3 de setembro de 2016

Capítulo 14: Um Anjo Divergente

03 setembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Assim que as naves aportaram em Kolob, Ninlil foi ao encontro de Ludriach. Ela sentia que ele poderia ter as respostas que ela buscava.

Ludriach era um anjo registrador e, por muito tempo serviu ao lado de Lúcifer quando este ocupava um lugar na Trindade, a cúpula reguladora de todos os assuntos concernentes ao bem-estar e progresso eterno de nossa ninhada.

Ora, segundo a ordem celestial, para que haja proliferação eterna e natural das raças, domínios complementares precisam se encontrar e, pelo balanço das características de cada um, gerarem novos domínios passíveis de complementação. Outras ordens de glória permitem outras formas de reprodução, no entanto, quanto maior a complexidade da espécie, maior é a possibilidade de que hibridismos e enxertos enfraqueçam os ciclos férteis, um risco a que um reino de ordem celestial jamais poderia se expor.

De modo que, todos os espíritos já nascem naquela esfera celestial com um gênero definido, com o propósito de encontrarem seus domínios complementares a fim de promoverem tal proliferação.

Desse modo, raças divinas geram filhos espirituais; na queda, essas raças espirituais evoluem para raças humanas; na redenção, raças humanas evoluem para raças divinas, que perpetuam o ciclo eterno das gerações.

No entanto, havia e há muitos espíritos em nossa ninhada e nas ninhadas precedentes à nossa que não se identificavam com o próprio gênero, desenvolvendo atributos divergentes, tanto em interesses quanto na manipulação da própria constituição corpórea.

Tal divergência era percebida pelas Deidades como uma maneira de se encontrar felicidade particular longe do escopo celestial.

Embora os Deuses não fossem totalmente claros sobre Sua posição a respeito do comportamento de tais inteligências, Eles compreendiam a necessidade da divergência, afinal, há outras leis de progresso eterno distintas da ordem celestial que estão sob o escopo de Sua influência e nos limites de Seus domínios.

Já Lúcifer, por firmar-se tão ferozmente nos princípios da Justiça divina, encarava tal comportamento como uma aberração. O que era naturalmente compreensível, já que crescemos e amadurecemos ouvindo que éramos a joia mais preciosa na fortuna de nosso Pai.

De todas as mansões e mundos, de toda a imensidão de Suas criações, nós, Seus filhos éramos a razão de Sua felicidade. De modo que a glória, isto é, a fortuna de um Deus está nas inteligências que Ele gera e consegue manter junto de Si.

Observando tais fatos com uma mente prática, Heylel condenava qualquer comportamento que afastasse tais inteligências do destino para o qual haviam sido criadas, ainda que tal divergência fosse de fato a única alternativa que tais espíritos viam de alcançarem sua plenitude.

Tal qual um homem de negócios, Lúcifer via reinos alternativos de glória como um desperdício de investimento. Ele conhecia a Justiça e estava disposto a satisfazer cada uma de suas demandas quando criou seu próprio Plano de Salvação.

Se ele conseguisse manipular cada tendência divergente de modo a endireitar os caminhos de todos os espíritos daquela ninhada, haveria um acréscimo arrebatador de seres exaltados ao fim da experiência mortal daqueles filhos de Deus, de modo que todos herdariam a glória celestial e outros reinos de progresso divergente não seriam necessários, de modo que ele poderia utilizar os elementos excedentes para criar seu próprio reino celestial e arrebanhar aqueles que lhe quisessem ter por Pai e, desse modo, igualar-se ao Criador em domínios, glória e influência.

Ele sabia que poderia contornar as tendências divergentes de seus irmãos se pudesse, ainda que por um breve espaço de tempo, privá-los de sua liberdade de escolha.

Por isso, Ludriach foi chamado como seu ajudante.

Sabendo que o contador era um desses espíritos divergentes, Heylel quis provar que tal manipulação seria inofensiva e faria de seu irmão um ser mais elevado.

