22 de setembro de 2015

Partidas

22 setembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Era a primeira vez que viajaria pra tão longe. Nem sabia o que colocar nas malas quando, ainda em casa, sua mãe o abraçou e disse que não o acompanharia à estação, pois odiava despedidas. Mas, mesmo não indo, teve que por fim despedir-se. Ela o abraçou forte, certificou-se que ele estivesse de fato levando tudo e entrou chorando no quarto.

Ele teve que engolir as lágrimas, pois não queria parecer um fracote na frente dos amigos que o esperavam lá fora.

Vieram por sobre os trilhos fazendo arruaça. Ele adorava equilibrar-se sobre aquelas vigas de ferro contando os dormentes, imaginando que seus pés fossem dedos tirando música de um grande braço de violão que se estendia em trastes rumo ao infinito. Agora aqueles carris o levariam pra longe e tudo aquilo se resumiria a lembranças, únicas companhias que levaria na viagem. Mas não sabia se queria partir; sabia somente que não poderia ficar.

Quando chegaram à estação, o Sol já havia se despedido e recolhido ao seu leito, e uma Lua tímida ocupava seu lugar no Céu. Não tardaria para que o trem chegasse. Seus amigos foram apressar o bilhete e encaminhar as malas, enquanto ele ficara para despedir-se dos trilhos e das lembranças da infância.

Um pequeno ele mesmo veio correndo em sua direção. Surpreso, abaixou-se e olhou nos olhos da criança, passou as mãos na sua cabeça e disse que tudo ficaria bem. O menino sumiu na escuridão silenciosa.

Quando se levantou, viu na estação uma moça com um rosto familiar que parecia esperar por ele com um sorriso. Perguntou-se de onde a conhecia, enquanto cordialmente retribuía a gentileza. Mas antes que encontrasse qualquer resposta, ouviu um barulho e voltou-se para trás.

De repente tudo ficou absurdamente escuro, e percebeu o som distante do trem que se aproximava. Voltou-se para a moça, mas ela já não estava mais lá. Sentiu o chão tremer e percebeu uma luz dourada que contornava seus pés sobre os trilhos. Ouviu os gritos dos amigos num crescendo e virou-se rapidamente para entender o que acontecia, mas tudo que viu foram aqueles dois olhos brilhantes que vieram sobre ele.

Olhou para o lado assustado e viu outros corpos submersos naquele rio de leite que o abraçava. Tentou levantar-se e alcançar a superfície, mas seu corpo parecia tão pesado que simplesmente não conseguia movê-lo. Deixou-se afundar pouco a pouco na brancura morna daquele confortável leito.

As lembranças que guardava desde o ventre passearam diante dele e sumiram na vastidão branca do rio. E, quando sua mente parecia entregar-se à tranquilidade da alvura que o envolvia, uma mão desceu sobre ele e segurou-lhe o pulso com firmeza.

Levado por um impulso, ele agarrou-se ao pulso daquele que o segurava. Nesse instante, uma segunda mão veio pelo seu lado e impulsionou suas costas trazendo-o de volta à superfície. Seus olhos estavam embaçados do leite do rio e via centenas de espectros vindo em sua direção com lâmpadas nos olhos.

Trouxeram-lhe um manto e cobriram-lhe o corpo.

A esse tempo ele já parecia entender o que lhe acontecera. Mas tudo lhe era tão extraordinário que confiava na possibilidade de despertar a qualquer momento. E se não despertasse, pensou, e se tudo aquilo fosse tão real quanto lhe parecia! De repente, vieram-lhe à mente todos os temores dos contos fantásticos que ouvira sobre aquele lugar que até então acreditava não existir.

Viu as longas asas de um querubim que descansava à sombra de um florido ipê branco enquanto um fauno batia a flauta contra a coxa peluda para tirar a saliva das últimas árias por ele tocadas.

A moça de sorriso familiar passeava com a leveza de uma pluma por entre os espectros e ele correu até ela em busca de respostas.

