4 de janeiro de 2016

Capítulo 2: O Bode Expiatório

04 janeiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Como dois fachos de luz resplandecente, assim eram os filhos gêmeos de Asserah, a primeira Esposa de Ahman, o Criador: Yahweh, que é um dos muitos nomes de Eu Sou, e Heylel, que é um dos muitos nomes de Luz da Manhã, destacaram-se entre todos os que vieram depois deles, garantindo, portanto, seus direitos de primogenitura quando Ahman, nosso Pai, se pôs em nosso meio e apontou-lhes como inteligências governantes.

As outras inteligências, pequenas sementes de energia trazidas do Caos, entre as quais estavam a minha essência e a tua, tal como a de todos os outros que conhecemos no decurso de nossos dias, foram igualmente plantadas no ventre das demais Esposas do Criador que geraram cada um dos bilhões de filhos que compunham a nova “ninhada”.

Desde o instante de nosso nascimento espiritual, quando deixamos a escuridão do Caos e adentramos à luz do Cosmos, tudo o que aprendemos com os Mestres que acompanharam o desenvolvimento de nossas personalidades nos apontava para aquele momento.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que deixamos de ser somente aprendizes passivos e ganhamos consciência de nossa função dentro desta grande engrenagem arquitetada por nosso Pai.

Tu podes não lembrar, mas também estavas lá, comigo. Se te esforçares um pouco, talvez consigas sentir aquele calafriozinho que percorre da nuca ao umbigo, esquentando as orelhas, se espalhando pelas costas e esvaindo-se pelos ombros como se fossem asas flamejantes sempre que experimentamos um espasmo da Verdade.

Quando se nasce numa família como a nossa, não se pode esperar que nosso Pai esteja sempre do nosso lado. Ele tem que trabalhar, como qualquer outro pai. Nossas Mães também têm Suas ocupações e ficamos à mercê de nossos Mestres quase que todo o tempo.

Eles eram tão atenciosos que mal percebíamos o passar das eternidades. No entanto, quando nosso Pai vinha nos visitar, era sempre um evento memorável.

Uma pena que a memória desses dias de glória tenha sido banida da consciência dos homens quando desceram a esta Terra para experimentarem a taça amarga da morte! O que me alegra é saber que esta amnésia é momentânea e logo todos teremos nossas consciências expandidas e restauradas e cada um terá sua própria impressão de tudo que experimentou nos diferentes Estados de sua existência. E naquele dia te lembrarás como se fosse hoje do dia em que isso aconteceu.

Como disse, nosso Pai era um homem ocupado. Pais Celestiais são Arquitetos e Gestores dos universos que Seus filhos habitam. Claro que, como todo arquiteto, mesmo Suas criações mais originais eram baseadas em princípios e cálculos já existentes, criados por Arquitetos mais antigos que vieram antes Dele e que continuavam Seus trabalhos em outros universos além das fronteiras do nosso. Mas isso nunca diminuiu Seu mérito. Nós O admirávamos tanto que tudo o que queríamos é que aquele tempo ao Seu lado nunca passasse. No entanto, um filho não cresce à estatura do pai se este não se afasta um pouco para que aquele possa andar sozinho e dar seus próprios tropeços a fim de que aprenda a se levantar sozinho. E nosso Pai sabia disso.

Ele se ausentara por um tempo para cuidar de outras ninhadas como a nossa e quando voltou, fizemos grande festa para recebê-Lo.

Quando esteve em nosso meio, Ele viu que muitos haviam progredido mais que outros durante Sua ausência. Ele chamou cada um pelo nome — cada um dos filhos que haviam desenvolvido competências relacionadas ao conhecimento que nossos Mestres tinham compartilhado conosco — e disse, perante todos:

"A estes farei Meus governantes".

Os “príncipes”, ou em outras palavras, os primeiros filhos de Sua primeira Esposa, foram chamados para ocupar os cargos mais elevados de liderança, um ao Seu lado direito e o outro ao Seu lado esquerdo no Conselho Presidencial, que chamávamos Trindade.

Nosso Pai vestia um manto cerimonial com pele de bezerro, reluzente como ouro. Sobre Sua cabeça, uma cabeça de touro com longos chifres era usada como barrete. Ele tomou mantos de pele de cordeiro, igualmente reluzentes, e colocou-os sobre os ombros de Seus filhos. E cobriu-lhes as cabeças com barretes em forma de cabeças de bodes com chifres igualmente longos.

