11 de agosto de 2015

Lampejos

11 agosto Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
O céu escureceu rapidamente naquele fim de tarde. As nuvens negras fizeram com que as lâmpadas nos postes da rua da feira acendessem antes de sua hora regular. As lâmpadas iluminaram um rosto na janela do sobrado. Era um rosto bem conhecido dos homens das redondezas ― não que eles fizessem qualquer questão de se lembrar. Certamente se a encontrassem na rua, não lhe dirigiriam a palavra, especialmente se estivessem acompanhados.

As gotas começaram a cair como pedras sobre as telhas de amianto numa batida melancólica que fazia seu coração já tão surrado retrair-se com mais força.

Muitos se assustavam com os trovões. Ela não era boba; assustava-se mais com o clarão dos relâmpagos, afinal são os raios que fazem o verdadeiro estrago.

Ela fechou um olho e deixou o outro entreaberto quando veio o primeiro clarão. Ouviu o trotar do cavalo branco que seu pai lhe trouxe num dia de chuva. “É branco pra você se lembrar da pureza, mocinha!” Seu pai era um homem direito. Pelo menos isso era o que sua mãe dizia.

Ela abriu o outro olho, tudo estava escuro novamente e a chuva ainda caia forte. Veio em direção à cômoda velha e tentou abrir a gaveta sem maçaneta. O esforço foi inútil. Ela resmungou baixinho enquanto apoiava-se nas laterais da cômoda e olhava seu rosto frustrado no espelho enferrujado e fosco sobre o móvel.

Ficou pensando o que seria do espelho se não pudesse refletir. O que ela veria se pudesse contemplar a real face do espelho? Deveria ser algo maravilhoso! No entanto, aquele espelho, ainda que fosco e enferrujado, refletia. E não era nada belo o que ela via.

Irritou-se. Com um solavanco abriu a gaveta. Não havia muita coisa lá dentro. Entre as roupas amontoadas, uma caixa de metal. Ela pegou a caixa com cuidado. Outro clarão e ela fechou os olhos.

“Tome esse cavalinho, menina, e feche essa matraca.” A tia também estava triste, mas naquela hora precisava parecer irritada pra impor respeito. A menina atirou longe o cavalinho. Mas não demorou-se a buscá-lo e guardá-lo, pois finalmente percebeu que aquilo era tudo que lhe restara.

A caixa de metal empretecida nas bordas guardava o cavalinho desbotado. Ela ouvia os relinchos ao longe, mas acho que era só o toque estranho do telefone de um vizinho que parecia não estar em casa.

Fechou a caixa e apertou o cavalinho na mão suada. Estava de costas pra janela quando veio mais um lampejo. Assustou-se olhando rapidamente por sobre os ombros.

Dona Irene entrou com as tamancas pela sala. Estava possessa! Olhou para ela com desprezo. “Sua piranhazinha imprestável!” Ela queria chorar. Viu o cliente saindo da saleta com um olhar ainda mais grave. Nem lembrava como viera parar ali. Boa coisa não fizera pra que seus tios não quisessem mais olhar em sua cara novamente. Será que Dona Irene também lhe expulsaria dali? Chorou copiosamente. A velha de rosto esticado e cara colorida tomou-a pela mão com ar condescendente. “Aquele desgraçado! Venha cá minha flor!” E abraçou-a. Como ela queria um abraço! Como precisava sentir-se segura! Dona Irene às vezes parecia um anjo maquiado.

No ano em que Dona Irene morreu, ela vestiu-se de preto pela primeira vez. Seus olhos parece que cegaram pras cores. Aqueles mesmos olhos tristes voltaram-se para as mãos depois do clarão. Ainda estava no quarto, o cavalinho ainda estava em suas mãos. Dirigiu-se à janela.

O vento forte fazia a chuva respingar em seu rosto cansado. O chão do quarto junto à janela já estava todo molhado.

Apoiou-se no parapeito e olhou pra baixo. Como seria belo o seu vôo! Quando deu por si, já estava toda molhada. A chuva tratava-lhe com a mesma violência que a vida.

Abriu os braços sobre o parapeito e esperou que no próximo clarão o trovão anunciasse com estrondo que ela fora tomada nos braços ternos do tempo. Não veio nenhum relâmpago. A chuva amainou.

Dois toques na porta.

Ela desceu do parapeito. Era um cliente.

Ela voltou e fechou a janela.

Antes de abrir a porta do quarto ela beijou o cavalinho e devolveu-o à gaveta.

Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
Para acessar o índice do lívro, clique na imagem abaixo. 

índice

Se gostou deste conto, curta a Página do Livro no facebook,
e/ou compartilhe o link deste artigo em suas redes sociais. 
CLIQUE AQUI para ler o próximo conto.

0 pessoas comentaram:

Postar um comentário

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.