26 de janeiro de 2016

Capítulo 6: Uma Cidade de Paredes Translúcidas

26 janeiro Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Como escritor, meu trabalho sempre foi o de guardar registro de tudo. Quando exercemos uma rotina que de fato se comunica com nossa essência, mesmo ao passarmos pelo véu do esquecimento, mantemos resquícios desse conhecimento: são os chamados “ecos da eternidade”. Uma criança compõe uma sinfonia perfeita aos quatro anos de idade e todos acham que ela é a reencarnação terrena de algum músico famoso do passado ou que simplesmente nasceu com alguma anomalia que lhe permite desenvolver áreas cognitivas que os demais não conseguem, mas o que eles não sabem é que naquela Esfera de onde viemos tínhamos acesso à plenitude do conhecimento e a única anomalia dos grandes gênios é simplesmente a de conseguirem lembrar o que era para terem esquecido. Talvez por isso eu sempre tenha tido um relacionamento tão próximo com as palavras. Talvez por isso eu tenha aprendido a ler e escrever dois anos antes de todas as crianças de minha idade. Talvez por isso eu tenha uma habilidade natural em entender outros idiomas e perceber padrões lógicos e interconexões em tudo. Talvez por isso eu tenha ficado mais animado quando peguei nas mãos o meu primeiro caderno do que quando ganhei meu primeiro brinquedo. Quando nos deparamos com algo familiar, sentimos o prazer da adequação.

Ao nascer naquele planeta onde vivíamos antes de vir para esta Terra, meus olhos curiosos se abriram no berço translúcido vasculhando tudo ao redor. Minha Mãe tomou-me nos braços e disse, “Porque tens olhos curiosos, receberás luz e conhecimento. Teu nome será Udiel, e como uma Tocha Divina irás aonde os olhos de teu Pai não alcançam e tomarás nota de tudo o que vires e relatarás aos demais”. 

E assim foi, conforme nossa Mãe havia predito. Quando Ahman esteve em nosso meio e nos escolheu como Seus governantes, me deu a tarefa de tomar registro do desenrolar dos eventos que se deram naquela Esfera.

De fato, cada filho de Zeus tinha a responsabilidade de dar contas de todos os seus próprios atos, palavras e pensamentos, mas os arcanjos registradores eram responsáveis por manterem um registro bem mais amplo. 

Embora cada um dos bilhões de filhos espirituais fosse em essência um indivíduo particular com seus próprios gostos e tendências, suas próprias dificuldades e habilidades, agíamos como se fôssemos um grande corpo espiritual harmonioso e perfeito cujas partes moviam-se em conformidade com os objetivos de sua criação, crescendo em conhecimento até atingir a plenitude de sua capacidade.

Quando Heylel se levantou e fez-nos questionar se a direção que estávamos tomando era de fato a melhor a ser tomada, esse corpo entrou em colapso.

Agora ele havia se dividido em um terço de dissidentes, um terço de fiéis e um terço de indecisos. 

Muitos dos dissidentes haviam sido irmãos nos quais depositáramos grande confiança. Eles escolheram um outro caminho porque tinham progredido a um ponto em que o orgulho lhes fez acreditar que estavam acima de tudo aquilo que lhes era apresentado como verdade. Eles sabiam o preço e não estavam dispostos a pagar uma dívida que tinham assumido antes de terem plena consciência dos termos daquele acordo. 

Muitos dos indecisos estavam divididos entre a confiança que haviam depositado naqueles irmãos dissidentes e o amor que tinham por seu Pai ou o zelo que tinham por si mesmos. Eles haviam apoiado a Lúcifer quando ele lhes apresentou seu plano alternativo, pois os argumentos daquele semideus lhes soaram bastante assertivos. No entanto, não foram valentes o suficiente para manterem sua posição, pois se tal plano vencesse a disputa, Zeus seria destituído de Seu trono e eles não teriam qualquer modelo já visto em outros mundos do que fazer em tal situação. Por medo do desconhecido, reconsideraram sua posição e prestaram apoio a Yahweh. Mas em seu coração, a semente da desconfiança havia sido plantada e já germinava, seguindo com eles para o seu segundo Estado.

Quanto aos fiéis, podiam ser considerados em pelo menos três outras categorias: os cegos, que eram aqueles que não se importavam com os argumentos que lhes eram apresentados, pois já haviam escolhido defender a Ahman e lutariam por Ele com todas as forças sem considerarem o que sabiam sobre si mesmos, sobre aquele Deus a quem defendiam ou sobre as intenções de Seus opositores; os razoáveis, que eram aqueles que tinham crescido em conhecimento e por isso percebiam a gravidade da situação e acreditavam que somente apoiando o plano de seu Pai, poderiam alcançar algum acréscimo de glória; e, por fim, os abnegados, que tinham consciência da delicadeza da situação e não desprezavam o que sabiam sobre si mesmos e sobre Zeus quando consideravam os argumentos de Seus opositores. Estes percebiam o risco que corriam de não verem seu Pai novamente, mas sabiam que, somente apoiando o Seu plano, poderiam ajudar mais de seus irmãos a alcançarem um aumento de glória.

