3 de agosto de 2016

Capítulo 12 Dentes-de-Leão

03 agosto Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Miguel e seus anjos catalogaram cada espécie de animal aquático ou terrestre, ave ou inseto em sua respectiva classe e reino que, por intermédio de Gabriel e seus anjos, foram conduzidos em casais ou pequenas colônias às naves que já se preparavam para partir.

Mamutes e leões, cervos e ursos, cavalos e lobos, e toda sorte de bestas cuja identidade biológica havia sido, através dos tempos, preservada em algum ponto de seu progresso evolutivo foram transmutados e trazidos ao Seio de Ahman a fim de serem preparados para seu translado final.

Assim como os seres etéreos responsáveis por sua captura, aquelas bestas não tinham corpos físicos, apesar de terem forma e serem tangíveis. Quando digo que não eram físicos, refiro-me ao fato de que eram insensíveis na dimensão física e sua glória era mais tênue que a dos seres mortais, sendo além disso estéreis.

Ora, há seres físicos mortais e imortais em todas as Esferas destinadas à habitação e multiplicação das espécies. Dentre eles, muitos férteis e muitos inférteis. Seres físicos imortais geram entidades etéreas e eternas, imunes aos efeitos da morte e do tempo. Já os seres físicos mortais têm sua progênie limitada à quantidade de inteligências etéreas disponíveis para a manipulação dos vasos mortais que eles produzem, inteligências essas que foram trazidas à luz por aqueles seres físicos imortais que atingiram tal estado através de mecanismos de progresso que agora estávamos nos esforçando por reproduzir.

Não havia ainda nenhum ser de natureza física na nova Esfera, senão as duas árvores que haviam sido transplantadas ao centro do Jardim: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, cujas raízes já se aprofundavam na terra, fertilizando e maculando o solo ao seu redor, as raízes da primeira filtrando os efeitos nocivos da segunda e mantendo o Jardim impecável e pronto para receber nossos Primeiros Pais.

Quando o Cosmos experimentou o calor das primeiras faíscas de vida, passou a rejeitar tudo aquilo que não fosse luz, condenando a matéria escura a uma existência caótica e desordenada.

À medida que o Cosmos se expandia, convertia os elementos caóticos das trevas em matéria etérea e organizada que, transmutando-se conforme sua esfera de evolução, alcançava diferentes graus de glória física e eterna. Um processo que ocorria primeiramente de modo natural e posteriormente de modo manipulado, utilizando-se como matéria prima tais partículas de vida, ou inteligências, como eram chamadas, associadas a elementos também trazidos das trevas que, em contato com o Cosmos, identificavam-se nas mais diferentes formas de vida: a vida silente e serena dos mais diferentes tipos de minerais; a vida meditativa e contemplativa das mais diversas formas de vegetação; a vida instintiva e impulsiva das mais variadas espécies de animais; e, acima de todas essas, a vida do homem que em gritos impulsivos e movimentos instintivos surge como um animal diferente dos demais, que revestindo-se de civilidade aprende a refletir sobre a própria existência e, no calor das experiências, ganha a serenidade e testemunho de uma rocha ao amadurecer. E como rocha, volta ao pó, para do pó ser reconstruído em sua forma perfeita e eterna por Aqueles que são perfeitos e eternos, e vieram antes deles.

A vida é, portanto, energia que corre em pequenos raios sufocados por uma escuridão maciça e opressora que, por mais que se esforce, não a consegue destruir. Ela não tem fim, sua energia inteligente e persuasiva convence partes dessa matéria escura a converterem-se em luz, gerando matéria nova que se transmuta de tempos em tempos em mais elevadas e complexas formas de inteligência, que é a razão da existência dos Deuses e a plenitude de Sua alegria, sendo os próprios Deuses, a forma mais evoluída de vida.

A glória dos seres é, portanto, determinada pela natureza dessa luz ou gérmen de vida que, em maior ou menor densidade, consegue manter sua identidade através das eternidades, e crescer até a plenitude da medida de sua existência.

Assim, um leão nem sempre terá aparência de leão, pois aquilo que chamamos de leão é somente um dos estágios de evolução eterna da glória daquele felino que à princípio nem sequer tinha forma, sendo somente uma potência de existência.

Portanto, quando digo que entre as bestas originais que seriam transportadas ao novo mundo havia leões, refiro-me a algum traço que caracteriza a esfera de progresso deste ser.

