25 de agosto de 2016

Capítulo 13: O Quinto Dia

25 agosto Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Nada escapava aos olhos aguçados de Sofia. Já observava há algum tempo aquela aproximação indevida e não lhe agradava o cenário desastroso que antevia para sua irmã.

Quando Ninlil voltou à gigantesca nave que se escondia nas nuvens acima do Éden, Sofia foi a primeira a aproximar-se.

“Estás louca, Lili?” Tomou a irmã pelo braço e correu com ela para o mirante. “Olha e vê a vida pulsando nas veias translúcidas deste Mundo novo: raízes dando firmeza ao solo, copas frondosas que ora se estendem para além do horizonte, as cores, as formas, os sabores! Nosso Pai te escolheu dentre tantos outros de nossa ninhada para vires aqui a fim de tomares parte direta em Sua grande obra de Criação. Nisto deves ocupar tua atenção. Em nada mais. O que houve entre ti e aquele dissidente ficou e deve continuar no passado.”

“Jamais entenderias, minha irmã. Há algo neste Mundo que sacode nossas certezas. Eu acreditava que não me abalaria diante de Samael, mas cada vez que o vejo, quero poder parar as esferas do tempo.”

“É grande o teu valor aos olhos do Criador. E Lúcifer, que bem te conhece, tem ocupado tua mente com distrações vãs e tolas.”

“Em nada me desviei daquilo que me propus a fazer quando aceitei seguir convosco nesta comitiva. Decerto que Lúcifer conhece o meu coração, mas também o conhece o Criador.”

“Minha irmã, não quero privar-te de fazer o que te manda o coração. Peço somente que consideres o risco de te aproximares tanto de alguém que jurou aliança ao Opositor da causa que abraçamos. Não quero te ver enredada numa teia de intrigas que ponha em risco a segurança de tua alma.”

“Entendo a tua preocupação, mas não acredito que se houvesse algum risco real disto acontecer, o Criador me enviaria para esta área do Éden.

Há por certo uma razão para assim tê-lo feito.”

“Decerto que há: para pôr à prova tua lealdade.”

“Ou porque Ele sabe que Samael pode ser resgatado. E há outros como ele. Não te lembras de Ludriach?”

“Heylel é um articulador; Ludriach, apenas um de seus joguetes. E tu estás sendo enredada do mesmo modo. Por que não perguntas diretamente ao Criador o que Ele espera que faças?”

“Sabes melhor que ninguém que Ele não responderia tal pergunta. Ele nunca interfere diretamente em nossas escolhas.”

“Mas Ele aponta o caminho. E já o fez quando compartilhou conosco Suas experiências e a história daqueles que vieram antes de nós para que nos servisse de exemplo.

Mas de algum modo tua visão parece ter sido embotada. Não consegues ver o passado claramente e isto está te impedindo de antever teu próprio futuro.

Esperas que o ciclo de acontecimentos seja quebrado, mas tuas ações são as mesmas daquelas que alimentaram o ciclo em outros Mundos.

É loucura pensar que fazendo o mesmo que fizeram, colherias um resultado diferente.”

“O que esperas que eu faça? Que lute contra a única certeza que tenho?”

“E que certeza é esta?”

“Eu amo Samael, minha irmã. E não é o amor a única força no universo capaz de romper tais ciclos?”

“O amor de fato é uma força transformadora, mas o que sentes por Samael é apenas uma projeção de tal sentimento, afinal, amor é conhecimento e deixaste de conhece-lo no dia em que ele foi expulso de nosso meio.

Samael ama a Lúcifer e tu amas a nosso Pai.

A verdade é que em Ahman encontras segurança. E segurança gera certeza.”

“Nosso Pai é sempre tão enigmático quando fala da mortalidade. Não me espanta que Samael tenha ficado confuso e inseguro.

Foi por medo que ele decidiu apoiar um plano que lhe parecia menos arriscado.”

“Medo e incerteza são sinais de que o amor esfriou. Foi por isso que Lúcifer recebeu a glória que almejava e se tornou pai daqueles que o amaram mais que a Deus.

