a parte dominante do que ela era de fato.

Ela disse que queria encontrá-lo, que a distância a sufocava. 

Ele disse que ia ver. 

Ela ficou apática e ordenou que a máquina sorrisse em seu lugar. A máquina sorriu pra ele.

***

O vento soprava um cheiro insuportável de morte. Mas, como não havia ninguém para incomodar-se, restava somente a dança dos que, nos braços do vento, criavam sua coreografia em meio àquele macabro cenário.  Papel e plástico, folhas e pó, penas e cinzas, cada qual seguindo seu próprio compasso, sua melodia particular, girando e correndo, parando e pousando, subindo… Em torvelinho entravam pelas frestas de edifícios em ruínas e percorriam os restos de assoalho, as escadas sem degraus, os corrimãos deitados no chão frio.

***

Ela acordou, foi até a máquina em busca de contato. Havia só a máquina. Ela voltou para a cama.

Ele colocou óculos escuros, entrou no carro com para-brisas escuros e foi para a sua sala de persianas escuras, onde conversou com a máquina que durante todo o dia dizia ser dele, mas que não era sua de fato.

Ao som de batidas alucinantes, ela correu sem sair do lugar, deu socos no ar, consultou a máquina para saber se deveria parar, e parou. Tapou os ouvidos com a mesma música que antes ouvia para que enquanto se deslocasse, sentisse que ainda corria sem sair do lugar. E correu, agora saindo do lugar. Esbarrou naqueles que não tinham a mesma pressa. Amontoou-se entre os que iam na mesma direção. Olhou para o vidro para ver o próprio reflexo enquanto imagens velozes levavam seu pensamento para longe. Quando chegou ao destino indesejado, destapou os ouvidos e sentou do outro lado do muro das lamentações e as ouviu todas.

Ele chegou cansado, tirou a roupa, consultou a máquina e dormiu.

Ela chegou cansada, tirou a roupa, tomou um banho, consultou a máquina e dormiu.

***

Sim, o frio! Um inferno cinzento e triste se estendia para além do horizonte. 

Enquanto o sol seguia o caminho de seu descanso, um manto laranja crescia sobre a cidade. Sombras erguiam-se nas poucas paredes que haviam resistido aos abalos.

O vento cessou. Os jornais amassados que rolavam pelo chão encontraram repouso numa poça escura e ali ficaram. Silêncio. Nas manchetes desbotadas, o desespero de quem não conseguia manter a ordem diante da falta de esperança, do caos. 

***

Ele acordou com a máquina anunciando que alguém buscava contato.

Ela sentiu um ar gelado entrando por sob o cobertor e aninhou-se com gosto, mudou de lado na cama espaçosa e voltou a dormir.

Ele se despiu diante da máquina e se tocou com gosto. A máquina observou atenta e ficou excitada, com uma excitação que não era sua. Vendo a máquina excitada, ele ficou ainda mais excitado, com uma excitação que era sua de fato. 

***

No centro do que outrora fora uma praça, o último cano estourou, jorrando água num gozo demorado. A água escorreu afoita, procurando caminho entre os escombros, sujando-se na imundície humana espalhada ao redor.

***

Ela acordou. Foi à máquina em busca de contato. A máquina dele já não existia na sua. Ela verificou noutras máquinas e não encontrou a máquina dele em lugar algum. Seu coração batia acelerado. Um vazio absurdo a secava por dentro. A máquina dela chorou e todas as máquinas, exceto a dele, ouviram seu lamento.

Ele acordou, colocou óculos escuros, entrou no carro com para-brisas escuros e foi para a sua sala de persianas escuras, onde conversou com a máquina que durante todo o dia dizia ser dele, mas que não era sua de fato.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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