30 de dezembro de 2016

Capítulo 22: A Queda

30 dezembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Sete vezes vieram as chuvas para regar as plantas do Jardim, e alimentar os veios do Eufrates. Sete vezes desabrocharam as flores, e borboletas coloridas enfeitaram os céus do Paraíso. Sete vezes o Sol brilhou mais forte sobre o Éden, e a vida seguiu seu curso.

No início do oitavo ciclo desde que os Deuses haviam voltado de seu descanso milenar, enquanto realizava suas tarefas costumeiras, Eva ouviu a voz de um estrangeiro entre os arbustos.

“De onde venho, por esses dias, as copas das árvores costumam ganhar uma cor alaranjada, o vento sopra mais forte, as folhas caem e apodrecem pelo chão, e os raios do sol refletem uma luz tão bela ao entardecer que enrubesce a face do céu antes de finalmente escurecer.

No entanto, deste lado do Rio, a água é sempre cristalina, o céu está sempre azul, as folhas só caem das árvores se as arrancamos.

Tudo aqui parece tão ridiculamente artificial!”

“Quem és?” Perguntou Eva assustada.

“Sou teu irmão.” Disse o estrangeiro, aproximando-se dela. “És ainda mais bela que a primeira mulher.”

“Não sei de uma mulher antes de mim. Nem sabia que tinha outro irmão além de Adão.”

“Sabes tão pouco, minha pequena.” Disse Lúcifer com ironia, presumindo que era o espírito de Sophia que dava vida àquela pequena marionete de carne e ossos diante dele.

“Sei o que o Pai nos revelou. E isto me basta.”

“Asseguro-te que isto que ora te parece bastar não é nada diante do que foi reservado para ti.

Crês que o Pai sabe muitas coisas?”

“Ele sabe todas as coisas.”

“E como achas que Ele aprendeu tudo isso?”

“Ele sempre soube. Ele é o mesmo desde o princípio.”

“Ele é o mesmo desde que tu O conheces; portanto, desde o teu princípio. No entanto, muito antes da criação deste mundo, muito antes de receberes tuas primeiras lições nas Mansões Celestiais, Ele foi um homem como Adão; e nossa Mãe, uma mulher como tu.

Mas não te assombres, é de fato difícil para os filhos imaginarem que seus pais tenham passado por experiências semelhantes às deles, pois para os filhos, todas as experiências lhes são novas, e sendo assim, apropriam-se delas como se fossem unicamente suas.”

“Nunca falei sobre essas coisas com o Pai.”

“Deverias. Ainda não percebeste como Ele veio a ganhar todo o conhecimento que agora tem?”

“Sempre acreditei que Ele sabia de todas as coisas desde o princípio.”

Lúcifer pegou um graveto e desenhou um círculo no chão.

“Onde é o princípio?”

Eva apontou para o lugar onde Lúcifer começou a tracejar.

“Foi aqui onde o graveto primeiramente tocou o solo.”

“Muito bem, minha pequena.”

Lúcifer virou as costas para Eva e desenhou um novo círculo no chão passando o graveto várias vezes pelo mesmo traçado.

“E agora, onde é o princípio do novo círculo?”

“Não sei. Não me deixaste ver por onde começaste a gravura.”

“Embora o círculo pareça uma linha sem princípio ou fim, quem o fez sempre sabe por onde começou. Assim é a eternidade. Por que não perguntas ao Pai como foi o Seu começo? Como Ele veio a ser Deus? Como Ele veio a saber tudo o que sabe?”

“Não sei quando o Pai voltará ao Jardim. Ademais, de que me serve saber essas coisas?”

“Não gostarias de ser como Pai?”

“Sim.”

Lúcifer olhou ao redor com um sorriso no rosto e apontou para o centro do Jardim.

“Como se chama aquela árvore de folhas vermelhas?”

“Aquela é a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.”

“Se desejas conhecimento, por que não comes do seu fruto?”

“Porque o Pai nos proibiu. Ele disse que se comêssemos dela, certamente morreríamos.”

“Não me espanta que penses assim, pois Medusa, tua irmã, disse ter recebido a mesma ordem do Pai; entretanto, comendo ela do fruto, grande foi o seu gozo, porquanto seus olhos foram abertos, e tornou-se, como os Deuses, conhecedora do bem e do mal.