Talvez tenhas razão de pensares que ao te enviar à presença de Samael, o Todo-Poderoso tenha estendido Sua mão reconciliadora para aquele que outrora foi um de Seus filhos mais brilhantes.

No entanto, é tolice pensar que haja qualquer interesse em reconciliação por parte daquele que deu lugar em seu coração à semente do medo e incerteza até que ela germinasse em dor, traição e morte.

Samael está morto, pois perdeu o amor pela única fonte de vida que existe no Cosmos.

Tu não podes firmar-te em uma esperança vã e deixar-te enredar numa teia da qual não terás forças para te desvencilhar.”

“O que sinto por Samael transcende todas as minhas certezas.”

“Eu sei, Lili. E por isso temo por ti. O que sentes por Samael é ainda mais forte do que pensas. Tão forte que te faz perder a razão de todas as coisas.

Por isso mesmo te digo: o que sentes não é amor. Sentes desejo, necessidade dele.

Chorei ao teu lado quando ele foi expulso com os outros. Sei o quanto querias que ele tivesse percebido a gravidade de sua posição diante do Conselho. Mas ele não percebeu.

Por isso eu te peço que não faças o mesmo que ele.”

“Entendo gravidade de minha posição, e assusto-me ainda mais por saber que o que eu sinto por Samael é muito mais que desejo.”

“Mais intenso, sim; maior, não, minha querida.

A paixão é o mais impulsivo e intenso dos sentimentos. Ela consome todas as certezas e nos deixa cegos. No entanto, se não há algo sólido sob suas chamas, o que resta são cinzas e fumaça.

Já o amor cresce em silêncio e de repente a tudo preenche. Este sim é o maior dos sentimentos.

O que tem causado esta confusão em tua alma é a incerteza cega da paixão.”

“O que eu faço, Sofia?”

“Não te percas, minha irmã.”

As duas se abraçaram no mirante.

Lá embaixo, sob o comando de Jeová e Miguel, os outros arcanjos continuavam a obra da Criação.

As primeiras formas de vida animal foram desovadas nas águas do Yehwprat, à semelhança do que havia sido feito na intervenção anterior que desenvolvera a flora do novo Mundo.

Respeitando a ordem de complexidade e projeções de evolução e involução de cada espécie, vários estágios de desova foram executados até que os primeiros peixes começassem a nadar nas águas do Eufrates.

Algumas alterações na estrutura desses animais originais foram feitas para que se adaptassem às regiões onde eram primeiramente alocados; outras seguiram seu curso natural à medida que eles se espalhavam e eram expostos às intempéries dos trópicos e dos tempos.

Dos elementares aos viscosos, dos viscosos aos firmes, dos firmes aos encorpados, a vida animal foi tomando seu curso.

Peixes, insetos, salamandras, serpentes, aves, morcegos e outras criaturas em todas as suas variedades; o elefante, o leão, o tigre, o urso, o cavalo, e outras bestas em todas as suas variedades; cada espectro animal que fora trazido naquela comitiva recebia, dos elementos desta Terra, uma estrutura física compatível com seu papel nos ciclos de desenvolvimento e manutenção da vida no novo Mundo.

Enquanto isso, seguindo o conselho de Sofia, Ninlil procurava evitar contato com os dissidentes, e seguia com seu trabalho, acompanhando cada passo daquela expedição.

Seu coração, no entanto, não esquecia Samael.

Ao fim daquele côvado de anos, depois que todos os animais já haviam sido alocados e treinados, um grande ajuntamento deles foi feito no Vale para que recebessem as últimas instruções antes que a comitiva partisse.

Jeová e Miguel, e toda a hoste de arcanjos que lhes haviam auxiliado nesta quinta intervenção se ajuntaram para comer, beber, cantar e compartilhar experiências e instrução.

Dirigindo-se a Miguel, disse Jeová:

“Agora que a Terra está formada, dividida e embelezada; agora que já bebemos do fruto da videira e comemos do trigo plantado no nosso próprio Jardim; agora que a vegetação se espalha para além dos horizontes que conseguimos enxergar e, a nosso modo, sentimos o mormaço agradável desta terra fértil e respiramos o ar puro e bebemos da água cristalina que em abundância corre nos leitos de seus rios; agora que há vida animal nos quatro cantos da Terra, tendo cada espécie um papel a cumprir na sustentação do equilíbrio desta esfera de existência; agora podemos voltar a Kolob e dizer a Eloim que o homem já pode ser trazido ao Jardim.”

