31 de agosto de 2015

A Quarta Praga

31 agosto Escrito por Eliude Santos , 1 comentário
Já no quinto mês, não se podia negar que alguma coisa muito estranha estava acontecendo ali, afinal, era tanto inseto tentando entrar que quem olhasse de fora quase não veria o verde das telas. Ela nem arriscava mais em sair. Cada vez que abria a porta para as poucas visitas que ainda recebia, eram horas tentando espantar as moscas que entravam pela fresta e se atiravam contra ela. E as pragas não buscavam um lugar para pousar, apenas pareciam tontas, voando em círculos e lançando-se contra sua barriga.

A casa que outrora era tão cheia de vida, agora se tornara um cárcere escuro e triste. O barulho ensurdecedor dos insetos que dia e noite atiravam-se contra a malha verde não lhe permitia a percepção de qualquer outro som; nem a própria voz conseguia mais ouvir. Tornara-se cega, surda e muda para o mundo lá fora, e já nem tinha ânimo de sair da poltrona da sala, onde ficava de frente ao único televisor da casa ― única janela de uma vida que já não lhe pertencia mais.

No dia do parto, a vizinha que a ajudou nos trabalhos disse que não tinha sido difícil trazer a criança à luz.

“A comadre nem precisou esforçar-se muito, o menino estava ansioso pra vir pra este mundo. O difícil foi ficar espantando aquelas pragas. Eu as tangia com um pano, mas elas não davam descanso. E o tempo todo se atiravam sobre a barriga da coitadinha. E quando o danado saiu, se jogaram todas em cima dele. Foi uma agonia pra deixar ele limpinho!”

E a parteira, como tinha a língua solta, logo tratou de espalhar a notícia pra cidade inteira. E todos começaram a comentar sobre o menino que atraía moscas.

Naquela época os caçadores de notícias não eram tão rápidos e vorazes quanto são hoje; senão, aquela pobre mãe nem haveria de ter tempo para respirar com tanto assédio. Seriam tão numerosos e incômodos quanto as moscas ao redor de sua casa.

Mas os vizinhos bem souberam ocupar o lugar daqueles. E não iam atrás de informações, pois já tinham moldado seus conceitos no cunho da própria ignorância e tudo o que queriam era uma palha seca para iniciar a fogueira.

E foi num desses domingos que os parques ficam vazios e misteriosamente todos decidem ir à igreja que o sacerdote deu um sermão sobre o exemplo da persistência de Moisés. E diferente da sarça que ardia sem queimar, seu discurso pôs fogo nos corações já inflamados dos fiéis.

Ele tinha passado horas ensaiando umas linhas bem-humoradas sobre a gagueira do tal profeta. Lembrou-se até de incluir as características de algumas beatas no discurso somente para deixá-lo mais pessoal. Mas os fiéis nem prestaram atenção na mensagem, nem nos seus esforços em parecer engraçado quando tartamudeava as linhas da disputa entre o velho hebreu e o inclemente faraó. Nada fora mais marcante em seu discurso que a menção à quarta praga. Era só do que se falava quando indo pra casa os fiéis desciam os degraus da igreja.

E não tardou para que alguém citasse os sinais dos tempos e logo todos estavam convencidos de que o menino era de fato o próprio anticristo. E se viram no dever de livrar o mundo de tal ameaça.

“Mas quem seria capaz de tamanha perversidade? Quem levantaria a mão contra uma criança indefesa?”, disse o açougueiro atemorizado com o rumo que a conversa tomava.

“Criança? Aberração, isso sim! E quem garante que o tal demoniozinho não será capaz de perversidades ainda maiores quando crescer?”, a dona do bar da esquina estava tão assustada quanto o açougueiro, mas cada um tem seu próprio modo de reagir ao medo, e era na ira e indignação que ela encontrava seu bálsamo.

Todos estavam muito abalados e confusos com o estranho fenômeno. E a discussão seguiu noite adentro entre um gole e outro do melhor conhaque que a dona do bar encontrou em sua adega.

E foi por sugestão do boticário que organizassem ali mesmo, no bar da esquina, uma confraria para discutirem as mais apropriadas medidas a se tomar em tão alarmante situação. E convidaram em caráter secreto todos os mais influentes habitantes da cidadezinha a tomar parte em suas reuniões.

Os vizinhos da parteira foram os primeiros a aparecer na reunião da noite seguinte.

“No começo o barulho do zumbido nos incomodava bastante, até acendemos algumas tochas na lateral da nossa casa, temendo que os insetos viessem a se espalhar. Só depois percebemos que isso não aconteceria. Mas nossos amigos deixaram de nos visitar depois que o número de insetos aumentou. E nossa filha nem quer mais ir à escola para não passar na calçada que dá para a casa da desavergonhada. É tanto besouro no chão que assusta até mesmo quem é mais velho!”