Muitos dos espíritos não tinham consciência da própria divergência, portanto, a primeira medida foi expor tal tendência.

Heylel era naturalmente sedutor e sabia utilizar-se disso para conseguir aquilo que desejava.

Enquanto o contador fazia os cálculos e registros de cada uma das projeções do visionário semideus, Lúcifer despertava-lhe o fascínio com um discurso doce e brilhante que expunha todo o seu vasto talento nas mais variadas esferas do conhecimento.

Quando se pensa em atração numa esfera carnal, pensa-se em sangue e hormônios, e em todas as reações elementares causadas pela vibração magnética gerada pela proximidade real ou projetada dos objetos dessa atração, por isso talvez o coração seja a representação humana mais próxima do que seres mortais conhecem por sentimento.

No entanto, numa esfera espiritual, embora haja corpo, não há sangue. E por não haver sangue, não há a fisicalidade do desejo.

Desse modo, a atração que se sente por um pai, por um irmão, por um amigo, por um mestre ou por um amante são facilmente confundidas.

O desejo de Ludriach por Heylel era visível. Assim como era visível o desprezo que Heylel sentia pelas investidas constantes de seu ajudante.

Por vezes, ele se insinuava para o contador, mas quando este se demonstrava interessado, Lúcifer o repreendia aberta e ferozmente.

“Quem pensas que sou?” Dizia o semideus enojado. “Afasta-te de mim. És um espírito defeituoso, precisas de correção. Jamais serás admitido de volta à presença do Criador se não aprenderes a controlar os teus desejos. Não é natural que sintas tal atração por uma outra inteligência do mesmo gênero.”

Ele o acorrentava, amordaçava, e chicoteava, enquanto mostrava projeções de mortalidades em que ambos viessem a se cruzar.

“Vês o que sucederá se não te endireitares? Eu te deflorarei com violência e te ferirei, derramando o teu sangue corrompido sobre o solo sagrado do novo Mundo, e ainda assim serei justificado pois és uma abominação.”

“Me deflorarás porque no fundo me desejas tanto quanto eu desejo a ti. E agirás com violência porque não compreenderás este desejo, assim como não o compreendes agora.”

“Tu que não compreendes, criatura leviana. Todo o Cosmos se comprime de dor diante de tamanha aberração.”

Ele então o abraçava e beijava e dizia que tudo aquilo que estava fazendo era para protegê-lo daquelas agruras que um mundo hostil poderia lhe causar por causa de sua divergência.

Ele dizia que o amava e que o queria ao seu lado para sempre, e por isso precisava que o contador lutasse contra aquelas tendências.

Mas todos os seus esforços só pareciam alimentar os desejos divergentes de Ludriach.

Quando se é um semideus, não se admite fracassos, por isso, quando o contador não reagia conforme as expectativas do articulador, este virava o rosto e ignorava a presença daquele.

Tal desprezo constante foi sim capaz de surtir algum efeito em Ludriach, de modo que seu coração foi secando aos poucos.

Talvez por proteção, ele se despiu de todo o desejo, tornando-se amargo como as sementes do fruto do conhecimento.

Heylel sentiu-se vitorioso. Ele sabia que não havia de fato curado a divergência de seu ajudante, mas tamanha era sua influência sobre o contador que tinha por certo que aquela infeliz alma desceria à mortalidade com um coração tão amargo que seus desejos divergentes jamais se manifestariam na carne.

E onde não há ação, a Justiça fica de mãos atadas, de modo que Ludriach estava pronto para seguir rumo à mortalidade e voltar dela apto para viver numa esfera de ordem celestial, tendo reprimido sua essência ao ponto de querer tirar a própria vida caso maculasse de algum modo sua identidade.

Quando Heylel apresentou seu Plano no Grande Conselho e leu todo o registro que o próprio Ludriach fizera de sua experiência, Ahman chorou diante da crueldade que Seu filho mais brilhante, a Luz da Manhã, fora capaz de cometer em nome da Justiça.

