23 de dezembro de 2016

Capítulo 21: As Górgonas

23 dezembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Naquela caverna escura às margens de um dos braços do Pison, Lilith, agora já habituada às mudanças em seu corpo infectado pelo veneno da mortalidade, experimentava a solidão de suas novas rotinas.

Desde que Kundalini partira, tudo lhe parecia mais pesado do que costumava ser. Até então havia andado sob a luz dos conselhos assisados da grande serpente; e agora que precisava ser a luz para seus próprios passos, parecia andar sempre no escuro. O silêncio dos dias lhe incomodava profundamente; e o frio das noites, ainda mais.

Já tinham-se passado muitos invernos desde que aqueles personagens de luz haviam descido ao seu encontro, e Lilith começava a duvidar que eles voltariam algum dia a falar com ela. 

Às vezes, tentava conversar com as lebres e raposas, mas nenhuma delas lhe dava ouvidos. Ariscas, elas sempre corriam para longe quando Lilith se aproximava. 

No princípio, achava que elas fugiam e evitavam dirigir-lhe a palavra por ter agido contra as ordens do Criador, tornando-se assim uma abominação perante as outras criaturas viventes. No entanto, com o passar do tempo, ela notou que mesmo quando não percebiam sua presença, as bestas do campo não costumavam falar entre si, pelo menos não com a língua que era comum a todos no Jardim.

Lilith então começou a se perguntar se seriam os animais que haviam perdido a habilidade de falar por terem-se afastado do Éden, ou se ela mesma perdera a capacidade de ouvi-los e comunicar-se com eles por causa de sua transgressão. 

O fato é que viviam todos amedrontados naquele mundo escuro e triste, e o medo fazia com que fugissem de tudo o que lhes apresentasse perigo. 

Mas, assim como o medo protege, também incita à violência, de modo que se permanecesse ali, encurralada naquela caverna, logo ela mesma se tornaria tão selvagem e arredia quanto aqueles animais cuja voz parecia ter sido arrancada de suas gargantas. 

Não sabia como eles haviam ficado assim, mas não queria que o mesmo acontecesse consigo. Por isso, muitas vezes, no escuro da caverna, fingia que Kundalini ainda estava por perto e punha-se a falar com o velho dragão, e gargalhava da própria loucura. 

Sua vida no Jardim parecia agora um sonho distante e para não esquecer tudo o que havia experimentado no conforto do Éden, decorava as paredes rochosas de seu abrigo com suas memórias mais preciosas. 

Agradava-lhe quando corujas vinham visitá-la ao anoitecer. Pelo menos gostava de considerar aquela aproximação como uma visita. 

Sem que os pássaros a vissem, ela imitava o som que eles faziam à entrada da caverna na esperança de que, de algum modo, eles lhe respondessem. 

Algumas vezes, as corujas chirriavam de volta e aquilo era o mais próximo que Lilith conseguia chegar de uma conversa.

Outonos passavam e o vento frio e cinzento aos poucos levava consigo sua beleza e vigor. Seu reflexo começava a mudar cada vez que se banhava nas águas do Pison. Sua pele ganhava rugas como os troncos de árvores velhas e seus cabelos perdiam a cor. 

Ela já não se espantava com todas aquelas mudanças em seu corpo, nem temia que qualquer delas fosse um sinal de uma morte iminente. A morte já não lhe assustava tanto quanto a vida. De fato, por vezes até desejava que a morte não demorasse tanto a chegar. 

Mas não foram corujas nem tampouco a Morte que vieram ao seu encontro enquanto ela banhava-se naquele fim de tarde; foram duas mulheres altas e esbeltas caminhando sobre as águas do Rio. 

Não estavam nuas como Lilith, vestiam um manto, à semelhança daquele que Lúcifer e Samael usaram quando se apresentaram diante dela, só que este era feito com pele de répteis.

De fato, emaranhadas em seus cabelos e descendo-lhes pela cintura, várias serpentes sem asas ou garras silvavam lançando à frente suas cabeças estranhamente pontiagudas e exibindo as presas afiadas.

“Quem sois vós?” Perguntou Lilith.

“Somos tuas irmãs.” Disseram as duas. 

“Como é que andais por sobre as águas?” Perguntou curiosa.

“O que são as águas senão gotas minúsculas de pequenas luzes que giram em torno de si mesmas na obediência das mesmas leis que voluntariamente se dispuseram a obedecer, criando assim a aparência e a consistência do que se reflete nos olhos do observador como águas, convencendo-o de que têm de fato tal aparência e consistência?” Respondeu a mais alta.

“Não compreendo.” Disse Lilith confusa.

“O que vês?” Disse a outra, segurando uma pedra escura com a mão direita.

“Uma pedra.” Disse Lilith.

Ela estendeu a mão, como que oferecendo a pedra à mulher, mas antes que Lilith se esticasse para pegá-la, a pedra atravessou-lhe a palma da mão e caiu no leito do rio.