"Quando um rei é coroado com chifres é para lembrar-lhe que seu poder veio do alto, pois é para o alto que os chifres de sua coroa apontam. Minha coroa Me lembra que tenho alguém acima de Mim para prestar satisfação e honras. A vossa coroa vos lembra que tendes a Mim para prestar igual reverência. Pois assim é em toda a imensidão dos universos sem fim. Onde houver uma estrela de grande brilho, haverá outra de brilho superior que lhe ofuscará, fazendo com que gire em torno dela por perceber que necessita de sua luz. E embora haja entre vós uma infinita gama de grandezas, estes dois cordeiros, hoje coroados, são agora os astros mais brilhantes desta ninhada. A eles procurareis em Minha ausência."

Ahman coroou a muitos outros como reis e rainhas, príncipes e princesas, ministros e ministras, sacerdotes e sacerdotisas, e mestres de toda sorte e ofício, conforme o papel que cada um exerceria dali em diante, de acordo com o grande Plano de Felicidade que Ele havia arquitetado para o nosso segundo Estado. E vestiu tais arcanjos com barretes e com mantos e instruiu-lhes sobre o que deveriam fazer.

"E tudo o que fizerdes, fareis em Meu nome, e tudo o que disserdes, será como se vossas palavras saíssem de Minha própria boca. Portanto, tomai cuidado com o que enche vossos corações, pois o pensamento faz o verbo e o verbo cria mundos. E não é justo que recaia sobre Meus ombros a culpa de verbos mal ditos e mundos mal criados por vós. No entanto, como não se pode exigir a divindade de quem ainda não alcançou tal patamar, há que se ter alguém a quem culpar, um Bode Expiatório, que pague o preço que Me foi exigido pagar quando resgatei vossas essências do Abismo da Justiça para que vossas inteligências dessem vida aos corpos espirituais gerados no ventre de vossas Mães celestiais."

Todos nós sabíamos o que já havia acontecido em mundos anteriores, com ninhadas anteriores. Aquilo não era novidade para nós. Um dos dois que vestiam o manto do cordeiro precisaria fazer o sacrifício. Um dos dois precisaria verter o próprio sangue para pagar o preço da matéria que foi usada para nos criar, e daquela que ainda seria usada para colonizar o novo Mundo onde iríamos habitar.

Jeová e Lúcifer precisavam decidir que papel ocupariam na Criação do novo Mundo. Um seria o Primeiro Pai, aquele que desceria antes de todos, e comeria do fruto amargo que lhe encheria as veias de sangue e nos permitiria nascer de novo através dele para experimentarmos o veneno da vida mortal. E o outro seria o Bode Expiatório, que tomaria a taça de veneno dada pelo representante das demandas da justiça que habitam o abismo de onde viemos todos, um veneno que lhe faria verter todo o seu sangue e experimentar todas as dores e agruras da existência sem recuar a fim de que todos pudéssemos ser justificados em nossa inabilidade de ser divinos.

Como as incumbências que recebi não foram de ordem legislativa, meu contato com os príncipes e demais arcanjos governantes se restringia ao registro de suas ações.

Heylel não queria ser o Primeiro Pai nem tampouco queria ser o Bode Expiatório. Ele não queria fazer as coisas do jeito que sempre tinham sido feitas. Afinal, tinha que haver outro jeito de pagar aquela dívida, ou livrar-se dela. E ele finalmente achara uma maneira.

Quando Ahman, nosso Pai, fez-nos nova visita, Heylel reuniu uma grande assembleia para apresentar suas resoluções e pedir o apoio de seus irmãos.

"Pai, Tu sabes que sou o filho que mais Te admira. Tudo o que fiz desde o dia em que tive consciência da razão de minha existência foi seguir os Teus passos e fazer o que me deixaria mais semelhante a Ti. Conheço Tua mente, conheço Tuas ocupações, e sei que estou pronto para avançar ao meu segundo Estado."

Ahman, que também é chamado Eloim, adiantou-se em sua direção, segurou seus ombros com firmeza e disse-lhe, vasculhando-lhe a alma, "Lúcifer, tu és a primeira luz, a Luz da Manhã, a primeira inteligência a se apresentar diante de Mim quando Eu me coloquei à beira do abismo e enfrentei a Velha Serpente, tu foste a primeira consciência a habitar um corpo espiritual em Minha casa, o primeiro filho de Minha primeira Esposa. Por isso, tu e somente tu deverias seguir à frente de todos e ser o primeiro a ganhar um corpo físico na nova Terra que haveremos de criar."

