10 de julho de 2015

O Motim no Jardim

10 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Afofou a terra escura e regou a planta com cuidado. Era muda nova, e mudas novas são muito sensíveis: algumas querem ser tratadas como rainhas, demandam atenção e cuidado quase que exclusivo; outras são mais tímidas, e gostam de ser deixadas sozinhas. Aquela era diferente. E embora não soubesse por que nem quando aquilo havia acontecido, o jardineiro afeiçoara-se a ela mais do que às outras. 

Elas já haviam notado seus cuidados especiais com aquela “uma”, e por vezes, desviavam sua seiva de alimentar uma ou outra folha, somente para que amarelasse e caísse diante dele, chamando assim sua atenção.

E ficava preocupado, afinal, sabia que elas eram sentimentais. E todo dia tentava disfarçar seus sentimentos pela pequenina. Mas as flores enxergam além das palavras e dos gestos, e já não estavam mais tão vistosas por mais que o jardineiro se desdobrasse em atender suas necessidades.

Não era que ele as tivesse deixado de amar. Amava-as, profundamente. No entanto, por aquela “uma”, tinha um brilho diferente no olhar. E as flores sentiam seu perfume: o perfume de seu interesse. E invejavam aquela pequenina que já mal nascera, fazia o jardineiro suspirar e perfumar para ela.

E naquela noite, enquanto dormia o jardineiro, fizeram conselho entre si. E a pequena, tão inocente, nem sabia o motivo de tamanha hostilidade. As plantas enciumadas conseguiram até mesmo o apoio daquelas tímidas, pois não é por serem tímidas que queriam que o jardineiro deixasse de olhar para elas ― e ele certamente não deixaria ― mas plantas enciumadas sabem ser muito convincentes. 

Depois de muito arrazoarem, decidiram fazer um esforço especial durante a noite para tirarem do tão bem adubado solo todos os nutrientes que conseguissem. Assim, sem ter do que se alimentar, a pequenina feneceria e elas teriam de novo o seu jardineiro de volta. 

No dia seguinte, o jardineiro voltou de seu descanso noturno e qual não foi sua surpresa ao ver que sua pequenina estava murcha e debruçada sobre o apoio que ele colocara para endireitar seu crescimento.

E, apesar de todos os seus esforços para salvá-la, logo percebeu que não havia mais nada a fazer. Naquele dia não cuidou do jardim. Ficou pensando o que teria acontecido para que a pequenina morresse assim tão repentinamente, quando no dia anterior estava ainda tão viçosa. O que teria feito de errado? O excesso de carinho a sufocara? Como podia conter esse amor que nem ele mesmo sabia como surgira em seu coração?

E as flores sentiram naquele dia um perfume diferente exalando do jardineiro. E era um perfume triste, muito triste. 

Mas elas não tinham essas normas morais que regem a vida dos homens e que fazem a consciência pesar quando deitam à noite a cabeça sobre o travesseiro. De fato, elas nem deitam à noite, e nem têm cabeças, tampouco necessitam de travesseiros. Por isso, diziam para si mesmas, “Logo se recupera e teremos nosso jardineiro de volta.”

Mas eis que a tristeza e o odor do jardineiro eram cada dia mais fortes. E era um odor tão triste que embriagava todas as flores.

Mas logo voltou a trabalhar no jardim. Afinal, as outras flores precisavam dele. E todos os dias fazia o seu trabalho do jeito que sempre fizera: afofava a terra, removia as pedras, jogava água nas plantas mais sedentas, certificava-se de que as minhocas estivessem fazendo o seu trabalho... Mas bastava olhar para aquele lugar onde sua pequenina já se confundia com a própria terra escura do jardim, e exalava aquele cheiro de tristeza que as plantas já não suportavam mais sentir.

Um dia, o jardineiro não veio ao jardim. Todas se puseram a imaginar o que havia acontecido. As mais alarmadas disseram, “Terá morrido de desgosto? O que será de nós?” As que ainda não haviam se curado da ciumeira destilaram, “Terá ido buscar nova muda de outra ‘uma’ como aquela? Não sei que cheiro será mais insuportável sentir!” E as que sempre se pronunciavam por último tentando dizer algo mais sensato depois de ponderar sobre tudo o que já havia sido dito arriscaram, “Terá se cansado de jardinar? Descobriu o que fizemos e foi cuidar de outro jardim? Que sorte nos aguarda agora?”

Não houve resposta. Nem veio o jardineiro na manhã seguinte, nem na semana seguinte.

E logo os cardos e inços apossaram-se do jardim. E cresceram de tal modo que sufocaram as antigas moradoras. Toda sorte de ervas daninhas surgiu do nada, como se fossem espectros do mundo interior enviados pela vingativa pequenina para retirar das plantas ciumentas a vida que roubaram dela. 

E as ervas daninhas roubaram a força da terra e cresceram sobre as plantas do jardim, fazendo suas flores e folhas secarem e tombarem enquanto convidavam as pestes para a ceia. Não demorou para que, uma a uma, as senhoras daquele regaço tombassem e esticassem os galhos secos como que suplicando por uma ajuda que não viria.

E quando aquele lugar já não mais apresentava qualquer feição de jardim, ouviu-se o som abafado de uma enxada sendo cravada na terra endurecida. Era um novo jardineiro, muito semelhante ao antigo; mas ali já não havia qualquer planta que conhecesse aquele para compará-lo a este. Então dir-se-á deste que é um novo jardineiro; e se for este o antigo, voltou ao jardim com novo ânimo, fazendo-se novo, portanto.

Ele arrancou todos os cardos e inços, amontoou os galhos secos e afofou a terra. E tendo adubado a terra seca, regou-a e preparou-a para receber uma primeira muda.

No centro do jardim, plantou-a com esmero: outra “uma” como aquela pequenina. 

A plantinha seguiu crescendo e virou “uma” como as outras que plantou após ela. E todas elas sentiam o perfume que exalava do jardineiro, que tinha para todas a mesma fragrância e suavidade.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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