“O que aos teus olhos é sólido te parece sólido porque deixas-te enganar pela aparência de solidez que a luz da cadeia de elementos que lhe dá forma te faz acreditar que tem.” E continuou. “Somos todos feitos do pó de estrelas mortas: energia e elementos girando em torno de energia e elementos na escuridão do vasto espaço que há dentro de nós e ao nosso redor. E a maleabilidade ou firmeza das coisas está na relação de atração ou repulsa que essas cadeias de elementos exercem umas sobre as outras.”

“Fui feita do barro.” Corrigiu Lilith. “Não sei nada sobre esse pó de estrelas de que falais.”

“Se estivesses observando este mundo de uma outra esfera como esta, entre as tantas que se espalham pela imensidão do universo, ele não seria, para ti, mais do que uma estrela de luz fraca e distante, ofuscada pelos grandes astros que iluminam a noite de justos e injustos pelos confins deste vasto universo. Não foste feita do barro como o vês, foste feita dos elementos que constituem o barro, que são os mesmos que preenchem todas as esferas da criação divina.”

A outra continuou, “E tu possuis o conhecimento da manipulação desses elementos, pois eras uma criadora antes de desceres a este tabernáculo mortal.”

“Quem sois vós?” Repetiu Lilith.

“Não importa quem somos. A ti importa somente saber quem de fato és. Comeste do fruto do bem e do mal e ganhaste um conhecimento superior ao que tinhas no Jardim, deixaste de ser criança e te tornaste mulher. Agora teu corpo é o Jardim de teu espírito.”

A outra continuou, “Mas o que é um jardim, senão uma bela prisão? Sentes-te incomodada pois não tens com quem desfrutar das delícias deste Éden. Somente o gozo de um fruto proibido pode te libertar dessas cadeias. Precisas quebrar os selos para que sejas de fato uma mulher livre.”

“Comi do tal fruto proibido para me libertar de uma prisão e acabei caindo em outra ainda mais solitária. Nada sei sobre selos; o que sei é que esta busca pela liberdade só me trouxe dores e sofrimento.” Disse Lilith saindo das águas do rio.

“Podemos aliviar tuas dores e sofrimento.”

“Como o fareis?”

“Teu umbigo e tua cerviz foram selados pelos Deuses quando te ungiram após a criação. Esses selos são como correntes que prendem o teu espírito. Há, no entanto, algumas ervas e sementes que quando manipuladas de certo modo podem libertar tua essência dessas amarras, te tornando mais leve que o próprio ar e mais forte que mamutes e bisões.”

“Em troca,” a outra continuou, “farás para nós imagens de escultura dos mais variados tamanhos, na forma de homens, mulheres, e de tudo o que há em cima nos Céus e embaixo na Terra, e nas águas debaixo da terra, e as espalharás pelo mundo.”

As górgonas disseram a Lilith onde encontrar as ervas e sementes das quais tinham falado, e deram-lhe todas as instruções que precisava para conseguir o mármore e o bronze para as esculturas.

Como sinal de sua aliança, elas fizeram com que suas serpentes pusessem ovos nos cabelos da mulher, dando-lhe instruções de que, vendo-se ameaçada de qualquer sorte a revelar para quem quer que fosse os segredos daquela aliança, deveria ferir com o calcanhar a cabeça de uma das serpentes que nasceriam daqueles ovos e que usariam seus cabelos como ninho para que, assim, as outras perdessem a confiança nela e a ferissem de morte.

E assim foi.

A primeira noite em que Lilith provou do unguento de ervas e da infusão daquelas sementes sagradas e sentiu o cheiro suave do incenso que as górgonas lhe haviam ensinado a preparar, seus olhos se abriram para um novo mundo.

Era como se estivesse no seu corpo e ao mesmo tempo fora dele. Tudo lhe parecia turvo como as visões de um sonho, no entanto sentia como se estivesse acordada. Ela chorava e gargalhava sem motivos aparentes. Dançava e se jogava no chão. Quando voltava a si, sentia um desejo incontrolável de fazer tudo novamente.

Entre seus delírios, viu Samael sobre as águas do Eufrates. Ele estava nu como ela e disse que se aproximasse. Ela o fez. Ele colocou uma mão em sua nuca e com a outra acariciou-lhe o ventre. E juntos deitaram sobre as águas do Rio como se fosse um leito de águas brancas e espessas. No entanto, cada vez que ela abria os olhos para acariciar o rosto do seu amado, ele tinha uma nova face.  E Lilith experimentou o prazer em cada uma de suas muitas nuances, e transbordou.

Isto porque, naquela noite de muitas noites, as górgonas utilizaram-se das portas abertas no corpo de Lilith para apoderarem-se dele, o que atraiu uma legião de outros espíritos, todos famintos por experimentarem um pouco de humanidade. 