“Já convivemos com isso há quase um ano e estranha-me que até agora nenhuma atitude mais concreta tenha sido tomada!”

E continuaram a expor seus temores e queixas, enquanto a dona do bar servia-lhes aperitivos de torresmo fresquinho regados a preciosidades de sua farta adega. Mas, obviamente, desta vez avisara que a bebida não seria por conta da casa. E quem a conhecia bem teria percebido que sua indignação exacerbada a respeito do suposto recém-nascido-anti-cristo escondia um certo apreço pela situação, pois numa noite de segunda-feira nunca tivera um lucro tão alto quanto aquele. E seus olhos brilhavam quando abria o caixa.

“A mãe do demoniozinho anda procurando uma babá”, disse o farmacêutico enquanto acendia o antigo pito de imbuia, “ela tem que voltar ao trabalho em uma semana.”

“Trabalho! Faz-me rir!”, uma das beatas balançou a cabeça.

“Alguma notícia do gringo?”, interrompeu o carteiro, antes que a beata começasse sua ladainha sobre a indecência da infeliz. Ele temia que se vasculhassem a história mais a fundo, acabassem descobrindo que ele também fazia parte dela. E se sua esposa soubesse, seria o fim!

“Que nada. Aquilo era o diabo, passou a noite com ela e no outro dia sumiu feito fumaça”, disse a dona da estalagem.

“Mas o que vamos fazer afinal?”

“Sua filha poderia oferecer-se de babá. Vocês moram tão perto!”

“Minha filha não vai entrar naquele antro.”

“Alguém tem que entrar, se queremos destruir a tal praguinha. Ou vocês vão esperar essas moscas começarem a infestar nossas casas também? E isso será somente o início do fim. Quando o demoniozinho começar a crescer nem Deus poderá nos ajudar.”

“Como vocês podem estar tão certos de que a tal criança seja de fato o que dizem?”, indagou o cético professor de história. “Acho que faríamos melhor em chamar a defesa sanitária. Essas crendices podem ser tão danosas quanto as doenças que esses insetos acabarão trazendo pra nossa cidade.”

“Não podemos esperar que um homem que não crê em nada possa ver qualquer dedo de verdade diante do nariz. Os sinais estão aí. Todos estamos convivendo pacificamente com eles há já muito tempo. Está na hora de fazermos alguma coisa, ou iremos nos arrepender profundamente.”

“Não sei não. Acho que estamos sendo precipitados em fazer julgamentos sobre a criança somente porque não conseguimos explicar de outro modo o que se passa naquela casa. Concordo com o professor,” arriscou o açougueiro, “a defesa sanitária há de achar uma solução para o problema.”

E ficaram horas debatendo sobre a natureza do infante. E as beatas foram tão convincentes em seus argumentos que conseguiram até mesmo fazer com que o professor de história e o açougueiro dessem mais crédito e apoio a suas estratégias. Ainda assim, todos concordaram que não faria mal algum em chamar a defesa sanitária.

Não demorou para que eles viessem. Trouxeram seus esguichos de veneno e pulverizaram a casa e os arredores, colheram amostras para análise e alimentaram ainda mais a fúria da cidade contra o bebê quando disseram que não haviam conseguido detectar causa alguma para o estranho fenômeno.

Quando deixaram a cidade, era tanto inseto morto ao redor da casa que seriam necessárias horas de trabalho para removê-los todos, mas ninguém se atrevia a ajudar. Todos ficaram olhando de longe, enquanto a moça com óculos escuros finalmente saíra de sua casa, com o carrinho do bebê e uma pá, e passara horas recolhendo sozinha os restos de um tormento que parecia não ter fim.

E depois de tantos meses, a casa finalmente podia ser vista outra vez.

Naquela noite, a rua ficara em silêncio. Mas todos pareciam sentir falta do zumbido. O bebê soluçou de tanto chorar. Era um choro agudo e perturbador que só cessou ao raiar do dia seguinte.

Embora extremamente cansada por ter passado horas recolhendo os insetos no dia anterior e por não ter conseguido pregar o olho durante a noite, a jovem mãe viu uma oportunidade rara de levar o bebê para passear no parque. Pela primeira vez depois de tantos meses podia cruzar a linha do portão de sua casa sem ser atacada pelas pragas que não arredavam de sua porta.

