30 de julho de 2015

Fotografia

30 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Mãos trêmulas desatam a fita já não tão vermelha que envolve o embrulho de papel semitransparente, guardião incólume e testemunha constante da outonação silenciosa de uma terna e amarga lembrança entregue ao confinamento da gaveta emperrada de um criado-mudo e surdo, esquecido ao lado da cama do quarto de visitas que há tanto já não recebe mais ninguém. 

Abre-se o embrulho. Os olhos rendem-se ao peso das pálpebras cansadas e enrugadas, que se demoram num comprimir-se pesaroso e covarde. Minam lágrimas receosas, que escorrem em ziguezague, seguindo os veios do tempo abertos na pele fina e ressequida.

Vagarosos, como tudo tem sido ― exceto o tempo, que teima em imputar-nos sua pressa ― abrem-se os olhos cheios de culpa e pesar, e contemplam-na: preta e branca, mais cor que a própria vida!

Os dedos retorcidos e trêmulos acariciam a lembrança desbotada e maculada. Não há nenhuma redenção naquele carinho tardio.

A gota agridoce de uma súplica silenciosa respinga sobre a imagem obsoleta de um sorriso largo.

Os dedos omissos apressam-se em apagar aquela declaração serôdia de culpa.

Perturbados e escusos, os olhos buscam algum detalhe do quarto escuro que lhes livre do tormento daquela tão incômoda viagem cármica. Mas tudo ali remete agora ao riso contagiante daquele sorriso que seus ouvidos já meio moucos inda teimam em reproduzir. Sabe-se lá que lugar é esse onde ficam guardadas as memórias e que um único estímulo faz com que pareçam tão recentes quanto o gosto cheio de culpas que se firma quando lábios incautos se dão ao desfrute de provar da sobremesa assaltada.

Já não podia evitar contemplá-la. E pareceu-lhe por alguns instantes que o quarto se esvaia e as memórias ganhavam forma diante dele como uma visão incômoda e sufocante. O sorvete na roupa, os olhares desajeitados; as poltronas da fileira da frente na última sessão de cinema, as tardes no parque, a despedida calorosa; o reencontro intenso; uma discussão boba num fim de tarde, recados desencontrados, os dias cinzentos antes do perdão; a flor roubada, outras sessões de cinema e outros dias no parque; uma palavra dura a caminho de casa, os primeiros silêncios, a noite desastrosa, o tapa na cara, o sorriso apagado do rosto; o silêncio depois do perdão; o silêncio depois do silêncio; os invernos frios; a falta do silêncio. O quarto estava quieto novamente.

O doce e amargo sabor dessas lembranças agora tão intensas se mistura em sua mente enquanto os olhos recobram a coragem de encarar outra vez aquele sorriso.

Um certo desconforto por tais sentimentos serem-lhe desvendados faz com que desarticuladamente procure outra vez enterrar o tal sorriso no embrulho de papel desbotado e semitransparente que pusera no colo com tanto cuidado.

Presa num nó seguro de fita de cetim, aquela incômoda e perturbadora lembrança fora novamente confinada à gaveta emperrada do criado-mudo e surdo, esquecido ao lado da cama do quarto de visitas que por muito tempo não receberá mais ninguém.


Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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