Todas aquelas sensações eram novas para eles: o cheiro da terra úmida e das ervas do campo, o toque áspero das rochas, o vento frio no corpo nu, o sabor do suor da hospedeira. Os espíritos estavam em festa. Aquelas eram sensações que eles haviam sido privados de sentir quando foram condenados ao exílio etéreo, e logo viciaram-se no sabor da humanidade, assim como Lilith viciara-se na experiência de desprender-se das amarras de seu corpo físico para fugir de seus próprios demônios interiores: o peso da culpa e o sabor amargo da solidão.

E, durante aquele transe compartilhado, enquanto agia sob a influência da legião de espíritos que se apossara de seu corpo, Lilith entalhara uma centena de blocos de pedras nas mais diferentes formas de tudo o que há acima nos Céus e embaixo na Terra e nas águas debaixo da terra.

Quando voltou a si, encontrou um exército de imagens de escultura à entrada da caverna. 

Tamanho era o alivio que sentia, que sua mente já não se ocupava de sua culpa e solidão, ou das dores no corpo que por vezes lhe incomodavam. 

No entanto, aquela sensação de cura e liberdade não durou muito tempo e logo seus demônios interiores voltaram a lhe atormentar e mais uma vez ela recorreu às ervas e unguentos em busca de um pouco de alívio.

Mas foi prontamente impedida por Samael, que desta vez veio sozinho ao seu encontro.

“O que te atormenta, mulher?”

“As ervas que minhas irmãs me ofertaram aliviam minhas dores e angústias.”

“Conheceste as górgonas e te ajuramentaste com elas?”

“Sim, meu senhor.”

“E não te disseram elas que estas ervas eram para serem usadas com cautela?”

“Sim, elas disseram.”

“Aquieta-te, então, minha amada, pois tuas dores serão por um momento. Mas o teu gozo será eterno se fizeres tudo o que for de ti requerido.

Farás para ti uma embarcação e adestrarás bestas selvagens para que a arrastem sob jugos pela terra e através das águas dos grandes rios. E levareis estas imagens de escultura para todos os recantos da Terra, para que os filhos do homem, quando se espalharem pelo mundo, vejam que os Antigos o prepararam para eles; e, se forem penitentes, ouvirão nossa voz e crescerão em conhecimento e industriosidade.

E ao redor de cada templo que erigires, plantareis as ervas que te ofertamos, e te purificareis sobre o altar, aspergindo o sangue transmutado em teu ventre.

Tudo o que é criado há de ser destruído, e dos destroços surge nova criação e nisto consistem as forças da preservação que mantém o universo em movimento, de modo que a vida é um ciclo de contínuas mudanças. Pois há forças que regem as revoluções dos astros de modo que, movendo-se a Lua, arrasta consigo a água da Terra, e não somente a água que está nos rios e mares, mas também a que está nas plantas, nos animais e nos homens em direção à luz do crescimento ou à completa escuridão, de modo que respeitando cada um destes ciclos, terás grande harmonia e prosperidade.

Teus próprios ciclos já te ensinaram isso, de modo que o sangue das sementes apodrecidas é derramado para que sementes novas brotem dentro de ti. Até que te sequem as fontes e te ocupes com um novo papel no ciclo da continuação de vidas.”

Lilith sentiu algo correr por entre os fios emaranhados de seu cabelo e percebeu que os filhotes das serpentes haviam já saído dos ovos. 

“És agora a mãe das serpentes, serás portanto conhecida e temida entre as nações da Terra, porquanto grande é o teu poder. E teu nome será Medusa.

Chegando o momento destas serpentes deitarem ovos, descerás com elas às fendas profundas dos confins da Terra, e as depositarás ali. E quando as chuvas cessarem, lançareis leitões nesta vala para serem devorados por elas; e caindo as folhas das árvores, saberás que é tempo de alimentá-las novamente, mas desta vez descerás ao covil levando javalinas como oferta às tais serpentes.

Do covil, trareis os restos dos que foram lançados do alto a fim de que sejam misturados com as sementes que plantareis depois de purificadas no sangue de teu ventre.

Isso garantirá colheitas fartas, de modo que atrairás os filhos do homem para o teu regaço e eles se tornarão filhos da terra, como tu.”

Lilith, que agora só responde pelo nome de Medusa, fez tudo o que Samael lhe ordenou sem questionar as instruções que daquele mensageiro recebeu. E seus domínios crescem em abundância nas terras a leste do Éden.

★★★

E assim terminou o relato de Sanvi, Sansanvi e Semanguelai, que vasculharam as paredes do tempo para encontrar o paradeiro da foragida.

Tendo inteirado o Criador de tudo o que havia acontecido na nova Esfera naquele dia milenar de silêncio em que a comitiva de Deuses havia se ausentado para descansar de seus labores habituais, Sanvi, Sansanvi e Semanguelai receberam novas instruções e partiram para fazer o que o seu Senhor lhes ordenara.


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