De fato, se quiseres, posso levar-te agora até o lugar de sua habitação, e poderás ouvir de sua própria boca o mesmo relato.”

“O que é isto que dizes? Achas que o Pai nos enganaria? Ele jamais daria uma ordem a Seus filhos que não pudesse ser cumprida. Como podes pensar isso Dele?”

“Não disse o que penso sobre o Pai. O que disse é que, talvez por ainda não teres o conhecimento de todas as coisas, tenhas agido como tua irmã que não conseguiu compreender as razões que geraram tais instruções que do Pai recebeu, tomando por lei perene um conselho que seria meramente provisório.

Eu falava sobre tua irmã, e sobre como ela, tendo comido do fruto daquela árvore, ganhou um conhecimento semelhante ao do Pai. E tu, apressadamente e erroneamente, julgaste que eu havia falado do próprio Pai. E acusaste-me de perjúrio.”

Eva tentou desculpar-se, mas Lúcifer continuou, “Entendo que o fizeste por inocência. Mas o que acontecerá se não puseres fim a este ciclo de desentendimentos? Por isso, afirmo que deves comer do fruto, pois ele te libertará desta prisão aconchegante em que vives, permitindo que traces teus próprios novos inícios. E ao fim de cada ciclo, te perceberás mais madura. De modo que, por própria experiência, saberás o que é bom para ti e o que não te faz bem.

E digo isto porque sou teu irmão e me preocupo contigo.”

“Não há outro meio de se conseguir este conhecimento de que falas?”

“Se há, eu não o conheço. Ademais, vieste para este mundo para seres a mãe de todos os viventes. Não é este o significado de teu nome?

Se não comeres do fruto, jamais poderás cumprir este mandamento do Pai, pois tua medula não produz sangue, e sem ele, teu corpo não pode gerar os tabernáculos carnais que o Pai precisa para trazer a este mundo Seus filhos espirituais que ora estão espalhados e andam errantes pela Terra.

Embora tenhas sido construída com matéria orgânica pura, e recebido comandos que te permitem realizar as tarefas que de ti são requeridas e, em tua artificialidade, ages muito semelhantemente à maneira de uma criatura humana natural, não o és. E por não seres natural, não conheces a natureza. Pois, se a conhecesses, saberias que tudo necessita de oposição. De fato, o Pai não seria um Deus se não conhecesse o mal, em todas as suas formas. Pois, se conhecesse somente o bem, não saberia distinguir o acerto do erro, e jamais poderia agir com justiça. Ele entende a necessidade da morte, pois conhece a vida; valoriza a saúde, pois experimentou a doença; compreende a importância da virtude, pois conhece a face da maldade.”

“Estás certo, meu irmão. Eu comerei do fruto.”

A menina foi até a árvore, mas mesmo os galhos mais baixos ainda eram mais altos que os seus bracinhos conseguiam alcançar. Ela não estava acostumada a subir nas árvores para colher frutos como Adão que já era homem crescido, pois no Jardim todas as plantas davam frutos ao alcance de suas mãos.

Não sabendo o que fazer, sentou desconsolada.

“Eu não os alcanço.”

Lúcifer esticou os braços e alcançou dois frutos bem maduros.

“Toma.”

A menina pegou um dos frutos e comeu.

“Muito bem. Agora tua carne se encherá de sangue e tu produzirás semente e poderás ser de fato a mãe de todos os viventes. Mas nenhuma semente gerará filhos se não for fertilizada. Por isso, Adão também precisa comer do fruto. Agora vai e leva o outro fruto para ele.”

“De fato, não morri, como disseste. Mas me enganaste quanto ao conhecimento. Nada de bom ou mal foi-me revelado após comer deste fruto. Nada mudou em mim.”

“Tua face está mais corada e vê-se que o sangue já começa a correr em tuas veias. Quanto ao conhecimento, ele virá com o tempo. Terás muitas experiências boas e ruins quando deixares o conforto deste Jardim. Agora vai e convence o homem a comer do fruto. Do contrário, ficarás sozinha e improdutiva como tua irmã nas terras a leste do Éden.”

“Virás comigo? Não tenho o teu conhecimento para saber o que dizer ao homem a fim de convencê-lo a comer do fruto.”