Diante de suas tolas perguntas, ela segurou sua mão e conduziu-o a uma praça com fontes de águas dançantes e mesas de banquinhos sob as árvores. E sobre as tais mesas, viam-se os mais diferentes tipos de jogos de cartas, peças ou tabuleiro.

Ela esperou então que ele se dirigisse a uma delas. E ele apressou-se na direção daquela que tinha pedras de dominó, pois entendeu que a moça o convidara para jogar.

Ela sentou do outro lado da mesa e embaralhou as peças feitas em ouro com pontos de brilhantes esmeraldas cravadas em talha.

Separou sete peças para ela, sete para ele, deixou uma dezena à sua direita e as quatro restantes à sua esquerda. Olhou suas peças e baixou o carrilhão no centro da mesa.

Ele observou cuidadosamente as peças e arriscou uma jogada de príncipe somente para que ela o julgasse leigo no jogo. E assim foi, pois lhe parecia que tudo se encaminhava para um bom desfecho, até que ela trancou-lhe e apontou o monte de dez peças.

Na terceira compra, conseguiu achar a peça que lhe faltava e prosseguiu usando de sua habilidade para reverter o jogo e ganhar vantagem sobre sua oponente. E assim foi, pois ela também não demorou a precisar recorrer ao monte de compras.

E, quando não havia mais nenhuma peça no monte dos dez para ser comprada e ambos tinham somente duas peças na mão, ele olhou o desenho do jogo e tentou calcular que peças seriam aquelas quatro que estavam à esquerda de sua oponente e que a seu ver não poderiam ser compradas, e que outras restavam nas mãos da moça. E, mesmo correndo o risco do jogo ser fechado e perder de uma possível “um-dois” que poderia estar nas mãos dela, arriscou sua peça de menor valor.

Não tendo opções, ela desceu suas peças e sorriu.

Enquanto ele ansiava pelo prêmio de sua vitória, ela observava o belo desenho que as peças haviam feito sobre a mesa. Esticou, então, o braço na direção do moço e puxou-lhe pelo ombro por sobre as peças, sussurrando-lhe ao ouvido, “Domino gratias!”

E, no mesmo instante, ele sentiu um calafrio que começava no umbigo e espalhava-se por todo o corpo como se vários dentes-de-leão dançassem por sob o seu manto. E acordou sufocado.

Um disco de luzes descia sobre ele, de modo que, ofuscado, não conseguia ver nada ao seu redor com clareza, exceto algumas sombras desfocadas que se moviam ao seu redor. Ouvia vozes e o tilintar de metais, mas tudo parecia distante e confuso.

Seus olhos pesaram novamente, mas desta vez sua mente não foi conduzida a nenhum lugar fantástico, apenas pareceu-lhe que o tempo estava desacelerando e parando aos poucos. As sombras escuras ao seu redor foram ficando distantes, fechou os olhos e quando conseguiu abri-los novamente viu os tubos e os aparelhos bipando ao lado da cama naquele quarto silencioso.

Cheio de dores, movia-se com dificuldade.

Lembrou-se das palavras da moça dos Campos Elíseos e deu-se conta de que não conseguira partir afinal. Já não poderia recorrer àquele rio de leite para descansar das dores e agruras de sua vil existência na companhia daquela doce criatura que o esperava sorrindo. Já não poderia cumprir a promessa que fizera para o pequeno ele mesmo que veio correndo para despedir-se a caminho da estação.

Por que ganhara aquela maldita partida?


Ouviu-se um grito nos corredores do hospital.



Este é um conto do livro Quando a Vida Grita pra Ser Ouvida, de Eliude A. Santos
Para acessar o índice do lívro, clique na imagem abaixo. 

índice

Se gostou deste conto, curta a Página do Livro no facebook,
e/ou compartilhe o link deste artigo em suas redes sociais. 
CLIQUE AQUI para ler o próximo conto.


0 pessoas comentaram:

Postar um comentário

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.