Ao que Heylel respondeu: "Seria uma grande honra ser o Primeiro Pai se fosse a única opção que me restasse, Eloim, mas esta honra eu deixo a Jeová, que existe desde sempre, e que seguirá adiante com o plano que já vem sendo executado em outros mundos."

Ahman, já sabendo o que fermentava no coração de Seu filho indagou: "Então te ofereces como Meu Unigênito e Mediador na carne? Queres enfrentar as demandas da justiça e sofrer as dores de todos os homens?"

Ao que Heylel replicou: "Tu conheces meu coração. Sabes que tenho estudado outras possibilidades. Teus credores exigem o sangue de Teu unigênito porque Teus filhos são ainda incapazes de entender Tua mente e, na sua inabilidade de ser divinos, eles incorrem em erros que permitem que tais credores revoguem a matéria que compraste deles, impedindo assim o Teu acréscimo de glória. Mas o que aconteceria se alguém que pensa como Tu pensas pudesse tomar as decisões pelos Teus filhos? Assim ninguém cometeria nenhum engano e não haveria dívida alguma a pagar! E porque eu estaria à frente deste empreendimento, garantindo que tudo saísse conforme o planejado, suponho que poderia já herdar a parte da glória dessa ninhada que excedesse aquilo que costumas receber ao fim de cada termo. Não achas justo?"

"Nem tudo que é justo promove felicidade, Meu filho. E que felicidade há na coerção?"

"Todos eles terão todo o tempo do mundo para descobrir o que lhes faz felizes quando essa dívida for quitada e pudermos seguir nossas vidas com mais tranquilidade, meu Pai."

"Isso já foi feito antes?"

"Tu sabes todas as coisas, Eloim. Isso nunca foi feito antes, o que não significa que não possa ser feito agora. É um plano totalmente razoável!"

"Nunca te ocorreu que isto nunca tenha sido feito antes em nenhum dos mundos que criei e em nenhum dos mundos criados pelos outros Deuses do Cosmos porque a liberdade de escolha é exatamente o que dá equilíbrio a toda a imensidão dos universos? As demandas da justiça se sentiriam ludibriadas e exigiriam nossas cabeças. Eu deixaria de ser Deus e teu reinado duraria pouco tempo."

"Um Deus é Todo-Poderoso. Podemos tudo o que ousarmos fazer se calcularmos bem. Afinal, terias todo um exército de filhos lutando em Teu favor caso as demandas da justiça se levantassem contra Ti."

"Meu poder reside no respeito que conquistei daqueles sobre quem presido. Se lhes tiro a liberdade, serei visto por eles como tirano. Que respaldo pode ter um ditador que não respeita a individualidade daqueles a quem governa?"

"Dá-me Tua parte nessa herdade e eu Te provarei que todos os meus filhos me renderão respeito."

"Já nem são mais Meus filhos? Yahweh, que achas disto?"

"Pai, seja Tua a honra e a glória para sempre. Envia-me e farei como foi feito em outros mundos, beberei da taça amarga e pagarei a dívida que temos com as demandas da justiça. Não há por que mudarmos um plano que já é perfeito".

Uma gargalhada que nos fez lembrar o cinismo da Velha Serpente ecoou nos átrios da Mansão Celestial. "Sempre ponderado, este meu irmão! Mas como podemos confiar toda a nossa eternidade nos ombros de um semideus que sequer terá lembrança de sua própria divindade? Ao passar pelo véu do esquecimento, Jeová estará tão perdido como todos nós naquela Terra, entregue aos mesmos apelos da natureza humana, um Bode Expiatório correndo sem rumo nos desertos de suas próprias inseguranças. Se ele ceder aos impulsos de sua natureza, até mesmo o Teu Trono, Eloim, o único lugar que conhecemos como lar, estaria em risco. Quero somente Te proteger e proteger estes meus irmãos a quem tanto amo."

Ao ouvir estas palavras, como um eco assustador do passado, nosso Pai fechou os olhos, respirou fundo, aproximou-se de Seu filho e estendeu-lhe a mão.

"Lúcifer, o que sabes tu da condição humana? Tudo o que sabes são palavras e experiências de terceiros pois nunca experimentaste a corrupção do sangue em tuas próprias veias. Ainda que este teu conhecimento seja pleno, ele não é perfeito, pois não é pessoal.

O Meu conhecimento da natureza humana é real e pessoal pois Eu a experimentei. Eu fui homem antes de ser Deus e por ter tido tal experiência mortal sei qual de Meus filhos seria capaz de pagar esta dívida que Eu já não posso pagar por vós.