“Não te preocupes. Saberás o que dizer.”

Lúcifer desapareceu por entre as árvores.

Eva lambeu os dedos e foi até Adão.

“O que houve, criança?” Disse Adão, correndo na direção da pequena, que cambaleava.

“Estou bem. Está tudo bem.”

Adão limpou a fronte de Eva, que ardia em febre. Tomou-a em seus braços e correu na direção do altar.

“Teu rosto está corado; tua pele, quente; e não paras de suar. Certamente não estás bem.”

Entorpecida, Eva via tudo girar ao seu redor e sorria.

“Não te preocupes, estou bem. Sou como os Deuses agora.”

“Estás delirando. Não digas heresias.”

“Comi deste fruto. Seu sabor acre incomodou-me no princípio, mas acostumando-se o paladar, parece-me o fruto mais saboroso que já provei no Jardim. Tão gostoso que não resisti e mordi também um pedaço deste que eu trouxe para ti.”

“O que fizeste, minha pequena? Sabes que fruto é este?”

“Sim, é o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Mas ao que parece, o fruto não traz conhecimento algum. Apenas deixou minha mente mais leve e o meu corpo febril. Come dele e vê por ti mesmo.”

“Não posso comer deste fruto. Não te lembras que o Pai nos proibiu de fazê-lo? Ele disse que se comêssemos dele, certamente morreríamos. Perdi minha primeira esposa por causa deste veneno, não posso perder-te também.”

“Eu estou aqui. Não me perdeste. Nem tampouco perdeste tua primeira esposa. Ela apenas não pôde permanecer no Jardim depois de comer do fruto. E o mesmo acontecerá comigo.”

“Por quê fizeste isso?”

“Porque percebi que as leis que recebemos são conflitantes. Se cuidarmos do Jardim e não comermos do fruto, permaneceremos aqui para sempre; no entanto, as primeiras e maiores leis que recebemos nos instruem a sair do Jardim e encher a Terra, assim como fazem as outras criações divinas.”

“Eu obedecerei todas as leis que o Pai nos deu. Ele não nos daria leis conflitantes. Deve haver alguma maneira de cumprirmos todas as demandas da Justiça.”

“Estás há mais de um milênio tentando entender os enigmas dos mandamentos do Pai e até agora te firmas no cumprimento das leis que te são mais fáceis de obedecer e ignoras a necessidade de cumprires as leis que são de fato mais importantes.”

“Todas as leis são igualmente importantes aos olhos do Pai.”

“Não Adão. Todas as leis são igualmente importantes aos teus olhos, pois eles ainda não se abriram para entenderes que há mandamentos mais importantes que outros.”

“Por que pensas assim?”

“O Pai nos colocou neste Jardim para que tivéssemos uma ideia do que Ele espera que seja o resto do mundo que Ele criou. Sozinhos, não conseguiríamos fazer essa tarefa, por isso ele nos instruiu a aprendermos com os animais a nos multiplicarmos e enchermos a Terra.

Num mundo imperfeito, haveremos de enfrentar muitos desafios e nada será fácil como é aqui. Mas é com esses desafios que cresceremos e conheceremos o bem a partir do mal, tornando-nos como os Deuses.”

“O Pai te revelou essas coisas?”

“Não.” Eva desfaleceu nos braços de Adão.

O homem chorou, pensando que havia perdido sua segunda esposa.

Enquanto esteve desacordada, os olhos espirituais de Eva foram abertos e ela viu um breve “eco” de sua eternidade.

Estava diante do trono do Altíssimo e Lúcifer era expulso com um terço dos anjos que lhe deram apoio. A lembrança era tão vívida que Eva podia sentir o toque do carpete de lã finíssima sob seus pés.

Adão ergueu suas mãos e clamou aos Céus por ajuda.

Neste momento, a menina voltou a si. Viu que o fruto ainda estava em suas mãos e ofertou-o novamente a Adão.

“Come do fruto e participa comigo das maravilhas desta transformação. Do contrário, ficarás sozinho neste Jardim e não poderás cumprir as leis maiores que o Pai nos deu.”

“Estás certa. Foste mais corajosa que eu; pois percebendo o que deveria ser feito, fizeste.