Mas foi só chegarem ali que todos os besouros, borboletas, abelhas e formigas começaram a seguir o carrinho. E desta vez não eram somente os insetos: no lugar onde pararam, podia-se ver sob as folhas secas as ondas de lagartas e pequenos répteis que se apressavam na direção do bebê. E também os pássaros, talvez atraídos pelos insetos, desceram em rasantes. Um tapete negro de formigas passou pelos pés da moça de óculos escuros rodeando o carrinho como num ritual.

Já visivelmente incomodada, ela apressou-se na direção de sua casa.

Primeiro foi o pipoqueiro que viu e apontou. Depois outras pessoas largaram as bicicletas e saíram em disparada. O parque esvaziou em segundos.

Trancada novamente em seu cárcere, ela olhou para seu bebê com um misto de compaixão e ódio em seus olhos e chorou.

E, enquanto chorava, sozinha e desconsolada, esmagou os últimos insetos que se haviam embrenhado no cobertor e nas roupas da criança.

Naquela noite, a confraria reuniu-se novamente no bar da esquina. A declaração da defesa sanitária e o incidente no parque reacenderam seu medo. E pessoas com medo podem ser muito perigosas.

Para inflamar ainda mais aqueles ameaçadores sentimentos que tomavam conta dos habitantes da remota cidadezinha, a própria natureza parecia tremer diante da situação. E uma ventaria aterradora veio trazendo pó, arrancando telhados e derrubando as árvores da praça. As luzes apagaram e ouviram-se gritos ecoando pelas ruas escuras.

No escuro e amedrontados, não se podia esperar que tomassem decisões ajuizadas. E todos foram para suas casas e pegaram tochas e lampiões e decidiram que ainda naquela noite invadiriam a casa do demoniozinho e destruiriam o mau que assolava sua cidade.

O professor de história ainda tentou alertar as autoridades, mas as linhas telefônicas também pareciam ter sido danificadas pela ventania. A dona do bar, em nome da segurança de todos, acertou-lhe a cabeça com uma garrafa de groselha e ele caiu desacordado.

A turba começou a reunir-se na frente do bar e de lá saíram em marcha na direção da casa. As tochas lambiam a escuridão da noite, dançando ao compasso do vento forte.

O açougueiro tentou ainda impedi-los dizendo que tudo aquilo era apenas uma série de tristes coincidências. Mas a turba estava irredutível.

Quando a mãe do menino avistou a luz das tochas, pressentiu que algo ruim estava para acontecer. Então, escondeu seu bebê no cesto de roupas sujas e encheu de batatas o seu carrinho, cobrindo-as com o cobertor. Respirou fundo e saiu pela porta da frente.

“O que vocês querem? Deixem-nos em paz.”

Uma série de insultos derrogatórios podiam ser ouvidos na escuridão.

Alguém ateou fogo nos sacos de insetos e um cheiro de enxofre e o calor do fogaréu fez com que todos se sentissem ainda mais próximos do inferno.

A moça correu empurrando o carrinho, mas não conseguiu ir muito adiante. Uma pedra vinda por trás acertou-lhe a cabeça e fez com que tombasse, revelando as batatas que se espalharam pelo chão frio.

A turba invadiu a casa, destroçando tudo o que viam pela frente.

Um choro abafado denunciou o lugar de seu esconderijo e, encontrando-o, o açougueiro saiu com o bebê no colo.

À entrada da casa, exibiu-o à luz amarela das tochas.

“Eis aqui o que procuram. Ele não me parece mais que um pequeno bebê assustado. Mas não sou juiz de ninguém. Se vocês estão certos de que é isso que desejam fazer, não me colocarei no caminho de quem quer que tenha coragem de ferir a esse pequenino.”

E colocou-o no chão. E o bebê estava em silêncio, observando a todos.

Depois de alguns minutos em que se ouvia somente o crepitar do fogo e os uivos do vento, uma pedra arrancou a grama ao lado da cabeça do bebê, jogando terra em seus grandes olhos negros e brilhantes. A turba feroz veio sobre o infante como lobos carniceiros. E se pudéssemos vê-los, teríamos virado o rosto para não testemunhar as atrocidades que sua fé cega e surda foi capaz de produzir.

As tochas apagaram uma a uma e somente o lampião do açougueiro iluminava a perturbadora cena.

Quando finalmente recobraram o senso, todos sentiram um profundo vazio corroendo-lhes a alma. A turba silenciou, o ventou cessou, o pó assentou.

E enquanto iluminava o pequeno cadáver, uma mosca veio na direção da luz e atirou-se no tubo do lampião, caindo esturrada no chão. E o açougueiro, que o segurava, usou de uma lógica simples para concluir: “E se o menino não fosse o tal anticristo que julgávamos? E se os insetos corriam em sua direção porque viam nele uma luz que em nossa cegueira de homens falhos não tínhamos conseguido enxergar?”

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
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