Se ainda tivesse sangue em Minhas veias, Eu mesmo Me apresentaria diante de nossos credores para saciar sua a sede de justiça, Eu mesmo beberia a taça amarga e seria esmagado diante deles para satisfazer suas demandas. No entanto, todo o sangue que Eu tinha já foi vertido para pagar a dívida de Meus irmãos."

"Esse sofrimento pode nos ser poupado, meu Pai. Já fomos extorquidos pelas demandas da Justiça por muito tempo."

"Não há nenhuma extorsão em nossa relação com as demandas da Justiça, Meu filho, eles nos fornecem as inteligências e os elementos para que façamos nossa obra e exigem um preço para isso. Nada mais justo que paguemos o preço que exigem. Não se pode entender plenamente o amor sem entender plenamente a necessidade da justiça. A justiça tem muitos olhos, enxerga através daquilo que está encoberto, desvenda todos os panos. O amor sem os olhos da justiça é somente paixão. E é esta paixão por Mim e este apego pelo que tens aqui ao Meu lado que te faz incapaz de avançar para o teu segundo Estado. O fato é que não acreditas que teu irmão seja capaz de pagar a tua dívida e temes perder tudo o que aqui conquistaste. E esta paixão distorce a tua visão e faz-te perder a medida da razão que se espera de alguém que ocupa tua posição."

"Eu sou a Luz da Manhã, o filho que mais se aproxima de Tua glória, não elaboraria um plano se não tivesse certeza de que daria certo. Eu amo muito a meus irmãos para colocá-los em perigo. Deixa que eles decidam então. Se respeitas tanto o poder de decisão deles, dá-lhes o direito de escolher o que preferem: se preferem seguir este plano que os outros Deuses executaram antes de Ti e continuam levando a efeito nos universos em que ora habitam — um plano que faz com que muitos se percam e as Demandas da Justiça cresçam seus domínios de tempos em tempos — ou, se querem seguir o meu plano e garantir que todos voltarão à nossa presença livres de qualquer mancha.

Eu lhes ofereço segurança se eles abdicarem da liberdade por um breve período de tempo; Tu ofereces liberdade se eles abdicarem de suas lembranças pelo mesmo período de tempo. Que garantias eles têm de que farão bom uso dessa liberdade cega que este Teu plano antiquado lhes permite ter? E como podem confiar sua expiação a um Bode Expiatório igualmente perdido?"

A este ponto, nosso Pai percebera que as palavras do semideus haviam confundido a muitos de Seus filhos e ergueu Sua voz com grande fúria.

"Meus filhos, há dissensão na Trindade: Lúcifer, a Estrela da Alva, que ocupa um lugar ao Meu lado neste Conselho, apresentou-vos um plano que em nada Me agrada, mas percebo que muitos de vós vos sentistes atraídos por seus argumentos. Se todos em uma só voz apoiardes este plano, não terei outra escolha senão recuar e entregar-vos à própria sorte. No entanto, Jeová, que também serve ao Meu lado neste Conselho, e que entende que, somente vertendo o próprio sangue, poderá levar adiante a obra da Criação, oferece a si mesmo em sacrifício por aqueles que erguerem suas vozes em apoio ao Plano de Felicidade cujos alicerces foram firmados desde antes de existirdes.

O que escolheis?"

Pela primeira vez, aquele planeta onde vivemos o limiar de nossa existência experimentou a desordem do abismo de onde viéramos. E houve grande dissensão entre nós. Uma verdadeira guerra de opiniões se travou. Heylel era muito persuasivo e seus argumentos faziam sentido. Não demorou a ter a maioria dos irmãos mais brilhantes ao seu lado. Mas Yahweh era persistente e carismático. Seu apelo emocional tocou a muitos e por fim conseguiu que a maioria lhe desse apoio.

Finda a votação, o Criador ordenou que todos os que haviam sido favoráveis aos planos de Heylel fossem banidos de Sua presença.

E desde então, Lúcifer e um terço dos espíritos que lhe deram apoio deixaram de ser contados entre os filhos de Ahman. Eles não guardaram seu primeiro Estado, porquanto se opuseram abertamente contra a vontade do Criador, e por esta razão não puderam avançar conosco para o Estado seguinte, mas seu papel nos planos de Eloim estava somente começando.

A Luz da Manhã e as estrelas decaídas se sentiram vítimas da justiça divina que lhes pareceu autoritária e ilógica e, por se rebelarem contra a divindade, se tornaram as Demandas da Justiça do novo Mundo que estava para ser criado, pois somente quem se sente injustiçado pode cobrar justiça com propriedade.


0 pessoas comentaram:

Postar um comentário

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.