Comerei do fruto para que o homem possa existir e espalhar-se pela Terra, para que, em sua engenhosidade, agrade o Criador e cumpra os Seus desígnios.”

Dizendo isto, Adão pegou o fruto da mão de Eva e o comeu.

Neste momento, Lúcifer surgiu ao lado do altar.

“Muito bem. Dentro em breve o sangue começará a correr em tuas veias e deixarás a artificialidade desta tua existência mecânica e te tornarás um homem natural, como deverias ter sido desde o princípio.

Sereis expulsos do Jardim por terdes desobedecido os mandamentos do Criador e habitareis no mundo que preparei para vós, onde conhecereis a tristeza e o pesar.”

Eva já havia ficado de pé e abraçou Adão.

“Será melhor assim, pois se não enfrentarmos tais sentimentos, jamais compreenderíamos o valor da alegria e do gozo. No mundo, estaremos expostos ao mal para que possamos conhecer o bem.”

Virando-se para o estrangeiro, continuou. “Eu te reconheço agora. És Lúcifer, o filho da Alva. Fizeste oposição à vontade do Criador e foste expulso de Sua presença.”

“Sim. Vê-se que teus olhos já se abriram.”

Voltando-se para o homem, continuou, “Adão, toma estas folhas de figueira e faz um avental semelhante ao meu e cobre tua nudez.”

“Por que eu faria isso?”

“O sangue logo encherá todas as tuas veias, e não é certo que exibas a rigidez de tuas vergonhas diante de uma criança.”

“Nossa nudez nunca ofendeu os olhos do Pai. De fato, Ele nos fez assim. Os animais machos exibem sua rigidez diante das fêmeas do Jardim e não há mal algum em tal comportamento.” Disse Adão.

“Não és um animal, Adão. És um filho de Deus. E como tal, deves agir com um pouco de civilidade.” Explicou Lúcifer.

“Civilidade?” Adão não conhecia aquela palavra, mas Lúcifer não parecia muito interessado em satisfazer sua curiosidade.

“Cobre-te. Pois o Pai está vindo e, se a mulher não se ofende diante da rigidez de tuas vergonhas, certamente Ele se ofenderá. Queres despertar a ira do Criador?”

“Esperarei o Pai voltar ao Jardim para me dar novas instruções como Ele havia prometido.”

“E se Lúcifer estiver certo e nossa nova condição ofender de fato os olhos do Pai?” Disse Eva apreensiva, pois agora reconhecendo o Adversário, já não sabia se havia feito a coisa certa ao comer do fruto.

“Por que falas assim?” Disse Adão, percebendo o temor nas palavras da menina.

“Que mal há em fazermos aventais para nos cobrirmos?”

“O que temes?”

“Lúcifer me induziu a comer do fruto. E me fez acreditar que eu deveria convencer-te a fazer o mesmo. Eu confiei nele, pois achei que fosse meu irmão, como disse. Mas agora sei quem ele é, e temo que tenhamos sido enredados em sua trama. Seremos contados como cúmplices de seu crime contra o Pai e seremos, como Ele, afastados de Sua presença. E nisso talvez consistisse a morte de que o Pai falou quando nos instruiu a não provar do tal fruto.”

“Se achas que este é o pai das mentiras, por que queres seguir seu conselho, fazendo os tais aventais? Decerto que está mentindo sobre o que ofende e o que não ofende o Pai.”

“Ele planta a discórdia e cabe a nós decidirmos o que é bom e o que é mau em seu discurso. Porquanto, se tudo o que falasse fosse falso, ninguém lhe daria credibilidade alguma. Por isso mescla as verdades puras do Pai com suas ideias distorcidas.”

Adão já começava a cambalear com o efeito do veneno em suas veias.

“Estás certa. Ele falou a verdade sobre como o sangue se espalharia pelo meu corpo e enche-me as cavidades com violência. Talvez ele esteja certo sobre o fato de nossa nudez, nesse estado, desagradar o Pai.”

“Ouço vozes.”

“Eles se aproximam.”

“Rápido. Façamos os aventais amarrando estes cipós nas folhas de figueiras.”

Lúcifer que observava de longe, gritou sussurrando:

“Escondei-vos. Eles se aproximam.”

Adão e Eva se esconderam.

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