No dia das cerimônias iniciatórias, essa multidão de filhos se apresentou diante de seu Pai para receber um novo nome e as instruções que lhes ajudariam em seu novo Estado.

Nós não tínhamos consciência de como a privacidade afetaria o modo como passaríamos a perceber e lidar com nosso próprio ego. Não fazíamos ideia do que ousaríamos pensar, do que seríamos capazes de dizer e do que teríamos coragem de fazer quando achássemos que tal ato, palavra ou pensamento estaria longe do alcance de terceiros. 

Naquele reino onde vivíamos, tudo que era pensado, dito ou feito era compartilhado. Embora existisse o número zero e o conceito de vazio, nada ao nosso alcance naquela Esfera era de fato sem substância. O mais próximo que conseguíamos chegar da compreensão deste número era o conceito da origem. Mas algo só tem origem se já tiver sido projetado antes, tendo, portanto, substância em potência antes de ser substância de fato, então, mesmo a origem não nos permitia entender a essência do vazio. O número um também nos era conhecido, mas não representava um conceito de solidão, pois para nós tal número representava a unidade, e unidade só existe quando há algo mais a que se unir, portanto todo um já era plural por essência. E porque não havia nada privado, não havia também porque esconder qualquer coisa, fosse ação, pensamento ou palavra. 

Andávamos nus e não havia vergonha da própria nudez nem nos escandalizávamos com a nudez alheia. E nossa nudez não consistia somente de uma ausência de roupas, pois usávamos certas vestimentas quando a ocasião nos exigisse. Era uma nudez de intenções, como se nossas mentes fossem transparentes. Quando se vive em uma cidade de paredes translúcidas, acostuma-se com as transparências.

E o único segredo que guardávamos até de nós mesmos era o de quem éramos de fato. Com tantos nomes e títulos, com tantas aspirações encrustadas, e tão acostumados com o que os outros diziam que haveríamos de ser, não fazíamos ideia do que seria nos despir de tudo aquilo, de todo aquele conhecimento e nos vestirmos de uma carne nova.

Mas nosso Pai sabia. Ele, diferente de nós, era coberto daquela carne. Ele sabia o quanto aquela carne era importante para que conhecêssemos a nós mesmos e nos víssemos como Ele já nos via. 

Ele também sabia o quanto Sua distância nos afetaria, e o quanto aquele novo Estado, por mais curto que fosse, nos faria perceber o que de fato nos deixaria felizes.

Nenhum de nós acreditava que poderíamos ser felizes longe Dele. E por isso Ele precisava nos mandar para longe.

Ele chamou Jeová e Miguel e ordenou-lhes que juntassem um grupo dos melhores geólogos e astrofísicos daquela Esfera e descessem com eles ao lugar aonde haviam aprisionado Heylel e seus dissidentes.

“Há matéria não organizada lá. Descei e organizai tal matéria para que tome a forma de um Mundo como aqueles que Nos viste organizar para outras ninhadas antes da vossa. Este será o primeiro dia da Criação. Levai convosco arcanjos registradores e trazei relato do que por lá fizerdes.”

“Faremos conforme for de Tua vontade, Elohim. Venha Miguel, desçamos.”

“Desceremos, Jeová.”

E Jeová e Miguel, que seriam respectivamente o Salvador e o Primeiro Pai na carne, juntaram os melhores artesãos, os arcanjos conhecedores da manipulação dos elementos, dos astros e das energias que os mantém em órbita, e desceram ao lugar que Heylel e seus anjos chamavam de lar.

E eu, Udiel, estava entre os arcanjos registradores que desceram com a comitiva de Criadores para tomar nota dos eventos que se dariam à face do abismo.

Em vista do tamanho daquele planeta onde morávamos, e da estrela em torno da qual ele girava, um dia para nós seria o equivalente a mil anos nesta Terra onde agora habitamos.

Mas cada um conta o tempo a seu modo, pois aquela hora em que alguém espera que algo aconteça é muito mais longa que a mesma hora gasta para se levar a efeito tal acontecimento. E o primeiro Dia da Criação durou muito mais que somente mil anos para nós. Sozinhos, naquele sistema ainda vazio, em meio à escuridão, cada instante nos lembrava e permitia experimentar de maneira intensa aqueles números cuja essência solitária e vazia nos fora antes tão difícil de assimilar.


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Espero que fique ainda mais nos próximos capítulos... Obrigado pelos comentários, Chris. Se puder divulgar, eu agradeço!

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