Num ímpeto de piedade, chamou Ludriach à Sua presença, arrancou sua mordaça e correntes e o envolveu nos braços de Seu amor.

“Meu filho”, disse o Criador, “levanta a cabeça. O bem mais precioso que tens é tua liberdade. Não permitas que ninguém te aprisione novamente.”

Ludriach empurrou o Criador.

“Tu sabes todas as coisas. Por que me fizeste diferente dos demais? Tu não me amas. Sabias desde o começo que assim como me fizeste eu jamais poderia voltar à Tua presença. E se assim o fizeste é porque nunca me quiseste ao Teu lado.”

“Estas palavras não são tuas, Meu filho. Não turves o teu entendimento.

Eu não te fiz assim; Eu te quis assim.

Eras propenso à desenvolveres tal atração desde antes de te formares.

Não posso dizer que amo a tua divergência, mas Eu te amo por seres divergente, pois sendo assim, és um ser único.

Há quem consiga se transformar através dos tempos, mas tal transformação não pode ser imposta por correntes, violência e medo. Somente o amor possui essa força transformadora. E o amor não repreende. O amor compreende.”

“Decerto que não haverá transformação alguma. Secou todo o amor que havia em mim.

E Tu, que sabes de todas as coisas e nunca Te surpreendes, nada fizeste para impedir todo o sofrimento a que fui exposto num lugar onde aprendemos que não deveria haver dor alguma.”

“Meu filho, entendo tua ira e sinto a tua dor.

Existirão muitos que não entenderão o Meu silêncio e se revoltarão contra Mim, quando de fato deveriam tentar perceber quem são os seus verdadeiros algozes, pois no fundo, todos vós sois aprendizes, e aprendizes cometem erros, e erros causam sofrimento em si mesmos ou nos demais.

No entanto, é diante do sofrimento que provais quem de fato sois.

Podeis desenvolver a humildade que vos permite enxergar toda a grandeza do que está além de vosso sofrimento, ou podeis vos entregar ao orgulho que vos cega até mesmo para enxergar a mão amiga que se estende em vosso auxílio.

Por isso, não posso concordar com um Plano de Salvação em que não haja divergência.

O Plano de Lúcifer firma seu alicerce na coerção para eliminar tudo o que fere a lei celestial.

Ele determina o caminho, manipula a todos para que façam sua vontade e todos encontram vida eterna no final de sua jornada. Ninguém sofre, ninguém erra, e por isso, ninguém percebe o valor do acerto ou da felicidade, de modo que todos se tornam deuses imaturos na ressurreição.

Que espécie de Cosmos haveríeis de criar para vossos filhos?

Eles não saberiam reconhecer o potencial do cascalho, pois só buscariam pelo mármore, de modo que as Criações cessariam e haveria disputa entre as próprias deidades para regulamentar um Cosmos sem cores e sem sabores.”

Ludriach deixou a Sala do Conselho enquanto os Titãs disputavam sobre o destino de Seus filhos.

Quando os Planos foram apresentados aos demais espíritos de nossa ninhada para que decidissem se apoiariam a Jeová ou Heylel, todos ficaram surpresos quando Ludriach se apresentou em defesa do plano de Jeová.

Lúcifer e seus anjos foram expulsos, mas Ludriach permaneceu com os remanescentes de nossa ninhada, embora tenha sido destituído de sua posição junto aos Deuses.

Desde então, manteve-se afastado dos demais, cuidando apenas das projeções de sua própria existência.

Por isso Ninlil quis conversar com ele quando voltou desta quinta intervenção, após todo o esforço que fizera para afastar-se de Samael.

Ela precisava saber por que Ludriach mudara de ideia, o que lhe dera forças para resistir à tentação de sua atração. Mas ele se recusou a falar com ela sobre o assunto.

A única pergunta que fez é se Heylel continuava tão belo quanto nos dias em que estiveram presos à mesma corrente.


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