Como os animais de reinos de ordem celestial estão em estágios de existência mais avançados que aqueles de reinos de ordem terrestrial ou telestial, Gabriel e seus anjos tiveram que comprar os espectros de tais animais em reinos de glórias compatíveis àquela daquele Mundo que estava agora sendo preparado para a mortalidade, por isso as bestas conduzidas às naves foram trazidas de outros reinos.

Rafael e seus anjos colheram a identidade biológica de todos os animais trazidos por Gabriel para que, por meio de mutações provocadas nas espécies originais, o ciclo evolutivo tomasse seu curso e a diversidade de espécies fosse por fim atingida.

Todas as comitivas eram chefiadas por semideuses que haviam recebido as chaves sacerdotais para a manipulação dos elementos em cada uma das dispensações de existência do novo Mundo. E cada uma das comitivas tinha especialistas em conhecimento secular que auxiliavam esses semideuses em suas tarefas.

Ninlil chefiava uma dessas equipes e seguia na comitiva de Rafael. Ela sabia que muito desse processo evolutivo dependia da intervenção de Samael e seus anjos, porquanto, eles tinham a liberdade de cometer erros por não terem a plenitude do conhecimento naquele campo, e portanto, através de tais erros, criarem um ecossistema hostil, necessário ao ciclo de vida projetado pelas Deidades.

Ela plantara no Jardim uma rosa nos moldes celestiais, cujos galhos eram retesados e lisos e as pétalas eram firmes e viçosas. Quando Samael levou mudas daquelas roseiras para além do Rio e tentou manipulá-las com seu conhecimento limitado, fez com que os galhos se entortassem e brotassem espinhos, que certamente seriam úteis para a proteção daquelas flores num Mundo que se revelaria hostil e selvegem.

Talvez a intenção de Samael fosse de fato destruir a obra divina, como muitos arcanjos acreditavam, mas Ninlil preferia considerar as intervenções de seu amado como necessárias, do contrário, o Criador não teria lhe concedido ainda mais autonomia naquela nova expedição.

Eu, Udiel, ajudei no que me cabia em cada etapa da preparação, embora minha tarefa principal fosse a de tomar nota de tudo o que acontecia em cada uma das comitivas lideradas pelos sete arcanjos, que, sob o comando de Jeová e Miguel, selaram as naves e partiram rumo ao Novo Mundo, cada um fazendo uso das chaves do Sacerdócio que lhes foram confiadas em preparação para os ofícios que exerceriam em seu ministério mortal.

Era noite na nova Esfera quando as naves se aproximaram do Jardim. Na água prateada do Eufrates, desovamos primeiramente as espécies mais rudimentares de invertebrados.

As ninfas correram para avisar Samael, que não demorou a aparecer.

Entretanto, desta vez não veio com a empáfia de sua primeira aparição.

Correu por sobre as águas na direção da nave de Rafael que ainda não havia pousado. Ninlil, vendo que seu amado se aproximava, abriu a escotilha e desceu até ele.

Ele trouxera um dente-de-leão preso em suas mãos. Ao aproximar-se dela, abriu as mãos e soprou. O dente-de-leão se desfez em delicadas jubas brancas que flutuaram ao redor dela levando as sementes que saíram dançando com a brisa.

“Para celebrar a chegada das bestas ao Jardim. Mas principalmente, para celebrar o teu regresso, meu anjo.” Disse ele com um ar de sensualidade em suas palavras.

Ninlil sorriu.

“Estamos nos esforçando para deixar este Mundo ainda mais belo e cheio de vida. E quando tudo estiver pronto, todos poderemos nos regozijar com a obra de nossas mãos. Sei que em outros mundos os Dissidentes e os Filhos de Deus nunca tiveram um bom relacionamento entre si, mas podemos mudar isso, Samael.” Disse a bióloga.

Mostrando um certo desconforto em relação às palavras escolhidas por sua amada, Samael retrucou, “Dissidentes escolhem caminhos alternativos. Nós não decidimos deixar o Lar Celestial; fomos expulsos de lá e condenados a passar o resto de nossos dias nesta prisão.”

“Uma prisão sem paredes ou correntes não é uma prisão de fato, meu querido. Basta olhar ao redor para perceber a beleza deste lugar.”

“Dizes isto porque nunca estiveste em uma. Uma prisão, por mais bela que seja ainda é uma prisão.”