“Sim, Jeová. Esta Terra tem uma beleza singular. E nada disto seria possível sem a ajuda de toda esta comitiva de valentes representantes do Sacerdócio divino, coparticipantes na grande obra da Criação.

Sentirei saudades de todos nos milênios que haverão de nos separar até que nos encontremos todos novamente para a última instrução antes da restituição de todas as coisas.”

“Mas não ficarás sozinho, Miguel. Eu te visitarei com frequência e te ajudarei a lembrar das coisas que haverás de esquecer. E terás também uma ajudante. Alguém que te fará companhia e que te conhecerá da maneira mais íntima que um ser pode conhecer a outro. E porque vos conhecereis, seu coração será teu, e o teu, dela; de modo que sereis um. Juntos, enchereis a Terra.”

“Agora que tudo está pronto, revela-nos quem será a Mulher que haverá de me fazer companhia.”

Jeová levantou-se e dirigiu-se até Sofia e perguntou-lhe: “Onde está tua irmã?”

Por um instante, Sofia pensou que ela mesma seria a escolhida. E seu semblante não conseguiu ocultar seu descontentamento ao ouvir de Jeová aquelas palavras. Também porque sabia que sua irmã estava confusa e aquilo poderia pôr em risco todo o trabalho que haviam realizado, dando a Lúcifer uma maior possibilidade de êxito.

Sophia apontou para Ninlil, que já se erguia desconcertada com a surpresa.

Jeová foi até ela e tomou-a pela mão, conduzindo-a até Miguel.

“Este será Adão, o Primeiro Homem. E esta será Lilith, a Primeira Mulher. Ambos serão destituídos de sua condição de arcanjos, passarão pelo Véu do Esquecimento, e receberão um corpo físico como o de Nosso Pai que está nos Céus, feito a partir dos elementos desse Mundo que nós mesmos criamos. Eles não serão mais somente etéreos como nós, mas físicos e tangíveis como Aqueles que nos deram à luz, e como tudo o que nos rodeia nesta nova Esfera que pela palavra de nosso poder foi assim criada.

Por terem corpos físicos, poderão gerar filhos com corpos igualmente físicos, corpos estes que serão vivificados por toda a hoste de seres etéreos de nossa ninhada, nossos irmãos, com exceção dos dissidentes que seguiram o Adversário, pois esses já receberam sua glória e nada mais lhes será acrescido.

Deste modo, Adão e Lilith serão os pais de toda a humanidade.

Todos a favor, manifestem-se.”

Todos levantaram o braço direito em ângulo reto, como sinal de apoio. Sofia foi a penúltima a levantar o braço e Lilith a última. O voto foi unânime.

“Pela palavra de nosso poder, comandamos todas as bestas, aves e peixes, insetos e toda sorte de coisas rastejantes e outras formas de vida animal a desenvolverem sua essência instintiva e se multiplicarem em seus respectivos elementos, cada uma conforme a sua espécie, respeitando a quantidade de espectros trazidos para a esfera espiritual deste Mundo físico.

E comandamos a cada tipo de vegetação a multiplicar-se em sua esfera física, respeitando a quantidade de elementos ali disponíveis, manipulados através da fermentação natural que os próprios ciclos de vida haverão de gerar.

E que assim, cada forma de vida possa atingir a medida de sua criação e encontrar nisso o seu regozijo.

Concluiremos aqui os nossos trabalhos e chamaremos esta intervenção de Quinto Dia.

Voltaremos para relatar ao nosso Pai o que fizemos e iniciar os preparativos para nossa última intervenção.”

“Assim seja.” Responderam todos.

Na outra margem do Rio, Samael assistia a tudo e se contorcia a cada palavra, como uma serpente que se despe de uma antiga pele. Heylel aproximou-se. Colocou a mão em seu ombro e abriu um sorriso cínico.


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