“Uma prisão nada mais é que um estado de espírito, Samael.”

“E o que somos nós todos, senão espíritos? Estarás tão presa a este Mundo quanto eu quando receberes o teu corpo físico.”

“Se estiver presa contigo, isto fará deste Mundo um lar e não uma prisão.”

“Eles nunca permitirão nossa união. Falam de liberdade de escolha, mas que liberdade tens agora? Se te atreveres a fazer qualquer coisa contrária à vontade Daquele que arquitetou tudo isso, serás atirada ao mesmo poço de miséria em que ora me encontro.”

“Jamais deverias ter dado apoio às loucuras de Heylel.” Lamentou Ninlil.

A este ponto um terceiro espectro aproximou-se dos dois, segurando entre os dedos uma das sementes de dente-de-leão que Samael havia soprado ao vento.

“Falando no diabo...” Apontou Ninlil para Lúcifer que se aproximava.

“Senti um certo sarcasmo nas palavras da estrangeira. Ou será que estou enganado? Corrige-me se for o caso, mas sarcasmo não é um artifício da linguagem pura que falais lá em cima. Acho que estás passando muito tempo na companhia de nossos anjos.” Disse Heylel com um espanto fingido, enquanto soprava o dente-de-leão na direção de Samael. “Teu aprendiz vem fazendo um ótimo trabalho em tua ausência. Já não sei se fiz uma boa escolha em apontar-lhe para a posição que ora ocupa, pois agora mais parece um jardineiro que um governante. Quem lhe dará qualquer crédito?”

“Heylel, tu és o príncipe deste mundo. É a tu que todos ouvem.” Disse Samael em sua defesa.

“Até quando? Logo virá o homem e se apossará de nossas terras como foi feito em outros mundos.” Murmurou Heylel. “Já nem chegou e tu já titubeias diante dos argumentos da estrangeira.”

“O que esperas de mim? Quando confrontei os arcanjos antes, tu disseste que seria melhor cooperarmos pois não tínhamos os recursos para erguermos nossas cidades e estabelecermos nossos domínios sem a ajuda deles. Agora nossos domínios se espalham pelos quatro cantos da Terra, cada reino sendo embelezado segundo seu próprio estilo e vegetação. Ninfas, silfos, pigmeus e salamandras modelam os elementos conforme a palavra de nosso poder, alterando a ordem das mais ínfimas cadeias de elementos e gerando mutações de toda sorte para nosso benefício e proveito, conforme Ninlil nos instruiu a fazer. E nada disso seria possível se tivéssemos afrontado os estrangeiros.”

Lúcifer não se conteve com o argumento de seu pupilo e caiu num riso debochado e desrespeitoso. Sua gargalhada provocou a ira de Samael que, sentindo-se diminuído diante de sua amada, precipitou-se sobre o adversário como um fogo consumidor.

Enquanto aquele ser etéreo rasgava-lhe o espectro com suas investidas fulminantes, o Pai da Mentira gargalhava como se estivesse afogando nas águas do Eufrates. Talvez seu riso escandaloso fosse uma constatação assertiva de que, de algum modo distorcido, as peças naquele tabuleiro se moviam conforme sua vontade.

Era como se ele sentisse a necessidade de se afirmar e também de se contradizer, numa busca doentia por um estado vibratório de equilíbrio dentro da desordem e do caos, uma ânsia por reproduzir a bestialidade original, aquela chama autodestrutiva que, no princípio, explodiu em uma nova ordem de existência.

A este ponto, Rafael aproximou-se e ergueu seu braço em ângulo reto diante da desordem e, com a força de suas palavras, lançou os baderneiros para além das margens do Rio.

Ninlil virou o rosto, pois sabia que se corresse para socorrer o seu amado, não poderia voltar ao Jardim. Rafael percebeu seu desconforto e estendeu-lhe a mão.

“Há muito a fazer.”

Ela apertou firme a mão do semideus e juntos subiram num facho de luz para a nave.

Enquanto subiam, ela se sentiu como uma das sementes daquela flor seca de dente-de-leão tentando ainda apegar-se ao que restara de suas certezas. No entanto, o sopro era muito forte e sua única esperança era que, desprendendo-se, pousasse em solo fértil.



2 comentários:

  1. Muito bom! Adoro os capítulos!

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    1. Obrigado!!! Ajuda a divulgar, compartilhando em suas redes sociais. :)

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